Os Resgatados

Ellen G. White · Capítulo 2 de 45

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Os Resgatados

Introdução

Levantando o Véu do Futuro*

* Introdução da autora.

 

A ntes da entrada do pecado no mundo, Adão e Eva desfrutavam comunhão aberta com seu Criador. No entanto, a partir do momento em que nossos primeiros pais se separaram de Deus pela desobediência, a raça humana foi privada desse grande privilégio. O plano da redenção abriu caminho para que aqueles que vivem na Terra ainda tenham conexão com o Céu. Deus tem Se comunicado com os seres humanos por meio de Seu Espírito, dando luz divina ao mundo mediante revelações a Seus servos escolhidos. “Homens falaram da parte de Deus, impelidos pelo Espírito Santo” (2Pe 1:21).

Durante os primeiros dois mil e quinhentos anos da história humana, não houve mensagem escrita da parte de Deus. Aqueles a quem Deus instruía comunicavam seu conhecimento aos outros, o qual foi transmitido de pai para filho ao longo de muitas gerações. O registro desses fatos começou na época de Moisés. Revelações inspiradas foram reunidas em um livro. Essa obra continuou pelo período de mil e seiscentos anos – desde Moisés, o historiador da criação e da lei, até João, que registrou as maiores verdades do evangelho.

A Bíblia revela que Deus é seu autor, mas ela foi escrita por mãos humanas. O estilo variado de seus diferentes livros reflete as características individuais dos escritos. Todas as verdades reveladas foram inspiradas por Deus (2Tm 3:16), porém expressas em palavras humanas. Seu Espírito Santo, o Infinito, trouxe luz à mente e ao coração de Seus servos. Ele deu sonhos e visões, símbolos e ilustrações. Então aqueles a quem o Senhor revelou essas verdades traduziram o pensamento em linguagem humana.

Escritos em eras diferentes, por homens que divergiram bastante em posição social, profissão, capacidade mental e espiritual, os livros da Bíblia apresentam forte contraste em estilo, bem como diversidade nos tipos de assuntos que abordam. Os muitos autores usam formas diferentes de expressão. Com frequência, um apresenta a mesma verdade de forma mais impressionante que o outro. Uma vez que os vários autores abordam os assuntos de formas diferentes e de perspectivas diferentes, os leitores superficiais, descuidados ou tomados pelo preconceito podem pensar que estão se deparando com uma discrepância ou contradição, ao passo que o estudante reflexivo e reverente, com percepção mais clara, reconhece a harmonia subjacente.

Os diferentes autores expõem a verdade em seus variados aspectos. Um autor se impressiona mais fortemente com um determinado aspecto do assunto e compreende o ponto relacionado à sua experiência ou à sua habilidade de compreendê-lo e apreciá-lo. Outro se identifica com um aspecto diferente. Sob a orientação do Espírito Santo, cada um apresenta aquilo que impressionou sua mente com mais força – há um aspecto diferente da verdade em cada um deles, mas harmonia perfeita em todos. As verdades reveladas dessa maneira se unem para formar um todo perfeito, adaptado para satisfazer as necessidades humanas em todas as circunstâncias e experiências da vida.

Deus escolheu comunicar Sua verdade ao mundo usando agentes humanos. Ele mesmo, por intermédio de Seu Espírito Santo, qualificou homens e mulheres, capacitando-os para essa obra. Guiou a mente de todos eles na seleção do que falar e escrever. Deus confiou o tesouro a vasos terrenos; porém, ele ainda provém do Céu. A mensagem nos é dada por meio da expressão imperfeita da linguagem humana; mesmo assim, ela é o testemunho de Deus. O filho de Deus obediente e cheio de fé identifica nessa mensagem a glória do poder divino, cheio de graça e verdade.

Em Sua Palavra, Deus nos deixou o conhecimento necessário para a salvação. Devemos aceitar as Escrituras Sagradas como a revelação infalível e repleta de autoridade de Sua vontade. Elas são o padrão do caráter, a revelação das doutrinas e a prova da experiência cristã. “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra” (2Tm 3:16, 17).

O fato de Deus ter revelado Sua vontade à raça humana por meio de Sua palavra não torna desnecessárias a presença contínua e a orientação do Espírito Santo. Pelo contrário, nosso Salvador prometeu dar o Espírito para abrir a Palavra a Seus servos, iluminá-los e ajudá-los a aplicar seus ensinos. Uma vez que foi o Espírito de Deus quem inspirou a Bíblia, é impossível que Seus ensinos sejam contrários aos da Palavra de Deus.

O Espírito não foi dado – e nunca será – para substituir a Bíblia, porque as Escrituras dizem, explicitamente, que a Palavra de Deus é o padrão de prova de qualquer ensino e experiência. O apóstolo João diz: “Amados, não

creiam em qualquer espírito, mas examinem os espíritos para ver se eles procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo”

(1Jo 4:1). E Isaías declara: “‘À lei e aos mandamentos!’ Se eles não falarem conforme esta palavra, vocês jamais verão a luz!” (Is 8:20).

A obra do Espírito Santo tem sido maculada pelos erros de pessoas que alegam ser iluminadas pelo Espírito e então dizem que não precisam mais da Palavra de Deus para guiá-las. São governadas por impressões que imaginam ser a voz de Deus no coração. Mas o espírito que as controla não é o Espírito de Deus. Essa prática de seguir impressões enquanto se negligencia as Escrituras só pode acarretar confusão, engano e ruína. Serve apenas para auxiliar os planos do maligno. Uma vez que o ministério do Espírito Santo é de importância vital para a igreja de Cristo, um dos planos de Satanás é usar os erros de extremistas e fanáticos para colocar a obra do Espírito em descrédito e levar o povo de Deus a negligenciar essa fonte de força que o próprio Senhor nos providenciou.

Em harmonia com a Palavra de Deus, Seu Espírito continuaria a trabalhar no decorrer da era evangélica. Durante as épocas em que as Escrituras tanto do Antigo quanto do Novo Testamento estavam sendo produzidas, o Espírito Santo não parou de comunicar luz a mentes individuais, mesmo em separado das revelações que deveriam ser incluídas no livro da Bíblia. As próprias Escrituras contam como as pessoas receberam advertências, reprimendas, conselhos e instruções por meio do Espírito Santo em questões não relacionadas ao processo de escrita da Bíblia. Também menciona profetas em diferentes eras cujas mensagens não foram registradas. Da mesma maneira, depois que a Bíblia foi concluída, o Espírito Santo continuaria a trabalhar, a fim de iluminar, advertir e consolar os filhos de Deus.

Jesus prometeu a Seus discípulos: “Mas o Conselheiro, o Espírito Santo,

que o Pai enviará em Meu nome, lhes ensinará todas as coisas e lhes fará lembrar tudo o que Eu lhes disse”. “ Mas quando o Espírito da verdade vier, Ele os guiará a toda a verdade. [...] e lhes anunciará o que está por vir” (Jo 14:26; 16:13). As Escrituras ensinam claramente que essas promessas, em vez de se limitar aos dias dos apóstolos, se estendem à igreja de Cristo em todas as eras. O Salvador garante a Seus seguidores: “E Eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos” (Mt 28:20). Paulo declarou que os dons e a obra do Espírito foram concedidos à igreja “com o fim de preparar os

 santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja

edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da

 plenitude de Cristo” (Ef 4:12, 13).

Para os cristãos de Éfeso, o apóstolo orou pedindo “que o Deus de nosso

Senhor Jesus Cristo, o glorioso Pai, lhes dê , no pleno conhecimento dEle. Oro também para que , a fim de que vocês conheçam a esperança para a qual Ele os chamou [...] e a do Seu poder para conosco, os que cremos” (Ef 1:17-19). O ministério do divino Espírito para esclarecer o entendimento e abrir a mente às coisas profundas da santa Palavra de Deus era a bênção que Paulo buscava para a igreja de Éfeso.

Após o maravilhoso derramamento do Espírito Santo no dia de Pentecostes, Pedro apelou ao povo que se arrependesse e fosse batizado em nome de Cristo para o perdão de seus pecados. Então disse: “Receberão o

dom do Espírito Santo. Pois a promessa é para vocês, para os seus filhos e para todos os que estão longe, para todos quantos o Senhor, o nosso Deus, chamar” (At 2:38, 39).

Em conexão direta com as cenas do grande dia de Deus, o Senhor prometeu, por meio do profeta Joel, a manifestação especial de Seu Espírito (Jl 2:28). Essa profecia se cumpriu parcialmente por ocasião do derramamento do Espírito no dia de Pentecostes. Entretanto, ela vai se cumprir por completo na demonstração da graça divina que acompanhará a obra final do evangelho.

O grande conflito entre o bem e o mal vai se tornar cada vez mais intenso até o fim dos tempos. Em todas as eras, Satanás tem demonstrado sua ira contra a igreja de Cristo, e Deus concedeu Sua graça e Espírito a Seu povo para fortalecê-lo a resistir ao poder do maligno. Quando os apóstolos de Cristo deveriam levar o evangelho ao mundo e registrá-lo para todas as eras futuras, eles receberam a iluminação especial do Espírito. À medida, porém, que a igreja se aproxima de seu livramento final, Satanás age com maior poder. Ele vem “cheio de fúria, pois sabe que lhe resta pouco tempo” (Ap 12:12). Ele trabalhará “com todo o poder, com sinais e com maravilhas enganadoras” (2Ts 2:9). Ao longo de seis mil anos, esse ser de extrema inteligência que, no passado, foi um dos maiores dentre os anjos de Deus, dedicou toda a sua energia à obra do engano e da ruína. Todas as profundas sutilezas da habilidade satânica que ele adquiriu, e toda crueldade que desenvolveu durante essas batalhas das eras serão usadas contra o povo de Deus no conflito final. Nesta época de perigo, os seguidores de Cristo devem levar ao mundo a mensagem de advertência do segundo advento do Senhor. Seu testemunho deve ajudar a preparar um povo para permanecer em pé ao lado d Ele, imaculado e inculpável, por ocasião de Sua vinda (2Pe 3:14). Nesta época, a igreja necessita do dom especial da graça divina e pelo menos do mesmo tanto de poder que nos dias dos apóstolos.

Por meio da iluminação do Espírito Santo, as cenas do duradouro conflito entre o bem e o mal foram mostradas à autora destas páginas. De tempos em tempos me foi permitido ver o desenrolar, em diferentes eras, do grande conflito entre Cristo, o Príncipe da vida, o Autor de nossa salvação, e Satanás, o príncipe do mal, o autor do pecado, o primeiro transgressor da santa lei de Deus. A maldade de Satanás contra Cristo tem sido direcionada contra os seguidores de Jesus. Em toda a história do passado, é possível identificar o mesmo ódio aos princípios da lei de Deus, a mesma prática de engano, por meio da qual Satanás tentou fazer o erro parecer verdade, substituir a lei divina pelas leis humanas e levar o povo a adorar a criatura em lugar do Criador. Em todas as eras, Satanás tem tentado continuamente fazer uma representação incorreta do caráter de Deus, levar as pessoas a se apegarem a um conceito falso do Criador e vê-Lo com medo e ódio, em vez de amor. O inimigo procurou descartar a lei divina, fazendo as pessoas pensarem que estão desobrigadas de seus requerimentos. Ele persegue aqueles que ousam resistir a seus enganos. Podemos ver essas coisas na história dos patriarcas, profetas e apóstolos, dos mártires e reformadores.

No grande conflito final, Satanás usará as mesmas abordagens, revelará o mesmo espírito e atuará com o mesmo objetivo de todas as eras anteriores. Aquilo que até aqui tem sido continuará a ser, com exceção de que a batalha vindoura será marcada por uma intensidade terrível, de um jeito que o mundo nunca viu. Os enganos de Satanás serão mais sutis e seus ataques, mais determinados. Se possível, ele enganaria até aqueles a quem Deus está salvando (Mc 13:22).

À medida que o Espírito de Deus abri a minha mente para as grandes verdades de Sua Palavra e para as cenas do passado e do futuro, fui instruída a tornar conhecido aos outros aquilo que me foi revelado desta maneira: delinear a história do conflito em eras passadas e, de maneira especial, apresentá-la de uma forma que lance luz sobre a batalha futura que velozmente se aproxima. Ao fazer isso, tentei selecionar e agrupar os acontecimentos da história da igreja de uma forma que mostre o desdobramento das grandes verdades que foram dadas ao mundo em épocas diferentes, as quais incitaram a ira de Satanás e o ódio da igreja que ama o mundo, as quais foram preservadas pelo testemunho daqueles que “diante da morte, não amaram a própria vida” (Ap 12:11).

Nesses relatos, encontramos uma prévia do conflito à nossa frente. Olhando para eles à luz da Palavra de Deus e, com a iluminação de Seu Espírito, conseguimos enxergar os enganos de Satanás revelados e os perigos que devemos evitar se quisermos ser achados “imaculados” perante o Senhor por ocasião de Sua vinda (Ap 14:5).

Os grandes acontecimentos que marcaram o progresso da Reforma em eras passadas são questões históricas, bem conhecidas e universalmente aceitas pelo mundo protestante. São fatos que ninguém é capaz de refutar. Apresentei brevemente essa história, de acordo com a perspectiva deste livro e a necessidade de condensar os fatos no menor espaço possível, ao mesmo tempo em que apresenta uma compreensão adequada de seu significado para nós. Em alguns casos nos quais o historiador agrupou os acontecimentos fazendo uma explanação ao mesmo tempo sucinta e abrangente do assunto, ou resumiu os detalhes de forma conveniente, suas palavras foram citadas. Para alguns deles, porém, não se deu crédito específico, uma vez que as citações não foram feitas com o propósito de citar tal autor como autoridade, mas somente porque sua declaração oferece uma apresentação conveniente e convincente do assunto. Ao contar sobre a experiência e os pontos de vista daqueles que realizaram a obra de Reforma em nossos tempos, fiz uso semelhante das obras publicadas.

Este livro não tem a intenção de apresentar novas verdades sobre as lutas dos tempos passados, mas de expor fatos e princípios que se relacionam aos eventos vindouros. Ao analisamos, porém, esses eventos como parte do conflito entre as forças da luz e das trevas, enxergamos todos os registros do passado com novo significado. Por meio deles, brilha a luz sobre o futuro, iluminando o caminho daqueles que, assim como os reformadores de eras passadas, serão chamados, mesmo correndo o risco de perder tudo que este

mundo oferece, a fim de testemunhar “por causa da Palavra de Deus e do testemunho de Jesus” (Ap 1:9).

O propósito deste livro é mostrar as cenas do grande conflito entre a verdade e o erro, revelar os enganos de Satanás e como podemos resistir a ele com sucesso, apresentar uma solução satisfatória para o grande problema do mal, lançando luz sobre a origem e o fim definitivo do pecado de uma forma que revela plenamente a justiça e a bondade de Deus em todo Seu relacionamento com Suas criaturas, demonstrando a natureza santa e imutável de Sua lei. Minha fervorosa oração é que, por meio da influência deste livro, os leitores sejam livrados do poder das trevas e se tornem

“dignos de participar da herança dos santos no reino da luz” (Cl 1:12), para o louvor dAquele que nos amou e Se entregou por nós.

Ellen G. White