Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Nicolau Tolentino · Capítulo 24 de 30

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Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Carta.

Tambem sois réo; mas bem póde

A Mágia dos passos seus

Encantar os vossos olhos,

Sem fazer chorar os meus.

 

Ao Excellentissimo Senhor D. Fernando de Lima, sobre o mesmo assumpto.

 

CARTA.

 

Forte co'a vossa promessa

Dura voz se vai alçar;

Não vem como das mais vezes,

Não vem pedir, vem ralhar;

Não he de esteril rabugem

Raiva inutil, que em mim lavra;

Venho brigar, e vencer-vos,

Minha arma he vossa palavra;

São Leis os priscos rifões;

Na mão a Lei me mettestes;

Sei que a ricos não deveis,

Mas a pobre promettestes;

Promettestes, que huma Imprensa

Faria hum faminto farto;

Meu livro, e as vossas promessas

Inda estão no vosso Quarto;

Sei que a vossa Illustre Caza

He das que honrão Portugal;

Mas eu quero outra melhor,

Quero a Caza Manescal;[32]

[Nota de rodapé 32: Administrador da Imprensa Regia.]

Reis de Hespanha a vossa honrárão,

E eu espero o mesmo delle;

Fizerão-vos Ricos Homens,

O mesmo me fará elle;

Vós sois Protector das Artes,

E dahi meu mal viria;

Talvez que pela da Dança

Vos esqueça a da Poezia;

Por Dutein esquece tudo;

Estes grupos tão gabados,

Não digo que são os vossos,

Porém são os meus peccados;

As tres Graças a fadárão,

Mas seus dons funestos são;

Tira ás Deozas a maçã,[33]

E a hum triste Poeta o pão;

[Nota de rodapé 33: Fazia a figura de Venus na Pantomima, em que se reprezentava a fabula de Páris, julgando-lhe o pomo de oiro, destinado á mais formoza.]

Se a vosso Pai vou queixar-me,

Juro que acceita a querella;

Juro, que vos quer os olhos

Antes em mim, do que nella;

Mas, Senhor, deixando graças

De poetica licença,

Este brinco quer dizer

Que apresseis a tal Imprensa;

Até por curiozidade

Forjai-me este mialheiro;

Só para vermos que effeito

Faz em mim o ter dinheiro;

Talvez que altiva luneta

Nos piscos olhos traidores

Não conheça huns tantos homens,

Principalmente os Crédores;

Talvez que o novel Gallego,

Que soltas bragas trazia,

Entaipado em pantalonas

Dê ao Amo senhoria;

Talvez que inventando heranças

Bisneto de grão Senhor,

A falso espectro agradeça

O que devo ao Protector;

Senhor, se o oiro tal póde;

Levantai da empreza a mão;