Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Nicolau Tolentino · Capítulo 16 de 30

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Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Carta

 

 

A hum Camarista.

 

N'uma infeliz madrugada,

Antes que o Sol esclareça,

Mettido em pobre caleça,

Puz peito, Senhor, á estrada:

Sahi em hora mingoada,

Pois negra traição me espera;

Homens, com genios de féra,

Me atacárão sem motivo;

Por milagre fiquei vivo,

E devo pezar-me a cêra.

Vi revoltozos Carreiros

Com duro aguilháo armados;

Vi nuvens de páos alçados

Pelos cumes dos oiteiros:

Roldão, e o bravo Oliveiros,

Que alta pena Heróes declara,

Talvez voltassem a cara, Que a tantos tremer fazia,

Se nos campos da Turquia

Vissem Carreiros da Enxara.

Vi os Campos inundados

De gentes vagas, e incertas;

Vi as estradas cobertas

De cacheiras, e cajados:

Não valem rogos, nem brados,

Não valem ligeiras pernas;

A raiva, e o Deos das Tavernas

Accendêo tanto os Campinos,

Que cuidei que os meus Meninos

Terião férias eternas.[18]

[Nota de rodapé 18: O A. era Professor de Rhetorica, e pertendia passar para outro emprego.]

Em quanto no duro chão

Meu Companheiro arquejava,

Eu muito humilde esperava

Tambem a minha ração;

Bem me lembrou que esta acção

Deslustrava a minha gloria;

Mas não pertende vitoria,

Nem sabe mover espada

Mão, ha annos, costumada

A dar só com palmatoria.

Entre mortaes agonias,

Da bruta gente escapando,

Me fui na sege encaixando,

Maldizendo as romarias;

Praguejei meus negros dias,

Dias de pranto, e de dor;

Conheci então, Senhor,

Que só me dão meus destinos,

Ou Carreiros, ou Meninos,

Que Deos sabe o que he peior.

Mas a perda da vitoria

Sirva de abrandar meus fados;

Dem-vos motivo os Cajados

De fallar na Palmatoria;

Saiba o Principe esta historia;

Contai-lha com viva côr;

Fazei com que, em meu favor,

Sentindo affectos diversos,

Lhe motivem rizo os Versos,

E lhe faça dó, o Author.