Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Nicolau Tolentino · Capítulo 2 de 30

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Obras Poéticas de Nicoláo Tolentino, Tomo II

Quintilhas

 

 

Offerecidas ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de S. Lourenço.

 

Ante vós, Claro Senhor,

Que pondes os sãos cuidados

De bons estudos no amor,

E que d'homens applicados

Sois o exemplo, e o protector;

Levanto sem pejo a voz;

Que essa alma nunca despreza

O pouco que encontra em nós;

Não produz a Natureza

Muitos homens como vós;

Pois vi outr'ora amparado

O discreto, e doce Brito,

Triste moço, em flor cortado,

Que hia alevantando o esprito,

De vossas luzes guiado;

Pois na vida lhe adoçastes

De seu fado a má ventura,

E não vos envergonhastes,

Quando a fria sepultura

Com as lagrimas lhe honrastes;

Se os seus Versos sonorozos

Inda repetis com mágoa;

E pensamentos saudozos

Vos trazem aos olhos agua,

Que os deixa, Senhor, formozos;

Hoje, outro triste vos faça

Nascer iguaes sentimentos;

Com os vossos pés se abraça;

Não tem os mesmos talentos;

Mas tem a mesma desgraça;

Nascido em baixa pobreza,

Quiz buscar huma Colu'na,

Foi sempre baldada a empreza,

Achou ingrata a fortuna,

Inda mais, que a natureza.

Em vão paternal ternura

Com vivo zêlo me assiste;

Foi trabalho sem ventura;

Crescia no Filho triste,

Com a idade, a desventura;

Das boas Artes no estudo

Bom Pai empenhar-me quiz; Traçava o velho sizudo

Que fosse hum Filho feliz

Dos outros Filhos o escudo;

Forão seus intentos vãos;

Zombou desgraça importuna

Destes pensamentos sãos;

Para vencer a fortuna

Não ha lagrimas, nem mãos;

Cortado então de agonias,

Só esperei ter ventura,

Quando envolto em cinzas frias

Escondesse a sepultura

Meu nome, e meus tristes dias;

E em quanto o vento forceja,

E no mar, que em flor rebenta,

Meu fraco lenho veleja,

Demando, em tanta tormenta,

Por porto a Casa de Angeja;

Surgi em lugar seguro,

Onde achei mil acolhidos;

Clareou o dia escuro;

E meus molhados vestidos

Pelas paredes penduro;

De meu fado a força dura

Foi hum pouco enfraquecendo;

E ainda que em sombra escura, Vem-me ao longe apparecendo

O bom rosto da Ventura;

Vossos Sobrinhos me dão

(Porque de meus males sabem)

Principios de protecção;

Mandai-lhe que em mim acabem

Esta obra da sua mão.

Mandai, que apressem o passo,

Que inda longe a méta vejo,

Pois nas supplicas que faço,

Não se vence com dezejo,

Vence-se á forca de braço;

Mandai, pois tendes direito,

Que o turvo mar arrostando,

A' corrente ponhão peito;

Fallai, Senhor, que em fallando,

O vosso mandado he feito.

Não vedes venal incenso

Por astuta mão queimado;

Fallo, Senhor, como penso;

Eu sei quanto he respeitado

O Erudîto São Lourenço;

Eu sei bem o alto conceito,

E as geraes estimações,

Que todos de vós tem feito;

Oiço ternas expressões,

Filhas de amor, e respeito;

Do bom Irmão, e Sobrinhos

Oiço tod'ora louvar-vos;

Oiço-lhes doces carinhos;

De poderem agradar-vos

Dezejão achar caminhos;

Vosso Irmão, e pregoeiro

Ordena, como sizudo,

Ao Illustre Neto, e Herdeiro,

Que das Sciencias no estudo

Vai dar o passo primeiro,

Se encoste a vós, sem desvio,

Qual ao Choupo Hera silvestre;

Que em Artes, virtude, e brio,

Mais, do que as regras do Mestre,

Siga os dictames do Tio;

Com que gosto oiço, e contemplo,

Dizer-lhe = Se ao bem te inclinas,

Segue-o no estudo, e no Templo;

Elle te dê as doutrinas;

Elle te sirva de Exemplo.

Mas sigo inutil empreza,

Pois sabeis quaes são seus peitos,

Mistura-se esta fineza

Com os sagrados direitos

Do sangue, e da natureza;

Todo o mundo, em vosso abono,

Põe na boca os corações, E delles vos chama dono;

Oiço mil acclamações

Desde a plebe até ao Throno;

A geral estimação

Nos arma de authoridade;

Vinde pôr nesta obra a mão,

E dai-me felicidade,

Como me dais instrucção;

Sabeis a fundo, e de cór,

Tudo quanto ha bom, escrito;

Juntai extremos, Senhor;

Ao homem mais erudíto,

Juntai o mais bemfeitor.

Pois sabeis da Antiguidade

Prozas sans, e sã poezia,

Deveis sentir mais piedade;

Quem tem mais filozofia,

Vê melhor a humanidade:

Que eu nesta fresca espessura,

Entre estes Loiros sagrados,

Sentado sobre a verdura,

Cantarei Versos limados

A quem me fez ter ventura.

Deixarei em mil letreiros

O vosso Nome entalhado

Nos troncos destes Loureiros; Possa elle ser respeitado

Do negro vento, e chuveiros;

Ramos sobre elle estendendo,

Dafne no seu peito o tome;

E eu, doces hymnos tecendo,

Verei ir o tronco, e o Nome

Té ás Estrellas crescendo.