Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Nicolau Tolentino · Capítulo 19 de 30

Páginas do PDF

Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Mote.

 

Hum suspiro de repente,

Hum certo mudar de côr,

São evidentes sinaes

De que o peito occulta amor.

 

GLOZA.

 

Debalde as penas, e os gostos

Disfarçais, loucos Amantes,

Se os attentos circumstantes

Tem em vós os olhos postos;

De que servem falsos rostos,

Se o coração desmente

N'um instante infelizmente

Sabe perdido o longo estudo,

Pois vem destruir-vos tudo

Hum suspiro de repente.

Nada faz cautella, ou medo

N'alma que devéras ama;

Esta turbulenta chamma

Não sabe arder em segredo;

Sobe ao rosto, ou tarde, ou sedo,

Do escondido fogo o ardor;

Basta a declarar a dor,

Vãmente n'alma guardada,

Huma palavra truncada,

Hum certo mudar de côr.

Duro amor, que coração

Saberá nunca occultar-te?

Que vai fazer força, ou arte,

Onde as tuas settas vão?

Cegos Amantes, em vão

O vivo fogo abafais;

Esses descuidados ais,

Que sem tino ao vento dáveis,

São provas incontestaveis,

São evidentes sinais.

De que serve estar fallando

Sizudos, e comedidos,

Se esses olhos insoffridos

Vos estão sempre entregando?

Alçados de quando em quando

Vão dizendo a occulta dôr;

Abaixallos, he peior;

Que essas vistas contrafeitas

Dão ás vezes mais suspeitas,

De que o peito occulta amor.

Mandando huma gallinha a huma Pretinha bonita, que gostava de brincar com ellas.

 

As tuas fulas mãoszinhas,

Que a fome já não descarna,

E que de crearem sarna

Passão a crear gallinhas;

Acceitem creações minhas,

Que eu a outros fins guardava;

Senhora com côr de escrava,

Alta estrella, que em ti brilha,

Manda que se dê á Filha

Aquillo que o Pai furtava.