Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Nicolau Tolentino · Capítulo 4 de 30

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Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Carta

 

 

A hum Amigo, louvando-lhe o estado de cazado.

 

Foi este o ditozo dia,

Que te deo a Espoza bella;

Doce, sólida alegria,

Para ti, junto com ella,

No mesmo berço nascia;

Por tua maior ventura,

Natureza lhe quiz pôr,

Entre os Dons da Formozura,

Outro dote inda maior,

Que he, alma innocente, e pura;

Eu sei teu costume antigo,

A Mulher, que he só formoza,

Não vale tudo comtigo;

Soubeste escolher Espoza,

Em quem tens Espoza, e Amigo;

Quer sempre ter hum Senhor

Nosso humano coração;

E na ventura maior

Inda sente em si hum vão,

Que só enche o casto amor;

De quantos males te eximes,

Dando ao teu tão bom Senhor?

Damnozas paixões reprimes;

Recebes das mãos do Amor

Os prazeres, sem os crimes;

Céga mocidade errada,

A' conjugal união

Quiz chamar vida cansada;

Diz que he triste escravidão,

De mil pensões carregada.

Chama á paz hum dissabor;

Diz, que de susto, e desdens

Se alimenta o Deos de Amor;

E que a certeza dos bens

Lhes diminue o valor;

Fechão olhos á verdade,

Caminhando apôs seus erros;

E em falsa tranquilidade,

Ao som de pezados ferros,

Vão cantando liberdade;

Mil remórsos na alma estão,

Que inda que o rosto os suffoca, Roendo as entranhas vão;

Que importa rizo na boca,

Se ha punhaes no coração?

Amor he fogo sublime,

Que nas almas se accendeo;

As outras paixões reprime;

Elle he dadiva do Ceo,

O abuzo he que o faz ser crime;

Beija, Amigo, os teus grilhões;

Hum para o outro erão feitos

Os vossos bons corações;

Crava em vossos ternos peitos

Santo Amor os seus farpões;

Onde achas pessoa estranha,

Que não contrafaça o rosto,

Porque vê, que assim te ganha?

Quem he que na pena, ou gosto,

Com verdade te acompanha?

Contas teus cazos sem medo

A quem por amigo passa;

Fiaste-te em rosto lêdo;

Foste no meio da praça

Assoalhar teu segredo;

Mal os homens conheceo

Pura amizade enganada,

O santo rosto escondeo, E tornou-se envergonhada

Para o Ceo, donde desceo;

O amigo que te rodeia,

Véste das tuas paixões;

Com ellas te lizonjeia;

São raros os corações,

Em que dôa dor alheia;

Quando acertares de ler,

Que houve entre homens união,

O Escritor a quiz fazer;

Não os pintou como são;

Mas como devião ser;

São coizas imaginadas

Dos Nizos o amor profundo;

São fábulas bem contadas;

Ou os não houve no Mundo,

Ou não deixárão pégadas;

Puro amor, limpa verdade,

Só entre Esposos estão;

Desce a elles a Amizade;

Traz-lhes co'a santa união

Huma só alma, e vontade;

Communica á Espoza amada

Teus mais internos cuidados;

E vive em paz descançada

A vida dos bem cazados,

Vida bemaventurada;

Sem receio de perigo

Dorme sono saborozo;

Que não tens junto comtigo;

Lisonjeiro suspeitozo,

Traidor, com rosto de amigo;

Tens por doce companhia

Aquella, que o justo Ceo

Com mil virtudes te invia;

Tu es o cuidado seu,

E como seu, te vigia;

Goza em socego profundo

Tão pura felicidade;

Tens hum thezoiro fecundo;

Tens amor, tens amizade,

Tens todos os bens do Mundo.

E se ha entre homens desvelo

(Coiza que aqui contradigo)

Conta com hum, que he singelo;

E foi sempre teu amigo,

Quanto os homens podem sêlo.