Ovelha Negra

Georgette Heyer · Capítulo 13 de 19

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Ovelha Negra

Capítulo XII

A notícia de que o Sr. Calverleigh tinha partido de Bath foi levada a Sydney Place pela Srta. Butterbank na manhã seguinte. Ela ficou um pouco desapontada ao ver que a Srta. Wendover já sabia, tendo recebido uma mensagem dele se desculpando por não poder comparecer à festa. Mas como não divulgou o motivo de sua partida, seu destino ou por que meio viajaria, ela pôde rapidamente esclarecer duas das omissões. Era conhecida pelas costas, como a agente da Inteligência de Bath, mas apesar de poder informar à Srta. Wendover que o Sr. Calverleigh havia embarcado na Diligência para Londres às cinco horas da tarde anterior, não descobrira a natureza de seus negócios, e só podia fazer algumas conjeturas.

A Srta. Wendover soube da partida com alívio e acalentou a esperança de o Sr. Calverleigh não ter a intenção de retornar a Bath. Por mais tola que fosse, não lhe escapara que ele e Abby se davam extraordinariamente bem, circunstância que a enchia de apreensão. Ele era um homem interessante, e, na sua opinião, não era velho, mas não se podia imaginar um partido menos aceitável para Abby. Quando ouviu a primeira insinuação de que Abby encorajava sua corte, ficara tão incrédula quanto indignada, mas quando a irmã, não satisfeita em acompanhá-lo ao teatro, fez um passeio à região rural vizinha com ele, sentiu-se muito inquieta e revelou à leal Srta. Butterbank que gostaria que nenhum dos Calverleigh tivesse jamais vindo a Bath.

A chegada deles certamente acabara com sua paz. Primeiro, Stacy (pobre rapaz!), cujas atenções perfeitamente compreensíveis com Fanny haviam feito a ira de James cair sobre ela e, de certa maneira, até mesmo a de Abby; e que se revelara, se James e George estivessem certos, tristemente libertino, se bem que não se admiraria de descobrir que tinham exagerado grosseiramente as deficiências de Stacy, pois havia algo particularmente cativante em suas maneiras elegantes, na deferência com que tratava os mais velhos, era o chefe de sua família e dono de uma propriedade considerável em Berkshire. Ela nunca visitara Danescourt, mas a tinha visto um antigo volume intitulado Moradias da nobreza e da pequena nobreza, e lá estava com uma ilustração de uma casa grande e imponente, de antiguidade óbvia e a descrição de detalhes interessantes sobre sua história, e a dos Calverleigh, que a possuíam a muitos e muitos séculos. Se fosse verdade, como George dissera a Abby, que estava tão endividada que corria o risco de sair das mãos dos Calverleigh, não podia ser considerada parte de um patrimônio, é claro, pois sua perda causaria também a perda de posição social de Stacy e o transformaria de um parti desejável em um tratante que esbanjara sua herança e se reduzira à penúria. Mas como poderia saber disso quando o recebeu em Sydney Place? James havia sido muito injusto quando a repreendera daquela maneira; de seu lado, achava difícil acreditar que, quaisquer que tenham sido as desventuras do pobre rapaz, tivesse vindo a Bath em busca de uma esposa rica. Quanto à forte suspeita de Abby de que ele planejava fugir com Fanny para se casarem clandestinamente, nisso ela nunca acreditaria; e se perguntava como Abby poderia supor que a querida Fanny carecesse de qualquer sentimento de vergonha, ou como ela própria podia ser tão indiferente à saúde precária da irmã a ponto de pôr essas ideias em sua cabeça e desencadear o tipo de reflexões aflitivas que perturbavam seus nervos.

E então, como se tudo isso não fosse o bastante, o Sr. Miles Calverleigh havia aparecido e não perdera tempo em se relacionar com Abby! Não havia dúvida sobre a sua reputação, pois por mais que se sentisse pena dele pelo tratamento severo que seu pai lhe dispensara, permanecia o fato de que nenhum pai, nem mesmo o mais rigoroso, mandaria o filho para a índia sem um bom motivo. E se James se achava no direito de pôr a culpa nela pela intrusão daquela ovelha negra na vida de Abby, não poderia estar mais enganado, e lhe diria isso. Quem neste mundo pensaria que Abby, que rejeitara a proposta do nobre lorde que se cercara da aura da aprovação do querido papai, que desprezara partidos como o Sr. Peter Dunston, sucumbiria à corte de um homem que não tinha nada que o recomendasse ao notório bom partido que ela era?

Ele não tinha nada de bonito, não tinha as maneiras do sobrinho, pelo contrário, seus modos eram o inverso da elegância, e seu modo de vestir, longe de ser elegante, era desleixado e nada apropriado. Não apenas fazia visitas pela manhã e usava calça de montaria e botas de cano alto mal engraxadas, como na maioria das vezes parecia ter-se vestido sem pensar, atando a gravata de qualquer maneira e pondo o casaco sem se importar com o caimento. Qualquer um acharia que Abby, sempre exageradamente meticulosa, teria sentido asco de um maltrapilho como aquele — mesmo que não pertencesse à família dos Calverleigh, ela sentiria repulsa! Abby sempre fora extravagante, mas permitir a corte do tio enquanto recusava tolerar a aproximação do sobrinho à sua sobrinha, era elevar seus caprichos ao nível da excentricidade disparatada. Dava a impressão de ter excedido o que o querido Rowland chamaria de maluquice completa!

Abby, ciente de que Selina a estava observando com desconfiança, não traiu nenhuma de suas próprias desconfianças. Longe da presença perturbadora de Miles Calverleigh, era dona de si mesma; e realizou suas diversões de sempre sem nenhum sinal de que sua animação serena ocultava um coração e uma mente sofrendo de um grave distúrbio. As imperfeições de caráter do Sr. Calverleigh tanto lhe eram óbvias quanto para Selina. Também pouco sabia, tão pouco quanto Selina, por que, depois de tantos anos desimpedida, teria se apaixonado justo por alguém tão pouco recomendável e tão completamente diferente de qualquer um dos cavalheiros com quem manteve flertes passageiros. Tinha-se sentido atraída por seu sorriso, mas nenhum sorriso, por mais fascinante que fosse, era capaz de provocar em uma mulher de cabeça fria, com mais de 28 anos, a perda de seu equilíbrio e de seu julgamento em que achava ter encontrado a personificação do ideal. Na busca de uma explicação, pensou que não era o sorriso de Miles Calverleigh que havia lhe incitado uma reação instantânea, e sim a compreensão por trás do sorriso. Havia percebido, praticamente desde o começo de sua relação, a ligação entre eles, mesmo se ele fosse a sua contraparte; e nada do que ele tinha dito, nenhuma revelação de despreocupação cínica ou completa indiferença pela moralidade, havia enfraquecido esse elo. Ele a enfurecia, frequentemente a chocava, mas ainda assim sentia-se semelhante a ele.

Havia lhe dito que não tinha certeza de se o amava, mas fizera-o não porque estivesse em dúvida de seu amor por ele, mas por se assustar ao perceber que o amava, independentemente do que era ou do que tivesse feito. Se fosse uma menininha tonta como a sobrinha, teria se desmanchado em seus braços, e achado que o amor era tudo.

Mas aos 28 anos a pessoa não joga para o alto impulsivamente os cânones de sua educação; e muito menos ignora levianamente os deveres com a família. Miles Calverleigh não reconhecia reivindicações familiares, e o que mais a chocou nisso foi a descoberta de que não se chocara, mas que, na verdade, sentira inveja. Perguntou-se se não teria sido o traço rebelde de sua personalidade, deplorado tantas vezes até mesmo por sua mãe, que fizera Miles Calverleigh atraí-la tão irresistivelmente. Mas quando pensou nisso da maneira mais desapaixonada que conseguiu no momento, concluiu que não tinha sido isso.Talvez sua rebeldia a fizesse enfrentar moinhos de vento, mas isso não encontrava eco em Miles.

Ele não era um rebelde. Rebeldes lutam contra o estorvo da convenção, se inflamam para retificar o que consideram funesto no comportamento e opiniões de uma geração mais velha, e Miles Calverleigh não era um deles. Nenhum desejo de reformar o mundo o inspirava, nem o menor desejo de fazer os outros pensar como ele. Aceitava, com uma tolerância vasta e talvez indolente, a regras estabelecidas por uma sociedade civilizada e, quando as transgredia, também aceitava, e com um bom humor inabalável, a vingança da sociedade. Nem o zelo de um reformador nem o rancor de alguém punido severamente pelos pecados da juventude inflamaram uma centelha sequer de ressentimento em seu peito. Ele não desafiava a convenção: quando não interferia na linha de conduta, fosse qual fosse, que pretendia perseguir, conformava-se a ela; e, ao fazê-lo, ignorava-a, concedendo, afavelmente, a seus críticos o direito de censurá-lo, se assim se sentissem inclinados a fazer, sem dar importância nem a seus elogios nem às suas reprimendas.

Tal personalidade teria sido estranha a um Wendover. Abby sabia disso e tentou se convencer de que estava sofrendo da mesma insensatez adolescente que havia atacado sua sobrinha, e da qual logo se recobraria. Mas em vão: não era uma adolescente, mas se lembrava das aflições de seu primeiro caso de amor frustrado e sabia que o seu estado atual era completamente diferente das alegrias e agonias experimentadas dez anos antes. Como Fanny, apaixonara-se por uma bonita aparência e dotara seu possuidor de todas as virtudes concebíveis. Relembrando de maneira divertida esse episódio, pensou na boa sorte de seu pretendente indesejado por seu pai tê-lo despachado antes que tivesse tempo de despencar do pedestal que ela erigira para ele. Mas não tinha construído nenhum pedestal para Miles Calverleigh; a simples ideia de colocá-lo sobre um incitou irresistivelmente seu senso de humor e a obrigou a explicar a Selina que sua risada repentina tinha sido provocada pela lembrança de uma antiga piada, tola demais para ser repetida. A descoberta de que seu primeiro pretendente era um ídolo de barro teria acabado com sua paixonite; tinha percebido desde o começo que Miles Calverleigh não era nenhum paladino, mas seus pecados tinham pouca importância para ela, tanto quanto seu rosto encovado de feições grosseiras. Caso se casasse com ele, seria de olhos abertos aos defeitos dele e ciente de que, ao consultar somente seu próprio desejo ardente, submeteria todos os membros de sua família a graus diversos de impacto, consternação e, até mesmo, até onde dizia respeito a Selina e Mary, uma séria aflição.

Era um problema de difícil solução, e nenhum dos argumentos que passavam incessantemente por sua cabeça chegavam perto de uma decisão, embora a apoquentassem o dia todo e a deixasse sem pregar os olhos durante a noite.

Mas, ao vê-la se movimentar por entre os convidados naquela quinta-feira à noite, ninguém suspeitaria que alguma coisa acontecera que houvesse afetado sua serenidade; e nem mesmo o olho mais afiado detectaria em sua face qualquer sinal de que estava sofrendo as dores do amor. Estava de tal modo sob controle que foi até mesmo capaz de, quando Lady Weaverham perguntou lhe maliciosamente quando esperava rever o Sr. Miles Calverleigh em Bath, responder, sorrindo:

Não sei, senhora. Sentimos sua falta, não sentimos? Minha irmã o acha muito liberal e descontraído, mas eu o acho bem divertido. Nunca sabemos o que ele vai dizer em seguida!

— O que para mim — disse Lady Weaverham à Sra. Ancrum — não é como uma jovem falaria de um cavalheiro por quem estivesse apaixonada! Nenhum rubor nem retraimento! Bem, não achava que teria havido algo entre eles, mas acho que não teria dado certo, portanto foi bom não acontecer.

Embora ninguém percebesse que havia algo errado com Abby, várias pessoas notaram que Fanny não estava com sua melhor aparência. Estava um pouco corada e decididamente triste, mas quando a Sra. Grayshott perguntou-lhe delicadamente se estava se sentindo bem, ela lhe garantiu que sim, só com uma ligeira dor de cabeça.

— Não diga nada a Abby sobre isso, senhora! — pediu ela. — Estragaria a festa para ela e juro que é apenas uma dor de cabeça muito leve! — Antes de se afastar para cumprimentar um recém-chegado, acrescentou: — Sabe como é quando se organiza uma festa! Por mais cuidado que tenhamos ao planejá-la, sempre há muito o que fazer na última hora, e é impossível não estarmos cansados quando começa!

Era verdade que tinha ficado ocupada durante quase o dia todo, mas nem a fadiga nem a leve dor de cabeça teriam, em circunstâncias normais, prejudicado sua alegria durante a festa. Mas também ela estava enfrentando um problema difícil; e embora tivesse decidido que se a escolha fosse entre fugir com Stacy para a Escócia ou perdê-lo para sempre, escolheria a Escócia, a decisão não havia posto fim às dúvidas de seu coração, e certamente não elevara seu ânimo. Quando Selina falou alegremente dos planos para o inverno e discutiu os vários vestidos para o début da sobrinha na primavera, sentiu um desejo absurdo de chorar; mas quando tentou imaginar como seria dizer adeus a Stacy, seu impulso foi correr para ele no mesmo instante, só para lhe assegurar que pretendia manter a promessa. O problema é que, desde o encontro clandestino na abadia, não tivera oportunidade de estar com ele a não ser para trocar algumas palavras e assim mesmo em público.

Não era de admirar que estivesse se sentindo deprimida. Quando estivesse com ele e não vivesse mais em pânico de serem separados, tudo ficaria bem. Era somente o rompimento do vínculo que a ligava a Sydney Place que a fazia se sentir infeliz, e era natural ficar triste por ser obrigada a se afastar de sua casa. Afinal tinha-se sentido infeliz durante dias antes de partir, certa vez, para passar um mês com tio James e tia Cornelia. Sentira muita saudade de casa, mas havia se recuperado em uma semana. E se tinha conseguido isso ficando com o tio, que era tão rígido e chato, e sua tia, tão detestável, se recuperaria muito mais rapidamente quando estivesse nos braços de um marido que ela adorava!

Seu coração disparou quando o viu se curvar para beijar a mão de Selina. Como era bonito! Como era elegante! Como suas maneiras eram refinadas e como fazia a mesura de maneira graciosa! Fazia todos os outros homens na sala parecerem desmazelados e desajeitados. Ele era o máximo, o mais na moda, e de todas as beldades elegantes que certamente tentaram atraí-lo, ele a tinha escolhido — a pequena Fanny Wendover, que ainda nem debutara na sociedade! Sentiu orgulho dele e se admirou de ter hesitado por um momento em partir com ele.

Mas quando ele veio para o seu lado e tentou afastá-la do grupo, não cedeu, dizendo em voz baixa e ansiosa:

— Não, não, aqui não! Agora não!

—Mas, querida...! — falou ele, sedutoramente.

Ela ficou terrivelmente nervosa, imaginando que pelo menos uma dúzia de pares de olhos estavam nela. Sentiu uma pontada de na cabeça e, de repente, foi atravessada por uma onda de irritação, e sussurrou, furiosa:

—Não!

Ele pareceu surpreendido. —Mas, Fanny, preciso falar com você!

— Agora não! — repetiu ela. — Não posso... Toda esta gente...! Oh, por favor não me provoque! Estou com dor de cabeça!

O sorriso desapareceu dos lábios dele. — Entendo — disse ele. — Falta coragem ou seu amor não é tão forte quanto pensei.

— Não, não, juro que não é isso! Só que não podemos falar aqui! Certamente percebe o perigo, não?

— Então onde?

— Oh, sei lá! — Viu o cenho dele se franzir e acrescentou rapidamente: — Amanhã... nos Gardens! Às... às 14 horas! Tia Selina vai estar repousando na cama e Abby sempre visita a Sra. Nibley às sextas-feiras. Vou encontrá-lo sem o conhecimento da Grimston. Agora chega. Abby está olhando para cá.

Afastou-se enquanto falava. As pontadas em sua cabeça se intensificavam, fazendo-a se sentir nauseada, e quase a cegaram. Alguns passos vacilantes a fizeram colidir com alguém. Ela gaguejou: — Oh, perdão! Não o vi!

Sua mão foi pega e segurada com firmeza. A voz de Oliver Grayshott ressoou acima dela: — Fanny, o que é? Está doente!

— Ah, é você! — Ela apertou, grata, a mão de Oliver. — Não estou doente! É só uma terrível dor de cabeça! Logo estarei melhor.

— Sim, mas não no meio de toda esta gente — disse ele. — Tem de se deitar agora mesmo!

— Ah, não, como poderia? Eu interromperia a festa e armaria uma confusão horrível!

— Não — replicou ele calmamente. — Ninguém vai notar se sair discretamente. Acho que está com enxaqueca, sei porque sofro disso e só há uma coisa a fazer para aliviá-la: é se deitar. Posso chamar Lavinia para ir com você?

— Não, por favor! Não é tão grave! A aia vai saber o que fazer. Não diga nada que assuste minhas

tias!

— É claro que não.

— Obrigada — disse ela com um suspiro. — Fico muito grata!

Ele observou-a sair da sala sem ser interceptada e foi para onde sua mãe estava sentada, conversando com Canon Pinfold. Logo encontrou uma oportunidade para lhe contar que Fanny tinha-se retirado com dor de cabeça e que não queria que suas tias se alarmassem. Ela replicou calmamente que transmitiria a notícia a Abby, que não ficaria nem alarmada nem surpresa.

— Ela me disse, quando comentei que achava que Fanny não estava bem, que tinha certeza de que estava com dor de cabeça, só que a pobre criança não admitiria.

De fato, Abby tinha observado a partida de Fanny. — Sim, eu a vi sair — confirmou ela. — E fiquei extremamente agradecida a Oliver por convencê-la a fazer isso. Que rapaz gentil! Vou dar uma espiada nela quando for me deitar, mas não preciso se preocupar se Grimston está cuidando dela! Amanhã ela terá se recuperado.

Estava enganada. Quando tomava sua xícara de chocolate quente na manhã seguinte, a Sra. Grimston veio lhe pedir, agourentamente, que fosse dar uma olhada em Fanny assim que achasse conveniente.

— É mais grave do que eu esperava, senhorita — disse a Sra. Grimston, com a satisfação peculiar da criada de confiança e dedicada que detectara uma enfermidade incipiente em uma de suas crianças. — "Sim" eu disse a mim mesma quando ela subiu na noite passada, "há algo mais do que uma simples dor de cabeça. Se é que sei algo sobre isso." Falei: "O que pegou, pobre criança, foi um resfriado!" É o que ela tem, Srta. Abby. — Pegou a xícara da mão de Abby e acrescentou: — E se eu fosse a senhorita, mandaria buscar o médico, pois ela está com febre alta, e talvez esteja com rubéola, pois sarampo não pode ser!

— Não, é claro que não! — Abby afastou as cobertas. — Não acho que seja mais do que uma gripe, como disse!

— Se não for febre escarlatina — disse a Sra. Grimston, sem otimismo. Passou o robe para Abby. — Eu não estaria cumprindo meu dever, Srta. Abby, se não lhe dissesse que ela passou mais de uma hora se queixando de dor na garganta!

— É provável — replicou Abby. — Também senti quando fiquei de cama por uma semana com gripe, no ano passado!

Frustrado seu desejo de aliviar a ansiedade com seu conhecimento superior e bom senso, a Sra. Grimston acrescentou: — Sim, Srta. Abby, e se for gripe, vamos torcer para a Srta. Wendover não tê-la pego!

— Ah, Grimston... sua danada! — exclamou Abby, pesarosa.

— Se ela tiver pego, ficaremos em apuros! Bem, confio em você!

Apaziguada com essa prova de confiança, a Sra. Grimston abrandou e disse a Abby, a caminho do quarto da doente: — E assim espero! Dizem que há uma epidemia de gripe por aí, portanto não creio que a Srta. Fanny tenha contraído algo pior.

Mas sabe como ela é, Srta. Abby, e se quer o meu conselho, mande buscar o médico!

Abby realmente sabia como era Srta. Fanny, e consentiu que mandassem buscar o médico imediatamente. Embora quase nunca adoecesse, Fanny não era uma boa paciente. Se alguma doença sazonal ou alguma epidemia a atacasse, fazia isso com uma violência sem precedentes. Nenhuma de suas colegas na escola havia tido o sarampo com tantas máculas quanto ela; nenhuma sofrera uma coqueluche tão aflitiva ou havia sido mais atormentada pela caxumba. Portanto, não foi surpresa para Abby, ao entrar em um quarto perfumado pelos incensos acesos, encontrá-la com febre alta e se queixando em um lamento infeliz que estava quente, desconfortável, com dor em todos os membros, mal conseguindo erguer as pálpebras.

— Pobre Fanny! — disse Abby baixinho, erguendo o lenço dobrado sobre sua testa para torná-lo a molhar no vinagre. — Pronto! Está melhor? Não chore, minha boneca! O Dr. Rowton está vindo e logo vai lhe fazer melhorar.

— Não quero que venha! Não estou doente! Não estou, não estou! Quero me levantar! Preciso me levantar!

— É claro, e vai se levantar assim que estiver melhor — disse Abby calmamente.

— Eu me sinto bem! É só minha cabeça que dói e não consigo manter os olhos abertos, e tudo o mais dói em mim! — lamentou-se a doente. — Ah, Abby, por favor, me faça ficar boa logo!

— Sim, querida, é claro que sim.

Essa afirmação pareceu acalmar Fanny. Ela ficou quieta por um tempo, sonolenta; mas em alguns minutos, voltou a ficar irrequieta, insistindo que estava melhor, tentando se levantar, e caindo em pranto quando Abby delicadamente a fez se deitar de novo nos travesseiros.

Tendo experiência bastante de seu temperamento volátil e sabendo que sempre que ficava condenada a se acamar era preciso persuadi-la de que seus males não seriam instantaneamente aliviados ao se levantar e sair para dar uma volta, Abby não deu um valor particular à sua agitação. Deixando a Sra. Grimston com ela, retirou-se para se vestir e — depois de fortalecida com o café da manhã — levar a notícia a Selina.

Descobriu que Fardle, criada de sua irmã, havia se antecipado, fazendo-lhe um relato tão pessimista do estado de Fanny que o apetite de Selina foi arruinado. Quando Abby entrou em seu quarto, ela estava sentada na cama, comendo pedaços de torrada molhados em seu chá aguado; uma dieta melancólica a que recorria em momentos de tensão. Recebeu a irmã com um gemido e a pergunta de se já havia mandado chamar o médico.

— Sim, querida, há uma hora! Creio que chegará a qualquer momento — replicou Abby, animada. — Não que eu ache que haja muito a fazer por ela, mas espero que, pelo menos, alivie o mal-estar. Grimston deu-lhe o remédio para febre às 7 horas, mas não adiantou, de modo que mandei que não o repetisse.

— Não, não, não deixe Grimston dar uma de curandeira! Ah, Abby, se ela estiver com varíola! — Selina olhou temerosa para a irmã.

— Varíola! — repetiu Abby, espantada. — Deus do céu, não! Como pode dizer um absurdo desse, Selina? Ora, certamente não se esqueceu de que o Dr. Rowton convenceu a nós todas a tomarmos a vacina no ano passado, esqueceu? Além do mais, onde a teria contraído? Não há casos em Bath, que eu saiba!

— Não, querida, provavelmente não, mas nunca se sabe e Fardle me contou...

— Fardle! Eu já devia ter adivinhado! Tenho certeza de que ela tem uma irmã, uma tia ou uma prima que quase morreu de varíola, e que seus sintomas eram idênticos aos de Fanny, pois ainda não tivemos uma doença nesta casa que um dos parentes de Fardle não tenha tido também, só que muito mais grave! Por favor, não se afobe tanto, querida! Ficarei surpresa se o Dr. Rowton concluir que Fanny contraiu algo mais grave do que um resfriado.

— Ah, meu amor, por que não mandou chamar o Dr. Dent? Não tenho boa opinião acerca de Rowton, embora seja um homem excelente, é claro, mas não é inteligente! Sabe muito bem que o Dr. Dent compreendeu meu caso quando eu tive gripe!

— Sim, querida, mas achei que gostaria que eu chamasse Rowton porque está familiarizado com a constituição dela — respondeu Abby, com tato. — Pretende ir à cidade hoje de manhã? Você me faria o favor de comprar um frasco de água-de-colônia?

— Fardle vai comprá-lo — replicou Selina, com a voz enfraquecida. — Vou ficar tranquilamente na cama, pois já senti um espasmo e não permita Deus que eu adoeça neste momento! Foi um choque horrível ser acordada com essas notícias! Sim, e deve me trazer um pouco de cânfora, pois acho que acabou, e sabe como sou suscetível a resfriados e gripes!

Abby concordou, mas arriscou sugerir que nem mesmo a pessoa mais suscetível contrairia gripe duas vezes no espaço de um mês.

— Não, querida — Selina lhe dirigiu um olhar de reprovação impaciente. — Eu diria que uma pessoa comum talvez não, mas infelizmente nunca gozei de boa saúde, e, quanto a não contrair gripe duas vezes ao mês, tive três resfriados epidêmicos no inverno passado, um atrás do outro! E me lembro de que você disse exatamente isso quando chegou da reunião de carteado na casa de Lady Trevisian espirrando e fungando e pedi que não chegasse perto de mim, mas que fosse para a cama imediatamente! Você respondeu que eu não podia pegar a gripe de você porque não tinha me levantado da cama por uma semana! Mas peguei!

Abby pediu desculpas, beijou-a na bochecha e deixou-a desfrutando seu triunfo.

No quarto da doente, encontrou Fanny irrequieta, se agitando-se na cama sem parar, expressando sua determinação de se levantar logo em seguida, se queixando de dores por todo o corpo. A pulsação estava acelerada e a pele muito quente e seca, e era óbvio que a febre estava subindo.

A Sra. Grimston, retirando Abby do quarto, disse que se perguntassem, se sentiria impelida a responder que eram acessos regulares.

— Um ataque tão desagradável quanto qualquer um que já cuidei nela! — explicou a Sra. Grimston. — Tenho certeza de que é de admirar, a maneira como frequentou festas e mais festas quando não passa de um bebê! Exaustão, é isso o que ela tem, Srta. Abby. E tantas extravagâncias e caprichos, que chegam a nos fazer perder a paciência! Primeiro, grita dizendo que precisa se levantar, e nem bem lhe dou as costas, ela se levanta realmente!

Mas é claro que fica tão tonta que chega quase a agradecer quando é colocada de volta na cama. Depois, começa a chorar, mas logo interrompo seu choro, pois não queremos que ela tenha um de seus acessos de depressão, já que, como lhe disse, isso não fará com que se sinta melhor! Em seguida, quer falar a todo custo com Betty, a respeito de um babado em sua musselina azul. "Vai ter tempo bastante para isso, Srta. Fanny", eu digo, "e não é preciso chamar Betty e expô-la a pegar a gripe, pois eu mesma falarei com ela sobre isso."

A chegada do Dr. Rowton encerrou esse monólogo. Era um homem sensível, com um brilho latente no olhar, mas não foi difícil entender por que Selina não o tinha em alta consideração. Suas maneiras eram animadas, realistas, e tinha a reputação de dizer às mulheres que suas doenças misteriosas eram geradas pela falta de ocupação ou por pensarem excessivamente em si mesmas. Disse ao apertar as mãos de Abby:

— Como está a Srta. Wendover? Soube que agora meu velho amigo, o Dr. Dent, a está atendendo. Achei que não demoraria até ela ignorar o pobre Ockley. Não faz seu estilo de jeito nenhum!

Não achou grave o caso de Fanny, mas quando saiu, disse a Abby que a sobrinha provavelmente ficaria de cama por algum tempo.

— Oh, sim, é gripe — disse ele. — Há uma epidemia, sabe, e extraordinariamente virulenta. É uma pena Fanny tê-la contraído. Mas se fosse a senhorita, Srta. Abby, eu poderia dizer que estaria recuperada em uma semana, mas nós dois conhecemos bem Fanny, não conhecemos? É sempre o mesmo com meninas como ela! Vai ter de mantê-la sossegada, o máximo que puder! Eu costumava chamá-la de Srta. Imprevisível, quando era pequena, e ela não mudou muito. Mandarei um assistente trazer uma medicação e amanhã veremos como estará.

Ele era o favorito de Fanny entre os amigos mais velhos, e Abby esperou que sua visita lhe fizesse bem. Conseguiu realmente provocar um sorriso pálido ao entrar e se dirigir à sua cabeceira dizendo: — Então, Srta. Imprevisível, o que houve?

Mas a voz com que respondeu "Oh, querido Dr. Rowton! Faça com que eu fique boa logo!" foi muito lacrimosa. E quando ele respondeu, de sua maneira direta, que ela certamente não seria capaz de se levantar naquele dia, ou por vários dias, ela se pôs a chorar.

Quando Abby retornou ao quarto da doente, entretanto, ela parecia ter-se resignado com seu destino e estar inclinada a dormir.

Realmente cochilou irrequieta algumas vezes, mas seus sonhos eram assombrados por Stacy, ou a esperando por horas seguidas nos Sydney Gardens ou acusando-a de ser falsa com ele; e mais de uma vez despertou com lágrimas no rosto, com palavras desconexas sendo emitidas pelos lábios febris.

Não recordava bem o que havia acontecido na festa na noite anterior, mas se lembrava de ter prometido se encontrar com Stacy e que ele ficara irritado por ela não querer falar com ele. Dissera que via que ela não o amava e agora, teria certeza disso. Tinha dado tratos à bola para descobrir uma maneira de lhe enviar uma mensagem, mas Abby e a Sra. Grimston estavam unidas contra ela; não deixariam nem mesmo que visse Betty Conner, que teria feito isso para ela. Talvez ele pensasse que ela se afastara de propósito, para mostrar que não queria fugir com ele. Talvez ele partisse de Bath, como ameaçara fazer, e nunca mais o visse, nunca mais teria a chance de lhe dizer que não tinha sido culpa sua, ou que o amava realmente, e que não tinha medo de fugirem juntos para a Escócia.

Essas reflexões agitadas não ajudaram em nada para melhorar o estado de Fanny. E à medida que a febre aumentava, tornavam-se mais sombrias, até incluírem visões de estar no leito de morte e do remorso de Stacy por tê-la julgado mal. Mas ao cair da tarde, o remédio paregórico do Dr. Rowton começou a surtir efeito e ela foi ficando mais calma, emergindo do estado de quase delírio que fez Abby quase fazer um segundo e mais urgente apelo ao médico. Sentia-se tão mal e tão exausta que não tinha mais vontade de se levantar, ou mesmo de se esforçar a achar uma maneira de enviar uma mensagem a Stacy. Agora devia ser tarde demais, pensou, apática. Sua vida estava arruinada, mas isso não parecia ter tanta importância quanto seu corpo doído e as pontadas nas têmporas, e a sede terrível. Quando Abby a ergueu, apoiou a cabeça, com gratidão, no ombro da tia, murmurando seu nome.

— Sim, querida, estou aqui — disse Abby, com ternura. —A Sra. Grimston vai arrumar seus travesseiros enquanto você toma uma limonada. Pronto, está melhor?

— Oh, sim! — respondeu ela com um suspiro, sua sede saciada por enquanto. Abriu os olhos e deu com um grande jarro de flores. — Oh! — exclamou ela.

— Está vendo suas belas flores? — perguntou Abby, deitando-a delicadamente mais uma vez. — Oliver e Lavinia as trouxeram, quando vieram perguntar como estava. Deixaram um beijo para você e ficaram tristes ao saberem que estava tão abatida. Agora, volte a dormir, querida. Não vou sair do seu lado.

 

A centelha de esperança que se inflamara no peito de Fanny se extinguiu, mas enquanto se deitava olhando sonhadoramente para as flores, ocorreu-lhe que se os Grayshott sabiam que estava doente, era provável que comentassem com outras pessoas e portanto a notícia talvez tivesse chegado aos ouvidos de Stacy, e ele saberia por que ela não cumprira sua palavra. Com um suspiro de alívio, virou a cabeça sobre o travesseiro, acomodando a bochecha nele, e adormeceu.