Os Resgatados
15 :: O Reinado do Terror na França
O Reinado do Terror na França
A lgumas nações receberam a Reforma de braços abertos, como uma mensagem do Céu. Outras terras excluíram a luz do conhecimento bíblico quase completamente. Em certo país, verdade e erro lutaram pelo domínio por séculos. Até que, por fim, a verdade do C éu foi empurrada para fora. Os limites colocados pelo Espírito de Deus foram removidos de um povo que havia desprezado o dom de Sua graça. E o mundo inteiro viu o que acontece quando as pessoas rejeitam a luz de maneira obstinada.
Na França, a guerra contra a Bíblia levou à Revolução, legítimo resultado do fato de Roma ter proibido as Escrituras (ver o Apêndice). O movimento apresentou a ilustração mais vívida que o mundo já viu das consequências do ensino da igreja de Roma.
Em Apocalipse, João aponta para os terríveis resultados que sobreviriam de maneira especial à França em decorrência do domínio do “homem da iniquidade”:
“Exclua, porém, o pátio exterior; não o meça, pois ele foi dado aos
gentios. Eles pisarão a cidade santa durante quarenta e dois meses. Darei poder às Minhas duas testemunhas, e elas profetizarão durante mil duzentos e sessenta dias, vestidas de pano de saco. [...] Quando eles tiverem
terminado o seu testemunho, a besta que vem do Abismo os atacará. E irá
vencê-los e matá-los. Os seus cadáveres ficarão expostos na rua principal
da grande cidade, que figuradamente é chamada Sodoma e Egito, onde também foi crucificado o seu Senhor. [...] Os habitantes da Terra se alegrarão por causa deles e festejarão, enviando presentes uns aos outros, pois esses dois profetas haviam atormentado os que habitam na Terra. Mas, depois dos três dias e meio, entrou neles um sopro de vida da parte de Deus, e eles ficaram em pé, e um grande terror tomou conta daqueles que os viram” (Ap 11:2, 3, 7, 8, 10, 11).
Os “quarenta e dois meses” e “mil duzentos e sessenta dias” são a mesma coisa, correspondendo ao período em que Roma oprimiria a igreja de Cristo. Os 1.260 anos começaram em 538 d.C. e terminaram em 1798 (ver o Apêndice). Na ocasião, o exército francês prendeu o papa, e este morreu no exílio. Desde então, a hierarquia papal nunca mais conseguiu exercer o poder que tinha antes.
A perseguição da igreja não continuou ao longo dos 1.260 anos completos. Em misericórdia por Seu povo, Deus encurtou o período dessa ardente prova por influência da Reforma.
As “duas testemunhas” representam as Escrituras do Antigo e do Novo Testamentos, testemunhas importantes da origem e permanência da lei de Deus e também do plano da salvação.
“Elas profetizarão [...] vestidas de pano de saco.” Quando a Bíblia foi proibida e seu testemunho foi pervertido, quando aqueles que ousavam proclamar suas verdades eram traídos, torturados, martirizados por sua fé ou forçados a fugir em busca de segurança, as “testemunhas” fiéis profetizaram em “pano de saco”. Foi também nos períodos mais sombrios que Deus concedeu sabedoria e autoridade a cristãos fiéis para declarar Sua verdade (ver o Apêndice).
“Se alguém quiser causar-lhes dano, da boca deles sairá fogo que devorará os seus inimigos. É assim que deve morrer qualquer pessoa que quiser causar-lhes dano” (Ap 11:5). Pisotear a Palavra de Deus tem consequências mortais!
“Quando eles tiverem terminado [estiverem terminando] o seu testemunho” (v. 7). Quando as duas testemunhas estivessem se aproximando do fim de sua obra de obscuridade, “a besta que vem do Abismo” guerrearia contra elas. Encontramos aqui uma nova manifestação de poder satânico.
Embora professasse reverência pela Bíblia, a prática de Roma era manter as Escrituras trancadas em uma língua desconhecida, escondidas do povo. Sob seu domínio, as testemunhas profetizaram vestidas de “pano de saco”. Mas “a besta que vem do Abismo” faria guerra aberta e determinada contra a Palavra de Deus.
A “grande cidade” em cujas ruas as testemunhas seriam mortas e onde o cadáver delas ficaria é o Egito espiritual. De todas as nações na história bíblica, o Egito foi a que negou com maior ousadia a existência do Deus vivo e resistiu a Suas ordens. Nenhum governante jamais ousou se rebelar contra o Céu com arrogância maior que o rei do Egito, o faraó: “Quem é o
Senhor, para que eu Lhe obedeça e deixe Israel sair?” (Êx 5:2). Isso é ateísmo; e a nação representada pelo Egito na profecia ecoaria uma negação semelhante em relação ao Deus vivo, demonstrando um espírito semelhante de rebeldia.
“A grande cidade” da profecia também é comparada a Sodoma espiritual. A corrupção de Sodoma ficou evidente de maneira especial por meio da impureza sexual aberta. Essa também seria uma característica da nação que cumpriria esse texto bíblico.
Assim, de acordo com o profeta, pouco antes de 1798, algum poder de caráter satânico surgiria para guerrear contra a Bíblia. E na terra onde “as duas testemunhas” da Palavra de Deus seriam silenciadas, o ateísmo de faraó e a luxúria sexual de Sodoma ficariam evidentes.
Cumprimento Notável da Profecia
Essa profecia se cumpriu de maneira notável na história da França durante a Revolução de 1793. “A França se destaca na história do mundo como o único estado no qual, por decreto da Assembleia Legislativa, foi declarado que Deus não existe. Toda a população da capital e a maioria de outros lugares, tanto mulheres quanto homens, dançaram e cantaram de alegria em aceitação desse anúncio.” 1
A França também demonstrou a característica que distinguiu Sodoma. O historiador apresenta em conjunto o ateísmo e a sexualidade libertina do país: “Em íntima associação com essas leis que afetavam a religião estava o decreto que reduzia a união do casamento – o vínculo mais sagrado que os seres humanos podem formar, e cuja permanência contribui com a maior força para a estabilidade da sociedade – a nada mais que um contrato civil de caráter temporário, entre quaisquer duas pessoas que poderiam contraí-lo e deixá-lo de lado no momento em que assim o desejassem. [...] Sophie Arnoult, atriz famosa por dizeres espirituosos, descreveu o casamento daquela era como ‘o sacramento do adultério’.”2
Inimizade Contra Cristo
“Onde também foi crucificado o seu Senhor.” Isso também se cumpriu na França. Em nenhum outro país, a verdade enfrentou oposição mais cruel. Por meio da perseguição realizada contra aqueles que se posicionaram em prol do evangelho, a França crucificou a Cristo na pessoa de Seus discípulos.
Século após século, o sangue dos santos foi derramado. Enquanto os valdenses entregavam a vida nas montanhas de Piemonte “pelo testemunho de Jesus Cristo”, os albigenses na França davam um testemunho semelhante. Os discípulos da Reforma foram condenados à morte com terríveis torturas. Reis e nobres, mulheres de berço abastado e delicadas donzelas refestelaram seus olhos com a agonia moribunda dos mártires de Jesus. Os corajosos huguenotes derramaram o sangue em muitos confrontos difíceis. Protestantes eram caçados como se fossem animais selvagens.
Alguns descendentes dos antigos cristãos que permaneceram na França do século 18, escondidos nas montanhas do sul, ainda exaltavam a fé de seus pais. Foram arrastados a uma vida inteira de escravidão nas galeras. Os mais refinados e inteligentes dos franceses foram acorrentados, em terrível tortura, em meio a ladrões e assassinos. Outros eram executados a sangue frio enquanto se ajoelhavam em oração. Seu país, desolado pela espada, pelo machado e pela fogueira “converteu-se em um vasto e sombrio deserto”. Essas atrocidades não aconteceram [...] em nenhuma Idade das Trevas, mas na brilhante era de Luís XIV. A ciência era cultivada, a literatura prosperava, o clero da corte real e da capital era formado por homens educados e eloquentes que faziam grande demonstração das graças da mansidão e da caridade”. 3
O Mais Atroz dos Crimes
Entretanto, o mais atroz dentre os terríveis atos desses horrendos séculos foi o massacre de São Bartolomeu. O rei da França, incitado por sacerdotes e oficiais da igreja, concedeu permissão para o ato. Um sino tocando no meio da noite foi o sinal para o extermínio. Milhares de protestantes, dormindo dentro de seus lares, confiando na honra de seu rei, foram arrastados para fora e assassinados.
O massacre prosseguiu por sete dias em Paris. Por ordem do rei, estendeu-se a todas as cidades nas quais havia protestantes. Nobres e camponeses, velhos e jovens, mães e filhos foram esquartejados juntos. Por toda a França, setenta mil dos melhores cidadãos da nação morreram.
“Quando a notícia do massacre chegou a Roma, o regozijo entre o clero não conhecia limites. O cardeal de Lorraine recompensou o mensageiro com mil moedas de ouro; o cânon de Santo Ângelo ecoou uma alegre saudação. Sinos tocaram em todos os campanários, fogueiras transformaram a noite em dia e o papa Gregório XIII, acompanhado por cardeais e outras autoridades da igreja, seguiram em longa procissão até a igreja de São Luís, onde o cardeal de Lorraine cantou . [ ...] Uma medalha foi fabricada para comemorar o massacre. [...] Um padre francês [...] se referiu a esse evento como ‘dia de tamanha felicidade e júbilo, no qual o santíssimo papa recebeu a notícia e se dirigiu solenemente para render graças a Deus e a São Luís’.” 4
O mesmo espírito que conduziu o massacre de São Bartolomeu também dirigiu as cenas da Revolução. Jesus Cristo foi chamado de impostor, e o clamor dos franceses infiéis foi “Acabem com o Miserável”, em refer ê ncia a Cristo. Blasfêmia e maldade andavam de mãos dadas. Em tudo isso, a França honrava a Satanás, ao passo que Cristo, com Suas características de verdade, pureza e amor altruísta, era “crucificado”.
“Quando eles tiverem terminado o seu testemunho, a besta que vem do
Abismo os atacará. E irá vencê-los e matá-los” (Ap 11:7). O poder ateu que governou a França durante a Revolução e o Reinado do Terror de fato travou esse tipo de guerra contra Deus e Sua Palavra. A Assembleia Nacional aboliu a adoração a Deus. As Bíblias eram confiscadas e queimadas em público. O governo aboliu as instituições da Bíblia. Eliminou o dia de descanso semanal e, em seu lugar, as pessoas dedicavam cada décimo dia a celebrações profanas. O batismo e a comunhão foram proibidos. Frases colocadas sobre túmulos declaravam que a morte não passava de um sono eterno.
Toda forma de culto religioso foi proibida, com exceção da adoração à “liberdade” e ao país. O “bispo constitucional de Paris foi trazido adiante [...] para declarar à Convenção que a religião a qual ele havia ensinado por tantos anos era, em todos os aspectos, uma fábula inventada pelo clero sem nenhum fundamento nem na história, nem na verdade sagrada. Em termos explícitos e solenes, negou a existência do Deus a cuja adoração ele fora consagrado”. 5
“Os habitantes da Terra se alegrarão por causa deles e festejarão, enviando presentes uns aos outros, pois esses dois profetas haviam atormentado os que habitam na Terra” (Ap 11:10). A França infiel silenciou a voz condenadora das duas testemunhas de Deus. A palavra da verdade ficou “morta” em suas ruas e aqueles que odiavam a lei do Senhor se alegraram. As pessoas desafiaram publicamente o Deus do C éu.
Ousadia Blasfema
Um dos “sacerdotes” da nova ordem disse: “Deus, se Tu existes, vinga Teu nome profanado. Eu Te desafio! Tu permaneces em silêncio. Não ousas mandar Teus trovões. Depois disto, quem crerá em Tua existência?” 6 Que eco da declaração de faraó: “Quem é o Senhor, para que eu Lhe obedeça e
deixe Israel sair?” ( Êx 5:2).
“Diz o tolo em seu coração: ‘Deus não existe’. Corromperam-se e cometeram atos detestáveis; não há ninguém que faça o bem” (Sl 14:1). E o
Senhor declara: “Não irão longe, porém; como no caso daqueles, a sua insensatez se tornará evidente a todos” (2Tm 3:9). Depois que a França renunciou à adoração do Deus vivo, desceu à idolatria degradante da adoração à deusa da razão, uma mulher imoral. E isso aconteceu na assembleia representativa da nação! “Uma das cerimônias dessa época insana não se iguala a nenhuma outra em absurdo, bem como no insulto a Deus. As portas da Convenção foram abertas. [...] Os membros do governo da cidade entraram em solene procissão, cantando um hino de louvor à liberdade e escoltando, como objeto de sua adoração futura, uma mulher velada, a quem chamaram de deusa da razão. Ela foi conduzida à frente, onde foi exibida com grande cerimônia e colocada bem em frente ao presidente. As pessoas a reconheceram como uma das dançarinas da ópera.”
A Deusa da Razão
“Por toda a naç ão, onde quer que os habitantes desejavam mostrar que haviam aderido plenamente à Revolução, as pessoas imitavam essa apresentação da deusa da Razão.” 7
Quando a “deusa” foi trazida para dentro da Convenção, o orador a tomou pela mão, voltou-se para a assembleia e disse: “Mortais, parem de tremer diante dos trovões impotentes de um Deus criado por seus temores. De agora para frente, não reconheçam nenhum deus além da Razão. Ofereço-lhes sua mais nobre e pura imagem. Se precisam ter ídolos, sacrifiquem somente a esta. [...]
“A deusa, depois de ser abraçada pelo presidente, se assentou em um veículo magnífico e foi levada para a catedral de Notre Dame, a fim de tomar o lugar de Deus. Ali foi elevada em um grande altar e adorada por todos os presentes.” 8
A igreja havia começado a obra que o ateísmo estava terminando, conduzindo a França a passos largos para a ruína. Ao se referir aos horrores da Revolução, os escritores dizem que esses excessos foram culpa dos reis e da igreja (ver o Apêndice). Para se fazer real justiça, é necessário atribuí-los apenas à igreja. O sistema papal havia envenenado a mente dos reis contra a Reforma. O espírito de Roma inspirava a crueldade e a opressão que emanavam do trono.
Em todos os lugares onde as pessoas aceitavam o evangelho, a mente era desperta. Homens e mulheres começavam a se livrar das cadeias que os haviam mantido na escravidão da ignorância e das superstições. Os reis percebiam isso e temiam perder o poder.
Roma aproveitou cada oportunidade para inflamar esses temores. Em 1525, o papa disse ao regente da França: “Esta mania [o protestantismo] derrotará e destruirá não só a religião, mas todos os estados, toda a nobreza, todas as leis, ordens e posições.” Um oficial do papa advertiu o rei: “Os protestantes subverterão toda a ordem civil, bem como a religiosa. [...] O trono corre tanto risco quanto o altar.” 9 Roma conseguiu colocar a França contra a Reforma.
Os ensinos da Bíblia teriam implantado no coração das pessoas os princípios da justiça, temperança e verdade, os quais consistem na pedra fundamental da prosperidade de uma nação. “O pecado é uma vergonha para qualquer povo” (Pv 14:34). “O trono se firma pela justiça” (Pv 16:12; Is 32:17). O indivíduo que obedece à lei de Deus é o que mais respeita e obedece verdadeiramente às leis do país. Mas a França proibiu a Bíblia. Século após século, cristãos íntegros, dotados de força intelectual e moral, que tinham fé suficiente para sofrer pela fé, trabalharam como escravos nas galeras dos navios, morreram queimados ou apodreceram em celas subterrâneas. Por 250 anos após o início da Reforma, milhares só encontraram segurança ao partir da França.
“Dificilmente houve uma geração de franceses durante aquele longo período que não visse os discípulos do evangelho fugirem da fúria insana do perseguidor, levando consigo a inteligência, a arte, a indústria, a ordem, nos quais costumavam ser os melhores do país, para enriquecer as terras onde encontravam refúgio. [...] Se a França houvesse permanecido com todos aqueles a quem repeliu, que [...] país grandioso, próspero e feliz – um padrão para as nações – ela teria sido! Mas um fanatismo cego e implacável caçou de seu solo todo mestre da virtude, todo promotor da ordem, todo defensor honesto do trono. [...] Por fim, a ruína do estado foi completa.” 10 A Revolução, com todos os seus horrores, foi o resultado.
O Que Poderia Ter Sido
“Com a fuga dos huguenotes, um declínio generalizado se instalou na França. Prósperas cidades manufatureiras caíram em decadência. [...] Estima-se que, na época em que a Revolução começou, duzentos mil pobres em Paris clamavam por caridade das mãos do rei. Somente os jesuítas prosperavam na nação decadente.” 11
O evangelho teria dado à França a solução para os problemas que levavam perplexidade ao clero, ao rei e aos legisladores que finalmente fizeram a nação afundar em ruína. Sob o domínio de Roma, porém, as pessoas haviam perdido de vista as lições de sacrifício pessoal e amor altruísta pelo bem dos outros, ensinadas pelo Salvador. Os ricos não recebiam repreensão nenhuma por oprimir os pobres , e os pobres não eram ajudados em nada em sua condição de miséria. O egoísmo dos ricos e poderosos se tornou cada vez mais opressor. Ao longo de séculos, os ricos defraudavam os pobres, e os pobres odiavam os ricos.
Em muitas províncias, as classes trabalhadoras ficavam à mercê dos donos das propriedades onde moravam de aluguel e eram forçados a se submeter a exigências exorbitantes. As classes média e baixa pagavam impostos elevados às autoridades civis e ao clero. “Os fazendeiros e camponeses podiam passar fome que seus opressores não ligavam. [...] A vida dos trabalhadores agrícolas consistia em trabalho infindável e miséria sem alívio. Suas queixas [...] eram tratadas com desprezo insolente. [...] Os juízes eram conhecidos por aceitar suborno. [...] Menos de metade dos impostos chegava ao tesouro real ou eclesiástico. Os cobradores ficavam com o restante e desperdiçavam em vergonhosa autocondescendência. E aqueles que assim empobreciam seus compatriotas não precisavam pagar impostos e tinham direito, por lei ou costume, a todos os privilégios do estado. [...] Para que pudessem gratificar seus desejos egoístas, milhões eram condenados a uma vida degradante e sem esperança” (ver o Apêndice).
Por mais de meio século antes da Revolução, o rei Luís XV ocupou o trono. Ele era bem conhecido como um monarca preguiçoso, superficial e autoindulgente. Com o estado em dificuldades financeiras e o povo exasperado, não era necessário ser profeta para prever um terrível desfecho. Os conselheiros do rei insistiam quanto à necessidade de reforma, mas ele não dava ouvidos. A destruição que sobreviria à França foi bem retratada pela resposta egoísta do rei: “Depois de mim, o dilúvio!”
Roma havia influenciado os reis e as classes dominantes a manter o povo em cativeiro, com a intenção de atar a alma tanto dos governantes quanto das pessoas comuns em suas cadeias. A degradação moral era mil vezes mais terrível do que o sofrimento físico que resultava dessa política. Privadas da Bíblia e completamente entregues ao egoísmo, as pessoas eram envoltas em ignorância e afundaram no vício, sem qualquer aptidão para governar a si próprias.
Consequências Colhidas com Sangue
Em vez de manter o povo comum em cega submissão a seus ensinos, a obra de Roma acabou por transformá-lo em infiéis e revolucionários. As pessoas desprezavam o catolicismo romano como enganos dos padres. Mas o único Deus que conheciam era o deus de Roma. Achavam que a ganância e a crueldade de Roma eram fruto da Bíblia e não queriam saber dela por nada.
Roma havia representado incorretamente o caráter de Deus; por isso, o povo passou a rejeitar tanto a Bíblia quanto seu Autor. Em reação, Voltaire e seus associados colocaram a Palavra do Senhor totalmente de lado e espalharam seus ensinos anticristãos. Roma havia conservado as pessoas debaixo de sua pisada de ferro; então o povo, revoltado, passou a se livrar de toda e qualquer restrição. Enraivecidos, os indivíduos rejeitaram tanto a verdade quanto os erros.
No início da Revolução, embora relutante, o rei concedeu ao povo mais representação política do que a nobreza e o clero somados. Assim, a balança do poder estava nas mãos do povo, mas este não se achava preparado para usá-lo com sabedoria e moderação. Os cidadãos irados estavam determinados a se vingar. Os oprimidos colocaram em prática a lição que haviam aprendido sob a tirania e se tornaram opressores daqueles que os tinham oprimido.
A França ceifou uma colheita de sangue por sua submissão a Roma. No local onde a França católica havia acendido sua primeira fogueira, a Revolução ergueu a primeira guilhotina. No lugar onde os primeiros mártires da fé protestante foram queimados no século 16, as primeiras vítimas foram guilhotinadas no século 18. Quando a nação se livrou das amarras da lei de Deus, afundou em revolta e anarquia. A guerra contra a Bíblia é conhecida na história mundial como o Reinado do Terror. Aquele que triunfava hoje era condenado amanhã.
Rei, clero e nobres foram forçados a se submeter às atrocidades de uma população enlouquecida. Aqueles que decretaram a morte do rei logo se seguiram a ele no cadafalso. Uma matança generalizada foi decretada contra qualquer um suspeito de hostilidade à Revolução. A França se tornou um vasto campo para massas rivais, tomadas pela fúria de suas paixões. “Em Paris, uma revolta sucedia a outra, e os cidadãos eram divididos em uma série de facções que pareciam não ter outra intenção além de exterminar umas às outras. [...] O país estava quase falido, os exércitos clamavam por pagamento, os habitantes de Paris passavam fome, as províncias estavam perdendo tudo para ladrões armados, e a civilização quase se extinguiu em meio à anarquia e imoralidade irrestrita.”
O povo aprendera bem demais as lições de crueldade e tortura que Roma havia ensinado com tanta diligência. Dessa vez, não foram os discípulos de Jesus que foram arrastados para a estaca. Muito tempo atrás, eles haviam morrido ou sido forçados ao exílio. “Os cadafalsos ficaram vermelhos com o sangue dos padres. As galés e as prisões, lotadas de huguenotes no passado, agora se encheram de seus perseguidores. Acorrentados ao banco e trabalhando no remo, os sacerdotes católicos romanos sentiram na pele todo o sofrimento que sua igreja causara de maneira tão generalizada aos bondosos hereges” (ver o Ap êndice ).
“Então vieram os dias [...] nos quais espiões espreitavam em cada esquina, a guilhotina trabalhava duro e por muito tempo todas as manhãs, as cadeias estavam tão superlotadas quanto os pavilhões de um navio de escravos, o esgoto corria espumando com sangue até o rio Sena. [...] Longas fileiras de cativos eram metralhadas com balas de canhão. Buracos apareciam na parte inferior das embarcações lotadas. [...] Centenas de jovens rapazes e moças de dezessete anos de idade eram assassinados por aquele governo repugnante. Soldados arrancavam bebês do peito e os jogavam de lança em lança em suas fileiras” (ver o Apêndice).
Tudo isso era exatamente o que Satanás queria. Sua política é o engano, e seu propósito é trazer miséria à humanidade, a fim de desfigurar a obra divina e macular o propósito divino de amor, tudo isso para causar tristeza no Céu. Então, por meio de suas enganosas artes, ele leva as pessoas a jogarem a culpa em Deus, como se todas essas desgraças fossem resultado do plano do Criador. Quando as pessoas descobriram que o catolicismo romano era um engano, ele as incitou a considerar todas as religiões uma farsa e a Bíblia, uma fábula.
O Erro Fatal
O erro fatal que provocou tamanha miséria na França foi a ignorância de uma grande verdade: a verdadeira liberdade só pode ser encontrada dentro dos limites da lei de Deus. “Se tão somente você tivesse prestado atenção às
Minhas ordens, sua paz seria como um rio, sua retidão, como as ondas do mar” (Is 48:18).
Aqueles que se recusam a dar ouvidos à lição do Livro de Deus são convidados a lê-la na história.
Quando Satanás usou a igreja de Roma para afastar as pessoas da obediência, ele disfarçou sua obra. O Espírito de Deus impediu que seus planos alcançassem plenos resultados. O povo não conectou a consequência à sua causa e não descobriu a fonte de sua miséria. Durante a Revolução, o Concílio Nacional rejeitou abertamente a lei de Deus. E no Reinado do Terror que se seguiu, todos conseguiram ver a operação de causa e consequência.
A transgressão de uma lei justa e reta resulta em ruína. O Espírito de Deus, que em Seu papel de restrição coloca limites no poder cruel de Satanás, foi retirado em sua maior parte. E aquele que se alegra com a miséria humana recebeu permissão para fazer o que queria. Os que haviam escolhido a rebelião foram deixados para colher seus frutos. Crimes encheram a Terra. Das províncias devastadas e cidades arruinadas ecoou um terrível clamor de amarga angústia. A França foi abalada como se tivesse sofrido um terremoto. Religião, lei, ordem social, a família, o Estado e a Igreja – tudo foi derrubado pela mão ímpia que havia se levantado contra a lei de Deus.
As duas testemunhas fiéis de Deus, mortas pelo poder blasfemo “que vem
do Abismo ” , não permaneceriam em silêncio por muito tempo. “ Mas, depois dos três dias e meio, entrou neles um sopro de vida da parte de Deus, e eles ficaram em pé, e um grande terror tomou conta daqueles que os viram” (Ap 11:11). Em 1793, o decreto que colocou a Bíblia de lado foi aprovado pela Assembleia francesa. Três anos e meio depois, a mesma entidade adotou uma resolução rescindindo esses decretos. As pessoas reconheceram a necessidade da fé em Deus e em Sua Palavra como o fundamento da virtude e da moralidade.
Em relação às “duas testemunhas” [o Antigo e o Novo Testamentos], o profeta declarou ainda: “Então eles ouviram uma forte voz dos céus que lhes disse: ‘Subam para cá’. E eles subiram para os céus numa nuvem, enquanto os seus inimigos olhavam” (Ap 11:12). As duas testemunhas de Deus foram honradas como nunca antes. Em 1804, a Sociedade Bíblia Britânica e Estrangeira foi organizada, sucedida por organizações semelhantes por todo o continente europeu. Em 1816, foi fundada a Sociedade Bíblica Norte-Americana. Desde então, a Bíblia foi traduzida para muitas centenas de línguas e dialetos (ver o Apêndice).
Antes de 1792, as missões em terras estrangeiras recebiam pouca atenção. Mas, no fim do século 18, ocorreu uma grande mudança. As pessoas ficaram insatisfeitas com o racionalismo e reconheceram a necessidade de revelação divina e de uma religião vivida. A partir de então, as missões em outras terras passaram por um crescimento sem precedentes (ver o Apêndice).
O avanço na imprensa ajudou a fazer a Bíblia circular. Com a quebra de antigos preconceitos e do exclusivismo nacional, bem como com a perda do poder secular do papa, abriu-se o caminho para a Palavra de Deus entrar. A Bíblia hoje já chegou a todas as partes do globo.
O infiel Voltaire disse: “Estou cansado de ouvir as pessoas repetirem que doze homens estabeleceram a religião cristã. Provarei que um homem será suficiente para derrubá-la.” Milhões se uniram à guerra contra a Bíblia. No entanto, ela está longe da destruição. Onde havia cem cópias nos dias de Voltaire, hoje há cem mil exemplares do Livro de Deus. Nas palavras de um dos primeiros reformadores: “A Bíblia é uma bigorna que já desgastou muitos martelos.”
Tudo aquilo que se constrói sobre a autoridade humana será derrubado; mas as coisas fundamentadas sobre a rocha da Palavra de Deus permanecerão para sempre.
1 , novembro de 1870.
2 Sir Walter Scott, , v. 1, cap. 17.
3 James A. Wylie, , v. 22, cap. 7.
4 Henry White, , cap. 14, parágrafo 34.
5 Scott, v. 1, cap. 17.
6 Lacretelle, , v. 11, p. 309; em: Sir Archibald Alison, , v. 1, cap. 10. 7 Scott, v. 1, cap. 17.
8 M. A. Thiers, , v. 2, p. 370, 371.
9 D’Aubigné, , v. 2, cap. 36.
10 Wylie, v. 13, cap. 20.
11 Ibid.