Os Resgatados

Ellen G. White · Capítulo 14 de 45

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Os Resgatados

12 :: Aurora na França

Aurora na França

 

A pós o protesto de Espira e a Confissão de Augsburgo, seguiram-se anos de conflitos e trevas. Enfraquecido por divisões, o protestantismo parecia fadado à destruição.

Entretanto, no momento em que o imperador parecia triunfar, foi surpreendido pela derrota. Foi forçado a pelo menos estender tolerância às doutrinas que tanto quisera destruir ao longo da vida. Viu seus exércitos serem desperdiçados em batalhas, seus recursos se exaurirem e muitos reinos ameaçarem se revoltar, ao passo que a fé que havia tentado suprimir crescia por toda parte. Carlos V estava batalhando contra o Poder onipotente. Deus dissera: “Haja luz”, mas o imperador havia tentado manter a escuridão intocada. Desgastado com o longo conflito, abdicou do trono e se refugiou em um monastério.

Muitas das regiões da Suíça, ou cantões, aceitaram a fé reformada, mas outras se agarraram aos ensinos de Roma. A perseguição resultou em guerra civil. Zuínglio e muitos outros que haviam aderido à Reforma caíram no sangrento campo de Capela. Roma estava triunfante e, em muitos lugares, parecia prestes a recuperar tudo que havia perdido. Deus, porém, não havia abandonado Sua causa, nem Seu povo. Em outras terras, levantou obreiros para levar a reforma adiante.

Na França, um dos primeiros a receber a luz foi Lefèvre, professor na Universidade de Paris. Ao pesquisar literatura antiga, sua atenção se voltou para a Bíblia, e ele introduziu alguns alunos ao estudo do livro sagrado. Lef è vre havia começado a preparar a história dos santos e mártires, de acordo com as lendas da igreja, e já tinha feito progresso considerável quando, pensando que a Bíblia poderia ajudá-lo nesse projeto, começou a estudá-la. Ali realmente encontrou santos, mas não do tipo apresentado pelo calendário da Igreja Católica Romana. Desgostoso, deixou de lado a obra que ele mesmo havia se designado a fazer e passou a se dedicar ao estudo da Palavra de Deus.

Em 1512, antes de Lutero ou Zuínglio haverem começado a obra da reforma, Lef é vre escreveu: “É Deus quem dá, pela fé, a justiça que somente pela graça nos justifica para a vida eterna.” 1 E, ao passo que ensinava que a glória da salvação pertence somente a Deus, também afirmava que o dever da obediência pertence ao ser humano.

Alguns dos alunos de Lef è vre ouviram com atenção suas palavras e continuaram a declarar a verdade por muito tempo depois da voz do mestre se silenciar. Um deles foi William Farel. Filho de pais religiosos e um devoto seguidor de Roma, ele era zeloso em destruir todos aqueles que se opunham à igreja. Mais tarde, contou: “Eu rangia os dentes como um lobo furioso sempre que ouvia alguém falar algo contra o papa.” No entanto, adoração aos santos, o culto em altares e o adorno de relicários santos com presentes não conseguiam levar paz a seu coração. A convicção do pecado veio sobre ele, e nenhum ato de penitência era capaz de extingui-la. Ele ouviu as palavras de Lef è vre: “A salvação é de graça.” “É somente a cruz de Cristo que abre os portais do C éu e fecha as portas do inferno .” 2

Por meio de uma conversão semelhante à de Paulo, Farel deixou a escravidão da tradição e passou a desfrutar a liberdade dos filhos de Deus. “Em vez de ter o coração assassino de um lobo à espreita”, ele voltou, segundo relata, “tranquilamente como um cordeiro manso e inofensivo, com o coração totalmente afastado do papa e entregue a Jesus Cristo.” 3

Ao passo que Lef è vre espalhou a luz para seus alunos, Farel saiu para pregar a verdade em público. Uma autoridade da igreja, o bispo de Meaux, logo se uniu a eles. Outros professores se aliaram à proclamação do evangelho e conquistaram seguidores desde os lares dos artesãos e camponeses até o palácio do rei. A irmã de Francisco I aceitou a fé reformada. Com grande esperança, os reformadores aguardavam com expectativa o momento em que a França seria ganha para o evangelho.

O Novo Testamento em Francês

Suas esperanças, porém, não se concretizariam. Provas e perseguições estavam à frente dos discípulos de Cristo. Entretanto, um período de paz interrompeu o decorrer dos acontecimentos, permitindo que reunissem forças para enfrentar a tempestade vindoura, e a Reforma fez rápido progresso. Lef è vre começou a traduzir o Novo Testamento e, na mesma época em que a Bíblia luterana em alemão saía do prelo em Wittenberg, o Novo Testamento em francês foi publicado em Meaux. Logo os camponeses de Meaux tinham as Sagradas Escrituras. Os trabalhadores nos campos e os artesãos nas oficinas alegravam seus labores diários conversando sobre as preciosas verdades da Bíblia. Embora pertencessem à classe mais humilde – os plebeus sem escolarização que trabalhavam duro –, o poder reformador e exaltado da graça divina era visível na vida deles.

A luz que se acendeu em Meaux enviou seus raios para lugares distantes. Todos os dias, crescia o número de conversos. Por um tempo, o rei conteve a ira da hierarquia da igreja, mas os líderes papais finalmente prevaleceram. As fogueiras foram acesas e muitos testemunharam da verdade em meio às chamas.

Pelos nobres corredores do castelo e do palácio havia pessoas da realeza que valorizavam a verdade acima das riquezas, de posições e até mesmo da própria vida. Louis de Berquin vinha de berço nobre, era dedicado aos estudos, polido nas maneiras e de moral imaculada. “Ele coroou todas essas outras virtudes olhando para o luteranismo com ódio especial.” Mas Deus o guiou à Bíblia, e ele ficou surpreso ao encontrar ali “não as doutrinas de Roma, mas as de Lutero”. Então se entregou à causa do evangelho.

Os apoiadores de Roma na França o colocaram na prisão por heresia, mas o rei o libertou. Por anos, o rei Francisco vacilou entre Roma e a Reforma. As autoridades papais encarceraram Berquin três vezes, porém em todas o rei mandou soltá-lo, recusando-se a sacrificá-lo ao ódio dos líderes da igreja. Berquin recebeu repetidas advertências quanto ao perigo que o ameaçava na França, e apelaram para que ele seguisse os passos daqueles que haviam encontrado segurança no exílio voluntário.

A Ousadia de Berquin

Contudo, o zelo do Berquin só se fortaleceu. Ele decidiu partir para medidas mais ousadas. Além de se posicionar em defesa da verdade, ele atacaria os erros. Seus adversários mais ativos eram os monges cultos do departamento de teologia da Universidade de Paris, uma das mais elevadas autoridades eclesiásticas da nação. Com base nos escritos desses doutores, Berquin extraiu doze proposições e declarou publicamente que eram “contrárias à Bíblia”, apelando ao rei que agisse como juiz da controvérsia.

O rei ficou feliz por ter a oportunidade de humilhar o orgulho daqueles monges arrogantes. Então ele ordenou que os religiosos católicos defendessem sua causa usando a Bíblia. Pouco auxílio encontrariam nessa “arma”; tortura e fogueira eram as armas que melhor sabiam usar. Eles se viram prestes a cair no abismo para o qual tinham a esperança de empurrar Berquin. Começaram a olhar em volta, em busca de um meio de escape.

“Na mesma época, uma imagem da virgem, que ficava na esquina de uma das ruas, foi mutilada.” Multidões se aglomeraram no local, lamentando iradas. O rei ficou profundamente emocionado. “Isso é fruto das doutrinas de Berquin”, proclamaram os monges. “Tudo está prestes a ser lançado abaixo – a religião, as leis e o próprio trono – por essa conspiração luterana.”4

O rei se retirou de Paris, deixando os monges livres para fazer o que quisessem. Berquin foi julgado e condenado à morte. Para impedir que Francisco interviesse e o salvasse, executaram a sentença no mesmo dia em que foi pronunciada. Ao meio-dia, uma grande multidão se reuniu para testemunhar o acontecimento, e muitos ficaram pasmos ao ver que a vítima escolhida vinha de uma das melhores e mais corajosas famílias nobres da França. Perplexidade, indignação, escárnio e ódio amargo escureciam o rosto da crescente multidão, mas em uma face nenhuma sombra repousava. O mártir só tinha consciência da presença do Senhor.

O rosto de Berquin brilhava com a luz do C éu. Ele vestia “uma capa de veludo, uma jaqueta de cetim adamascado e calças douradas”. 5 Estava prestes a testemunhar de sua fé na presença do Rei dos reis, e nenhum sinal de lamento contradiria sua alegria.

À medida que a procissão se movia vagarosamente pelas ruas lotadas, o povo observava com espanto seu olhar de alegre triunfo. Diziam: “Ele parece alguém sentado em um templo, meditando somente em coisas santas.”

Berquin na Estaca

Na estaca, Berquin tentou proferir algumas palavras ao povo, mas os monges começaram a gritar, e os soldados a desferir suas armas. Assim, o barulho sufocou a voz do mártir. Dessa maneira, em 1529, a autoridade eclesiástica mais elevada da culta Paris “deu ao populacho da França revolucionária de 1793 o exemplo abominável de reprimir no cadafalso as palavras sagradas dos que estão à beira da morte”. 6 Berquin foi estrangulado e seu corpo, consumido nas chamas.

Os mestres da fé reformada partiram para outros campos. Lef è vre seguiu para a Alemanha. Farel voltou para sua cidade natal no leste da França, a fim de espalhar a luz no lar de sua infância. A verdade que ele ensinava encontrou ouvintes. Logo foi expulso da cidade. Viajava então de vila em vila, ensinando em casas e prados escondidos. Encontrava abrigo nas florestas e em meio às cavernas rochosas que conhecera quando menino.

Assim como nos dias dos apóstolos, a perseguição tinha “servido para o progresso do evangelho” (Fp 1:12). Afastados de Paris e de Meaux, “os que haviam sido dispersos pregavam a palavra por onde quer que fossem” (At 8:4). Dessa maneira, a luz encontrou caminho em muitas províncias remotas da França.

O Chamado de Calvino

Em uma das escolas de Paris, havia um jovem calado e pensativo, conhecido por sua vida irrepreensível, seu vigor intelectual e sua devoção religiosa. Sua inteligência e seu esforço o transformaram no orgulho do colégio, e as pessoas achavam que João Calvino se transformaria em um dos mais eficazes defensores da igreja.

Mas um raio de luz divina invadiu as paredes do escolasticismo e das superstições que envolviam Calvino. Olivetan, primo de Calvino, havia se unido à Reforma. Os dois discutiram juntos as questões que afligiam a cristandade. Olivetan, o protestante, disse: “Há somente duas religiões no mundo. Aquela [...] que os seres humanos inventaram, na [...] qual nos salvamos por meio de cerimônias e boas obras; a outra é a religião revelada na Bíblia, que nos ensina a procurar salvação somente pela livre graça de Deus.”

“Não aceito nenhuma de suas novas doutrinas!”, exclamou Calvino. “Você pensa que eu vivi no erro a vida inteira?” 7 Todavia, quando ficou sozinho em seu quarto, Calvino pensou nas palavras do primo. Viu-se sem intercessor na presença do justo e santo Juiz. As orações aos santos, as boas obras, as cerimônias da igreja – nada disso tinha poder para expiar pecados. Confissões e penitências eram incapazes de reconciliar o pecador com Deus.

Testemunho Junto à Fogueira

Certo dia, quando por acaso estava em uma praça pública, Calvino testemunhou a queima de um herege. Em meio às torturas dessa morte horrenda e sob a terrível condenação da igreja, o mártir demonstrou fé e coragem, as quais o jovem estudante dolorosamente contrastou com o próprio desespero e a escuridão que sentia. Ele sabia que os “hereges” fundamentavam a fé na Bíblia. Decidiu estudá-la e descobrir o segredo da alegria deles.

Nas Escrituras, Calvino encontrou a Cristo. “Ó Pai!”, clamou. “O sacrifício de Jesus aplacou Tua ira, o sangue dEle lavou minhas impurezas, Sua cruz tirou minha maldição, Sua morte fez expiação por mim. [...] Tu tocaste meu coração para que eu me afastasse em desgosto de todos os outros méritos, a não ser os de Jesus.” 8

Calvino então tomou a resolução de dedicar a vida ao evangelho. Mas era de natureza tímida e queria se dedicar aos estudos. No entanto, os apelos fervorosos de seus amigos finalmente o fizeram concordar em se tornar professor público. Suas palavras eram como orvalho que cai para refrescar a terra. Na época, ele estava em uma cidade provinciana sob a proteção da princesa Margarida , que amava o evangelho e estendia sua proteção aos discípulos da verdade bíblica. A obra de Calvino começou com as pessoas dentro de seus lares. Aqueles que ouviam a mensagem levavam as boas-novas aos outros. Calvino prosseguiu, estabelecendo o alicerce das igrejas que produziriam testemunhas destemidas da verdade.

Paris receberia mais um convite para aceitar o evangelho. A cidade havia rejeitado o chamado de Lef è vre e Farel, mas novamente todas as classes da grande capital ouviriam a mensagem. O rei ainda não havia se posicionado por completo ao lado de Roma contra a Reforma. Margarida resolveu pregar a fé reformada em Paris. Ela ordenou que um ministro protestante pregasse nas igrejas. Quando as autoridades papais proibiram que isso acontecesse, a princesa abriu o palácio. Foi anunciado que todos os dias seria pregado um sermão, e o povo estava convidado a comparecer. Milhares se reuniam diariamente.

Então o rei ordenou que duas das igrejas de Paris fossem abertas. Nunca antes a cidade fora tão tocada pela Palavra de Deus. Temperança, pureza, ordem e diligência começaram a tomar o lugar da embriaguez, imoralidade, das contendas e da ociosidade. Embora muitos aceitassem o evangelho, a maioria do povo o rejeitava. Os líderes que favoreciam o papado conseguiram retomar sua influência. Mais uma vez, as igrejas foram fechadas, e as fogueiras se acenderam.

Calvino continuava em Paris. Por fim, as autoridades decidiram levá-lo para as chamas. Ele não fazia ideia do perigo que corria quando amigos entraram apressados em seu quarto com a notícia de que havia oficiais a caminho para prendê-lo. Naquele mesmo instante, ouviram uma forte batida na porta exterior. Não havia nenhum momento a perder. Alguns amigos detiveram os oficiais à porta, enquanto outros ajudaram o reformador a descer pela janela. Ele foi às pressas para a cabana de um trabalhador amigo da Reforma. Disfarçado com as roupas de seu anfitrião e com uma enxada no ombro, Calvino começou sua jornada. Viajou para o sul e, mais uma vez, encontrou refúgio no território da princesa Margarida.

Calvino não conseguiria permanecer inativo por tanto tempo. Assim que a tempestade se acalmou um pouco, ele partiu para um novo campo de atividade em Poitiers, onde algumas pessoas já eram favoráveis aos novos pontos de vista. Gente de todas as classes ouvia o evangelho com alegria. À medida que o número de ouvintes cresceu, os reformadores pensaram que seria mais seguro se reunir fora da cidade. Como ponto de encontro, escolheram uma caverna na qual as árvores e rochas dependuradas os mantinham completamente escondidos. Naquele lugar recluso, eles liam e explicavam a Bíblia. Lá os protestantes franceses celebraram a ceia do Senhor pela primeira vez. Aquela pequena igreja enviou vários evangelistas fiéis para outros lugares.

Mais uma vez, Calvino voltou para Paris, mas encontrou quase todas as portas fechadas para sua obra. Por fim, decidiu ir para a Alemanha. Logo depois que saiu da França, os protestantes enfrentaram problemas. Os reformadores franceses resolveram convocar a nação inteira por meio de um golpe ousado contra as superstições de Roma. Cartazes atacando a liturgia da missa foram espalhados por toda a França na mesma noite. Esse movimento zeloso, mas desprovido de sabedoria, deu aos católicos romanos o pretexto de que precisavam para destruir os “hereges”, classificando-os como agitadores perigosos para o trono e para a paz da nação.

Um dos cartazes foi afixado na porta do quarto de dormir do rei. A ousadia sem precedentes de infiltrar essas mensagens chocantes na presença real deixou o monarca furioso. Ele expressou sua raiva nestas terríveis palavras: “Prendam, sem distinção, todos os suspeitos de luteresia. Exterminarei todos.” 9 O rei decidiu colocar sua influência completamente ao lado de Roma.

Um Reinado de Terror

Um dos presos foi um homem pobre que muitas vezes tinha a incumbência de chamar os cristãos para as reuniões secretas. Ameaçado de morte imediata na estaca, ele recebeu a ordem de levar o emissário papal à casa de cada protestante da cidade. O medo das chamas tomou conta dele, e o homem concordou em trair seus irmãos. Morin, o detetive real, acompanhado do traidor, passou devagar e silenciosamente pelas ruas da cidade. Quando chegavam à casa de um luterano, o traidor fazia um sinal, mas não dizia nada. A procissão parava, soldados entravam na casa, arrastavam a família para fora, acorrentavam seus membros e o terrível séquito prosseguia em busca de novas vítimas. “Morin fez a cidade inteira tremer. [...] Foi um reinado de terror.” 10

As vítimas foram colocadas para morrer sob cruel tortura, com a ordem de abaixar o fogo a fim de prolongar a agonia. Mas morreram como vencedoras, com o compromisso inabalado e a paz desanuviada. Os perseguidores sentiram-se derrotados. “Toda a cidade de Paris pôde ver o tipo de gente que as novas opiniões produziam. Não há púlpito como a pira de um mártir. A alegria serena que iluminava a face daqueles cristãos enquanto prosseguiam [...] para o local de execução [...] fez um apelo de eloquência irresistível em prol do evangelho.” 11

Os protestantes foram acusados de tramar o massacre aos católicos, da derrubada do governo e do assassinato do rei. Os acusadores não eram capazes de apresentar nem um pingo de evidência para apoiar suas alegações. Enquanto isso, as crueldades feitas aos inocentes protestantes se acumulavam como um imenso peso de castigo devido e, em séculos posteriores, acarretou exatamente a queda que os acusadores haviam predito para o rei, seu governo e seus súditos. Na verdade, quem fez isso foram infiéis e os próprios defensores do papa. A repressão do protestantismo traria esses desastres terríveis à França.

Suspeita, desconfiança e terror se espalharam para todas as classes da sociedade. Centenas fugiram de Paris, exilando-se de sua terra natal. Em muitos casos, a partida foi o primeiro indício de que a pessoa era favorável à fé reformada. Os oficiais que apoiavam o papa olhavam em volta perplexos ao se dar conta dos “hereges” inesperados que haviam sido tolerados no meio deles.

Proibição da Imprensa

O rei Francisco I se deleitava em reunir eruditos de todos os países em sua corte. No novo zelo de erradicar as heresias, esse patrono do conhecimento proclamou um edito abolindo a impressa em toda a França! Francisco I foi um dos muitos exemplos da história a demonstrar que cultura intelectual não impede a manifestação de intolerância religiosa e perseguição.

Os padres exigiam sangue para expiar o insulto feito ao alto C éu por causa da condenação da missa. O dia ٢١ de janeiro de ١٥٣٥ foi escolhido para a terrível cerimônia. Na frente de todas as portas , havia uma tocha acesa em honra ao “santo sacramento”. Antes do dia raiar, a procissão se formou no palácio do rei.

“O bispo de Paris levava a hóstia debaixo de um magnífico dossel [...] carregado por quatro príncipes da realeza. [...] Após o anfitrião, ia o rei. [...] Naquele dia, Francisco I não usou coroa, nem veste real.” 12 Diante de cada altar, ele se prostrava em humilhação, não pelos vícios que contaminavam sua alma, nem pelo sangue inocente que manchava suas mãos, mas pelo “pecado mortal” de seus súditos que haviam ousado condenar a liturgia da missa.

O rei apareceu no grande saguão do palácio do bispo. Em palavras de tocante eloquência, lamentou “o crime, a blasfêmia, o dia de tristeza e desgraça” que tinham sobrevindo à nação. E ntão conclamou todos os súditos leais a ajudarem a erradicar a “heresia” mortal que ameaçava a França de ruína. Lágrimas embargaram sua voz e toda a assembleia chorou, exclamando em conjunto: “Viveremos e morreremos pela religião católica!” 13

“A graça que traz salvação” aparecera, mas a França, iluminada por seu brilho, lhe deu as costas, escolhendo as trevas em lugar da luz. Chamaram o mal de bem e o bem de mal, até caírem vítimas do próprio engano. Rejeitaram, deliberadamente, a luz que poderia salv á-los do engano e de manchar o coração com a culpa por sangue inocente.

Mais uma vez, a procissão se formou. “ À curta distância uns dos outros, foram construídos cadafalsos nos quais determinados cristãos protestantes seriam queimados vivos. Tudo foi organizado para que o fogo fosse aceso no momento em que o rei se aproximasse e a procissão parasse a fim de testemunhar a execução.” 14 Não havia hesitação por parte das vítimas. Quando pediram a um que se retratasse, ele respondeu: “Só creio naquilo que os profetas e apóstolos pregaram muito tempo atrás e no que todos os santos acreditaram. Minha fé tem uma confiança em Deus capaz de resistir a todos os poderes do inferno .” 15

Quando chegaram ao palácio, a multidão se dispersou. O rei e os oficiais da igreja se retiraram, parabenizando-se porque a obra continuaria até a “heresia” ser destruída por completo.

O evangelho da paz que a França rejeitou realmente seria extirpado, mas as consequências seriam terríveis. Em 21 de janeiro de 1793, outra procissão passou pelas ruas de Paris. “Mais uma vez, o rei era a figura principal, mais uma vez houve alvoroço e gritaria, mais uma vez o clamor por mais vítimas foi ouvido, mais uma vez houve cadafalsos negros, mais uma vez as cenas do dia terminaram com execuções horrendas. Luís XVI, lutando contra seus carcereiros e capatazes, foi arrastado até o bloco e segurado à força até o machado cair e sua cabeça cortada rolar pelo cadafalso.” 16 Quase no mesmo lugar, dois mil e oitocentos seres humanos morreram guilhotinados.

A Reforma havia apresentado ao mundo a Bíblia aberta. O amor infinito revelara à humanidade os princípios do C éu. Quando a França rejeitou o dom do C éu, plantou as sementes da ruína. A operação inevitável de causa e consequência resultaram na Revolução Francesa e no Reinado do Terror.

O ousado e zeloso Farel tinha sido forçado a fugir de sua terra natal para a Suíça. Todavia, continuou a exercer forte influência sobre a Reforma na França. Com o auxílio de outros eLivross, Farel traduziu os escritos dos reformadores alemães para o francês e, assim como a Bíblia, esses documentos eram impressos em grande quantidade. Vendedores itinerantes de livros vendiam as obras por toda a França.

Farel começou sua obra na Suíça exercendo o papel humilde de professor, introduzindo cuidadosamente as verdades da Bíblia. Alguns acreditavam em seus ensinos, mas os padres se levantaram para deter a obra e incitaram pessoas supersticiosas para se opor a ela. “Esse não pode ser o evangelho de Cristo”, inflamavam os sacerdotes, “pois sua pregação não traz paz, mas guerra.” 17

Farel prosseguia de vila em vila, suportando fome, frio e fadiga, arriscando a própria vida em todos os lugares. Ele pregava no mercado, nas igrejas e, às vezes, nos púlpitos das catedrais. Mais de uma vez, foi espancado até quase morrer. Mesmo assim, continuava trabalhando. Uma após a outra, viu cidades e vilas que antes eram fortalezas do catolicismo abrir as portas ao evangelho.

Farel tinha o desejo de fincar o estandarte protestante em Genebra. Se essa cidade fosse conquistada, poderia se tornar o centro da Reforma na França, Suíça e Itália. Muitas das cidades e dos vilarejos vizinhos já haviam se tornado protestantes.

Com apenas um companheiro, entrou em Genebra. Mas só recebeu permissão para pregar dois sermões. Os padres o chamaram a comparecer diante de um concílio da igreja e foram com armas escondidas debaixo da roupa, determinados a lhe tirar a vida. Reuniram uma turba furiosa para garantir sua morte caso conseguisse escapar do concílio. No entanto, a presença de magistrados e de uma força armada o salvou. No início da manhã seguinte, ele foi levado para o outro lado do lago, até um lugar seguro. Assim terminou seu primeiro esforço de evangelizar Genebra.

A tentativa seguinte envolveu um instrumento mais humilde – um jovem de aparência tão simples que até os professos amigos da reforma tratavam com frieza. O que alguém assim poderia fazer onde Farel tinha sido rejeitado? “Deus [...] escolheu o que para o mundo é fraqueza para envergonhar o que é forte” (1Co 1:27).

Froment, o Professor

Froment começou sua obra como professor. As verdades que ensinava às crianças na escola eram repetidas por elas em casa. Logo os pais apareceram para ouvir o que a Bíblia explicava. Novos Testamentos e folhetos eram distribuídos de graça. Depois de um tempo, Froment também teve de fugir, mas as verdades que havia ensinado foram internalizadas na mente das pessoas. A Reforma agora estava plantada. Os pregadores retornaram, e finalmente a adoração protestante foi estabelecida em Genebra.

A cidade já havia se declarado favorável à Reforma quando Calvino entrou por suas portas. Ele estava a caminho de Basileia, mas foi forçado a fazer um desvio, passando por Genebra.

Farel reconheceu a mão de Deus naquela visita. Embora Genebra tivesse aceitado a fé reformada, a obra de regeneração precisava ser realizada pelo poder do Espírito Santo, não por decretos de concílios. Embora o povo de Genebra tivesse derrubado a autoridade de Roma, não estava tão pronto para renunciar aos vícios que haviam fincado profundas raízes durante o domínio católico.

Em nome de Deus, Farel apelou solenemente ao jovem evangelista que permanecesse e trabalhasse ali. Calvino recuou alarmado. Ele não queria confrontar o espírito ousado e até mesmo violento dos habitantes de Genebra. Desejava encontrar um lugar tranquilo para estudar, onde pudesse instruir e edificar as igrejas por meio de material impresso. Mas não ousou recusar. Parecia-lhe “que a mão de Deus estava estendida do C éu, para tomar posse dele e o segurar para sempre no lugar de onde estava tão impaciente para sair”. ١٨

A Trovoada da Condenação

As condenações do papa trovejaram contra Genebra. Como a pequena cidade seria capaz de resistir à poderosa hierarquia que havia forçado reis e imperadores a se sujeitar?

Passados os primeiros triunfos da Reforma, Roma convocou novas forças para destruí-la. Criou a ordem dos jesuítas, o mais cruel, inescrupuloso e poderoso de todos os defensores do sistema papal. Amortecidos para as súplicas da afeição natural e com a consciência completamente silenciada, seus membros não reconheciam nenhum governo, nenhum laço, a não ser os da própria ordem (ver o Apêndice).

O evangelho de Cristo havia capacitado seus seguidores a suportar sofrimento, frio, fome, labuta e pobreza, exaltando a verdade em face da tortura, masmorra e fogueira. O jesuitismo inspirou seus seguidores com um fanatismo que lhes permitiu suportar perigos semelhantes e reunir todas as armas do engano contra o poder da verdade. Não havia crime grande demais a se cometer, nem engano vil demais para praticar ou disfarce difícil demais para assumir. Seu objetivo calculado era derrubar o protestantismo e restabelecer a supremacia papal.

Revestiam-se de uma aparência de santidade, visitando prisões e hospitais, cuidando dos doentes e pobres, levando sobre si o nome santo de Jesus, que andou fazendo o bem. Contudo, debaixo do exterior imaculado, com frequência ocultavam intenções criminosas e mortais.

Um princípio fundamental da ordem é que o fim justifica os meios. Mentira, roubo, perjúrio e assassinato eram louváveis quando ajudavam a cumprir os objetivos da igreja. Disfarçados, os jesuítas se infiltraram nos gabinetes de Estado, tornavam-se conselheiros reais e moldavam a política das nações. Tornavam-se servos a fim de desempenhar o papel de espias contra seus patrões. Fundavam faculdades para príncipes e nobres, bem como escolas para o povo comum. Atraíam os filhos de pais protestantes a observar os ritos católicos. Assim, a liberdade pela qual os pais trabalharam e sangraram era traída pelos filhos. Onde quer que fosse um jesuíta, seguia-se um reavivamento católico.

Para lhes dar maior poder, o papa promulgou um decreto reinstituindo a Inquisição. Mais uma vez, as autoridades da igreja estabeleceram esse terrível tribunal e atrocidades terríveis demais para ver a luz do dia foram repetidas em suas masmorras secretas. Em muitos países, milhares de milhares dos melhores da nação, os mais intelectuais e eruditos, foram mortos ou forçados a fugir para outras terras (ver o Apêndice).

Vitórias da Reforma

Roma usava métodos como esses para apagar a luz da Reforma e restaurar a ignorância da era das trevas. No entanto, pelas bênçãos de Deus e os esforços de homens nobres que ele levantou para seguirem Lutero, o protestantismo não foi derrubado. O movimento não devia sua força ao poderio militar dos príncipes. As nações mais humildes e menos poderosas se tornaram sua fortaleza. Foram a pequena Genebra; a Holanda, que lutava contra a tirania da Espanha; e a gélida Suécia, coberta de neve, que conquistaram vitórias para a Reforma.

Por quase trinta anos, Calvino trabalhou em Genebra para espalhar a Reforma por toda a Europa. Seu comportamento não era irrepreensível, nem suas doutrinas desprovidas de erro. Mas ele foi essencial na proclamação de verdades de importância especial, em manter a força do protestantismo contra a rápida maré de retorno do papado e na promoção da simplicidade e pureza de vida nas igrejas reformadas.

Publicações e professores saíam de Genebra para espalhar as doutrinas reformadas. Os perseguidos de todas as terras buscavam em Genebra instrução e ânimo. A cidade de Calvino se tornou um refúgio para os reformadores caçados de toda a Europa ocidental. Genebra os recebia de braços abertos e, quando encontravam um lar ali, abençoavam a cidade adotada com suas habilidades, sua erudição e sua fé profunda. John Knox, o corajoso reformador escocês, muitos dos puritanos ingleses, os protestantes da Holanda e da Espanha e os huguenotes da França – todos eles carregaram a tocha de Genebra para iluminar a escuridão de sua terra natal.

1 James A. Wylie, , v. 13, cap. 1.

2 Ibid., v. 13, cap. 2.

3 J. H. Merle D’Aubigné, , v. 12, cap. 3.

4 Ibid., v. 13, cap. 9.

5 D’Aubigné, , v. 2, cap. 16.

6 Wylie, v. 13, cap. 9.

7 Ibid., v. 13, cap. 7.

8 W. Carlos Martyn, , v. 3, cap. 13.

9 D’Aubigné, v. 2, cap. 30.

10 Ibid., v. 4, cap. 10.

11 Wylie, v. 13, cap. 20.

12 Ibid., v. 13, cap. 21.

13 D’Aubigné, v. 4, cap. 12.

14 Wylie, v. 13, cap. 21.

15 D’Aubigné, v. 4, cap. 12.

16 Wylie, v. 13, cap. 21.

17 Ibid., v. 14, cap. 3.

18 D’Aubigné, v. 9, cap. 17.