Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Nicolau Tolentino · Capítulo 13 de 30

Páginas do PDF

Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Carta.

 

Bom Sobral, o que eu te disse

He, a meu pezar, verdade;

Sonóros, amenos versos,

São obra da Mocidade;

Mandaste que em Crescentini;

Louvando a doce harmonia,

O que o Mundo diz em proza,

Eu lho enfeitasse em Poezia;

Que invocando as brandas Muzas,

Encostada ao peito a Lyra;

Cante os ternos sentimentos,

Que elle nas almas inspira;

Môço Sobral, tu ignoras

Da inerte velhice os damnos;

Nesta fria testa brigão,

Co'teu preceito, os meus annos:

Que importa, que a huma orelha

A tua voz respeitada Me mande afinar a Lyra

Ha dez annos pendurada,

Se á outra me diz Apollo,

Que eu sou já dos reformados;

Que em seu Tribunal não tornão

A servir Apozentados?

Longa idade, he longo mal;

Velho, só he bom o Amigo;

O teu mesmo Crescentini

Ha de provar o que eu digo:

Este homem, que a seu arbitrio

Move as humanas paixões;

Que traz na sua voz o sceptro

Dos sensiveis corações;

Que nos deixa duvidozos

Quaes forças maiores são,

Se os encantos da harmonia,

Ou se a viveza da acção;

Que em mim, que sou homem duro,

E rebelde ás Leis primeiras;

Que não chóro nos mais homens

As desgraças verdadeiras;

Que, insensivel, vi no Circo

Burlesco Neto arrastado

Deixar co'a rôta cabeça

O terreno ensanguentado;

Que vejo com olhos seccos,

Com firme semblante inteiro,

Fugir-me n'um parolim

O meu ultimo dinheiro;

Que em mim, digo, arranca pranto;

Que amolga hum peito de seixo;

Que muita vez co'chapeo

Encubro o trêmulo queixo;

Que quando dos tenros Filhos

Chorava o triste destino,

Tinha este peito de bronze

O coração de Sabino;

Este homem, que solto o panno,

Vivas vem á força ouvir;

Se cantar de hoje a déz lustros,

Em vez de chorar, faz rir;

Sobre os levantados áres

A envergonhada Harmonia,

Batendo apressadas azas,

Do seu Filho fugiria;

E o Jeronymo estendido[11]

Co'as pernas nos tamboretes,

Cabeceára entre as rimas

Dos ociozos bilhetes;

[Nota de rodapé 11: O Vendedor dos bilhetes.]

E cuidavas tu, que a foice

Que a taes dons ha de pôr fim,

Que ha de ferir Crescentini,

Me tinha poupado a mim?

Se eu hoje fosse aos Oiteiros,

Onde já tive elogios,

Dir-me-hião crueis verdades

Mil sinceros assobios;

Este Genio dos Poetas

He fugitivo, e mesquinho;

A' primeira cam nos deixa

Na ametade do caminho;

Não he irmão do teu Genio,

Este estende mão segura;

Acompanha os seus Valídos

A' borda da sepultura;

Fará que sempre as desgraças

Em tristes peitos emendes;

Que sigas sempre os exemplos,

Que dentro de caza aprendes;

Lastima, pois, minhas rugas,

Que até me cauzão o mal

De faltar ao teu preceito,

E a louvar hum homem tal;

Mas vasto, cheio Theatro,

Que elle encalma em tempo frio, Falla melhor, que dez Odes,

He mais util elogio;

E nelle estas velhas mãos

Co'as forças que nascem d'alma,

Darão, em lugar de Versos

Muito pinto[12], e muito palma.

[Nota de rodapé 12: Cruzado novo.]