Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Nicolau Tolentino · Capítulo 6 de 30

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Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Carta

 

 

No dia dos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Angeja D. Jozé de Noronha, estando o Author doente.

 

Senhor, se vos são acceitos

Pobres Versos, mal limados,

Entre vidros, e receitas,

Em triste leito traçados;

Se de hum sombrio doente

A fúnebre poezia

Os prazeres não perturba

Deste faustissimo Dia;

Consenti, que a branda Lyra,

Por vós outr'ora escutada,

E que teimoza molestia

Tem ha muito pendurada;

Sobre este cansado peito,

Ferida com debil mão,

Mande ao Ceo singelos hymnos,

Nascidos do coração;

Consenti, que eu louve o Dia,

Para mim assinalado,

Qne raia em nosso Horizonte,

De nova luz coroado;

Dia, que vos vio nascer;

E que quiz trazer comsigo

Quem une ao nome de Grande,

O santo nome de Amigo;

Quem não quer só a Nobreza

De Illustres Antepassados;

E mais ama huma virtude,

Que cem Titulos herdados;

Quem sabe, que o vir honrar

Dos pequenos a baixeza,

He entre os que nascem Grandes

A verdadeira Grandeza;

Quem a favor de infelizes

Traz sempre occupada a idéa;

E estima a fortuna propria,

Só para fazer a alhea;

Cem vezes, formozo Dia,

Vem o Horizonte doirar;

Nunca possão negros ventos

Tuas luzes perturbar;

Tu nos déste em peito illustre,

Que se doe de alheios ais,

Hum coração adornado

De mil Virtudes Morais;

Senhor, eu não doiro enganos,

Que venal lizonja approva;

Sabidas verdades digo,

E sou dellas huima prova;

Sou hum dos muitos exemplos

Do vosso bom coração;

A minha felicidade

Foi obra da vossa mão;

Razoando em meu favor

Contra teimozos destinos,

Felizmente pleiteastes

A cauza dos meus Meninos;

Ao bom Principe pedistes,

Que com mão compadecida,

Lhes concedesse humas ferias,

Que durassem toda a vida;

Pedistes depois, Senhor,

Que a sua Real Grandeza

Se dignasse de arrancar-me

D'entre os braços da pobreza;

Sei que nelle he natural

Ter dó das alheias penas:

Mas ouve-as melhor Augusto,

Quando lhas conta Mecenas;

Por este modo alegrastes

A triste familia minha;

E em caza nos levantastes

O Interdicto da Cozinha:

Já hum segundo Frizão,

Pendurada a lingua velha,

Dá reboque, como póde,

A' antiga meia parelha;

Já o sórdido Gallego,

Meu antigo companheiro,

De gravata, e carrapito

Arvorado em Boleeiro;

Açoitando surdas ancas

De dois Sendeiros roazes,

No mesmo Bairro apregôa,

Ora barrîs; ora pazes;

Mas, Senhor, deixando graças,

Pois não as pede a materia,

E pedindo á minha Muza,

Que seja comvosco séria;

Rogo ao Ceo vos dê mil annos,

Já que são tão bem gastados;

Annos que achareis depois

Em Livro de Oiro apontados;

E se em dia de Mercês

Ides de Semana entrar,

Seja a Mercê destes Annos

O meu nome apprezentar.

Ao Principe, ajoelhando,

Em favoravel momento,

Por mim, Senhor, lhe jurai

Eterno agradecimento;

E eu, em largando este leito,

Já sei a hora opportuna

De poder ajoelhar-lhe,

Quando elle chega á Tribuna;

E pondo-me ao pé do Ginja,

Que na Náo Ajuda falla;

E faz a todos os Glorias

Continencias co'a vengalla;

Surdo á historia do naufragio,

Com que elle ás vezes me afferra,

Rezarei ao Deos do Ceo,

E assistirei aos da Terra.