Os Resgatados

Ellen G. White · Capítulo 21 de 45

Páginas do PDF

Os Resgatados

19 :: O Grande Desapontamento

O Grande Desapontamento

 

E ra após era, a obra de Deus apresenta semelhança notável em cada grande movimento religioso ou de reforma. Os princípios de como o Senhor lida com as pessoas são sempre os mesmos. Os movimentos importantes do presente encontram paralelo nos do passado, e a experiência da igreja em eras anteriores traz lições para nosso tempo.

Por meio de Seu Espírito, Deus dirigiu Seus servos na Terra de maneira especial para fazer avançar a obra da salvação. Os seres humanos são instrumentos nas mãos de Deus. Ele dá a cada um luz suficiente para realizar a obra com a qual lhe incumbiu. Mas ninguém nunca teve plena compreensão dos propósitos divinos na obra em seu tempo. Os representantes de Deus não entendem por completo todos os aspectos da mensagem que proclamam em Seu nome. Nem mesmo os profetas entendiam plenamente as revelações que o Senhor lhes havia confiado. O sentido sempre foi revelado aos poucos, de era em era.

Pedro diz, acerca da salvação: “Foi a respeito dessa salvação que os

profetas que falaram da graça destinada a vocês investigaram e

examinaram, procurando saber para os quais apontava o Espírito de Cristo que neles estava, quando lhes predisse os sofrimentos de Cristo e as glórias que se seguiriam àqueles sofrimentos. A eles foi revelado que estavam

ministrando, não para , mas para ” (1Pe 1:10-12, itálicos acrescentados). Que lição para o povo de Deus da era cristã! Aqueles homens santos de Deus “investigaram e examinaram” as revelações que Deus concedeu para as gerações que ainda não haviam nascido. Que repreensão para a indiferença amante do mundo que se contenta em declarar que ninguém é capaz de compreender as profecias.

Às vezes, a mente dos servos de Deus fica tão cega pelas tradições e pelos falsos ensinos que eles só conseguem entender parcialmente as coisas reveladas em Sua Palavra. Mesmo quando o Salvador estava com os discípulos, estes acreditavam no conceito popular de que o Messias seria um príncipe terreno que exaltaria Israel e o transformaria em um império universal. Não conseguiam compreender as palavras de Cristo que prediziam Seu sofrimento e Sua morte.

“O Tempo é Chegado”

Cristo tinha enviado os discípulos com a seguinte mensagem: “‘O tempo 

é chegado’, dizia ele. ‘O Reino de Deus está próximo. Arrependam-se e creiam nas boas novas!’” (Mc 1:15). Essa mensagem estava baseada na profecia de Daniel 9. As “sessenta e nove semanas” se estenderiam até “o Ungido, o Líder” e os discípulos aguardavam com expectativa a fundação do reino do Messias em Jerusalém para governar sobre o mundo inteiro.

Eles pregavam a mensagem que Jesus lhes havia concedido, embora não compreendessem seu significado. Embora a proclamação deles estivesse baseada em Daniel 9:25, não viam no versículo seguinte que o Ungido seria “morto”. Fixaram o coração na glória de um império terreno, e isso cegou seu entendimento. No exato momento em que esperavam ver seu Senhor subir ao trono de Davi, eles testemunharam Sua prisão, Seus açoites, Sua zombaria, condenação e crucifixão. Que desespero e angústia oprimiram o coração daqueles discípulos!

Cristo havia chegado no exato momento predito. Cada detalhe das Escrituras tinha se cumprido. A Palavra e o Espírito de Deus confirmaram a comissão divina de Seu Filho. Ainda assim, a mente dos discípulos foi obscurecida pela dúvida. Se Jesus realmente havia sido o Messias verdadeiro, por que eles afundaram em tamanho luto e desapontamento? Essa foi a pergunta que torturou a alma dos discípulos durante as horas sem esperança daquele sábado entre a morte e a ressurreição.

Entretanto, Deus não os abandonara. “Embora eu esteja morando nas

trevas, o Senhor será a minha luz. [...] Ele me fará sair para a luz;

contemplarei a Sua justiça” (Mq 7:8, 9). “A luz raia nas trevas para o

íntegro, para quem é misericordioso, compassivo e justo” (Sl 112:4).

“Transformarei as trevas em luz diante deles e tornarei retos os lugares acidentados. Essas são as coisas que farei; não os abandonarei” (Is 42:16).

A proclamação feita pelos discípulos estava correta: “O tempo é chegado

. [...] O Reino de Deus está próximo” (Mc 1:15). Quando o “tempo” terminou – as sessenta e nove semanas que se estenderiam até o Messias, “o Ungido” – Cristo havia recebido a unção do Espírito após ser batizado por João. O “reino de Deus” não era um império terreno, como os discípulos haviam sido ensinados a crer. Nem consistia naquele reino futuro e imortal no qual “todos os governantes O adorarão e Lhe obedecerão” (Dn 7:27).

A expressão “reino de Deus” se refere tanto ao reino da graça quanto ao reino da glória. O apóstolo diz: “Assim, aproximemo-nos do com toda a

confiança, a fim de recebermos misericórdia e encontrarmos graça” (Hb 4:16). A existência de um trono subentende a existência de um reino. Cristo usa a expressão “reino dos C éus” para designar a obra da graça no coração humano. Assim, o trono da glória representa o reino de glória (Mt ٢٥:٣١ , 32). Esse reino ainda é futuro. Só será fundado após a segunda vinda de Cristo.

Quando o Salvador entregou a própria vida e clamou: “Está consumado!” (Jo 19:30), confirmou a promessa de salvação feita ao casal pecador no Éden. O reino da graça, que existira até então pela promessa de Deus, foi fundado.

Assim, a morte de Cristo – o acontecimento que os discípulos enxergavam como a destruição da esperança deles –, na verdade, estava garantindo essa esperança para sempre. Embora tenha ocasionado um desapontamento cruel, foi a prova de que sua crença estava correta. O evento que os encheu de desespero abriu a porta de esperança para todos os fiéis de Deus em todas as eras.

Misturado ao ouro puro do amor dos discípulos por Jesus se encontrava o metal barato de ambições egoístas. A atenção deles estava fixada no trono, na coroa e na glória. O orgulho em seu coração e a sede por glória mundana impediram que entendessem as palavras do Salvador que lhes revelava a natureza verdadeira de Seu reino e apontava para Sua morte. Esses erros resultaram na provação que Deus permitiu para corrigi-los. O Senhor confiaria aos discípulos o evangelho glorioso de Seu Cristo ressurreto. A fim de prepará-los para essa obra, permitiu essa experiência que pareceu tão amarga.

Após a ressurreição, Jesus apareceu aos discípulos no caminho para Emaús e “explicou-lhes o que constava a respeito dEle em todas as Escrituras”(Lc 24:27). Queria alicerçar a fé deles na “palavra profética”

“confirmada” (2Pe 1:19 [ARA]), não só por meio de Seu testemunho pessoal, mas também pelas profecias do Antigo Testamento. E, como primeiro passo para lhes dar esse conhecimento, Jesus direcionou a atenção dos discípulos para “Moisés e todos os profetas” do Antigo Testamento.

Do Desespero à Certeza

De uma maneira mais completa do que nunca, os discípulos acharam

“Aquele sobre quem Moisés escreveu na Lei, e a respeito de quem os profetas também escreveram” (Jo 1:45). Certeza e fé límpida substituíram a incerteza e o desespero. Passaram pela provação mais profunda possível para eles e viram como a Palavra de Deus havia se cumprido de maneira triunfante. Depois disso, o que poderia abalar sua fé? Em sua mais profunda tristeza, foram “firmemente encorajados” e encontraram uma esperança que era “como âncora da alma, firme e segura” (Hb 6:18, 19).

O Senhor diz: “O Meu povo jamais será envergonhado” (Jl 2:26, ARA). “O choro pode persistir uma noite, mas de manhã irrompe a alegria” (Sl 30:5). No dia da ressurreição, esses discípulos encontraram o Salvador, e o coração deles ardeu enquanto ouviam Suas palavras. Antes de Sua

ascensão, Jesus os instruiu: “Vão pelo mundo todo e preguem o evangelho a todas as pessoas” (Mc 16:15), acrescentando: “E Eu estarei sempre com vocês” (Mt 28:20). No dia do Pentecostes, o Consolador prometido veio, e o coração dos fiéis vibrou com a presença vívida do Senhor que havia ascendido ao Céu.

A Mensagem dos Discípulos e a Mensagem de 1844

A experiência dos discípulos na segunda vinda de Cristo encontra uma contraparte na experiência daqueles que anunciaram Sua segunda vinda.

Assim como os discípulos pregaram: “O tempo é chegado . [...] O Reino

de Deus está próximo”, Miller e seus companheiros proclamaram que o último período profético da Bíblia estava prestes a terminar, que o juízo logo aconteceria e que o reino eterno seria fundado depressa. A pregação dos discípulos acerca do tempo era baseada nas setenta semanas de Daniel 9. A mensagem que Miller e seus companheiros proclamavam anunciava o fim das 2.300 tardes e manhãs de Daniel 8:14, das quais as setenta semanas faziam parte. A pregação de ambas era baseada em uma parte diferente do mesmo período profético.

Assim como os primeiros discípulos, Guilherme Miller e seus companheiros não entendiam totalmente a mensagem que transmitiam. Erros profundamente enraizados na igreja impediram que interpretassem de forma correta um aspecto importante da profecia. Por isso, embora anunciassem a mensagem que Deus os havia confiado, por não compreenderem todo o seu significado, sofreram um desapontamento.

Miller adotou o ponto de vista muito disseminado de que a Terra é o “santuário” e acreditava que a “purificação do santuário” representava a purificação da Terra pelo fogo quando Jesus voltasse. Logo, concluiu, o fim das 2.300 tardes e manhãs revelaria o tempo do segundo advento.

A purificação do santuário era o último rito que o sumo sacerdote realizava no ciclo anual de adoração. Consistia na obra de fechamento da expiação – a retirada ou o afastamento dos pecados de Israel. Ilustrava, de antemão, a obra final de nosso Sumo Sacerdote no C éu removendo ou apagando os pecados de Seu povo, os quais estão registrados nos livros celestiais. Esse serviço envolve investigação, uma obra de juízo e ocorre logo antes da vinda de Cristo nas nuvens dos céus, pois, quando Ele vier, todos os casos já estarão decididos. “Eis que venho em breve! A Minha recompensa está comigo, e Eu retribuirei a cada um de acordo com o que fez” (Ap 22:12). Essa é a obra de juízo que a primeira mensagem angélica

de Apocalipse 14:7 anuncia: “Temam a Deus e glorifiquem-nO, pois

chegou a hora do Seu juízo”.

Aqueles que proclamaram essa advertência deram a mensagem correta no tempo certo. Assim como os discípulos estavam equivocados quanto ao reino que seria fundado ao fim das “setenta semanas”, os adventistas erraram quanto ao acontecimento que ocorreria ao fim das “2.300 tardes e manhãs”. Nos dois casos, erros populares cegaram a mente à verdade. Ambos os grupos cumpriram a vontade de Deus ao entregar a mensagem que Ele havia concedido e ambos sofreram um desapontamento por não compreenderem totalmente a mensagem.

No entanto, o Senhor cumpriu Sua vontade ao permitir que a advertência do juízo fosse proferida dessa maneira. Em Seu plano, a mensagem seria uma prova para purificar a igreja. Os corações estavam fixados neste mundo ou em Cristo e no C éu? Estavam prontos para se afastar de suas ambições mundanas e receber com alegria o advento de seu Senhor?

O desapontamento também provaria o coração daqueles que afirmavam ter aceitado a advertência. Abririam mão apressadamente de sua experiência e deixariam de lado a confiança na Palavra de Deus quando fossem chamados a suportar o escárnio do mundo e o teste da tardança e do desapontamento? Por não terem entendido de imediato o agir de Deus, rejeitariam as verdades que o testemunho claro de Sua Palavra sustentava?

Essa prova lhes ensinaria o perigo de aceitar interpretações humanas, em lugar de fazer da Bíblia a própria intérprete. Levaria os filhos da fé a um estudo mais minucioso da Palavra, a examinar os fundamentos de sua fé com mais cautela e a rejeitar tudo que não estivesse baseado nas Escrituras, por mais aceito que fosse pelo mundo cristão.

As coisas que pareciam escuras na hora da prova depois se tornariam claras. A despeito do sofrimento que resultou de seus erros, eles aprenderiam, por meio de uma abençoada experiência, que “o Senhor é cheio de compaixão e misericórdia” (Tg 5:11) e todos os Seus caminhos

“são amor e fidelidade para com os que cumprem os preceitos da Sua aliança” (Sl 25:10).