Os Resgatados

Ellen G. White · Capítulo 5 de 45

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Os Resgatados

3 :: Trevas Espirituais na Igreja Primitiva

Trevas Espirituais na Igreja Primitiva

 

O apóstolo Paulo escreveu que, para o dia de Cristo chegar, “virá a

apostasia e, então, será revelado o homem do pecado, o filho da

perdição. Este se opõe e se exalta acima de tudo o que se chama Deus ou é

objeto de adoração, chegando até a assentar-se no santuário de Deus,

proclamando que ele mesmo é Deus.” Além disso, “o mistério da

iniquidade já está em ação” (2Ts 2:3, 4, 7). Até mesmo naquela época, o apóstolo identificou erros sendo infiltrados que preparariam o caminho para o papado.

Pouco a pouco, “o mistério da iniquidade” realizou sua obra de engano. Os costumes do paganismo encontraram lugar dentro da igreja cristã, mas foram contidos por um tempo durante as intensas perseguições realizadas pelo paganismo. Quando as perseguições terminaram, o cristianismo se afastou da humilde simplicidade de Cristo e adotou a pompa dos sacerdotes e governantes pagãos. A suposta conversão do imperador Constantino foi motivo de grande alegria. A partir de então, porém, a obra de corrupção progrediu rapidamente. O paganismo, que parecia estar dominado, tornou-se o dominador. Suas doutrinas e superstições foram misturadas à fé daqueles que afirmavam ser seguidores de Cristo.

O compromisso entre paganismo e cristianismo resultou no “homem do pecado” que a profecia predissera. Essa falsa religião é obra-prima de Satanás, um monumento a seus esforços de se assentar no trono para governar a Terra de acordo com sua vontade.

Uma das principais doutrinas de Roma afirma que Deus deu autoridade suprema ao papa sobre bispos e pastores do mundo inteiro. Mais do que isso, o papa tem sido chamado de “Senhor Deus, o Papa” e declarado infalível (ver o Apêndice). A mesma reivindicação que Satanás fez no deserto da tentação continua a ecoar por meio da Igreja de Roma e grande é o número dos que lhe rendem adoração.

Mas aqueles que reverenciam a Deus enfrentam a falsa alegação do papado assim como Cristo respondeu a Satanás: “Adore o Senhor, o seu Deus, e só a Ele preste culto” (Lc 4:8). Deus nunca nomeou nenhum homem para ser chefe da igreja. A supremacia papal é contrária às Escrituras. O papa não pode ter poder sobre a igreja de Cristo, exceto por meio de uma reivindicação falsa. A Igreja Católica Romana acusa os protestantes de se separarem deliberadamente da igreja verdadeira, mas foi ela que se afastou da “fé de uma vez por todas confiada aos santos” (Jd 3).

Satanás sabia muito bem que foram as Sagradas Escrituras que capacitaram o Salvador a resistir a seus ataques. A cada investida, Cristo lhe apresentava o escudo da verdade eterna, dizendo: “Está escrito”. Para que Satanás mantenha seu controle sobre o povo e estabeleça a autoridade do usurpador papal, ele deve manter as pessoas em ignorância quanto à Bíblia. Precisa esconder e suprimir as sagradas verdades. Por centenas de anos, a Igreja Católica proibiu a circulação da Bíblia. O povo era proibido de lê-la. Sacerdotes e líderes interpretavam seus ensinos a fim de apoiar suas alegações arrogantes. Dessa maneira, o papa passou a ser reconhecido por quase todos como o governante designado por Deus para a Terra.

Como o Sábado Foi “Mudado”

A profecia declarou que o papado tentaria “mudar os tempos e as leis” (Dn 7:25). Em substituição à adoração a ídolos, a adoração de imagens e relíquias foi gradualmente introduzida na adoração cristã. O decreto de um concílio geral (ver o Apêndice) finalmente estabeleceu a idolatria. Roma ousou remover o segundo mandamento da lei de Deus, que proíbe a adoração a ídolos, e dividir o décimo mandamento em dois a fim de conservar o total de dez.

Líderes não consagrados da igreja também mexeram com o quarto mandamento, anulando o antigo sábado, o dia que Deus havia abençoado e santificado (Gn 2:2, 3). Em seu lugar, exaltaram a festa pagã observada como “o venerável dia do sol”. Nos primeiros séculos, todos os cristãos guardavam o verdadeiro sábado, mas Satanás atuou para fazer prosperar sua vontade. A igreja transformou o domingo em uma festa em homenagem à ressurreição de Cristo. Cultos religiosos eram realizados, mas o dia era visto como um momento de recreação. Além disso, o verdadeiro sábado continuava a ser observado e considerado santo.

Antes de Cristo vir à Terra, Satanás inspirara os judeus a encher o sábado de regras rigorosas, tornando-o um fardo. Aproveitando-se da falsa luz que havia lançado sobre o sétimo dia, fez as pessoas o desprezarem como uma instituição “judaica”. Enquanto os cristãos em geral continuavam a observar o domingo como uma alegre festa, os levou a fazer do sábado um dia de tristeza e melancolia a fim de demonstrar ódio pelo judaísmo.

O imperador Constantino proclamou um decreto transformando o domingo em uma festa pública em todo o império romano (ver o Apêndice). O dia do sol era reverenciado por seus súditos pagãos e honrado pelos cristãos. Os bispos da igreja os incentivavam a agir assim. Sedentos por poder, reconheciam que, se tanto cristãos quanto pagãos guardassem o mesmo dia, aumentariam o poder e a glória da igreja. Embora muitos cristãos tementes a Deus gradualmente tenham começado a atribuir algum grau de santidade ao domingo, continuaram a observar o verdadeiro sábado, em obediência ao quarto mandamento.

O arquienganador não havia completado sua obra. Estava determinado a exercer poder por meio do líder que escolhera, o orgulhoso pontífice que alegava representar a Cristo. Grandes concílios foram realizados, dos quais participavam autoridades do mundo inteiro. Quase todos os concílios rebaixavam o sábado um pouquinho mais, ao passo que exaltavam o domingo. Foi assim que a festa pagã finalmente passou a ser honrada como uma instituição divina, enquanto as pessoas começaram a considerar o sábado bíblico uma relíquia do judaísmo, pronunciando uma maldição sobre sua observância.

O grande apóstata obteve êxito em se exaltar “acima de tudo o que se chama Deus ou é objeto de adoração” (2Ts 2:4). Ele ousou mudar o único mandamento da lei divina que aponta para o Deus vivo e verdadeiro. O quarto mandamento revela que Deus é o Criador. A fim de comemorar a obra da criação, Deus santificou o sétimo dia como dia de descanso para a humanidade. Foi designado para manter Deus sempre vivo na mente das pessoas como objeto de adoração. Satanás trabalha para afastar os seres humanos da obediência à lei de Deus. A fim de realizar isso, ele direciona seus esforços especialmente contra o único mandamento que aponta para Deus como Criador.

Hoje, os protestantes alegam que a ressurreição de Cristo no domingo transformou esse dia no sábado cristão. Mas nem Cristo, nem os apóstolos concederam essa honra ao primeiro dia. A observância ao domingo teve sua origem no “mistério da iniquidade” (2Ts 2:7), que já havia começado sua obra desde os dias de Paulo. Que razão alguém pode dar para uma mudança que as Escrituras não autorizam?

No sexto século, o bispo de Roma foi proclamado o cabeça de toda a igreja. O paganismo foi substituído pelo papado. O dragão deu à besta “o seu poder, o seu trono e grande autoridade” (Ap 13:2).

Então começaram os 1.260 anos de opressão papal que as profecias de Daniel e Apocalipse predisseram (Dn 7:25; Ap 13:5-7; ver o Apêndice). Os cristãos foram forçados a escolher: ou abrir mão de sua integridade e aceitar as cerimônias e a adoração papal, ou consumir a vida em masmorras e até mesmo sofrer a morte. Cumpriram-se as palavras de Jesus: “Vocês serão traídos até por pais, irmãos, parentes e amigos, e eles entregarão alguns de vocês à morte. Todos odiarão vocês por causa do Meu nome” (Lc 21:16;

17).

O mundo se transformou em um imenso campo de batalha. Ao longo de centenas de anos, a igreja de Cristo encontrou abrigo em esconderijos e na escuridão. “A mulher fugiu para o deserto, para um lugar que lhe havia sido preparado por Deus, para que ali a sustentassem durante mil duzentos e sessenta dias” (Ap 12:6).

A ascensão da Igreja Católica Romana ao poder marcou o início da Idade das Trevas. As pessoas transferiram sua fé em Cristo para o papa de Roma. Em vez de confiar no Filho de Deus para obter o perdão dos pecados e a salvação eterna, passaram a olhar para o papa e para os sacerdotes a quem ele concedia autoridade. O papa era seu mediador terreno. Ele ficava no lugar de Deus para eles. Divergir mesmo que um pouquinho de suas exigências era motivo para castigos severos. Dessa maneira, a mente das pessoas se afastou de Deus para se aproximar de homens falíveis e cruéis – e, mais do que isso, do próprio príncipe das trevas que exercia seu poder por meio deles. Quando seres humanos anulam as Escrituras e passam a se considerar supremos, só podemos esperar fraudes, enganos e mal degradante.

Dias de Perigo para a Igreja

Eram poucos os crentes fiéis a Deus. Às vezes, parecia que o erro triunfaria por completo e a verdadeira religião seria banida da Terra. As pessoas perderam o evangelho de vista e passaram a carregar o fardo de requerimentos difíceis. A igreja as ensinava a confiar nas próprias obras para expiar os pecados. Longas peregrinações, atos de penitência, a adoração de relíquias, a construção de igrejas, relicários e altares, o pagamento de grandes somas para os tesouros da igreja – é isso que ela exigia a fim de aplacar a ira de Deus ou obter Seu favor.

Por volta do fim do oitavo século, aqueles que apoiavam o papa afirmavam que, na era primitiva da igreja, os bispos de Roma tinham o mesmo poder espiritual que agora afirmavam ter. Monges forjaram escritos antigos. Decretos de concílios dos quais ninguém nunca ouvira falar antes foram descobertos, consolidando a supremacia do papa desde os tempos mais remotos (ver o Apêndice).

Esses acontecimentos deixaram perplexos os poucos fiéis que se apoiavam no firme alicerce de Cristo (1Co 3:10, 11). Cansados da luta constante contra perseguição, fraude e todos os obstáculos que Satanás inventava, alguns que haviam sido fiéis até então desanimaram. A fim de ter paz e segurança para os próprios bens e a vida, afastaram-se do firme alicerce. Já outros não se abalaram pela oposição dos inimigos.

A adoração a imagens se disseminou por toda parte. As pessoas acendiam velas em frente às imagens e oravam a elas. Os costumes mais desprovidos de sentido prevaleciam. Era como se a própria razão houvesse perdido seu poder. Se até mesmo os padres e bispos eram corruptos e amantes do prazer, não espanta que as pessoas que buscavam neles orientação tenham afundado em ignorância e vícios.

No século 11, o papa Gregório VII proclamou que a igreja nunca havia errado, nem jamais erraria, de acordo com as Escrituras. Mas não apresentou nenhuma prova bíblica para confirmar sua alegação. O orgulhoso pontífice também afirmou ter poder para destituir imperadores. Esse promotor da infalibilidade demonstrou seu caráter tirano no tratamento que dispensou ao imperador alemão Henrique IV. Por ter ousado desconsiderar a autoridade papal, esse monarca foi excomungado da igreja e demovido do trono. O decreto do papa encorajava os próprios príncipes de Henrique a se rebelarem contra ele.

Henrique sentiu a importância de fazer as pazes com Roma. Com a esposa e um servo fiel, atravessou os Alpes no meio do inverno a fim de se humilhar diante do papa. Quando chegou ao castelo de Gregório, foi levado para um pátio externo. Lá, no frio rigoroso do inverno, com a cabeça descoberta e os pés descalços, aguardou a permissão do papa para entrar em sua presença. Somente após três dias em jejum e confissão o papa lhe concedeu perdão. Mesmo assim, foi somente sob a condição de que o imperador esperaria pela permissão papal antes de assumir novamente os símbolos da realeza e exercer seu poder. Gregório sentiu-se triunfante com essa vitória. Ele enaltecia a si mesmo por acabar com o orgulho dos reis.

Que forte contraste entre esse orgulhoso papa e Cristo, que retrata a Si mesmo suplicando entrada à porta do coração. Ele ensinou a Seus discípulos: “ Quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo” (Mt 20:26).

Mesmo antes da instituição do papado, os ensinos dos filósofos pagãos já exerciam influência dentro da igreja. Muitos ainda se apegavam às crenças da filosofia pagã e incentivavam os outros a estudá-la como forma de estender sua influência entre os pagãos. Erros graves se infiltraram na fé cristã dessa maneira.

Como as Falsas Doutrinas se Instalaram

Um dos principais ensinos falsos era a crença de que somos imortais por natureza e conscientes após a morte. Essa doutrina lançou as bases para que Roma instituísse orações aos santos e a adoração da virgem Maria. Dela também surgiu a heresia do tormento eterno para aqueles que se recusam a se arrepender. Essa crença se tornou parte da fé papal nos primeiros anos da igreja.

Isso abriu caminho para mais uma invenção do paganismo: o purgatório, que a igreja usava para aterrorizar os supersticiosos. Essa heresia afirmava que existe um lugar de tormento no qual as almas daqueles que não merecem a condenação eterna sofrem o castigo por seus pecados e, depois disso, quando livres da impureza, são admitidos no C éu (ver o A pêndice).

Roma ainda precisava de outra mentira a fim de poder se aproveitar dos temores e vícios de seus seguidores: a doutrina das indulgências. A igreja prometia remissão completa de pecados passados, presentes e futuros a todos aqueles que se alistassem nas guerras papais para punir seus inimigos ou exterminar aqueles que ousavam negar sua supremacia espiritual. Ao pagar somas de dinheiro à igreja, as pessoas podiam se livrar do pecado e também liberar a alma de amigos que haviam morrido e estavam passando pelas chamas de tormento. Dessa maneira, Roma encheu seus tesouros e conseguia sustentar a magnificência, o luxo e o vício dos supostos representantes de Jesus, que nem tinha onde repousar a cabeça (ver o Apêndice).

A ceia do Senhor foi substituída pelo sacrifício idólatra da eucaristia. Sacerdotes papais alegavam transformar o simples pão e vinho no verdadeiro “corpo e sangue de Cristo”. 1 Com presunção blasfema, reivindicavam abertamente o poder criador do Deus que fez todas as coisas. Os cristãos eram compelidos a professar a fé nessa heresia que insulta o C éu ou enfrentar a morte.

No século 13 a igreja instituiu a arma mais terrível do papado: a inquisição. Em seus concílios secretos, Satanás e seus anjos controlavam a mente de homens maus. Um anjo de Deus estava no meio deles de forma invisível, fazendo o terrível registro de seus decretos perversos, escrevendo a história de atos terríveis demais para os olhos humanos contemplarem. “

BABILÔNIA, A GRANDE [...] estava embriagada com o sangue dos santos” (Ap 17:5, 6). O corpo dilacerado de milhões de mártires clama a Deus por vingança desse poder apóstata.

O papado havia se tornado o déspota do mundo. Reis e imperadores se submetiam aos decretos do pontífice romano. Por centenas de anos as pessoas aceitaram as doutrinas de Roma sem questionar. Honravam o clero e o sustentavam liberalmente. Desde então, a Igreja Católica nunca conquistou maior dignidade, esplendor ou poder.

Mas “o meio-dia do papado foi a meia-noite do mundo”. 2 As Escrituras eram praticamente desconhecidas. Os líderes papais odiavam a luz que revelaria seus pecados. Como foi removida a lei de Deus, o padrão de justiça, vícios eram praticados sem restrições. Os palácios dos papas e de outros líderes da igreja eram cenários de vil imoralidade. Alguns dos papas eram culpados de crimes tão revoltantes que governantes seculares tentaram depô-los por serem monstros perversos demais para ser tolerados. Durante séculos, a Europa não fez progresso nenhum no ensino, nas artes e na civilização. Uma paralisia moral e intelectual havia recaído sobre a cristandade.

Essas condições foram as consequências do banimento da Palavra de Deus!

1 Sermões do cardeal Wiseman, “The Real Presence”, sermão 8, seção 3, parágrafo 26. 2 James A. Wylie, , v. 1, cap. 4.