Os Resgatados
23 :: Desvendado o Mistério do Santuário
Desvendado o Mistério do Santuário
O texto bíblico que, acima de todos os outros, tinha sido não apenas o alicerce, mas a coluna central da fé adventista foi a declaração: “Até
duas mil e trezentas tardes e manhãs; e o santuário será purificado” (Dn 8:14, ARA). Essas eram palavras familiares para todos aqueles que acreditavam no breve retorno do Senhor. Mas Cristo não voltou. Os fiéis sabiam que a Palavra de Deus não pode falhar. Então era sua interpretação das profecias que deveria estar equivocada. Mas onde estava o erro?
Deus havia conduzido Seu povo durante o grande movimento adventista. Portanto, o Senhor não permitiria que ele terminasse em trevas e desapontamento, condenado como falso e fanático. Embora muitos tenham abandonado os cálculos dos períodos proféticos e negado o movimento que se baseou neles, outros não se mostraram dispostos a renunciar aos pontos de fé e à experiência que as Escrituras e o Espírito exaltaram. Era seu dever se apegar firmemente às verdades que já haviam compreendido. Com oração fervorosa, estudaram as Escrituras a fim de descobrir qual era o erro. Como não conseguiram encontrar erro nos cálculos dos períodos proféticos, examinaram mais de perto o tema do santuário.
Eles descobriram que não existe evidência bíblica para apoiar o ponto de vista popular de que a Terra é o santuário. No entanto, encontraram uma explicação completa nas Escrituras sobre o santuário, sua natureza, sua localização e seus ritos:
“Ora, a primeira aliança tinha regras para a adoração e também um santuário terreno. Foi levantado um tabernáculo; na parte da frente,
chamada Lugar Santo, estavam o candelabro, a mesa e os pães da
Presença. Por trás do segundo véu havia a parte chamada Lugar Santíssimo, onde se encontravam o altar de ouro para o incenso e a arca da
aliança, totalmente revestida de ouro. Nessa arca estavam o vaso de ouro
contendo o maná, a vara de Arão que floresceu e as tábuas da aliança. Acima da arca estavam os querubins da Glória, que com sua sombra cobriam a tampa da arca” (Hb 9:1-5).
O “santuário” era o tabernáculo que Moisés havia construído por ordem
de Deus como morada terrena do Altíssimo. “E farão um santuário para Mim, e Eu habitarei no meio deles” (Êx 25:8) foi a instrução que Deus deu a Moisés. O tabernáculo era uma estrutura magnífica. Além do pátio externo, o tabernáculo em si consistia de dois cômodos ou compartimentos chamados lugar santo e santíssimo, separados por uma bela cortina ou um véu. Um véu semelhante fechava a entrada do primeiro compartimento.
Lugares Santo e Santíssimo
No lugar santo, ficava um candelabro ao sul com sete lâmpadas iluminando tanto de dia quanto de noite. No lado norte, estava a mesa onde ficavam os pães da proposição. Em frente ao véu, separando o lugar santo do santíssimo, havia um altar de incenso feito de ouro, do qual uma nuvem de fragrância, com as orações de Israel, ascendia todos os dias diante de Deus.
No lugar santíssimo estava a arca, um baú revestido de ouro, a qual continha as tábuas com os dez mandamentos. Acima da arca, ficava o propiciatório, com dois anjos feitos de ouro maciço. Nesse compartimento, a presença divina aparecia na nuvem de glória entre os querubins.
Depois que os hebreus se estabeleceram em Canaã, o tabernáculo foi substituído pelo templo de Salomão. Embora fosse uma estrutura permanente e construída em maior escala, tinha as mesmas proporções e era mobiliado da mesma maneira. O santuário existiu dessa forma – com exceção do período em que permaneceu em ruínas nos tempos de Daniel – até os romanos o destruírem em 70 d.C. Esse é o único santuário na Terra sobre o qual a Bíblia fala – o santuário da primeira aliança. Mas a nova aliança não tem santuário?
Voltando-se mais uma vez para o livro de Hebreus, aqueles que buscavam a verdade descobriram que um segundo santuário, da nova aliança, era subentendido nas palavras já citadas: “Ora, a primeira aliança tinha regras para a adoração e também um santuário terreno.” Voltando para o início do capítulo anterior, eles leram: “O mais importante do que estamos tratando é
que temos um Sumo Sacerdote como esse, o qual Se assentou à direita do trono da Majestade nos C éus e serve no santuário, no verdadeiro tabernáculo que o Senhor erigiu, e não o homem” (Hb ٨:١ , 2).
Aqui a Bíblia revela o santuário da nova aliança. Moisés fez o santuário da primeira aliança; já este foi construído pelo Senhor. No primeiro santuário, sacerdotes terrenos realizavam os ritos; neste, Cristo, nosso grande Sumo Sacerdote, ministra à destra de Deus. Um santuário ficava na Terra, o outro está no Céu.
O tabernáculo construído por Moisés seguiu um modelo. O Senhor instruiu: “Façam tudo como Eu lhe mostrar, conforme o modelo do
tabernáculo e de cada utensílio” (Êx ٢٥:٩). “Tenha o cuidado de fazê-lo
segundo o modelo que lhe foi mostrado no monte” (v. 40). O primeiro tabernáculo era “uma ilustração para os nossos dias, indicando [...] as ofertas e os sacrifícios oferecidos”. Seus lugares santos eram “cópias das coisas que estão nos C éus”. Os sacerdotes serviam “num santuário que é cópia e sombra daquele que está nos C éus”. “Cristo não entrou em
santuário feito por homens, uma simples representação do verdadeiro; Ele
entrou nos C éus, para agora Se apresentar diante de Deus em nosso favor” (Hb 9:9, 23; 8:5; 9:24).
O santuário celestial é o grande original. O santuário que Moisés construiu era a cópia. O esplendor do tabernáculo terreno refletia as glórias do templo celestial, onde Cristo ministra em nosso favor perante o trono de Deus. O santuário terreno e seus serviços ensinavam verdades importantes não apenas sobre o santuário celestial, mas também sobre a nossa redenção.
Os Dois Compartimentos
O lugar santo do santuário celestial é representado pelos dois compartimentos do santuário terrestre. João recebeu uma visão do templo de Deus no C éu. Ali ele viu ardendo “diante do trono [...] sete tochas de fogo”. Viu um anjo “que trazia um incensário de ouro [...]. A ele foi dado muito incenso para oferecer com as orações de todos os santos sobre o altar de ouro diante do trono” (Ap 4:5, ARA; 8:3). Nessa visão, o profeta contemplou o primeiro compartimento do santuário celestial e enxergou ali “sete tochas de fogo” e o “altar de ouro”, que o candelabro de ouro e o altar de incenso representavam no santuário terreno.
Mais uma vez, “foi aberto o santuário de Deus nos C éus” e ele olhou dentro do véu, no santíssimo. Ali contemplou “a arca da Sua aliança”, representada pelo móvel que Moisés construiu e guardava a lei de Deus (Ap 11:19).
Os fiéis, ao estudarem o assunto, encontraram provas da existência de um santuário no C éu. João declarou que tinha visto o santuário no C éu.
No templo celestial, dentro do lugar santíssimo, está a lei de Deus. A arca que guarda a lei é coberta pelo propiciatório, em frente ao qual Cristo suplica pelos pecadores, apresentando Seu sangue em resgate. Essas coisas representam a união entre justiça e misericórdia, união esta que enche todo o C éu de surpresa. Este é o mistério da misericórdia que os anjos gostariam de compreender – que Deus pode ser justo ao mesmo tempo que justifica o pecador arrependido; o fato de Cristo ter Se rebaixado para elevar grande número de pessoas das ruínas e revesti-las com o manto imaculado de Sua justiça.
Zacarias falou sobre a obra de Cristo como nosso intercessor: “Ele construirá o templo do Senhor, será revestido de majestade e Se assentará em Seu trono [do Pai] para governar. Ele será sacerdote no trono. E haverá harmonia entre os dois” (Zc 6:13).
“Ele construirá o templo do Senhor”. Por meio de Seu sacrifício e de Sua mediação, Cristo é o alicerce e o edificador da igreja de Deus, como a “pedra angular, no qual todo o edifício é ajustado e cresce para tornar- se um santuário santo no Senhor” (Ef 2:20, 21).
“Será revestido de majestade.” O cântico dos salvos será: “Ele nos ama e nos libertou dos nossos pecados por meio do Seu sangue. [...] A Ele sejam glória e poder para todo o sempre!” (Ap 1:5, 6).
“E Se assentará em Seu trono para governar. Ele será sacerdote no trono.” O reino da glória ainda não chegou. Somente quando a obra de mediador de Cristo terminar, Deus lhe dará um reino que “jamais terá fim” (Lc 1:33). Em Seu papel de sacerdote, Cristo não Se assentou com o Pai no trono. Diante do trono está Aquele que “tomou sobre Si as nossas enfermidades e sobre Si levou as nossas doenças”; “como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado”, a fim de poder ser “capaz de socorrer aqueles que também estão sendo tentados” (Is 53:4; Hb 4:15; 2:18). As mãos feridas, o lado traspassado, os pés marcados rogam pela humanidade caída, cuja redenção Jesus comprou pagando um preço tão elevado.
“E haverá harmonia entre os dois.” O amor do Pai é a fonte da salvação para a raça perdida. Jesus disse aos discípulos: “O próprio Pai os ama” (Jo 16:27). Deus “em Cristo estava reconciliando consigo o mundo” (2Co 5:19). “Deus amou o mundo que deu o Seu Filho unigênito” (Jo 3:16).
O Mistério é Solucionado
O “verdadeiro tabernáculo” no C éu é o santuário da nova aliança. Quando Cristo morreu, o ritual simbólico do santuário terreno terminou. Uma vez que Daniel ٨:١٤ se estende até nossa era, o santuário ao qual se refere precisa ser o santuário da nova aliança. Por isso, a profecia : “Até
duas mil e trezentas tardes e manhãs; e o santuário será purificado” (ARA) aponta para o santuário celestial.
Então o que seria essa purificação do santuário? Seria possível haver alguma coisa no C éu que necessita sse ser purificada? Hebreus 9 ensina com toda a clareza a purificação tanto do santuário terreno quanto do celestial: “De fato, segundo a Lei, quase todas as coisas são purificadas com sangue, e sem derramamento de sangue não há perdão. Portanto, era necessário que as cópias das coisas que estão nos C éus fossem purificadas com esses sacrifícios, mas as próprias coisas celestiais com sacrifícios superiores” (Hb ٩:٢٢ , 23), ou seja, o precioso sangue de Cristo.
A Purificação do Santuário
A purificação no cerimonial verdadeiro no C éu deveria ser realizada por meio do sangue de Cristo. “ Sem derramamento de sangue, não há remissão” (ARA). A remissão, ou descarte do pecado, é a obra a ser realizada.
Como pode então haver pecado conectado ao santuário celestial? Podemos encontrar a resposta olhando para o cerimonial simbólico, uma vez que os sacerdotes terrenos serviam na “cópia e sombra daquele que está nos C éus” (Hb ٨:٥).
A ministração no santuário terreno consistia em duas partes. Os sacerdotes ministravam todos os dias no lugar santo, ao passo que, uma vez por ano, o sumo sacerdote desempenhava uma obra especial de expiação no santíssimo, a fim de purificar o santuário. Dia após dia, os pecadores arrependidos levavam suas ofertas. Colocavam as mãos sobre a cabeça da vítima, transferindo os pecados de si para os sacrifícios inocentes. Então os animais eram mortos. “A vida da carne está no sangue” (Lv 17:11). A quebra da lei de Deus exigia a vida do transgressor. O sacerdote levava o sangue, que representava a vida do pecador cuja culpa a vítima carregava, para dentro do lugar santo e o aspergia em frente ao véu, atrás do qual estava a lei que o pecador havia transgredido. Essa cerimônia transferia o pecado de maneira simbólica para o santuário. Em alguns casos, o sacerdote não levava o sangue para o lugar santo, mas comia a carne do sacrifício. Ambas as cerimônias simbolizavam a transferência do pecado do pecador arrependido para o santuário.
Essa era a obra que acontecia ao longo do ano. Os pecados de Israel eram transferidos dessa maneira para o santuário e se tornava necessário um rito especial para removê-los.
O Grande Dia da Expiação
Uma vez por ano, no grande dia da expiação, o sumo sacerdote entrava no lugar santíssimo para a purificação do santuário. Dois bodes jovens eram trazidos e se lançava sortes sobre eles, “uma, para o Senhor, e a outra, para o bode emissário” (Lv 16:8, ARA). O bode para o Senhor era sacrificado como oferta pelos pecados do povo, e o sacerdote levava seu sangue além do véu e o aspergia em frente ao propiciatório e também no altar de incenso logo à frente do véu.
“Então colocará as duas mãos sobre a cabeça do bode vivo e confessará todas as iniquidades e rebeliões dos israelitas, todos os seus pecados, e os
porá sobre a cabeça do bode. Em seguida enviará o bode para o deserto aos cuidados de um homem designado para isso. O bode levará consigo todas as iniquidades deles para um lugar solitário. E o homem soltará o bode no deserto” (Lv 16:21, 22). O bode expiatório nunca mais entraria no arraial de Israel.
A cerimônia tinha o propósito de impressionar os israelitas quanto à santidade de Deus e Seu ódio ao pecado. Todos os israelitas tinham a obrigação de examinar o próprio coração enquanto essa obra de expiação prosseguia. Todos os negócios eram deixados de lado e Israel passava o dia em oração, jejuando e sondando o coração.
Deus aceitava um substituto no lugar do pecador, mas o sangue da vítima não cancelava o pecado. Em vez disso, o pecado era transferido para o santuário. Ao oferecer o sangue, o pecador reconhecia a autoridade da lei, confessava seu pecado e expressava fé no Redentor por vir, mas ainda não estava completamente livre da condenação da lei. No dia da expiação, o sumo sacerdote pegava um sacrifício da congregação e entrava no lugar santíssimo. Ele aspergia o sangue dessa oferta no propiciatório, diretamente sobre a lei, a fim de satisfazer suas exigências. Como mediador, tomava os pecados sobre si e os trazia para fora do santuário. Colocando as mãos sobre a cabeça do bode emissário, transferia simbolicamente todos esses pecados de si para o bode. Então o bode era levado embora, e se considerava que os pecados haviam sido separados do povo para sempre.
A Realidade Celestial
O que acontecia de maneira simbólica nos ritos do santuário terreno ocorre em realidade no santuário celestial. Após Sua ascensão, nosso Salvador começou a obra de Sumo Sacerdote: “Cristo não entrou em santuário feito por homens, uma simples representação do verdadeiro; Ele entrou nos C éus, para agora se apresentar diante de Deus em nosso favor” (Hb ٩:٢٤).
O cerimonial do sacerdote no primeiro compartimento, “atrás do véu” que separava o lugar santo do pátio exterior, representa a obra que Cristo começou quando ascendeu. No serviço diário, o sacerdote apresenta perante Deus o sangue da oferta pelo pecado e também o incenso que subia com as orações de Israel. De maneira semelhante, Cristo apresentou Seu sangue diante do Pai em súplica pelos pecados e Lhe ofereceu as orações dos fiéis arrependidos com a fragrância de Sua justiça. Esse foi o ministério no primeiro compartimento do santuário celestial.
Pela fé, os discípulos de Cristo O seguiram até esse primeiro compartimento quando Ele ascendeu ao C éu. Era nisso que suas esperanças se concentravam: “ Temos esta esperança como âncora da alma, firme e
segura, a qual adentra o santuário interior, por trás do véu, onde Jesus, que nos precedeu, entrou em nosso lugar, tornando-Se Sumo Sacerdote para sempre”. “Pelo Seu próprio sangue, Ele entrou no Santo dos Santos, de uma vez por todas, e obteve eterna redenção” (Hb 6:19, 20; 9:12).
Por dezoito séculos, essa obra prosseguiu no primeiro compartimento do santuário. O sangue de Cristo obteve perdão e aceitação dos pecados arrependidos junto ao Pai, mas seus pecados continuavam registrados nos livros. Assim como no cerimonial simbólico havia uma obra de expiação no fim do ano, antes que a obra de Cristo em prol da humanidade termine, há um trabalho de expiação a ser feito para remover os pecados do santuário. Isso começou quando as ٢.٣٠٠ tardes e manhãs terminaram. Nessa ocasião, nosso Sumo Sacerdote entrou no lugar santíssimo para purificar o santuário.
Uma Obra de Juízo
Na obra da nova aliança, os pecados dos pecadores arrependidos são colocados sobre Cristo pela fé e transferidos de fato para o santuário celestial. Assim como a purificação simbólica do santuário terreno era realizada por meio da remoção dos pecados que o poluíam, a purificação verdadeira do santuário celestial ocorre pela remoção ou pelo apagamento dos pecados registrados ali. No entanto, antes que isso aconteça, deve haver um exame dos livros de registro para determinar quem, por meio de arrependimento e fé em Cristo, tem direito aos benefícios de Sua expiação. Logo, a purificação do santuário envolve uma obra de investigação – uma obra de juízo – antes da vinda de Cristo; pois, quando Ele vier, Sua recompensa estará consigo para dar a cada um segundo suas obras (Ap 22:12).
Assim, aqueles que seguiram a luz da palavra profética viram que, em lugar de vir à Terra no fim das 2.300 tardes e manhãs, em 1844, Cristo entrou no lugar santíssimo do santuário celestial a fim de realizar a obra final de expiação em preparo para Sua vinda.
Quando Cristo, pelo poder de Seu sangue, remover os pecados de Seu povo do santuário celestial no término de Sua ministração, Ele os colocará sobre Satanás, que suportará a pena final. O bode emissário era mandado para uma terra desabitada, a fim de que nunca mais voltasse à congregação de Israel. Da mesma forma, Satanás será banido para sempre da presença de Deus e de Seu povo. Sua existência será apagada na destruição final tanto do pecado quanto dos pecadores.