Ovelha Negra
Capítulo XV
Os Leavening tinham alugado apartamentos em Orange Grove. Talvez esta não fosse uma situação ideal, admitiu a Sra. Leavening, quando Selina ressaltou-lhe as várias desvantagens, mas era um lugar bonito, acessível, sem necessidade alguma de ter de chamar um carro toda vez que quisesse ir ao balneário, ou fazer algumas comprinhas. Quanto aos sinos da abadia, não tinha dúvidas de que logo se acostumariam e passariam a nem mesmo escutá-los.
— Bem, querida — disse ela a Selina, plácida —, quando você chegar à nossa idade, terá aprendido que não se encontra nada exatamente como se quer, portanto, se tiver um pouquinho de bom senso, aceitará o melhor que lhe oferecem. — Soltou um risinho e acrescentou: — O Sr. Calverleigh vai rir quando souber! Ele diria, só porque eu gosto de olhar pela janela o que se passa na rua, que eu nunca ficaria feliz a não ser no centro da cidade!
Abby, até esse momento, sentira nada além de um interesse cortês nos planos dos Leavening, mas essas palavras a afetaram intensamente.
— Se ele chegar a saber! Ele pretende retornar a Bath, senhora?
Ela falou com uma indiferença estudada, mas a Sra. Leavening não se deixou enganar. O brilho zombeteiro em seu olhar fez Abby corar, mas tudo o que respondeu foi: — Bem, querida, como seu apartamento na York House continua sendo mantido para ele, supõe-se que sim!
Esse foi o único raio de sol por muitos dias que atravessou as nuvens que circundavam a Srta. Abigail Wendover. Estava passando por um tempo difícil, do qual Miles Calverleigh não era o único responsável, mas também suas queridas irmã e sobrinha.
A gripe deixara Fanny irritadiça e deprimida. Foi desnecessário o Dr. Rowton dizer que tal humor extraordinário era imputável à sua doença, e que já era esperado. Abby sabia disso, mas nem seu bom senso nem a segurança de seu médico tornaram-lhe mais fácil suportar pacientemente as exigências extremamente exaustivas feitas ao seu ânimo por uma convalescente que, quando não mergulhava na melancolia que afetava a todos à sua volta, impertinentemente via defeito em tudo, do chá muito forte levado ao seu quarto no café da manhã, aos livros maçantes que Abby escolhera com tanto cuidado na Meyer's Library; ou ficava olhando, cheia de ressentimento, por uma janela molhada pela chuva para o céu cor de chumbo.
— Se pelo menos parasse de chover! — dizia com um suspiro. Se eu pudesse sair!
A coitadinha da Fanny, dizia Selina, estava contrariando seu ego alegre; declaração que inflamava uma centelha de diversão nos olhos cansados de Abby. O Dr. Rowton disse a Abby, em sua maneira direta, que quanto antes parasse de mimar Fanny melhor seria para ela própria, e para sua sobrinha também; mas o Dr. Rowton não sabia que havia outro motivo mais profundo para os caprichos de Fanny. Abby sabia, e mesmo quando sentia vontade de dar um tapa em sua aborrecida protegida, seu coração a impedia. Ela própria estava sofrendo da mesma doença, e se tivesse 17 anos, e não 28, sem dúvida teria se abandonado ao desespero, exatamente como Fanny estava fazendo.
Podia ser que a depressão de Fanny estivesse impondo uma forte tensão sobre os nervos de Abby, mas foi Selina que acabou com eles e a fez perder o autocontrole.
Selina havia visto a Sra. Clapham, e percebeu que era tudo verdade. Tinha-a visto no balneário, aonde uma pontada do reumatismo a levara (enfrentando corajosamente as condições climáticas em sua carruagem com a capota erguida) naquela manhã. No começo, não sabia quem era, afinal como poderia? Estava simplesmente pensando como o chapéu que ela estava usando era elegante (embora, depois, tenha percebido que tinha plumas demais e era de um tom desagradável de púrpura, além de ser inapropriado para uma viúva), quando a querida Laura Butterbank havia-lhe sussurrado que era a Sra. Clapham.
— O que foi um choque extremamente desagradável, como pode imaginar, e quase provocou um de meus espasmos aflitivos. Felizmente eu estava com o frasco de sais em minha bolsa, pois justo quando estava pensando que não tinha gostado nada da aparência dela (não que eu tenha visto seu rosto, pois estava de costas para mim, mas sempre dá para perceber), quem é que eu vejo se não o jovem Calverleigh, dirigindo-se a ela, com aquele seu sorriso falso na cara, encantado e cheio de cordialidade, como se não tivesse passado semanas cortejando Fanny! E, Abby, ele teve a impudência de me ignorar! Não adianta dizer que não me viu, porque estou certa de que viu, pois tomou muito cuidado em não olhar de novo na minha direção, além de sair quase que imediatamente com aquela criatura vulgar. Quando me lembro da maneira dócil como ele se introduziu nesta casa, penetrando aos poucos... pelo menos foi assim até você chegar e tratá-lo com desdém, e embora eu, na época, tenha achado um pouco grosseiro de sua parte, você estava com toda a razão, o que admito francamente... bem, querida, fiquei terrivelmente abalada, e tremia tanto que não sei como cheguei à carruagem, e se não fosse o Sr. Ancrum, que me ofereceu o braço, provavelmente nunca teria conseguido.
Ela estava obviamente muito abalada. Abby fez o que pôde para abrandar sua aflição, mas coisa pior estava por acontecer. Aquela Mulher (título sob o qual Abby não teve a menor dificuldade de reconhecer a odiosa Sra. Ruscombe) havia tido a desfaçatez de se aproximar, com aquele seu sorriso meloso falso, para se solidarizar com a decepção humilhante da coitadinha da Fanny. E no desespero do momento, não foi capaz de proferir uma resposta à altura. Nada lhe ocorreu!
Infelizmente, respostas em excesso lhe ocorreram durante os dias seguintes e sempre que estava sozinha com Abby, lembrava-se exatamente do que a Sra. Ruscombe dissera, acrescentando ao episódio as diversas coisas demolidoras que devia ter-lhe dito, e lembrando Abby das várias ocasiões em que a Sra. Ruscombe tinha-se comportado de maneira abominável. Não conseguia pensar em mais nada e quando, pela terceira vez na noite, perdida em pensamentos, rompia o silêncio dizendo, como se estivessem no meio de uma discussão, "E mais uma coisa...!", a paciência de Abby a abandonava, e ela exclamava:
— Pelo amor de Deus, Selina, não recomece! Como se já não fosse ruim o bastante ficar ouvindo Fanny dizer "Se pelo menos parasse de chover!" uma dúzia de vezes ao dia! Se não quer me deixar histérica, pare de falar sobre a Sra. Ruscombe! Sei de cor o que ela lhe disse, e quanto ao que você poderia ter-lhe dito, sabe muito bem que jamais diria coisas desse tipo!
Arrependeu-se imediatamente, é claro. Na verdade, horrorizou-se com sua perda de controle. Pedindo perdão a Selina, disse que provavelmente estava exausta demais.
— Sim, querida, sem dúvida tem de estar — replicava Selina. É uma pena que não descanse, como tenho insistido para que faça.
Selina não estava ofendida, ó céus, não! Só um pouco magoada, mas não queria falar sobre isso. Tinha certeza de que Abby não tivera a intenção de magoá-la. Era só que lhe faltava um pouquinho de sensibilidade, mas não queria falar mais sobre aquele assunto tampouco.
Ela também não, mas o seu silêncio sobre esse ou qualquer outro tópico foi eloquente o bastante, e logo forneceu a Abby tudo o que era preciso para que a fizesse desejar apaixonadamente que Miles Calverleigh retornasse e a tirasse sem demora daquela casa doente.
Mas não foi Miles Calverleigh que fez uma visita inesperada a Sydney Place certa manhã, logo antes do meio-dia. Foi o Sr. James Wendover, carregando uma pequena valise e ostentando a expressão ressentida de alguém forçado, pelo comportamento irrefletido de seus parentes, a sofrer o desconforto de uma viagem noturna a Bath na diligência.
Foi Fanny, sentada desconsolada à janela da sala quem o viu primeiro. Quando a caleche estacionou, a esperança de que tivesse trazido Stacy Calverleigh finalmente para ela subiu por seu peito durante um momento extático, antes de cair como um prumo ao ver a figura magra, vestida sobriamente, do Sr. Wendover. Ela exclamou, sobressaltando Abby: — É o meu tio! Não o deixem chegar perto de mim!
Com essas palavras dementes, correu para fora da sala, deixando Abby tendo de se desculpar da melhor maneira possível.
Prevenida, Abby não traiu nem perturbação nem espanto quando o Sr. Wendover entrou na sala, embora dissesse, ao se levantar da cadeira: — Que surpresa, James! O que o traz a Bath?
Cumprimentando-a de maneira mecânica replicou,em tom acre: — Suponho que saiba muito bem o que me trouxe, Abby! Tenho de acrescentar que foi muito inconveniente, muito inconveniente, mas como aparentemente vocês enlouqueceram, fui obrigado a fazer a viagem! Onde está Selina?
— Provavelmente bebendo as águas, no balneário — respondeu Abby calmamente. — Ela não vai se demorar, acho. Veio na diligência do correio? O que o atrasou tanto?
— Não atrasou. Cheguei a Bath pontualmente às dez e já cumpri parte da minha missão. Por que foi necessário eu fazer isso, deixo que sua consciência responda, Abby! Se é que — acrescentou, áspero — tem uma consciência, do que, às vezes, sou forçado a duvidar!
— Certamente parece como se eu não tivesse. No entanto, me consolo com a reflexão de que, pelo menos, não sou tão estúpida quanto o resto da minha família! — comentou Abby, vívida. — Acho que veio ver se pode pôr fim ao namoro infeliz de Fanny com o jovem Calverleigh. Se tivesse me avisado da sua intenção, teria se poupado da viagem. Perdeu seu tempo, meu caro James!
Seus olhos dardejaram e ele disse com uma risada seca, triunfante: — Perdi? Perdi mesmo? Já estive com o jovem janota e lhe deixei muito claro que se ele tentasse convencer minha tola sobrinha a um casamento clandestino, estaria cometendo um erro, um erro muito grave! Informei-lhe que não hesitaria nem por um instante em tomar as providências para anular esse casamento e que em absolutamente nenhuma circunstância desembolsaria um centavo da fortuna de Fanny se ela contraísse uma união sem meu consentimento! Também lhe informei que teria de esperar oito anos para ter qualquer benefício dessa fortuna! Já disse que você perdeu seu tempo — observou Abby. — eu também me assegurei de que o jovem fosse avisado a respeito dessas circunstâncias. Não acho que acreditou em mim, e estou certa de que não deu muita importância a todo esse seu escarcéu. Não tenho boa opinião sobre a inteligência dele, mas acho que é suficientemente astuto para ter sondado como você era antes de se empenhar em conquistar Fanny. Deus meu, se ele tivesse conseguido fugir com Fanny, você teria feito qualquer coisa para abafar o escândalo, e ele, pode ter certeza, sabia muito bem disso?
Um rubor de raiva subiu à face do Sr. Wendover. — Mesmo? Realmente! Está muito enganada, minha querida irmã! Sei que se acha zelosa com cada pretendente, mas, na minha humilde opinião, é tão idiota quanto Selina! Não tenho nenhuma dúvida de que ele não deu a menor atenção ao que você lhe disse. Só um crédulo tolo não teria percebido como você é! Quando, entretanto, ele foi confrontado por mim, o caso mudou de figura! Fico feliz em poder lhe informar que esse caso lamentável se encerrou!
— Sim, se encerrou quando Fanny adoeceu. Você, na verdade, não teve nada a ver com isso. Segundo o que se diz, Stacy Calverleigh, durante as duas últimas semanas, tem cortejado uma viúva rica, uma conquista muito mais atraente do que Fanny, posso lhe garantir! Ainda não tive a felicidade de conhecê-la, mas acho que ela está muito mais inclinada a sucumbir à atração dele.
A surpresa foi tanta que sua raiva esfriou instantaneamente. —Não está falando sério! Isso é verdade? Não me diga! Nada melhor poderia ter acontecido! Você disse uma viúva? Bem, dizem que ele está na penúria... completamente destruído! E Danescourt está arruinada! Nunca fiquei tão chocado na vida! Fanny tem de ser congratulada!
— É verdade. Mas receio que não poderá fazer isso. Ela ainda não se restabeleceu. Na verdade, acho que seria mais prudente ela não descer hoje, no caso de ainda ser contagioso.
James, como ela bem sabia, partilhava o pavor de Selina de contrair qualquer enfermidade contagiosa, e portanto concordou prontamente que seria melhor Fanny permanecer no quarto.
Afirmou que não havia necessidade de vê-la naquele momento; uma observação não calculada para granjear a estima de sua irmã. Prosseguiu por vários minutos criticando o caráter de Stacy Calverleigh, mas de repente se calou e a expressão alegre em seu rosto se desfez. Pôs-se a andar pela sala, e tentou, duas vezes, dizer algo, mas aparentemente pensou melhor, e finalmente parou diante da cadeira de Abby e disse, solene:
— Abby! Tem uma coisa que devo lhe dizer!
Ela adivinhou o que estava por vir, mas simplesmente franziu a testa, curiosa. — Uma coisa de mais importância do que o banal caso de Fanny, algo muito mais importante! Isso me chateou muito. Deixou-me irritável por dois dias. Deve saber que sempre fui sujeito a distúrbios do fígado, e nada provoca mais um de meus ataques do que levar um choque! Sofri um choque grave, irmã, quando tomei conhecimento de que não somente o jovem Calverleigh estava em Bath, mas também seu tio! Achei que isso era impossível!
— Por quê? — perguntou Abby.
Ele pareceu achar difícil responder, pois depois de olhar para ela por um momento, falou, de forma pouco convincente:
— Aqui! Em Bath! Achei que estivesse na Índia!
— Bem, estava, mas agora retornou à Inglaterra. Creio que é comum as pessoas fazerem isso.
— Comum! Para algumas pessoas! E aqui... de todos os malditos lugares, veio logo para cá! Posso ser obrigado realmente a se encontrar com esse sujeito...!
— Não deixe que isso o atormente! — disse ela, com uma voz falsamente gentil. — Não quero parecer insensível, mas se tiver um problema de fígado não poderá ficar confinado nesta casa. Espero, já que não há possibilidade de se encontrar com Miles Calverleigh, que essa provação, pelo menos, nos seja poupada. Acontece que ele não está em Bath.
— Não está? — perguntou ele, impaciente. — Então, onde está?
— Não faço a menor ideia de onde possa estar — replicou ela com indiferença.
— Ele pretende retornar?
— Oh, espero que sim! — Abby sorriu de uma maneira que o avisou do perigo.
— Espera que sim! Então, é verdade, não é? Não somente o sujeito teve a desfaçatez de fazê-la objeto de seus galanteios, como você o encorajou! Você não superou essa instabilidade de caráter que meu pai temia que um dia a levasse a cometer uma imprudência grave. Você ainda tem o que Cornelia sempre achou ser amor pela singularidade. Você ainda...
— Sabe, James, acredito mesmo que você seria mais feliz se desse menos atenção aos relatos que a Sra. Ruscombe manda regularmente para Cornelia — interrompeu ela. — Se você morasse aqui, não lhes daria a menor atenção!
Ele enrubesceu.
— Se você me disser que não há nenhuma verdade na informação que ela achou seu dever transmitir a Cornelia, naturalmente aceitarei a sua palavra.
— A única coisa que tenho de lhe dizer é o que já disse: está perdendo seu tempo! Não sou criança, e o que faço é problema meu! Agora, por favor, vamos mudar de assunto, senão vamos acabar brigando.
Ela falou com calma, mas estava com muita raiva. Ele pareceu perceber isso, pois quando deu outra volta na sala, falou com o tom de voz mais moderado:
— Não pretendo aborrecê-la. Lembre-se de que apesar de não ter nenhuma autoridade sobre você, sou seu irmão! O que você faz sempre me diz respeito. Peço que me diga: sente alguma coisa por esse homem?
Ela olhou para ele calada, mas foi o rosto de Miles Calverleigh que viu, não o do irmão. Um sorriso insinuou-se em seu olhar; desviou-o do Sr. Wendover, e ficou olhando para o fogo.
— Ah, sim! — respondeu baixinho.
Ele resmungou. — E ele? Ele teve o descaram... ele lhe fez uma proposta? — Ela assentiu com a cabeça e ele resmungou de novo. — Pobre garota! Sinto sinceramente pena de você! Fique tranquila que nenhuma palavra do que me contar sairá um dia de minha boca! Não pode se casar com Calverleigh. Deus do céu, seria de se pensar que na sua idade... — Interrompeu-se e continuou com o que pretendia ser um sorriso indulgente: — Bem, você não é tão velha, afinal, e podemos nos achar apaixonados em qualquer idade, não? Mas tem idade bastante para refletir antes de se entregar a uma loucura... a um ato de tal insensatez que arruinaria a sua vida! Permita-me falar-lhe francamente, se bem que não tenha muito prazer em minha tarefa. Reconheço que a considere com repulsa: na verdade, nunca pensei que um dia seria obrigado a discutir esses assuntos com qualquer uma de minhas irmãs! Calverleigh é um sujeito irresponsável. Sua reputação...
— Péssima, não era? — concluiu ela.
— Sim, querida irmã, era! Não vou corromper seus ouvidos com os detalhes de sua carreira... Abigail! Acha isso motivo de riso?.
— Oh, desculpe! — Ela tentou reprimir o riso. — É muito descortês rir na cara de alguém, mas não consigo evitar! De repente pensei em como Miles Calverleigh gostaria de ouvir seu discurso tão bombástico, e me perguntei o que ele diria! Embora faça uma ideia disso. Seria certamente ultrajante, portanto talvez seja bom ele não estar aqui, pois o chocaria tanto... o bastante, creio eu, para desencadear uma crise de fígado! Não corrompa mais meus ouvidos, James! Lembre que já não uso andadeiras há muito tempo! E não dou a mínima para a reputação do Sr. Calverleigh.
— Você está histérica! Não sabe o que está dizendo! Ele é um homem sem princípios, sem respeito por nenhuma das virtudes que você foi ensinada a reverenciar!
— Oh, desrespeito total por elas! — disse ela, cordial. — Também não tem nenhuma consideração com as obrigações familiares, e estou chegando rapidamente à conclusão de que ele tem toda razão.
— Tomo em consideração todas as coisas extravagantes que está se deleitando em dizer, mas uma conversa tão irrefletida e desvairada não lhe fica bem. Quando afirma não dar a mínima para a reputação de Calverleigh, não percebe o que está dizendo, pois não sabe nada sobre isso. Seria um choque se soubesse.
— Bem, você também não sabe nada sobre isso, sabe? — falou ela. — Não pode saber de muita coisa de antes de ele ser mandado para a Índia, pois era mais jovem do que ele, que tinha apenas 20 anos na época. E não pode saber nada sobre ele dessa data em diante.
Ele se viu forçado a dar outra volta na sala, as mãos juntas nas costas, os dedos se mexendo convulsivamente. Parando mais uma vez, respirou fundo:
— Abby! Há circunstâncias que tornam impossível qualquer união entre você, uma Wendover, e um Calverleigh... Inconcebível! Não posso dizer mais nada. Precisa acreditar em mim quando lhe digo que é assim!
— Não diga mais nada — retrucou ela, com calma. — Sei o que aconteceu... vinte anos atrás.
— O quê?. — Por um momento, pareceu horrorizado, depois, incrédulo. — Não pode saber!
— Ah, sim, posso! Ele fugiu com Celia, não foi? Mas foi tudo abafado, à maneira da nossa família, e ela, enfim, se casou com Rowland.
— Quem lhe contou isso? — perguntou ele, estupefato.
— Ora, ele, é claro... Miles Calverleigh.
Seu queixo caiu. Pareceu ter dificuldade de falar, e gaguejou:
— Ca-Calverleigh lhe con-contou? O próprio Cal-Calverleigh? Deus do céu! — E as palavras lhe falharam. Enquanto ela o observava, se divertindo, de certa maneira, ele puxou o lenço do bolso e enxugou a testa. Recuperando um pouco do controle sobre as próprias emoções, disse: — É mais grave do que imaginei! Ele deve ter perdido toda a vergonha! Perdido todo vestígio de decoro!
— Não creio que já tenha tido qualquer vestígio de decoro para perdê-lo — disse ela, pensativa. — Quanto à vergonha, não sei. mas ele não se envergonha de ter fugido com Celia. E não vejo muito motivo do que se envergonhar. Foi imprudente... e, é claro, impróprio... mas ele era muito jovem, e quando o pai de Celia obrigou-a a ficar noiva de Rowland, acho que lhe pareceu que não havia outra alternativa. Não o culpo. Quem eu culpo, e desprezo, do fundo do meu coração, são papai, Morval e Rowland.
Ele olhou fixamente para ela e, baixando a voz, revelou, em tom apocalíptico: — Você não sabe de tudo! Eles só foram alcançados no dia seguinte!
Ela tentou não rir, mas sua expressão foi demais para ela. Completamente estarrecido com tal depravação, ele disse bruscamente:
— Céus! Começo a achar que combinam, você e esse salafrário!
— Sim, James, também começo a achar! — concordou ela, sem conseguir conter um acesso de riso.
Talvez tenha sido uma sorte serem interrompidos nesse momento por Selina, que entrou na sala para recebê-lo com saudações efusivas. Para ela, os vínculos familiares eram extremamente importantes. Sua afeição, embora não profunda, era sincera e duradoura, e estava genuinamente feliz por ver James, esquecendo-se, ao abraçá-lo, de que a última carta que recebera dele provocara-lhe uma considerável indignação.
— James! Que surpresa! Não fazia a menor ideia... e só temos fricassé de coelho e cebolas para o jantar! Se eu soubesse! Mas Betty ou Jane podem ir à cidade buscar algumas perdizes, ou quem sabe um pernil de veado, que Fletching prepara muito bem, e é uma coisa de que sempre gostou.
Mas James não ia ficar para jantar com suas irmãs. Retornaria a Londres na diligência do correio. Consternada, Selina titubeou:
— Não vai ficar? Mas, James...! Trouxe a valise! Mitton a levou ao seu quarto, e pretende desfazê-la assim que a cama estiver feita!
— Peça que a traga de volta, por favor. Era a minha intenção passar a noite aqui, mas o que fiquei sabendo desde que entrei nesta sala me escandalizou tanto... posso afirmar que me deixou tão atônito!... que prefiro retornar a Londres!
— Deus meu! — Selina lançou um olhar inquiridor a Abby.
— Não está se referindo a... ah, mas Abby contou, certamente que acreditamos que não há perigo a temer agora, não? Não houve continuidade. O traste só fez uma única visita desde que a querida Fanny adoeceu, e com meus próprios olhos vi a Criatura que ele está cortejando!
— Não estou me referindo ao jovem Calverleigh — explicou James, formal. — Vim a Bath com a esperança de descobrir que os rumores preocupantes que ouvi não tinham fundamento. Ao invés disso, fiquei sabendo que a sua irmã enamorou-se de um homem que nunca deveria ter sido autorizado a atravessar a sua porta!
— Não, não! Ah, por favor, James, não fale assim! — pediu Selina com a voz enfraquecida. — Ele é muito respeitável, embora eu não goste da maneira como se veste... tão desleixado. Veio nos visitar com botas de cano alto!... e , é claro, ele deve ter sido um libertino deplorável quando jovem, a ponto de ser mandado para a Índia... não que eu considere direito fazer uma coisa tão cruel, pois não acho, e nunca acharei certo, e acho muito injusto dizer que ele não deveria ter tido permissão para atravessar a porta depois de todos esses anos condenado a viver na Índia, que talvez seja um lugar interessante, mas é insalubre, e o deixou queimado da cor de uma noz! E Abby é tanto sua irmã quanto minha!
Ele a olhou com os olhos estreitados, demonstrando desconfiança: — Se Abby perder todo o decoro, todo o senso de obrigações que deve à família, e se casar com Calverleigh, ela não será mais minha irmã!
— Não vai me dissuadir — disse Abby.
— Não, não, querida! — implorou Selina. — Por favor, não! James não quis dizer isso!
— Quando ouvir o que tenho a dizer, Selina...
— Sim, mas não agora! — replicou Selina, muito agitada. — Mitton foi buscar o xerez, e tenho de tirar o chapéu e a capa, e então estará na hora do almoço, em que sempre, sabe... comemos ovo cozido, um pedaço de carne fria... depois, quando estivermos mais calmos e não formos interrompidos, o que sempre é um problema quando se está desfrutando de uma discussão séria. Não, não foi isso o que quis dizer! Desfrutando não, pois já começo a sentir um espasmo!
James olhou para ela, um tanto constrangido, e disse com a voz mais branda: — Está bem, vou adiar o que tenho a dizer. Não vou almoçar, mas aceito uma xícara de chá
— Sim, querido, é claro, se bem que eu tenha certeza de que lhe faria muito bem comer alguma coisa antes de partir!
— Não o pressione, Selina! Ele está com crise de fígado! — interveio Abby.
— Ah, o fígado! Então, não é de admirar...! — gritou Selina, sua expressão se iluminando. — Tenho exatamente o que precisa, querido James! Vou buscar agora mesmo, mas nada de xerez, de maneira nenhuma!
Saiu então correndo da sala, sem dar atenção à negativa exasperada de James, que afirmava se sentir perfeitamente bem.
— Cuidado, James — avisou Abby, maliciosa. — Vai se ver em apuros se provocar convulsões em Selina!
Ele lançou-lhe um olhar de repulsa. — Poupe-me de mais leviandades de sua parte, Abigail! Não vou dizer mais nada até depois do almoço.
— Não vai me dizer mais nada em hora nenhuma — replicou Abby. — Já falou demais! Talvez não tenha reparado, mas o sol saiu há meia hora. O que eu vou fazer depois do almoço, querido James, é levar Fanny para dar uma volta de carruagem!
Com essas palavras, acompanhadas de um sorriso extremamente doce, ela saiu para contar a Fanny a respeito do passeio que fariam.
Fanny também estava animada e inquieta. Virou um rosto apreensivo e desconfiado para a tia e disse: — Por quanto tempo meu tio permanecerá aqui? Não quero vê-lo!
— Não tenha medo, meu amor! — replicou Abby, animadamente. — Seu tio está tão relutante em vê-la quanto você. Eu lhe disse que sua doença ainda era contagiosa.
Fanny deu uma risada espontânea. — Ah, Abby! Que mentira!
— Sim, está pesando muito na minha consciência, mas não hesito em dizer uma mentira ou duas para salvá-la do que nem eu mesma aguento. Grimston vai lhe trazer uma bandeja. Agora vou enviar uma mensagem ao estábulo.
Mas acabou sendo Lavinia Grayshott, e não Abby, quem acompanhou Fanny no passeio. No momento em que Abby estava se preparando para ocupar seu lugar do lado de Fanny na caleche, Lavinia chegou correndo e exclamou sem fôlego:
— Oh, que maravilha! Finalmente vai sair! Agora sim, vai melhorar logo! Oh, Srta. Abby, desculpe! Como vai? Vim ver Fanny só para lhe trazer este livro! Oh, e Fanny, cuidado ao abri-lo! Dentro há um acróstico, de Oliver!
Abby percebeu o brilho na expressão de Fanny, e também que ela ia preferir a companhia de Lavinia à sua. Perceber isso lhe provocou uma pontinha de mágoa, mas não hesitou. Disse, sorrindo para Lavinia:
— Por que não vai com Fanny, no meu lugar? Gostaria de ir? A resposta estava óbvia na face de Lavinia.
— Oh...! Mas e você? Não quer ir com ela?
— Não! — replicou Abby. — Tenho mil coisas a fazer, e ficaria feliz em me livrar dela! A carruagem poderá levá-la para casa, portanto, se Martha não fizer objeção, deixarei Fanny aos seus cuidados.
Martha, seguindo Lavinia mais devagar, consentiu prontamente; de modo que Lavinia pulou para dentro da carruagem. Antes que desaparecesse, Abby viu as duas cabeças juntas, e adivinhou que as confidências já tinham começado a ser trocadas. Deu um suspiro ao se virar, para entrar de novo em casa. Havia um constrangimento entre ela e Fanny, pois sua sobrinha sabia que ela era hostil a Stacy Calverleigh. Bem, talvez se abrisse com Lavinia e se sentisse melhor depois.