Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Nicolau Tolentino · Capítulo 25 de 30

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Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Carta.

Antes réo do meu tendeiro,

Do que réo de ingratidão

Mas inda agora he que eu vejo,

Quanto me fui desmentindo;

Disse que vinha ralhar,

Por fim acho-me pedindo;

Não pude acabar a farça;

Costume custa a vencer;

Comvosco a minha linguagem

He pedir, e agradecer.

 

A' Illustrissima, e Excelentissima Senhora Dona Catharina Micaella de

Souza, tendo o Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Luiz Pinto de Souza expedido Avizo para se imprimirem as Obras do Author na Officina

Regia.

 

CARTA.

 

Senhora, Apollo bem sabe

Que sois digna companhia

De quem em doirados annos

Lhe honrava a doce Poezia;

Inda de viçozo loiro

Lhe guarda a verde coroa;

Fez-lhe falta em sua Corte,

Mas a bem de outra o perdoa;

Manda, pois lhe estais ao lado,

Canteis polidos louvores

A quem em honra ao Parnazo

Fez versos, e faz favores;

Vio o prazer generozo

Com que acabou a tenção,

Que crua Parca arrancára

De outra bemfeitora Mão;[34]

[Nota de rodapé 34: O Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Ponte de Lima, Ministro de Estado, tinha obtido a mercê de se imprimirem estes Versos a beneficio do A. cujo Avizo não chegou a assignar por seu repentino falecimento.]

Vio, que apressou seus negocios

Perante quem todos rege;

E que amigo do seu Monte,

Ora o sóbe, ora o protege;

Grato ao grande beneficio

Vos envia o estilo, e a lyra;

Manda-vos cantar-lhe os hymnos,

Que lhe traja, e vos inspira;

Diz que esta empreza vos toca,

E que não admitte escuzas;

Que favor feito ao Parnazo

Hão de agradecello as Muzas;

Pulsai a lyra, enfreai

Bravos ventos rugidores;

Cantai agradecimentos

A quem cantastes amores;

Em má honra a longas cans

Desta empreza escuzo fico;

Fechou-me Apollo a sua Arte,

E quer que aprenda a de rico;

Dura, enganoza sciencia!

Incómmoda, tumultuaria!

Muito mais a quem andou

Sempre na escóla contraria;

Já em socegado somno

Não vejo doces ficções;

Inda a obra está na Imprensa

E já sonho com ladrões;