Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Nicolau Tolentino · Capítulo 7 de 30

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Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Carta.

 

 

Tendo mandado huma Senhora ao Author Vinho da Madeira com huma Carta em boa Poezia.

 

Hum humilde admirador

Da vossa bondade, e estilo,

Beija a Carta precioza,

Que veio honrallo, e instruillo;

Desde hoje, do Mestre Horacio

Minha alma a lição escuza;

Quiz a minha Bemfeitora

Ser tambem a minha Muza;

De fino licor mandastes

A minha cava prover;

A vossa mão generoza

Sabe dar, como escrever;

A' parca meza assentado,

Em Vinho, e Carta pegava;

Hia bebendo, hia lendo,

E tudo me embebedava;

Deixo o velho Anacreonte,

Hoje mettido a hum cantinho;

Sua meza nunca teve

Tão bons Versos, tão bom Vinho;

Se os teve, Vós o roubastes

Por minha felicidade;

Já cá tem o Vinho, e os Versos

Quem delle só tinha a idade;

Das escumas do Madeira

Vejo nascer a alegria;

Com as azas affugenta

A minha melancolia;

Já se perturba a cabeça;

Já tenho emprestadas cores;

Já começão a esquecer-me

As molestias, e os Crédores;

O tal Horacio enganou-se;

Não conhecêo a parreira;

Não se chamava Falerno;

Se era bom, era Madeira;

He bom, mas tira o juizo;

Mandai-mo, em vez de o beber;

Não se arrisque neste jogo

Quem tem tanto que perder.