Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Nicolau Tolentino · Capítulo 15 de 30

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Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Carta.

 

A ti, amavel Bandeira,

Partidista da Verdade,

E de quem tenho mil provas,

Que o és tambem da Amizade:

Que são Filozofo vives,

E o mesmo morrer protestas,

A' excepção de me dares

Bilhete de boas festas:

Tolentino firme amigo

Inda quando o Mundo caia,

E a quem obrigas a sêllo

Desde a rua da Atalaia,[13]

[Nota de rodapé 13: Onde tinhão morado havia muitos annos.]

Dezeja pura alegria,

Saûde, e muito vintem;

Dezeja-te tudo aquillo,

Que elle quasi nunca tem;

Pois, que chuva, e negros ventos

Me fechão a porta, e o dia,

E em caza apontão cuidados,

Redobrada bateria;

Pois que a horrivel solidão

Aviva a idéa cruel

Da gaveta, vão sepulchro

Do agonizante quartel.

E a engenhoza Hypocondria

Me mette no antigo empenho

De jurar, que estou morrendo

Das molestias, que não tenho,

Vou ver se posso esquivar-me

A tanto mortal immigo,

Acolhendo-me ás lembranças

Do nosso bom tempo antigo;

Tem a sôlta fantazia

Farto, milagrozo armario;

Cura-me penas reaes

Com prazer imaginario;

O nosso bom tempo antigo!

Quando alçando a tôrva fronte

Jantava Quintiliano

A' meza de Anacreonte;

Quando nos brilhantes copos

Do casto, herdado Gorizos,[14]

Hião mergulhar as azas

Os Prazeres com os Rizos;

[Nota de rodapé 14: Nome de huma Quinta do Amigo, a quem o A. escreve, a qual produz bom vinho.]

Quando em renhidas disputas

Mettias traidora mão,

Sendo o motivo da guerra

Solapada mangação.

E sem haver lindos olhos,

Sem haver ondadas tranças,

Doidos com doidos tecião

Turbulentas contradanças.

Quando o assustado Ministro,

Que as margens do Doiro trilha,

Pôde salvar da procella

A sua estimavel bilha.

Clama em vão por tão bom tempo

Minha discreta saudade;

Doce, fugitivo tempo,

Da nossa doirada idade!

Ante meus olhos sâudozos

Cruas azas despregou;

E em cambio de tantos bens,

Cans, e rugas me deixou.

Só tu podes, caro Amigo,

Virar-lhe o vôo apressado;

E fazer que elle me traga

Outra vez o meu reinado:

Não peço bruxos prestigios,

Basta ouvires meu alvitre,

Põe a rua da Atalaia

Na Calçada do Salitre;[15]

[Nota de rodapé 15: O A. jantava muitas vezes na rua da Atalaia em casa do Amigo, a quem escreve, o qual se mudou para o Salitre.]

Prepara farta vingança

A meus compridos jejuns;

Lança, em nome da Amizade,

Mais nozes aos teus peruns;

Lance fumo a faca tinta

Nas victimas degolladas;

Revôem pelo quintal

As pennas ensanguentadas;

Tornem a dar os teus lares

Guarida á minha desgraça;

Tornem a ter teus amigos

Polido Isidro de graça;[16]

[Nota de rodapé 16: Caza de Pasto.]

Vai na franca, lauta meza,

Versos ouvindo, e tecendo;

Entre as Muzas, entre as Graças

Vai, a rir, empobrecendo;

Correntes do Doiro, e Rheno

Escaldem meu Estro fraco;

Abrão-me o Templo de Apóllo

Atrevidas mãos de Baco;

Sólte o rozado Taful

A falsa eloquencia sua;

E marche pelas Sciencias

Como marcha pela rua;[17]

[Nota de rodapé 17: Cóxeava.]

He alma das Companhias,

Alegres mezas governa;

Depois de estar assentado,

Não conheço melhor perna;

Tomando amolada faca

Teu sizudo Capitão,

Nos demonstre, sobre hum lombo,

A guerra do Rossilhão;

Aliza assim, caro Amigo,

Meu velho, engelhado coiro;

Manda ás Parcas, que o meu fio,

Já que he curto, seja de oiro.

Dá brando ouvido a meus rogos;

Teu bom peito em bem os tome;

Não te falla vil lizonja,

Falla-te a Amizade, e a fome:

E tu, dia tormentozo,

Que abalas velhas trapeiras,

Que o telhado me arripias,

Que me ensopas as esteiras;

Que em meus reumaticos ossos

Assentas pezado açoite;

E sobre medonhas nuvens,

Me mandas de tarde a noite;

Serás o dia mais alvo,

Que em meus largos annos levo,

Se for acceita esta Carta,

Que á tua má luz escrevo;

Chamarei Zéfiros brandos

A teus roucos ventos frios,

Se hoje rezolve o Bandeira

Dar de comer a vádios.