Os Resgatados

Ellen G. White · Capítulo 16 de 45

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Os Resgatados

14 :: A Verdade Avança na Grã-Bretanha

A Verdade Avança na Grã-Bretanha

 

E nquanto Lutero abria a Bíblia até então fechada ao povo da Alemanha, o Espírito de Deus movia Tyndale a fazer o mesmo na Inglaterra. Wycliffe havia traduzido a Bíblia do texto em latim, o qual continha muitos erros. O preço dos manuscritos era tão alto que foram produzidos poucos.

Em 1516, o Novo Testamento foi publicado pela primeira vez em seu idioma original, o grego. Essa impressão corrigiu muitos erros das versões antigas e transmitia o significado com maior clareza. Levou muitos dos eruditos a terem um conhecimento maior da verdade e deu nova energia à obra da Reforma. Em grande parte, porém, o povo comum continuava excluído da Palavra de Deus. Tyndale completaria a obra de Wycliffe de dar a Bíblia ao povo da Inglaterra.

Ele pregava destemidamente suas convicções. Ao argumento católico de que a igreja dera a Bíblia e somente ela podia explicá-la, Tyndale respondeu: “Longe de nos dar as Escrituras, são vocês que as têm escondido de nós. São vocês que queimam aqueles que as ensinam e, se pudessem, queimariam a própria Bíblia também.” 1

A pregação de Tyndale despertou grande interesse. Mas os padres tentaram destruir sua obra. “O que se pode fazer?”, exclamou. “Não posso estar em todos os lugares. Ah, se os cristãos tivessem as Sagradas Escrituras no próprio idioma, eles mesmos seriam capazes de resistir a esses enganadores astutos. Sem a Bíblia, é impossível firmar o povo na verdade.” 2

Um novo propósito tomou conta de sua mente. “O evangelho não deveria falar a língua da Inglaterra entre nós? [...] Ao meio-dia deveria a igreja ter menos luz do que na aurora, quando surgiu? [...] Os cristãos devem ler o Novo Testamento em sua língua materna.” 3 Somente por intermédio da Bíblia o povo conseguiria chegar à verdade.

Em uma discussão com Tyndale, um católico culto exclamou: “Ficaríamos melhor sem as leis de Deus do que sem as leis do papa.” Tyndale respondeu: “Desafio o papa e todas as suas leis. E se Deus poupar minha vida, em poucos anos garantirei que um garoto que conduz o arado saiba mais da Bíblia do que você.” 4

O Novo Testamento em Inglês

Expulso de casa pela perseguição, Tyndale foi para Londres e, por um tempo, trabalhou sem ser perturbado. Mais uma vez, porém, os oficiais católicos o forçaram a ir embora. Toda a Inglaterra parecia fechada contra ele. Na Alemanha, ele começou a publicar o Novo Testamento em inglês. Quando era proibido de imprimir em uma cidade, ia para outra. Por fim, chegou a Worms, onde Lutero havia defendido o evangelho perante a assembleia alguns anos antes. Havia muitos amigos da Reforma naquela cidade. Três mil exemplares do Novo Testamento logo foram concluídos, e uma nova edição se seguiu.

A Palavra de Deus foi levada em segredo para Londres e circulou pelo país inteiro. Autoridades católicas tentaram reprimir a verdade, mas falharam. O bispo de Durham comprou o estoque inteiro de um vendedor com a intenção de queimar as Bíblias, achando que isso pudesse prejudicar a obra. Mas o dinheiro que a venda proporcionou comprou o material para a produção de uma nova edição de melhor qualidade. Posteriormente, quando Tyndale foi preso, ofereceram-lhe a liberdade caso revelasse o nome daqueles que o ajudaram com as despesas de publicação das Bíblias. Ele respondeu que o bispo de Durham fizera mais do que qualquer outro, ao pagar um alto valor pelos livros que havia em estoque.

Tyndale finalmente testemunhou da fé com a morte de mártir, mas as “armas” que preparou capacitaram outros soldados a batalharem ao longo dos séculos, até chegar aos nossos dias.

Latimer disse no púlpito que a Bíblia deveria ser lida na língua do povo. “Não escolhamos nenhum caminho lateral, mas permitamos que a Palavra de Deus nos dirija. Não sigamos os passos [...] dos nossos pais, nem busquemos aquilo que eles fizeram, mas o que deveriam ter feito.” 5

Barnes e Frith, Ridley e Cranmer, líderes da Reforma inglesa, eram homens cultos, de reputação impecável por seu zelo e sua piedade dentro da religião católica. Eles se opuseram ao papado porque conheciam os erros da “Santa S é”.

Autoridade Infalível das Escrituras

O grande princípio que esses reformadores defendiam – o mesmo dos valdenses, de Wycliffe, Huss, Lutero, Zuínglio e seus seguidores – era a autoridade infalível das Escrituras. Era pelos ensinos da Bíblia que testavam todas as doutrinas e afirmações. A fé na Palavra de Deus sustentava esses santos homens ao abrirem mão da própria vida na fogueira. “Tende bom ânimo”, exclamou Latimer para o mártir a seu lado quando as chamas estavam prestes a silenciar a voz de ambos. “Hoje, pela graça de Deus, acenderemos tamanha vela na Inglaterra que, creio eu, jamais se extinguirá.” 6

Por centenas de anos, após as igrejas da Inglaterra se sujeitarem a Roma, as igrejas escocesas mantiveram sua liberdade. No século 12, porém, o catolicismo se estabeleceu ali também e em nenhum país as trevas foram mais densas. Mesmo assim, raios de luz chegavam para penetrar na escuridão. Os lolardos vinham da Inglaterra com a Bíblia e os ensinos de Wycliffe e muito conseguiram fazer para preservar o conhecimento do evangelho. Com o início da Reforma, chegaram os escritos de Lutero e o Novo Testamento em inglês de Tyndale. Esses mensageiros percorriam em silêncio montanhas e vales, soprando nova vida à tocha da verdade que quase se apagara, desfazendo a obra que quatro séculos de opressão haviam consolidado.

De repente, porém, ao se aperceber do perigo, os líderes católicos levaram para a estaca alguns dos mais nobres homens da Escócia. Enquanto morriam, essas testemunhas encheram o coração das pessoas de toda aquela terra com a determinação implacável de se livrar das cadeias de Roma.

John Knox

Hamilton e Wishart, com grande número de discípulos mais humildes, abriram mão da própria vida e foram martirizados na fogueira. Mas, das cinzas de Wishart, outro homem se levantou, e a este as chamas não silenciariam. Sob a orientação divina, ele daria fim ao poder de Roma sobre a Escócia.

John Knox se afastou das tradições da igreja para se alimentar das verdades da Palavra de Deus. Os ensinos de Wishart confirmaram sua decisão de abandonar Roma e se unir aos reformadores perseguidos.

Seus amigos insistiram para que pregasse, mas ele tremia de medo diante dessa responsabilidade. Somente após dias de doloroso conflito interior Knox consentiu. No entanto, depois de aceitar a posição, prosseguiu com coragem infalível. Esse reformador de coração sincero não temia ninguém. Quando foi colocado face a face com a rainha da Escócia, John Knox não se deixou conquistar por seus favores, nem perdeu a coragem diante das ameaças. A rainha disse que ele havia ensinado o povo a aceitar uma religião proibida pelo Estado e, assim, havia transgredido o mandamento de Deus que ordenava aos súditos obediência aos governantes. Knox respondeu com firmeza: “Se todos os descendentes de Abraão tivessem seguido a religião de faraó, de quem foram súditos por muitos anos, eu lhe pergunto, madame, que religião haveria no mundo? Ou se todos nos dias dos apóstolos tivessem seguido a religião dos imperadores romanos, que religião haveria na face da Terra?”

Maria disse: “Você interpreta as Escrituras de um jeito, e eles [os católicos romanos] de outro. Em quem devo acreditar e quem será o juiz?”

“Você deve acreditar em Deus, que fala com clareza em Sua Palavra”, respondeu o reformador. “A Palavra de Deus é clara em si mesma. Se qualquer obscuridade aparecer em algum trecho, o Espírito Santo, que nunca Se contradiz, vai explicá-la com mais nitidez em outras partes.” 7

Correndo risco de vida e com coragem inabalável, o destemido reformador prosseguiu em sua missão até a Escócia ficar livre do catolicismo.

Na Inglaterra, a instituição do protestantismo como a religião nacional reduziu a perseguição, mas não a deteve por completo. Muitas das formas de Roma foram mantidas. Os protestantes rejeitaram a supremacia do papa; porém, em seu lugar, entronizaram o rei como cabeça da igreja. A religião ainda se afastava muito da pureza do evangelho. Os protestantes ingleses ainda não compreendiam o conceito de liberdade religiosa. Embora as autoridades protestantes dificilmente recorressem às crueldades terríveis de que Roma lançava mão, não reconheciam o direito de todos adorarem a Deus de acordo com a própria consciência. Os dissidentes sofreram perseguição por centenas de anos.

Expulsão de Milhares de Pastores

No século 17, milhares de pastores foram expulsos, e as pessoas foram proibidas de participar de qualquer culto religioso que a igreja não aprovasse. Nas profundezas reclusas da floresta, os filhos perseguidos do Senhor se reuniam para derramar o coração em oração e louvor. Muitos sofreram pela fé. As cadeias estavam lotadas, e famílias eram separadas. Mesmo assim, a perseguição não foi capaz de silenciar seu testemunho. Muitos foram levados a atravessar o oceano até a América do Norte, onde estabeleceram os fundamentos da liberdade civil e religiosa.

Em uma masmorra lotada de criminosos, John Bunyan respirava a atmosfera celestial. Lá ele escreveu sua excelente alegoria da jornada do peregrino da terra da destruição até a cidade celestial. Os livros e já guiaram muitos pés ao caminho da vida.

Em uma época de trevas espirituais, Whitefield e os irmãos Wesley surgiram como portadores da luz de Deus. Sob o regime da igreja estatal, o povo havia caído em uma condição que pouco diferia do paganismo. As classes mais altas zombavam da vida piedosa; as classes mais baixas se refestelavam nos vícios. A igreja não tinha coragem, nem fé para apoiar a causa da verdade, que sofria dificuldades.

Justificação pela Fé

As pessoas haviam praticamente perdido de vista a grande doutrina da justificação pela fé que Lutero ensinara com tanta clareza. O princípio católico da confiança nas boas obras para a salvação havia assumido seu lugar. Whitefield e os irmãos Wesley buscavam com sinceridade o favor de Deus. Eles haviam aprendido que poderiam conquistá-lo por meio de uma vida de retidão e pela obediência às regras da igreja.

Certa vez, quando Carlos Wesley adoeceu e esperava a morte em breve, alguém lhe perguntou o que o levava a ter esperança de vida eterna. Ele respondeu: “Despendi meus melhores esforços para servir a Deus.” O amigo não parecia muito satisfeito com a resposta. Wesley pensou: “O quê? [...] Ele vai tirar de mim os meus esforços? Não tenho nada mais em que confiar.” 8 Era nesse tipo de escuridão que a igreja havia caído, afastando as pessoas de sua única esperança de salvação: o sangue do Redentor crucificado.

Wesley e seus companheiros chegaram à compreensão de que a lei de Deus se estende aos pensamentos tanto quanto às palavras e ações. Por meio de esforços zelosos e em atitude de oração, tentavam subjugar os males do coração natural. Levavam uma vida de humilhação e negação do eu, seguindo com cuidado todas as práticas que imaginavam ser capazes de ajud á -los a se tornar santos o bastante para ganhar o favor divino. Mas seus esforços falharam em libertá-los da condenação do pecado ou de quebrar seu poder.

O fogo da verdade divina já havia praticamente se extinguido nos altares do protestantismo, mas estava prestes a ser aceso novamente pela antiga tocha entregue pelos cristãos da Boêmia. Alguns deles, que haviam encontrado segurança na Saxônia, mantiveram viva a fé. Por meio desses cristãos, a luz chegou a Wesley.

Jo ão e Carlos Wesley foram enviados a uma missão na América do Norte. Um grupo de morávios também estava a bordo do navio. Na jornada, enfrentaram tempestades violentas. Jo ão , face a face com a morte, percebeu que não havia encontrado a certeza de paz com Deus. Os alemães demonstraram calma e confiança que ele não conhecia.

“Bem antes disso”, contou João Wesley, “eu havia observado a grande seriedade de sua conduta. [...] Agora havia a oportunidade de ver se eles seriam livrados do espírito de temor, bem como do de orgulho, raiva e vingança. No meio do salmo com o qual haviam começado seu culto, o mar invadiu o navio, quebrou em pedaços a vela principal e se derramou sobre o convés como se o grande abismo houvesse nos tragado. Gritos terríveis começaram entre os ingleses. Os alemães continuaram a cantar com toda calma. Perguntei a um deles depois: ‘Vocês não ficaram com medo?’ Ele respondeu: ‘Graças a Deus, não’. Então indaguei: ‘Mas suas mulheres e crianças não ficaram com medo?” Ele respondeu, cheio de tranquilidade: ‘Não. Nossas mulheres e crianças não têm medo da morte.’” 9

Coração “Estranhamente Aquecido”

Quando voltou para a Inglaterra, Wesley obteve uma compreensão mais clara da fé bíblica, por meio da instrução de um morávio. Na reunião da sociedade morávia em Londres, alguém leu para ele uma declaração de Lutero. Enquanto Wesley ouvia, a fé ganhou vida dentro dele. “Senti meu coração estranhamente aquecido”, contou. “Senti que confiava em Cristo e somente nEle para a salvação. Deus me deu então a certeza de que havia limpado os pecados, até mesmo os , e salvado da lei do pecado e da morte.” 10

Assim, ele descobriu que a graça que ele tanto havia se esforçado para conquistar por meio de oração, jejum e negação de si mesmo era um presente, “sem dinheiro e sem preço”. Seu coração inteiro se encheu com o desejo de espalhar por toda parte o glorioso evangelho da livre graça de Deus. “Verei o mundo inteiro como meu rebanho”, disse. “Em qualquer parte do planeta onde eu estiver, considerarei meu solene, correto e apropriado dever declarar as boas-novas da salvação a todos aqueles que estiverem dispostos a ouvir.” 11

Ele continuou com o estilo de vida rigoroso, negando o eu, mas agora isso não era mais a de sua fé, mas seus ; não a , mas o da santidade. A graça de Deus em Cristo se revela por meio da obediência. Wesley dedicou a vida a pregar as grandes verdades que recebeu: a justificação por meio da fé no sangue expiatório de Cristo e o poder renovador do Espírito Santo no coração, que produz fruto em uma vida que segue o exemplo de Cristo.

Na época da universidade, George Whitefield e os irmãos Wesley eram chamados desdenhosamente de “metodistas” pelos colegas de estudo mundanos – um nome considerado digno de honra hoje. O Espírito Santo os instigou a pregar a Cristo crucificado e milhares experimentaram a conversão genuína. Era necessário proteger essas ovelhas dos lobos vorazes. João Wesley não tinha a menor intenção de criar uma nova denominação, mas organizou os conversos por meio daquilo que foi chamado de Conexão Metodista.

A oposição que esses pregadores enfrentaram por parte da igreja instituída era misteriosa e cheia de provas, mas a verdade encontrava entrada onde as portas até então haviam permanecido fechadas. Alguns pastores despertaram de seu estupor moral e se tornaram pregadores zelosos em seus distritos.

Na época de Wesley, pessoas de diferentes dons não concordavam em todos os pontos doutrinários. Em certa ocasião, as diferenças entre Whitefield e os irmãos Wesley ameaçaram causar divisão entre eles ; porém, como haviam aprendido a mansidão na escola de Cristo, o autocontrole e a boa vontade das duas partes os uniram novamente. Não tinham tempo para discutir enquanto erros e pecados os cercavam por todos os lados.

Salvo da Morte

Pessoas influentes tentaram detê-los. Muitos pastores eram hostis e fecharam as portas de suas igrejas à fé pura. Os pastores que denunciavam os reformadores no púlpito incitaram elementos das trevas e do mal. Jo ão Wesley foi poupado da morte vez após vez por milagre da misericórdia divina. Quando parecia não haver escapatória, um anjo em forma humana aparecia a seu lado, a turba recuava e o servo de Cristo saía em segurança para longe do perigo.

Ao falar sobre um desses livramentos, Wesley afirmou: “Embora muitos tenham tentado me pegar pelo colarinho ou por minhas roupas para me derrubar, não conseguiram colocar as mãos em mim. Somente um conseguiu agarrar um bolso do meu colete com firmeza e logo este acabou em suas mãos. O outro bolso, dentro do qual havia uma nota bancária, só ficou parcialmente rasgado. [...] Um homem forte atrás de mim me golpeou diversas vezes com um grande galho de carvalho. Se tivesse me acertado somente uma vez na parte de trás da cabeça, não precisaria fazer mais nenhum esforço. Todas as vezes, porém, o golpe foi desviado. Não sei como, pois eu não conseguia me mexer nem para a esquerda, nem para a direita.” 12

Os metodistas daquela época suportavam zombaria, perseguição e, por vezes, violência. Em alguns casos, as pessoas afixavam cartazes convidando aqueles que queriam quebrar as janelas e roubar as casas dos metodistas para se reunirem em determinado horário e local. Descrentes desenvolveram uma perseguição sistemática contra um grupo de pessoas cujo único defeito era tentar conduzir os pecadores para o caminho da santidade.

Até certo ponto, o declínio espiritual na Inglaterra até a época de Wesley era consequência do ensino de que Cristo havia acabado com a lei moral e que os cristãos não tinham obrigação de guardá-la. Outros alegavam que era desnecessário os ministros insistirem para que o povo obedecesse a seus ensinos, uma vez que aqueles a quem Deus havia escolhido para a salvação seriam “levados a uma vida de piedade e virtude”, ao passo que os destinados à condenação eterna “não teriam poder para obedecer à lei divina”.

Outros acreditavam que “aqueles que o Senhor escolheu para salvar não podem cair da graça, nem perder o favor divino”. Isso os levava à terrível conclusão de que “as ações ímpias que cometem não são verdadeiramente pecaminosas [...] e, em consequência, não têm motivo nem para confessar os pecados, nem para se afastar deles por meio do arrependimento”. 13 Assim, concluíam que até mesmo um dos piores pecados “que todos consideram uma enorme transgressão da lei divina não é pecado aos olhos de Deus” se cometido por um dos escolhidos do Senhor. “Eles não podem fazer nada que desagrada a Deus, nem proibido pela lei.”

Essas doutrinas chocantes são, em essência, as mesmas que o ensino posterior de que não existe lei divina imutável como padrão do que é correto, mas que a moralidade seria algo que a própria sociedade decide, estando, portanto, constantemente sujeita a mudanças. Todas essas ideias foram inspiradas por Satanás, que, entre os habitantes sem pecado do C éu, começou a obra de minar as justas restrições da lei de Deus.

A doutrina de que os decretos divinos torna imutável o caráter das pessoas já levou muitos a rejeitarem a lei de Deus. Wesley rejeitava com firmeza essa doutrina que conduzia a uma vida desregrada. “A graça de Deus se manifestou salvadora a ” (Tt 2:11). “Deus, nosso Salvador, [...] deseja que os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. Pois há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens: o homem Jesus Cristo, o qual Se entregou a Si mesmo como resgate por ” (1Tm 2:3-6). Cristo é “a verdadeira luz, que ilumina os homens” (Jo 1:9). As pessoas perdem a salvação pela própria recusa voluntária em aceitar o dom da vida.

Em Defesa da Lei de Deus

Em resposta à alegação de que a morte de Cristo havia abolido os dez mandamentos com a lei cerimonial, Wesley declarou: “A lei moral, contida nos dez mandamentos e reforçada pelos profetas não foi anulada. Existe uma lei que nunca pode ser quebrada, pois permanece tão firme quanto as testemunhas fiéis no C éu .”

Wesley declarou que a lei e o evangelho estavam em perfeita harmonia. “De um lado, a lei abre caminho continuamente para o evangelho e nos aponta para ele. Em contrapartida, o evangelho nos leva continuamente a cumprir a lei com maior exatidão. Por exemplo, a lei requer que amemos a Deus e ao próximo, que sejamos mansos, humildes e santos. Sentimos que não somos capazes de fazer essas coisas. [...] Mas temos a promessa divina de nos dar esse amor e nos fazer andar em humildade, mansidão e santidade. Nós nos apropriamos desse evangelho, dessas boas-novas. [...] A justiça da lei se cumpre em nós por meio da fé em Cristo Jesus. [...]

“Entre os piores inimigos do evangelho de Cristo”, disse Wesley, “estão aqueles que [...] ensinam os outros a transgredirem [...] não só um mandamento, sem se importar se é o menor ou o maior, mas todos os mandamentos de uma vez. [...] Honram a Jesus assim como Judas ao dizer ‘Saudações, Rabi’ e então beijá-Lo. [...] Não é nada menos que traí- Lo com um beijo falar de Seu sangue ao mesmo tempo em que se tira Sua coroa, fazendo pouco de qualquer parte de Sua lei sob a pretensão de fazer avançar Seu evangelho.” 14

Harmonia Entre a Lei e o Evangelho

Para aqueles que afirmavam que “a pregação do evangelho cumpre todos os propósitos da lei”, Wesley respondia: “Ela não cumpre o primeiro propósito da lei, que é convencer as pessoas do pecado e despertar aqueles que ainda estão adormecidos à beira do inferno. [...] Logo, é absurdo oferecer médico para aqueles que estão bem ou pelo menos imaginam estarem bem. Primeiro é preciso convencê-los de que estão doentes. Caso contrário, não apreciarão seus esforços. É igualmente absurdo oferecer Cristo para aqueles cujo coração está inteiro, sem nunca ter se quebrado.” 15

Enquanto pregava o evangelho da graça de Deus, Wesley, assim como seu Mestre Jesus, tentava “tornar grande e gloriosa a Sua lei” (Is 42:21). E ele viveu o suficiente para ver os magníficos resultados. Ao final dos mais de cinquenta anos que dedicou ao ministério, seus seguidores chegavam a mais de meio milhão de pessoas. No entanto, só saberemos quantos foram libertados da degradação do pecado a uma vida mais elevada e pura mediante seus esforços quando toda a família de remidos se reunir no reino de Cristo. Sua vida apresenta uma lição inestimável para todos os cristãos.

Se tão somente a fé, o zelo infatigável, o sacrifício pessoal e a dedicação desse servo de Cristo se refletissem nas igrejas da atualidade! 1 J. H. Merle D’Aubigné, , v. 18, cap. 4.

2 Ibid.

3 Ibid.

4 Anderson, (ed. rev. 1862), p. 19.

5 Hugh Latimer, “First Sermon Preached Before King Edward VI”. 6 , v. 1, p. xiii.

7 David Laig, , v. 2, p. 281, 284.

8 John Whitehead, , p. 102.

9 Ibid., p. 10.

10 Ibid., p. 52.

11 Ibid., p. 74.

12 John Wesley, v. 3, p. 297, 298.

13 McClintock e Strong, , verbete “Antinomians”. 14 Wesley, sermão 35.

15 Ibid.