Os Resgatados

Ellen G. White · Capítulo 9 de 45

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Os Resgatados

7 :: Lutero, o Homem para sua Época

Lutero, o Homem para sua Época

 

D entre aqueles chamados para tirar a igreja das trevas de Roma e conduzi-la para a luz de uma fé mais pura, Martinho Lutero se destaca como principal. Sem nenhum temor, a não ser o temor do Senhor, e sem reconhecer nenhum fundamento para a fé além das Sagradas Escrituras, Lutero foi o homem certo para sua época.

Lutero passou a infância no humilde lar de um camponês alemão. Seu pai queria que ele se tornasse advogado, mas Deus intencionava transformá-lo no construtor do grande templo que vinha sendo vagarosamente edificado ao longo dos séculos. Dificuldades, pobreza e disciplina severa foram a escola que a Sabedoria infinita usou a fim de preparar Lutero para sua missão de vida.

O pai de Lutero era um homem de mente ativa. Seu bom senso infalível o levou a desconfiar do sistema monástico. Ficou descontente quando Lutero entrou para um monastério sem sua permissão. Levou dois anos para o pai se reconciliar com o filho e, mesmo depois disso, sua opinião continuava a mesma.

Os pais de Lutero tentaram instruir os filhos no conhecimento de Deus. Trabalhavam com fervor e constância a fim de prepará-los para uma vida útil. Às vezes, eram rígidos demais, mas o próprio reformador encontrava mais para aprovar do que para condenar em sua disciplina.

Na escola, Lutero foi tratado de forma dura e até com violência. Com frequência, passava fome. Os conceitos sombrios e supersticiosos sobre a religião da época o deixavam cheio de temor. Ele se deitava à noite com o coração pesado, constantemente aterrorizado com o pensamento de que Deus era um tirano cruel em vez de um Pai celestial bondoso.

Quando ingressou na Universidade de Erfurt, o futuro parecia mais alegre do que em seus primeiros anos de vida. Por meio de economia e trabalho duro, seus pais haviam se tornado mais abastados e tinham condições de proporcionar ao filho toda a ajuda necessária. Amigos sábios e cuidadosos reduziram, até certo ponto, os efeitos melancólicos de sua formação anterior. Com boas influências, sua mente rapidamente se desenvolveu. A atenção consistente a seus estudos logo o colocou no topo dentre seus colegas.

Lutero não deixava de começar cada dia com oração. De seu coração, emanava continuamente um pedido de orientação. Com frequência, dizia: “Orar bem é a melhor parte do estudo.”1

Certo dia, enquanto estava na biblioteca da universidade, descobriu um livro que nunca havia visto – uma Bíblia em latim. Ele já tinha ouvido porções dos evangelhos e das epístolas, mas achava que aqueles trechos fossem a Bíblia inteira. Pela primeira vez, estava diante da Palavra de Deus inteira. Com respeito e admiração, abriu as páginas sagradas e leu por si só as palavras da vida, parando para exclamar: “Ah, se Deus concedesse um livro desse para mim!”2 Anjos estavam a seu lado. Raios de luz da parte de Deus revelaram tesouros da verdade para sua compreensão. Como nunca antes, a convicção profunda de ser pecador tomou conta dele.

Paz com Deus

O desejo de ter paz com Deus o levou a se dedicar à vida monástica. Como parte dessa escolha, precisava desempenhar as tarefas mais humildes e mendigar de casa em casa. Suportou com paciência essa humilhação, crendo ser necessária por causa de seus pecados.

Lutero amava estudar a Palavra de Deus. Encontrou uma Bíblia acorrentada a uma parede do monastério e, com frequência, ia até lá, privando-se do sono e tirando até mesmo o tempo que usava para fazer suas pobres refeições.

Levava uma vida muito rígida, tentando dominar os males de sua natureza por meio de jejuns, vigílias e açoites. Posteriormente, disse: “Se um monge pudesse ganhar o Céu por meio de obras monásticas, sem dúvida eu teria esse direito. [...] Se continuasse por muito tempo, minha autonegação acabaria me levando à morte.” 3 Mesmo com todos esses esforços, seu coração pesado não encontrava alívio. Por fim, quase sucumbiu ao desespero.

Quando parecia que toda esperança havia terminado, Deus lhe concedeu um amigo. Staupitz abriu a Palavra de Deus à mente de Lutero e o incentivou a tirar os olhos do eu e se concentrar em Jesus. “Em vez de se torturar por causa de seus pecados, lance-se nos braços do Redentor. Confie nEle, na justiça da vida de Cristo, na expiação de Sua morte. [...] O Filho de Deus [...] Se tornou homem para lhe dar a certeza do favor de Deus. [...] Ame Aquele que o amou primeiro.”4 Essas palavras causaram profunda impressão na mente de Lutero. Paz sobreveio a seu coração aflito.

Depois de ser ordenado sacerdote, Lutero foi chamado para ser professor na Universidade de Wittenberg. Começou a lecionar sobre Salmos, os evangelhos e as epístolas para multidões de ouvintes atentos. Staupitz, seu supervisor, o instigou a assumir o púlpito e pregar. Lutero, porém, sentia-se indigno de falar às pessoas em lugar de Cristo. Foi somente após uma longa batalha que cedeu ao pedido de seus amigos. Era poderoso na Palavra, e a graça de Deus repousava sobre ele. Apresentava a verdade com tamanha clareza e tanto poder que convencia o entendimento de quem o ouvia, e seus fervorosos apelos tocavam o coração.

Lutero ainda era um verdadeiro filho da igreja papal e jamais pensava que seria diferente. Foi visitar Roma e fez a jornada a pé, passando a noite nos monastérios ao longo do caminho. Ficou surpreso com o esplendor e o luxo que viu. Os monges viviam em quartos elegantes, usavam roupas dispendiosas e se banqueteavam com ricos alimentos. A mente de Lutero começou a ficar perplexa.

Finalmente, à distância, viu a cidade sobre as sete colinas. Prostrou-se com o rosto em terra, exclamando: “Santa Roma, eu a saúdo!”5 Ele visitou as igrejas, ouviu padres e monges narrarem seus contos fantásticos e realizou todas as cerimônias exigidas. Em todos os lugares, aquilo que viu o deixou pasmo – males em meio ao clero, piadas indecentes feitas por oficiais da igreja. Encheu-se de horror pelo vocabulário baixo usado até mesmo durante a missa. Deparou-se com intemperança e imoralidade. Escreveu: “Ninguém é capaz de imaginar os pecados e atos vergonhosos cometidos em Roma. [...] Eles têm o hábito de dizer: ‘Se existe inferno, Roma foi construída em cima dele.’”6

Verdade na Escadaria de Pilatos

O papa havia prometido uma indulgência para todos que escalassem de joelhos a “escadaria de Pilatos”, a qual se afirmava que fora trazida milagrosamente de Jerusalém a Roma. Certo dia, enquanto Lutero escalava os degraus, uma voz semelhante a um trovão parecia dizer: “O justo viverá pela fé” (Rm 1:17). Ele se levantou envergonhado e cheio de horror. Naquele momento, percebeu com clareza maior do que nunca como era errado confiar nas obras humanas para a salvação. Afastou então o rosto de Roma. A partir de então, a separação cresceu até ele encerrar toda e qualquer conexão com a igreja papal.

Após retornar de Roma, Lutero recebeu o título de doutor em divindade. Agora estava livre para se dedicar às Escrituras que tanto amava. Fizera o voto solene de ser fiel à pregação da Palavra de Deus, não das doutrinas dos papas. Não era mais um mero monge, mas um arauto autorizado da Bíblia, chamado como pastor para alimentar o rebanho de Deus, faminto e sedento pela verdade. Declarou com firmeza que os cristãos não deveriam aceitar nenhuma outra doutrina além da que fosse baseada na autoridade das Sagradas Escrituras.

Ávidas multidões o escutavam com toda atenção. As boas-novas do amor do Salvador, a certeza de perdão e paz por meio de Seu sangue expiatório faziam o coração se regozijar. Em Wittenberg, uma luz começou a brilhar, cujos raios se tornariam cada vez mais brilhantes até o fim dos tempos.

No entanto, sempre há conflito entre a verdade e o erro. O próprio Salvador declarou: “Não vim trazer paz, mas espada” (Mt 10:34). Alguns anos após o início da Reforma, Lutero disse: “Deus [...] me impulsionou a prosseguir. [...] Quero viver em paz, mas sou lançado em meio a levantes e revoluções.”7

Indulgências à Venda

A Igreja Católica colocou a graça de Deus à venda. Pressionada para conseguir recursos a fim de construir a basílica de São Pedro em Roma, a igreja começou a vender indulgências sob a autoridade do papa. Um templo seria construído para adorar a Deus, pago por meio de crime. Foi isso que despertou os inimigos mais bem-sucedidos do papado e levou à batalha que abalou o trono papal e a tríplice coroa sobre a cabeça do pontífice.

Tetzel foi o oficial designado para vender indulgências na Alemanha. Ele era condenado por ofensas vergonhosas contra a sociedade e a lei de Deus, mas foi contratado para liderar os projetos de obtenção de recursos para o papa na Alemanha. Contou mentiras gritantes e contos fantasiosos a fim de enganar o povo ignorante e supersticioso. Se as pessoas tivessem acesso à Palavra de Deus, não seriam enganadas. Mas a igreja as impedia de ter contato com as Escrituras. 8

Quando Tetzel chegava a uma cidade, um mensageiro ia à frente anunciando: “A graça de Deus e do santo padre está às portas.” 9 As pessoas recebiam o enganador blasfemo como se fosse o próprio Deus. Do púlpito da igreja, Tetzel glorificava as indulgências como se fossem o dom mais precioso do Senhor. Declarava que, por meio de seus certificados de perdão, todos os pecados que o comprador desejasse cometer seriam perdoados e “nem mesmo arrependimento seria necessário”. 10 Ele garantia a seus ouvintes que as indulgências tinham poder para salvar os mortos. No momento em que o dinheiro tilintasse no fundo de sua mala, a alma pela qual o indivíduo pagara sairia do purgatório e trilharia o caminho do C éu. ١١

Ouro e prata enchiam os tesouros de Tetzel. Era mais fácil obter a salvação comprada com dinheiro do que aquela que exigia arrependimento, fé e diligente esforço para resistir ao pecado e vencê-lo (ver o Apêndice).

Lutero ficou horrorizado. Muitos de sua congregação compraram os certificados de perdão. Logo começaram a procurar seu líder espiritual, confessando pecados e esperando ser perdoados, não por lamentarem e quererem mudar, mas por causa da indulgência. Lutero se recusava a fazer isso e advertiu as pessoas, dizendo que, a menos que se arrependessem e mudassem de vida, morreriam em seus pecados. Elas voltavam a Tetzel reclamando que seu confessor havia recusado os certificados, e algumas exigiram o dinheiro de volta com ousadia. Irado, o frade proferiu maldições terríveis, ordenou que fogueiras fossem acendidas nas praças públicas e declarou que ele “havia recebido do papa a ordem de queimar todos os hereges que ousassem se opor a suas santíssimas indulgências”. 12

Começa a Obra de Lutero

Lutero pregou no púlpito em tom de advertência solene. Explicou ao povo como o pecado ofendia a Deus e como era impossível a qualquer um, por meio das próprias obras, reduzir a culpa ou evitar seu castigo. Nada, a não ser o arrependimento diante de Deus e a fé em Cristo são capazes de salvar o pecador. A graça de Jesus não pode ser comprada – é um presente gratuito. Ele aconselhava as pessoas a não comprar indulgências, mas a olhar, por meio da fé, para o Redentor crucificado. Contava sobre sua dolorosa experiência e garantia a seus ouvintes que era por meio da fé em Cristo que encontrariam alegria e paz.

Como Tetzel continuava a fazer suas promessas ímpias, Lutero decidiu protestar de maneira mais eficaz. Havia relíquias no castelo da igreja de Wittenberg que eram exibidas às pessoas em determinados dias santos. Todos que visitavam a igreja nesses dias e confessavam seus pecados recebiam remissão completa. Um dia antes da mais importante dessas ocasiões, a festa de Todos os Santos, Lutero se uniu à multidão que já estava a caminho da igreja. Ele afixou na porta da igreja as noventa e cinco teses contra a doutrina das indulgências.

Sua contestação atraiu a atenção de todos. As teses eram lidas e repetidas em todas as direções, despertando grande agitação em toda a cidade. Os argumentos mostravam que Deus nunca havia confiado ao papa, nem a homem nenhum, o poder de perdoar pecados e remover sua pena. Mostravam com clareza que Deus concede livremente Sua graça a todo aquele que a busca com arrependimento e fé.

As teses de Lutero se espalharam por toda a Alemanha e, dentro de poucas semanas, haviam ecoado por toda a Europa. Muitos católicos romanos devotos leram as teses com alegria, reconhecendo nelas a voz de Deus. Sentiam que o Senhor havia começado a agir para deter a crescente maré de corrupção proveniente de Roma. Príncipes e magistrados se alegravam em segredo, porque um limite estava sendo colocado sobre o poder arrogante que negava o direito de apelar às decisões.

Os astutos líderes eclesiásticos ficaram enraivecidos ao ver que seus lucros corriam perigo. O reformador enfrentou acusações amargas. “Quem não sabe”, respondeu, “que é raro alguém sugerir uma ideia nova sem [...] ser acusado de incitar contendas? [...] Por que Cristo e todos os mártires foram condenados à morte? Porque [...] promoveram ideias novas sem primeiro pedir humildemente o conselho dos líderes religiosos estabelecidos.” 13

As acusações dos inimigos de Lutero, a representação errônea de suas intenções e os ataques cheios de ódio a seu caráter sobrevieram a ele como um dilúvio. A princípio, o reformador tinha a confiança de que os líderes se uniriam alegremente a ele na reforma. Olhando para o futuro, vira um dia melhor se aproximando da igreja.

Entretanto, o encorajamento de alguns líderes havia se transformado em crítica. Muitos oficiais da Igreja e do Estado logo perceberam que a aceitação das verdades acabaria por minar a autoridade de Roma, deteria os milhares que fluíam para seus tesouros e diminuiria o luxo dos líderes papais. Ensinar o povo a buscar salvação somente em Cristo destituiria o papa de seu trono e acarretaria a destruição de sua autoridade também. Por isso, eles se colocaram contra Cristo e a verdade, opondo-se ao homem enviado para levar luz até eles.

Lutero tremia ao olhar para si – um homem se opondo aos poderosos da Terra. “Quem sou eu”, escreveu, “para me opor à majestade do papa, perante quem [...] tremem os reis da Terra e o mundo inteiro? [...] Ninguém é capaz de saber o que meu coração tem sofrido ao longo desses dois anos, a tristeza e até mesmo o desespero no qual afundei.” 14 Quando o apoio humano falhou, ele olhou somente para Deus. Poderia se apoiar com toda segurança em Seu onipotente braço.

Lutero escreveu a um amigo: “Seu primeiro dever é começar pela oração. [...] N ão espere nada pelos próprios esforços e por seu entendimento. Confie somente em Deus e na influência de Seu Espírito.” 15 Essa é uma importante lição para aqueles que sentem que Deus os chamou para apresentar aos outros verdades vitais para este tempo. Ir contra os poderes do mal exige algo mais do que intelecto e sabedoria humana.

Somente a Bíblia

Quando os inimigos apelavam para os costumes e as tradições, Lutero os enfrentava somente com a Bíblia. Eram argumentos aos quais não conseguiam responder. De seus sermões e escritos, provinham raios de luz que despertavam e iluminavam milhares. A Palavra de Deus era como espada de dois gumes, cortando seu caminho para o interior do coração das pessoas. Os olhos do povo, direcionados tanto para cerimônias humanas como para sacerdotes terrenos, agora se voltavam, pela fé, para o Cristo crucificado.

Esse amplo interesse despertou o temor das autoridades papais. Lutero foi convocado a comparecer perante Roma a fim de responder pela acusação de heresia. Seus amigos sabiam muito bem o perigo que o ameaçava naquela cidade corrupta, já embriagada com o sangue dos mártires de Jesus. Solicitaram que ele fosse interrogado na Alemanha.

Isso foi providenciado, e um representante do papa, ou legado, foi designado para ouvir o caso. As instruções a esse oficial explicavam que Lutero já deveria ser declarado herege. Portanto, o legado deveria “acusá-lo e prendê-lo sem qualquer demora”. Tinha poder para “exilá-lo de qualquer parte da Alemanha; banir, amaldiçoar e excomungar todos os que tivessem qualquer ligação com ele”, ou seja, excluir todos, sem importar a posição que ocupassem no Estado ou na Igreja, com exceção do imperador, que houvessem negligenciado seu dever de prender Lutero, bem como seus seguidores, e entregá-los à vingança de Roma. 16

O documento não revelava nenhum vestígio de princípio cristão ou até mesmo de justiça comum. Lutero não teve a oportunidade de explicar ou defender sua posição. Ainda assim, foi declarado herege e, no mesmo dia, aconselhado, acusado, julgado e condenado.

No momento em que Lutero muito necessitava do conselho de um amigo verdadeiro, Deus enviou Melâncton para Wittenberg. O bom senso de Melâncton, aliado a um caráter puro e justo, conquistava a admiração de todos. Logo ele se tornou o amigo da maior confiança de Lutero. Sua bondade, cautela e exatidão ajudaram a complementar a coragem e energia de Lutero.

O julgamento ocorreria em Augsburgo , e o reformador partiu a pé. Havia ameaças de que ele seria assassinado no caminho; por isso, seus amigos imploraram que ele não fosse. Mas Lutero respondeu: “Sou como Jeremias, homem de lutas e contendas. No entanto, quanto mais aumentam as ameaças, mais se multiplica minha alegria. [...] Eles já destruíram minha honra e reputação. [...] Quanto à minha alma, não podem tomá-la. Todo aquele que deseja proclamar a palavra de Cristo ao mundo deve esperar a morte a qualquer momento”. 17

A notícia da chegada de Lutero a Augsburgo deu grande satisfação ao representante do papa. Parecia que o herege perturbador que havia despertado a atenção do mundo não escaparia do poder de Roma. O representante tinha a intenção de forçar Lutero a se retratar. Caso isso falhasse, ele enviaria o reformador a Roma a fim de partilhar do mesmo destino de Huss e Jerônimo. Assim, por meio de seus agentes, tentou fazer Lutero comparecer sem salvo- conduto, confiando em sua misericórdia. Mas o reformador se recusou a fazer isso. Só compareceu à presença do embaixador do papa quando recebeu o documento que prometia a proteção por parte do imperador.

Como estratégia, os delegados do papa decidiram conquistar Lutero parecendo tratá-lo com bondade. O embaixador alegou grande amizade, mas exigiu que Lutero se submetesse completamente à igreja e abrisse mão de todas as suas ideias, sem argumentar, nem questionar. Em sua réplica, Lutero expressou sua consideração pela igreja, seu desejo de conhecer a verdade e sua disposição para responder não apenas a todas as objeções, mas àquilo que ensinava e a submeter suas doutrinas ao arbítrio das principais universidades. Ele também protestou contra a exigência do cardeal de se retratar sem ficar comprovado que estava errado.

A única resposta que recebeu foi: “Retrate-se! Retrate-se!” O reformador mostrou que sua posição contava com o apoio das Escrituras. Ele não podia renunciar à verdade. O embaixador, incapaz de refutar os argumentos de Lutero, o sobrecarregou com uma tempestade de acusações, ataques, bajulação, citações da tradição e os dizeres dos pais da igreja, sem dar ao reformador a oportunidade de se pronunciar. Por fim, Lutero conseguiu a permissão relutante de apresentar sua resposta por escrito.

Ao escrever para um amigo, disse: “Aquilo que é escrito pode ser submetido ao julgamento de outros. Além disso, maior é a chance de trabalhar com os temores, se não da consciência, de um déspota arrogante e tagarela, que, de outra maneira, dominaria por meio de suas palavras arrogantes.” 18

Na audiência seguinte, Lutero fez uma apresentação clara, concisa e vigorosa de seus pontos de vista, fundamentada nas Escrituras. Após ler o documento em voz alta, ele o entregou ao cardeal, que o jogou de lado e o desconsiderou, dizendo se tratar de um aglomerado de palavras vãs e citações irrelevantes. Então Lutero enfrentou o altivo oficial no terreno dele, usando as tradições e os ensinos da igreja, derrotando por completo os argumentos do cardeal.

O oficial quase perdeu o domínio de si mesmo. Irado, gritou: “Retrate-se! Caso contrário, o mandarei para Roma.” Por fim, declarou, em tom nervoso e arrogante: “Retrate-se, ou não volte nunca mais.” 19

O reformador saiu imediatamente com seus amigos, deixando claro que o embaixador não deveria esperar nenhuma retratação de sua parte. Não era isso que o cardeal intencionava. Sozinho agora com aqueles que o apoiavam, olhou perplexo para os outros diante do fracasso inesperado de seus planos.

A vasta assembleia que ali estava teve a oportunidade de comparar os dois homens e julgar por si só o espírito que cada um havia demonstrado, bem como a força e veracidade de seus posicionamentos. O reformador era simples, humilde e firme, tendo a verdade a seu lado. O representante do papa se revestia de importância própria, era jactancioso, irracional e não tinha um único argumento bíblico. Ainda assim, exigia em volume máximo: “Retrate-se ou irá para Roma.”

Fuga de Augsburgo

Os amigos de Lutero argumentaram que, como era inútil ficar, ele deveria retornar o mais rápido possível para Wittenberg e fazê-lo com grande cuidado. Assim, ele partiu de Augsburgo a cavalo antes de raiar o dia, acompanhado apenas de um guia que o magistrado havia providenciado. Trilhou em segredo as ruas escuras da cidade. Inimigos vigilantes e cruéis tramavam destruí-lo. Foram momentos de ansiedade e fervorosa oração. Ele chegou a um pequeno portão no muro da cidade. Abriram o portão para Lutero. Então ele e o guia passaram. Antes do representante de Roma ficar sabendo que Lutero havia ido embora, ele já estava além do alcance de seus perseguidores.

A notícia da fuga de Lutero encheu o representante de surpresa e raiva. Ele esperava receber grande honra por sua firmeza ao lidar com aquele perturbador da igreja. Em uma carta a Frederico, eleitor da Saxônia, denunciou amargamente Lutero, exigindo que a autoridade enviasse o reformador a Roma ou o banisse da Saxônia.

Até então, o eleitor tinha pouco conhecimento sobre as doutrinas reformadas, mas havia ficado profundamente impressionado com a força e a clareza das palavras de Lutero. Até que alguém provasse que o reformador estava errado, Frederico estava determinado a protegê-lo. Em resposta ao oficial, respondeu: “Uma vez que o doutor Martinho compareceu perante sua presença em Augsburgo, o senhor deve se dar por satisfeito. Não esperamos que tente obrigá-lo a se retratar sem primeiro convencê-lo de seus erros. Nenhum homem culto de nosso território me informou que a doutrina de Martinho é sacrílega, anticristã ou herege.” 20 O eleitor percebia que a igreja necessitava de uma obra de reforma. Em segredo, ele ficou feliz porque uma influência melhor estava surgindo dentro da igreja.

Somente um ano havia se passado desde que o reformador afixara as teses na igreja do castelo, porém seus escritos despertaram renovado interesse pelas Sagradas Escrituras por toda parte. Alunos se aglomeravam na universidade, vindos não só de todas as partes da Alemanha, mas também de outras terras. Ao ver Wittenberg pela primeira vez, jovens “levantavam as mãos ao céu e louvavam a Deus por ter feito a luz da verdade brilhar a partir dessa cidade”. ٢١

Na época, Lutero estava apenas parcialmente convertido dos erros de Roma. Entretanto, escreveu: “Estou lendo os decretos dos pontífices e [...] não sei se o papa é o próprio anticristo ou seu apóstolo, já que Cristo é representado de forma tão incorreta e é crucificado por meio dele.” 22

Roma foi ficando cada vez mais irada com os ataques de Lutero. Oponentes fanáticos, até mesmo doutores das universidades eclesiásticas, declaravam que quem matasse o monge ficaria isento de pecados. Mas Deus era sua defesa. Suas doutrinas eram ouvidas por toda parte – “em cabanas e conventos, [...] nos castelos dos nobres, nas universidades e em palácios reais”. 23

Na mesma época, Lutero descobriu que Huss, o reformador boêmio, havia defendido a grande verdade da justificação pela fé antes dele. Lutero declarou: “Todos nós – Paulo, Agostinho e eu – temos sido hussitas sem o saber! [...] A verdade foi pregada [...] há um século e queimada!”24

Acerca das universidades, Lutero escreveu: “Temo que as universidades se tornem grandes portões do inferno, a menos que trabalhem com afinco para explicar as Sagradas Escrituras e inculcá-las no coração dos jovens. [...] Qualquer instituição que não envolva as pessoas constantemente com a Palavra de Deus se torna corrupta.” 25

Esse apelo circulou por toda a Alemanha. Despertou a nação inteira. Os adversários de Lutero instigaram o papa a agir de maneira decisiva contra ele. Um decreto de condenação imediata foi promulgado. Caso o reformador e seus seguidores não se retratassem, seriam todos excomungados.

Uma Crise Terrível

Essa foi uma terrível crise para a Reforma. Lutero não era cego à tempestade que estava prestes a sobrevir, mas confiava que Cristo seria seu apoio e escudo. “Não sei, nem quero saber o que está para acontecer. [...] Nenhuma folha cai sem a vontade de nosso Pai. Quanto mais Ele cuida de nós! Pequena coisa é morrer pela Palavra, uma vez que o próprio Verbo que Se fez carne morreu”. 26

Quando o decreto papal chegou às mãos de Lutero, ele disse: “Desprezo-o e o ataco por ser ímpio e falso. [...] É que nele está condenado. Já sinto mais liberdade no coração, pois sei, afinal, que o papa é o anticristo e que seu trono é o do próprio Satanás.” 27

As ordens de Roma tiveram seu efeito. Os fracos e supersticiosos tremeram perante o decreto do papa, e muitos sentiram que a vida era preciosa demais para correr risco. A obra do reformador estava perto do fim?

Lutero continuava destemido. Com poder tremendo, devolveu a sentença de condenação para Roma. Na presença de uma multidão formada por pessoas de todos os níveis da sociedade, Lutero queimou o edito do papa. Disse: “Uma disputa séria acaba de começar. Até agora só brinquei com o papa. Comecei esta obra em nome de Deus. Ela terminará sem mim, e pelo poder do Senhor. [...] Quem sabe se Deus não me escolheu e chamou e se eles não deveriam ter medo de, ao me desprezarem, estarem desprezando o próprio Deus? [...] O Senhor nunca escolheu como profeta o sumo sacerdote ou qualquer outro indivíduo de elevada posição. Pelo contrário, em geral, escolhia pessoas humildes e desprezadas, até mesmo o pastor de rebanho Amós. Em todas as eras, o povo de Deus precisou repreender os grandes – reis, príncipes, sacerdotes e sábios – arriscando a própria vida. [...] Não digo que sou profeta, mas afirmo que deveriam temer exatamente o fato de eu estar sozinho, enquanto eles são muitos. Tenho certeza de que a Palavra de Deus está comigo, não com eles.”28

Lutero também travou uma batalha terrível consigo mesmo antes de finalmente decidir separar-se da igreja: “Quanta dor me causou, muito embora tivesse as Escrituras a meu lado, justificar para mim mesmo a ousadia de me posicionar sozinho contra o papa e identificá-lo como o anticristo! Quantas vezes não fiz a mim mesmo as perguntas tão frequentes nos lábios dos defensores do papa: ‘Só você tem sabedoria? Todos os outros estariam errados? Como será, então, se for você quem estiver errado, envolvendo em seu erro tantas pessoas que receberão a condenação eterna?’ Foi assim que lutei comigo mesmo e contra Satanás, até que Cristo, com Sua voz infalível, fortaleceu meu coração contra essas dúvidas.”29

Um novo edito foi promulgado, declarando a separação final entre o reformador e a Igreja Católica Romana, dizendo que ele havia sido amaldiçoado pelo C éu. Todos aqueles que aceitassem suas doutrinas seriam incluídos na mesma condenação.

Qualquer pessoa usada por Deus a fim de apresentar verdades que se aplicam de maneira especial a seu tempo enfrenta oposição. Havia uma verdade presente nos dias de Lutero. Há uma verdade presente para a igreja hoje. No entanto, assim como os oponentes de Lutero, a maioria das pessoas da atualidade não deseja a verdade. Aqueles que apresentam a verdade para este tempo não devem esperar ser recebidos de maneira mais favorável que os primeiros reformadores. O grande conflito entre a verdade e o erro, entre Cristo e Satanás, se intensificará até o fim da história deste mundo (Jo 15:19, 20; Lc 6:26).

1 J. H. Merle D’Aubigné, , livro 2, cap. 2.

2 Ibid.

3 Ibid., livro 2, cap. 3.

4 Ibid., livro 2, cap. 4.

5 Ibid., livro 2, cap. 6.

6 Ibid., livro 2, cap. 6.

7 Ibid., livro 5, cap. 2.

8 Ver John C. L. Giesler, , período 4, seção 1, parágrafo 5. 9 D’Aubigné, livro 3, cap. 1.

10 Ibid., livro 3, cap. 1.

11 Ver K. R. Hagenbach, , v. 1, p. 96.

12 D’Aubigné, livro 3, cap. 4.

13 Ibid., livro 3, cap. 6.

14 Ibid.

15 Ibid., livro 3, cap. 7.

16 Ibid., livro 4, cap. 2.

17 Ibid., livro 4, cap. 4.

18 W. Carlos Martyn, , p. 271, 272.

19 D’Aubigné, ed. Londres, livro 4, cap. 8.

20 Ibid., livro 4, cap. 10.

21 Ibid.

22 Ibid., livro 5, cap. 1.

23 Ibid., livro 6, cap. 2.

24 James A. Wylie, , livro 6, cap. 1.

25 D’Aubigné, livro 6, cap. 3.

26 D’Aubigné, 3 ed. Londres, Walther, 1840, livro 6, cap. 9. 27 Ibid., livro 6, cap. 9.

28 Ibid., livro 6, cap. 10.

29 Martyn, p. 372, 373.