Ovelha Negra

Georgette Heyer · Capítulo 9 de 19

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Ovelha Negra

Capítulo VIII

Como Oliver não mostrou sinais de exaustão e Stacy, comportando-se com grande circunspecção, não fez nenhuma tentativa para monopolizar a atenção de Fanny, nada aconteceu que estragasse o prazer de Abby durante essa diversão suave. Miles Calverleigh cavalgou ao lado dela a maior parte do tempo, e foi tão agradável que a fez esquecer suas apreensões ouvindo-o contar sobre a Índia e os costumes do povo de lá. Na verdade, ele teve de ser persuadido a falar, dizendo, no começo, que as pessoas que tagarelam sobre suas experiências no exterior são umas chatas, mas as perguntas que ela lhe fazia eram inteligentes e seu interesse nas respostas dele tão verdadeiro, que ele logo abandonou a reserva, descrevendo um quadro vívido e mesmo contando algumas de suas experiências. Essas iam de aventureiras a cômicas, mas não demorou a encerrar a narrativa.

— E chega dc falar sobre mim! Agora me conte da senhorita!

— Não há nada o que contar! Não fiz nada, nunca fui a lugar algum. Não sabe o quanto o invejo... quantas vezes desejei ser homem!

— Verdade? Mas só a senhorita deve ter esse desejo!

— Obrigada! Mas está enganado, o meu pai também. Ele queria outro filho homem.

— O quê? Com Rowland e James como exemplos sinistros? Ou porque esperava que um terceiro filho homem pudesse ser menos lento?

— Certamente não! E apesar de não gostar dele, tenho de ser justa e admitir que Rowland, pelo menos, não era lento. Era um aficionado da caça e um cavaleiro tenaz.

— Eu não me referia a isso. Intelectualmente lento!

— Ah, sim, mas meu pai também era assim! Naturalmente ele não considerava a idiotice um defeito em Rowland. De fato, ele detestava as pessoas inteligentes.

Ele deu um risinho apreciativo, o que a fez dizer em um tom constrangido:

— Eu não devia ter dito isso. Esta minha língua deplorável! Realmente tento contê-la!

— Não tente! Gosto da maneira como diz o que lhe vem à cabeça. Ela sorriu, mas balançou a cabeça.

— Não, é meu pecado constante e devia tê-lo superado faz tempo.

— Do que me lembro do seu pai, devo supor que ele fez de ludo para ajudá-la nisso. Ele não gostava da senhorita tanto quanto a senhorita não gostava dele?

— Sim, ele... Oh, como se atreve? É realmente abominável! Sabe muito bem que seria uma completa impropriedade eu dizer que não gostava do meu pai. Todos os sentimentos seriam ofendidos.

— Bem, nenhum dos meus — replicou ele, imperturbável. — Não gostava, gostava?

— Não, mas essa é uma coisa que nunca deve ser dita. E se ele não gostava de mim, tenho de admitir que a culpa era minha. Foi uma triste experiência para ele, acho.

— Sim, é claro. Inteligente demais!

— Não sou inteligente... ou sou, se me comparar com o resto da minha família — ela refletiu. — Eu os amo sinceramente, mas Selina e Mary são duas perfeitas parvas, e embora minha irmã Jane tenha bastante bom senso, não pensa em outra coisa que não nos filhos e nos defeitos dos criados. Meu pai simplesmente achava que eu lia demais, o que era a pior coisa que poderia dizer de alguém! Atribuía todo o meu comportamento insubmisso a esse fato!

— Então, eu deveria ter dito que tem um senso excessivamente vigoroso de seu dever — observou ele.

— Não quando era garota. Estava sempre me rebelando contra as restrições impostas a mim e ah, e como eu detestava essa palavra odiosa,propriedade] Por isso desejava ser homem, para poder escapar disso! Mulheres não podem escapar, como sabe. Somos sempre agrilhoadas... resguardadas...

— Comprimidas, cerceadas, confinadas—prosseguiu ele, acrescentando com grandiloquência: — Também sou lido.

O riso irrompeu nela. — É o que estou vendo! E era exatamente assim na minha família.

— Era? Ainda é.

Ela virou a cabeça, surpresa. — Não! Por que, o que quer dizer?

Ele indicou com a cabeça os quatro membros jovens do grupo, que cavalgavam a frente. — Fanny, é claro. Não a comprime, cerceia e confina?

— Não! — replicou ela, acaloradamente — Ela desfruta muito, mas muito mais liberdade do que eu jamais desfrutei! — Uma sobrancelha erguida de maneira zombeteira a fez corar. Balbuciou: — É verdade! Está... está achando que não a deixo ir a lugar nenhum sem mim, mas não é verdade! Nunca, até seu detestável sobrinho vir para Bath, acompanhei-a em expedições deste tipo, e se ele não estivesse aqui e o jovem Grayshott a tivesse convidado, ela teria ido com todo o meu consentimento! — Fez uma pausa e, depois de refletir por um momento, falou francamente: — Não, sozinha não. Eu não ficaria apreensiva, mas no que diz respeito a ela, devo ter cuidado para que não faça nada que alimente fofocas em Bath! Sabe, meu irmão me confiou a guarda de Fanny, e por mais absurdas que eu considere grande parte das convenções que nos cerceiam, devo, para o seu bem, forçá-la a ser-lhes fiel. Por favor, tente entender! O que eu, na minha idade, posso escolher desrespeitar, ela, à beira de estrear na vida social, não deve!

— Pobre menina! De quantas convenções absurdas está disposta a escarnecer?

— Ah, de muitas, se só pensar em mim mesma.

— Vamos fazer um teste. Vai comigo ao teatro no sábado?

Ela hesitou, tanto surpresa quanto em dúvida. Então, falou: — Está me convidando para fazer parte de seu grupo de amigos, senhor?

— Deus do céu, não! Não tenho grupo.

— Oh! — Ela caiu de novo em silêncio. — Entendo que está convidando Fanny também, não? — arriscou por fim.

— Ah, não, não é verdade. Sabe muito bem que Fanny se comprometeu a ir com os Grayshott para o baile de valsas da Sra. Faversham. Eu me pergunto se a deixará ir!

— Mesmo? Bem, se me acha tão... tão rígida, me pergunto se acha que irei ao teatro sozinha com o senhor! A valsa não é dançada no Rooms, mas Bath é um lugar muito antiquado, e em Londres, valsas, e quadrilhas também, são muito dançadas. Fico muito feliz com que Fanny tenha a oportunidade de... de ser introduzida a isso antes de debutar na primavera! Mas quando se trata de ir ao teatro... — Fez uma pausa, matutando sobre a questão.

Ele esperou, olhando seu perfil com um sorriso gozador, até ela dizer, tomada por uma inspiração súbita: — Se convidar também a minha irmã! Seria perfeitamente normal.

— Sem dúvida! Ela não conseguiu conter o riso.

— Sim, eu sei, mas... Bem, é absurdo, mas há uma diferença, ou assim pensam... entre acompanhar uma dama ao... oh, a um concerto, no Assembly Rooms, e ao teatro! Acho que é porque concertos oferecidos por meio de assinaturas são mais privados, também não se senta separado, as pessoas se misturam com...

— Ah, se isso é tudo, podemos nos sentar no fosso da orquestra —... com os amigos! — concluiu Abby com severidade.

— E no fim do primeiro ato, quando seu acompanhante espera poder desfrutar sua companhia, algum sujeito impudente rouba-a bem diante do seu nariz, e a leva para um chá, exatamente como fiz quando aquele paspalho que a adulava com elogio frívolos pensava que pertencia a ele!

— Bem, pelo menos teve a elegância de assumir sua impudência! — retaliou ela. — Embora seja impudente, sem nenhuma elegância. Mas o Sr. Dunston não é nenhum paspalho e os elogios que fazia eram muito gentis.

— Qualquer homem que lhe diga que ofusca qualquer outra mulher presente e que é bela como a rosa de maio só pode ser um paspalho. É muito fingimento!

Vexada, Abby replicou: — Não sou nenhuma beldade, nem nunca fui, mas não sou um antídoto, espero! Ele sorriu.

— Não, não é nem uma coisa nem outra. O que um admirador estúpido não tem inteligência para perceber é que possui algo mais valioso do que a beleza.

A Srta. Wendover estava perfeitamente ciente de que lhe competia tratar o audacioso Sr. Calverleigh com desdém ou, no mínimo, ignorar sua observação; mas ao invés de fazer qualquer uma dessas coisas, dirigiu-lhe um olhar tímido e inquiridor.

— Possuo? Por favor, diga-me o que pode ser!

Ele a olhou criticamente, a diversão persistindo em seus olhos. — Bem, tem muita compostura e uma figura elegante. Também gosto dos seus olhos, particularmente quando sorri. Mas não é isso. O que tem em profusão é charme!

Hia enrubesceu e balbuciou: — Receio que agora seja o senhor que esteja me adulando.

— Oh, não! Seu nariz é indiferente e sua boca um pouco larga demais, e seu cabelo, embora cresça bem, é de um castanho comum.

Abby começou a rir. — Eu o absolvo!

— É o que eu esperava! Podia ter acrescentado que também tem coragem, mas tenho dúvidas.

Ela irritou-se ao ouvir isso. — Pois está enganado! Acho que isso se deve a eu ter hesitado em aceitar seu convite. Muito bem, irei à peça com o senhor!

— Boa garota! — ele aprovou. — Ousada até a raiz do cabelo! Mas não quero levá-la se realmente acha que prejudicará a sua reputação.

— Não — replicou ela, em um tom resoluto. — Não na minha idade!

— Justo o que eu estava pensando — concordou ele. Ela o olhou furiosamente, mas ele estava completamente sério.

— Seria apropriado jantar antes comigo, no York House? — perguntou ele.

— Obrigada, mas prefiro jantar em Sydney Place. Minha irmã ficará muito feliz em conhecê-lo melhor.

Ele fez uma mesura aceitando humildemente, e como tinham chegado a seu destino, o monumento em memória de um tal Sir Basil Grenville, morto na Guerra Civil, a conversa entre os dois se encerrou.

E não foi retomada, já que depois dos restos de uma fortificação saxã situada ali perto foi mostrada aos Calverleigh, um dos quais afetou um interesse educado, mas artificial, e o outro não demonstrou absolutamente nenhum interesse, acharam que estava na hora de voltar para casa. No retorno, o grupo se dividiu de maneira diferente, o Sr. Stacy Calverleigh dando um jeito de Abby montar do seu lado e não do lado do tio.

— Por favor, permita-me acompanhá-la! — ele pediu. — Tenho procurado uma oportunidade para lhe falar e... espero... para que me conheça melhor.

— Certamente — respondeu ela, com a voz fria. — O que deseja me dizer, senhor? Ele abriu seu sorriso flamejante.

— Ah, sabe o que desejo dizer! E eu, pobre de mim, sei que estou me dirigindo a ouvidos inclinados a não me escutar!

— Se pretende se dirigir a mim com frases ensaiadas, tem toda razão! — disse ela. — Indo direto ao assunto, deseja meu consentimento para namorar Fanny. Receio que não tenha entendido o caso: Fanny não está sob minha tutela, e sim de meu irmão. Deve fazer o pedido a ele e não a mim. De fato — acrescentou, pensativa —, deveria ter feito isso antes de fazer a proposta a Fanny. Estabelecer uma relação com uma garota de 17 anos sem o conhecimento de seu tutor realmente não é o mais correto, senhor, como sabe.

Ele pareceu um pouco desconcertado. — Se eu soubesse... achei que a tutora era a Srta. Wendover. Naturalmente, se eu tivesse sabido...

— Então o que o impediu de pedir a permissão de minha irmã antes de se declarar a Fanny? — perguntou Abby, mostrando-se interessada.

Ele se conteve. — Eu devia ter feito isso, é claro, mas eu tinha motivo para supor... isto é, achei que ela sabia... não encare minha intenção com reprovação! Além do que, consciente como sou de minha falta de valor, não pretendo... Ah, Srta. Abby, não entende! Não leva em consideração a violência dos meus sentimentos, que, confesso, me fazem ultrapassar os limites da decência!

— Não, acho que não — concordou Abby.

Ele lhe lançou um olhar desafiador, que ela recebeu com um leve sorriso tranquilo.

— No momento em que a vi, fiquei perdido! — disse ele, dramático. — Achava que já tinha me apaixonado muitas vezes, antes... entenda, não quero iludir a senhora!... Mas quando conheci Fanny, soube que não tinham sido nada além de passatempos, e me arrependo amargamente do passado... de todas as minhas loucuras e indiscrições! Sim, e estou determinado a me tornar digno desse belo anjo!

— Bem, vai ter bastante tempo para realizar sua ambição — replicou Abby, cordial. — Posso dizer que, se obtiver êxito, o meu irmão talvez o olhe com mais benevolência, quando Fanny atingir a maioridade.

— Quatro anos! Srta. Abby, nem ela nem eu poderemos suportar tanto tempo! Achamos... Fanny estava convencida de que a senhorita... a sua tia favorita, como ela diz... ficaria do nosso lado! O seu apoio terá peso para o Sr. Wendover!

— Prezado senhor, se eu desse meu apoio a um casamento tão despropositado e imprevidente, o Sr. Wendover presumiria que eu enlouqueci e provavelmente me internaria em um hospício. E devo admitir que não o culparia!

— Imprevidente! — exclamou ele, fixando-se na palavra. — Então, esse é o obstáculo! Acredite, sinto isso tanto quanto vocês! Minha herança foi gasta antes de eu ter direito a ela, e se contar que meu pai morreu antes da minha maioridade, pode julgar como eu era imaturo, como não podia ser capaz de recuperar o que tinha esbanjado! Hoje, sou mais sensato.

— Certamente — disse Abby com cortesia — todos os seus amigos devem partilhar essa esperança. No entanto, receio que meu irmão vá requerer uma prova mais sólida.

Vexado, ele tentou se explicar: — Entendeu-me mal, senhorita! Quando falei de minha herança ter sido gasta não quis dizer que estou reduzido à miséria. Entre minha fortuna e a de Fanny pode haver uma disparidade, mas embora minhas terras não estejam bem cultivadas, são extensas, e, afinal, sou eu o chefe da família! Os Calverleigh estão em Danescourt desde nem sei quando!

— Desde a Conquista — complementou ela, com um risinho reminiscente. — Segundo o seu tio, o fundador de sua casa foi provavelmente um dos... dos piratas aterradores do séquito do conquistador.

— Meu tio gosta de piadas sarcásticas — replicou ele com um sorriso forçado. — Até mesmo o Sr. James Wendover certamente não encontraria nem um único defeito na minha linhagem! Quanto a fortuna, não sei qual é o tamanho da de Fanny, e não estou me importando com esse fato... a não ser que eu deseje que isso se torne uma barreira intransponível entre nós, quero-a longe!

— Bem, pelos próximos oito anos, ela poderá estar — replicou ela prosaicamente. — Cabe a meu irmão administrar a de Fanny até ela completar a idade de 25 anos.

— Vinte e cinco! — O sorriso desapareceu de súbito de seus lábios. Recompôs-se em um instante. — Eu não sabia, e foi uma agradável surpresa. Sob essa circunstância, certamente escaparei do estigma de ser considerado um caçador de dotes.

Isso pareceu a ela de tal modo dissimulado que se sentiu demasiadamente enojada para responder. Acelerou a marcha de seu cavalo, de modo que logo o resto do grupo foi alcançado, e Stacy foi obrigado a encerrar suas confidências.

Por mais que se sentisse frustrado, nenhum sinal disso podia ser detectado, nem no seu rosto nem em suas maneiras. Pelo contrário, parecia animado, esbanjando vida e graça, fazendo Lavinia dar risinhos e Fanny perguntar à tia, quando cavalgaram lado a lado ao descerem a Great Pulteney Street, se ela não o achava tão encantador quanto era belo.

— Bem, quanto a isso... tem maneiras agradáveis, mas... você o acha encantador, Fanny? — perguntou Abby, com um quê de surpresa.

— Deus meu! Abby, todo mundo acha! — gritou Fanny.

— Oh!

Aborrecida, Fanny disse: — Deve ser preconceito! Por favor, que defeito vê nele? Abby sorriu.

— Se eu lhe dissesse, meu amor, você ia querer me bater!

— Sim... se dissesse o que acho que está na sua cabeça! Você o acha um caçador de dotes, não acha? — Esperou um momento, mas como Abby não respondeu, prosseguiu com empolgação: — essa afirmação é falsa, e... e indigna de você, Abby! Peço perdão, mas não vou permitir que o insulte! Ele não sabia sobre a minha fortuna quando se apaixonou por mim, e depois, quando ficou sabendo por alguma mexeriqueira nojenta, ficou terrivelmente abalado, falou de sua presunção, disse que o seu caso era sem esperança e que nunca, mas nunca mesmo teria se aproximado de mim se soubesse a verdade! Coisas assim! Realmente acredito que ele teria ido embora se eu não tivesse lhe dito que só daqui a quatro anos eu teria mais um centavo do que aqueles que meu tio me dá agora!

— Receio que o tenha informado mal, querida, e a culpa disso recaia sobre meus ombros — disse Abby, a título de desculpas. — Achei que você sabia, pelo menos é o que eu presumiria se pensasse nisso. Mas me envergonho de dizer que não pensei. Minha desculpa é que nunca discutimos questões de dinheiro, discutimos? Você só entrará na posse de sua fortuna ao completar 25 anos.

Fanny, pega de surpresa, exclamou, acaloradamente: —

Não está falando sério! Bem, de todas as coisas desprezíveis, essa foi a pior...! Eu já preciso de mais do que o meu tio me dá e vou precisar de muito mais quando debutar em Londres!

— É claro que vai — concordou Abby, consideravelmente animada por esse discurso ingênuo. — Seu tio sabe disso... na verdade, falamos um pouco a respeito quando fui a Londres. Não vai se deparar com um tio sovina, prometo. Ele quer que apresente o que chama de aparência honrosa!

— Não vai ser sovina se eu for submissa e obediente! Mas se não me sujeitar à sua tirania... o que vai acontecer?

— Francamente, Fanny! — protestou Abby. — Que motivo tem para falar de tirania?

— Nenhum... ainda! Mas se ele tentar me separar de Stacy, será tirania! E vou lhe dizer uma coisa, Abby: não dou a menor importância para essa minha fortuna detestável, e mesmo que o meu tio corte minha pensão, Stacy tampouco se importará! Não, não me interessa se não vou a Londres... nem um pouco!

— Gostaria que não falasse desse modo desconexo! — pediu Abby com dureza. — Quem a ouvisse a tomaria por uma perfeita nulidade! Espera, seriamente, que seu tio permita que se case com essa idade?

— Ele permitiria se Stacy fosse rico, ou um conde, ou outra coisa parecida! — Fanny soluçava de raiva.

— Oh, não, não permitiria! Ele teria de lidar comigo! Pelo amor de Deus, tente ter um pouco de bom senso, menina! Você se apaixonou e acha que vai ser uma emoção duradoura...

— Sei que vai! — declarou Fanny, apaixonadamente.

— Pois muito bem! Talvez seja, e se assim for, pode ficar certa de que terá meu apoio. O jovem Calverleigh disse que quer se tornar digno de você, e se ele conseguir mudar seu modo de vida...

— Ele mudou!

— Nesse caso, não vejo absolutamente nenhuma razão para que fique aflita. Nem seu tio nem eu somos monstros de crueldade, e se, quando você tiver vivido um pouco, continuar preferindo Calverleigh a todos os outros homens que vai conhecer, e ele demonstrar ser igualmente constante, não nos oporemos ao casamento.

— Como? Esperar quase um ano inteiro? — gritou Fanny, consternada. — Ah, não, não, não! Se já tivesse se apaixonado, não seria tão insensível!

— Não vejo nada de insensível em desejar que desfrute pelo menos uma temporada em Londres antes de se lançar em oito anos de pobreza — replicou Abby de maneira um pouco sarcástica.

— Não é isso o que quer! — a voz de Fanny estremeceu. — Quer me afastar de meu amado Stacy! Sei exatamente como vai ser, se eu consentir! Você e minha tia Mary vão tomar todo cuidado para que eu nunca mais o veja! Acho que pensa que logo o esquecerei, mas não vou esquecer! Ah, Abby, Abby, achei que me amava!

— Sabe muito bem que a amo.

Mas Fanny, reprimindo as lágrimas, sacudiu a cabeça e prosseguiu a cavalgada em silêncio.

Nesse meio-tempo, Stacy, tendo pedido que o tio lhe concedesse a honra de jantar com ele naquela noite, estava se atrapalhando na encomenda de pratos e vinhos, querendo deixar o Sr. Miles Calverleigh em um humor jovial. Tendo examinado o cardápio, impacientou o garçom mudando de ideia três vezes. Finalmente decidiu-se por uma sopa; em seguida, carne de vitela; depois, perdizes com cogumelos grelhados e vagem, com caranguejos limpos, íbis e alcachofras com molho, como acompanhamentos. Essa elegante refeição foi servida em sua sala particular, e apesar de o Sr. Miles, um comensal comedido, não parecer ter-lhe feito justiça, beliscando a vitela e recusando o caranguejo e o íbis, comeu duas perdizes e não fez nenhuma objeção a ter seu copo constantemente cheio.

Até os pratos terem sido retirados, só ficando uma garrafa de brandy sobre a mesa, Stacy restringiu sua conversa a mexericos corriqueiros que corriam em Londres, mas quando o garçom saiu da sala, Miles Calverleigh, recuando sua cadeira e estendendo as pernas, um tornozelo sobre o outro, bocejou e disse:

— Direto ao assunto, sobrinho! Não me convidou para me regalar com mexericos. O que quer de mim?

— Deus do céu, senhor, nada! Ora, o que eu ia querer?

— Não faço a menor ideia. Nem do que imagina que eu possa, ou devesse, fazer por você. Não foi nada encorajador, mas Stacy insistiu: — Não acha que devíamos nos conhecer melhor, senhor?

— Não, por quê?

Stacy hesitou: — Bem... o nosso parentesco!

— Não dou a menor importância! Parentes são uma chatice — O senhor não! — Stacy soltou uma risada naquele exato momento. — Na verdade, longe disso! Não posso lhe dizer quantas vezes na semana passada ouvi seus méritos serem louvados!

— Não finja. Está querendo me pedir dinheiro emprestado?

— Como se fosse adiantar! Acho que seus bolsos estão tão vazios quanto os meus! — replicou Stacy, esvaziando o copo de brandy e estendendo a mão para pegar a garrafa.

— Não sei a extensão do vazio dos seus bolsos... Foi interrompido.

— Total! — Dessa vez, a risada de Stacy foi destituída de alegria. — Estou arruinado! — Esperou por um momento, mas como não teve outra resposta a não ser um olhar inquiridor do parente insensível, prosseguiu convulsivamente: — O diabo está nas cartas! Sim, e nos dados também! Basta chocalhá-los e viram comichão! Se eu não conseguir levantar algum dinheiro, estarei perdido.

O Sr. Miles Calverleigh, satisfeito com a temperatura do copo, sentiu o aroma do brandy e foi bebendo bem devagar.

— Eu diria que está para conseguir — disse ele. A raiva tomou Stacy e, com ela, o rubor.

— Não se aquela maldita tia tiver alguma influência! E ela me disse que a maioridade de Fanny só será aos 25 anos!

— Vai ter de procurar outra com que levantar dinheiro, não? Stacy bebeu seu segundo copo de brandy.

— E acha que não fiz isso? Droga! Achei que tinha conseguido! Mas quando a sorte de um homem o abandona, não adianta, independentemente do que ele tiver na mão! Fiquei endividado por semanas... mal me atrevi a aparecer na cidade!

— Eu iria para o exterior, se fosse você.

— E do que eu viveria? — perguntou Stacy.

— Ora, da sua esperteza! — replicou Miles, animado.

— Concluo que foi o que fez!

— Sim, é claro.

— A esperteza não parece ter-lhe servido muito bem! Miles riu.

— Melhor do que se tivesse ficado na dependência de alguém, garanto! Houve desprezo suficiente em sua voz para inflamar Stacy, que já ia para o terceiro copo.

— Não sei que direito tem de ser tão arrogante! Foi o que o senhor mesmo fez... ou tentou fazer!

— Foi? Parece estar muito bem informado!

— Praticamente foi o senhor quem disse — resmungou Stacy.

— De qualquer maneira, sempre soube que fugiu com uma ou outra herdeira.

— Sim — concordou Miles, sem o menor sinal de perturbação.— Eu não o aconselharia a seguir meu exemplo. Faria melhor se considerasse este um aviso sinistro.

— Não quero fugir com Fanny! Nunca foi a minha intenção até aquela machona retornar a Bath para me atrapalhar!

— Aquela o quê?

O espanto na voz de seu tio fez Stacy se lembrar da razão de tê-lo convidado a jantar e, com uma mudança abrupta de atitude, disse: — Eu não a insultaria! Não, e tampouco a censuraria, acho. Mas quando nossas esperanças são frustradas... Ela se opôs ao casamento, senhor!

— Bem, certamente não se pode censurá-la por isso.

— Eu disse que não a censuraria! Fiz de tudo para convencê-la, assegurei-lhe de minha determinação de me tornar digno de Fanny... tudo em vão! Ela é inabalável! Nada do que eu dissesse exerceria qualquer efeito sobre ela!

— Não pode afirmar isso. As chances são de tê-la feito se sentir terrivelmente nauseada.

— Mas é verdade! — declarou Stacy, enrubescendo. — Serei um marido modelo, juro!

— Mentira! — acusou o tio, sem medir palavras.

— Não, estou dizendo!

— Pois então não diga! Do que adianta me contar isso ou seja lá o que for? Eu não sou o tutor da garota!

— Pode me ajudar, se quiser!

— Duvido.

— Sim, sim, tenho certeza! — disse Stacy, ansioso, enchendo de novo seu copo. — A Srta. Abigail gosta do senhor... está se dando muito bem com ela! Ouvi como conversava com o senhor hoje, e ria das coisas que lhe dizia! Se me apoiasse, se defendesse a minha causa...

— Sim, você está um tantinho embriagado! — interrompeu Miles.

— De jeito nenhum! tenho de lhe informar, senhor...

— Oh, não, não bêbado feito um gambá! — corrigiu-se Miles de modo confortador. — Apenas ligeiramente tonto!

— Eu o enfrentarei lá fora, senhor! Miles pareceu achar graça.

— E fatalmente seria vencido! No entanto, eu estaria mais que disposto a isso, em vez de ficar falando mais besteiras! Eu defender a sua causa? O que diabos o faz pensar que defendo outras causas que não as minhas? Acredite, não poderia estar mais enganado!

— Não pode ser tão... egoísta a ponto de se recusar a levantar um dedo para me ajudar! — disse Stacy, indignado.

— Oh, está completamente enganado! Sou precisamente muito egoísta.

— Mas sou seu sobrinho! Não vai querer que eu fique sem um tostão!

— Isso me é completamente indiferente.

— Pelo amor de Deus! — explodiu Stacy.

— Como seria para você se eu estivesse na sua situação. — Miles sorriu ligeiramente. — Por que qualquer um de nós dois daria a mínima para o que acontecesse com o outro?

Stacy deu uma risada incerta. — Creio que nunca conheci alguém tão estranho!

— Não deixe que isso o atormente! Para seu consolo, saiba que não adiantaria nada se eu quisesse recomendá-lo à Srta. Abigail Wendover.

— Ela o escutaria — argumentou Stacy. — E se ela pudesse ser persuadida a consentir com o casamento, tenho certeza de que o Sr. Wendover também consentiria. Ele não se preocupa com Fanny, nunca se preocupou, e sua mulher não gosta dela. Ela não vai apresentá-la à sociedade no ano que vem! Aposto o que quiser como vai ficar feliz em ver Fanny comprometida antes de a própria filha debutar!

— Então, por que desperdiçar sua eloquência comigo? Fale com a Sra. James Wendover!

— Com a Srta. Abigail contra mim? — replicou Stacy, com escárnio. — Não sou nenhum traste!

— Meu bom rapaz, se imagina que James Wendover pode ser persuadido por sua irmã, ou qualquer outra pessoa, a consentir no casamento de Fanny com um pé-rapado, está maluco! — disse Miles, rudemente.

Stacy esvaziou o quarto copo. — Não acredita que ele se verá obrigado a consentir? Aposta quanto? — perguntou ele, com voz um pouco engrolada. —Vou forçá-lo... nada mais me resta a fazer!

— Que tal Danescourt? Stacy olhou intrigado para ele.

— Danescourt?

— Por que não a vende? — perguntou Miles calmamente.

Miles, que aquecia seu copo nas mãos, retrucou: — Vender! Vou salvá-la! Antes que a penhorem!

— É grave assim?

— Sim, maldição! Além do mais... não quero vendê-la!

— Por que não? Disse que odiava o lugar.

— Sim, mas tem sua importância. Confere uma certa distinção. Uma casa no campo, sabe. Calverleigh de Danescourt. Sem ela, perco todo o poder... fico fora de combate!

— Parece que já está — disse o tio, cáustico.