Ovelha Negra
Capítulo XVIII
Como a Srta. Butterbank, depois de uma noite e quase o dia todo sofrendo as agonias de uma violenta dor de dente, estava fechada na sala do dentista quando o Sr. Calverleigh retornou a Bath, a notícia de sua chegada só foi levada a Sydney Place várias horas depois de ele ter feito uma visita inesperada à Srta. Abigail Wendover.
Ele a pegou de surpresa. Não somente se apresentou em uma hora excepcionalmente prematura, como quando Mitton admitiu que achava que a Srta. Abigail estava em casa, respondeu que não precisava anunciá-lo, e subiu correndo a escada, deixando Mitton com seu chapéu e bengala, dividido entre a especulação romântica e a reprovação de um comportamento tão informal.
Abby estava sozinha, envolvida na tarefa de confeccionar uma gola com um pedaço de renda. A mesa na sala de estar estava coberta de alfinetes, moldes, folhas de papel apergaminhado, e ela acabara de pegar a tesoura afiada quando o Sr. Calverleigh entrou. Ela relanceou os olhos para cima; alguma coisa entre um arquejo e um gritinho escapou-lhe. A tesoura caiu retinindo; e ela avançou involuntariamente, com as mãos estendidas.
— Você voltou! Oh, você voltou! — gritou ela.
A imprudência e, de fato, a impropriedade dessa traição descuidada de seus sentimentos ocorreram-lhe tarde demais, e não pareceram em absoluto ocorrer ao Sr. Calverleigh. Antes que tivesse tempo de se recompor, estava em seus braços, sendo beijada com considerável violência.
— Minha estrela especial! — sussurrou Miles em seu ouvido. O Sr. Calverleigh tinha os braços muito fortes, e um ombro que se ajustava convenientemente ao uso de uma mulher alta. Abby, sem fôlego, apoiou, graciosamente, a maçã do rosto nele, sentindo, por um breve momento, que alcançara a salvo o porto, depois de uma tormenta.
— Miles! — Ela o abraçou. — Oh, querido. Senti tanto a sua falta! — Mas nem bem proferiu essas palavras, todos os problemas de sua situação lhe vieram à mente, com a lembrança da decisão que tomara com tanto sofrimento, e acrescentou, tentando se desvencilhar dele: — Não! Oh, não sei o que me fez...! Não posso, Miles, não posso!
O Sr. Calverleigh, o homem de negócios bem-sucedido, não era do tipo que perdia o equilíbrio facilmente.
— O que não pode, meu amor? Abby estremeceu.
— Casar-me com você! Ah, Miles, não posso!
Soltou-se dele e virou-se, tateando às cegas em busca do lenço, e tentando de todo jeito que a emoção não a vencesse.
— Ah! — disse o Sr. Calverleigh, como se estivesse aturdido.
— Isso é uma indignidade! Depois de tudo o que acaba de se passar entre nós! Eu me pergunto como ousa olhar na minha cara!
Abby, na verdade, não se atrevia a olhar para ele. Estava ocupada enxugando as bochechas molhadas.
— Nunca ninguém lhe disse que é o cúmulo da falta de decoro beijar um cavalheiro, a menos que tenha a intenção de acompanhá-lo imediatamente ao altar? — perguntou o ultrajado Sr. Calverleigh. — Não é apropriado, senhora! Tal conduta... — Interrompeu-se abruptamente, quando ela ergueu o olhar para ele, entre lágrimas e risos, e disse, em um tom de voz completamente diferente: — Então, o que foi? Deixe-me olhar para você!
Quando segurou seu rosto enquanto falava, e o ergueu, ela foi obrigada a ceder. Não se atreveu e encará-lo, entretanto, e quase se entregou ao pranto mais uma vez quando ele disse, depois de examiná-la por um momento: — Minha amada, deixei-a tão bem! O que aconteceu aqui?
Ela afastou-se. — Estou horrorosa? Estou... estou cansada. Fanny esteve doente. E aconteceram outras coisas. — Ela sorriu, com esforço, e fez um gesto em direção à cadeira. — Não quer se sentar? Preciso lhe falar... lhe explicar... o motivo pelo qual não posso me casar com você.
— Sim, acho que deve explicar. — Ele a levou até o sofá. — Só consigo pensar em uma única razão: que descobriu que não me ama o suficiente.
Ela permitiu, embora com relutância, que ele a levasse para o sofá e ali se sentou, ereta, com as mãos cruzadas com força no colo.
— Queria lhe dizer que... que tem de ser assim. — Ela manteve os olhos baixos. — Eu... achei que seria melhor dizer apenas isso. Nunca tive a intenção, nunca pretendi... — Interrompeu-se, como se um pensamento lhe ocorresse e ergueu o olhar, que continha uma centelha de indignação. — Gostaria de saber por que Mitton permitiu que subisse sem antes vir me perguntar se eu estava disponível para visitas, e sem nem mesmo anunciá-lo! — A voz dela trazia uma forte insinuação de hostilidade.
Ele se instalara no outro extremo do sofá, sentando-se de lado, com um braço sobre o espaldar uma posição que possibilitava que mantivesse os olhos no perfil dela. Ele parecia estar completamente à vontade; e não havia nada em sua conduta que sugerisse que estivesse padecendo de alguma tristeza natural a um cavalheiro cuja proposta houvesse sido rejeitada.
— Oh, não deve culpar o coitado! Eu lhe disse que eu mesmo me anunciaria.
— Não tinha o direito de fazer isso! — repreendeu-o Abby. — Se não tivesse me surpreendido... se eu tivesse sido avisada... eu não teria... isso não teria acontecido!
— Bem, talvez não tivesse me beijado, mas eu tinha toda a intenção de beijá-la, portanto ele fez bem em não me anunciar. Você sempre beija cavalheiros que entram sem serem anunciados? Vou tomar cuidado para que nenhum deles tenha permissão para isso, quando estivermos casados!
Um sorriso se insinuou nos lábios do Sr. Calverleigh e ela corou levemente, mas também balançou a cabeça e disse: — Não vamos nos casar.
— Estava me esquecendo disso — desculpou-se ele. — Por que não vamos nos casar?
— É o que acho que devo lhe explicar. Não tive a intenção, mas depois de me comportar de maneira tão inadequada, não iria adiantar nada eu lhe dizer que não o amo, iria?
— Não — concordou ele.
— Não. Bem... tente me entender, Miles! Sei que não entende meus sentimentos a esse respeito, por isso é tão difícil lhe explicar. Pensei muito... discuti comigo mesma até minha cabeça doer... mas no fim percebi que não posso me casar com você... que não devo fazer isso!
— O que a fez concluir isso? — perguntou ele em tom casual.
— Acho que se pode dizer que foi a Sra. Ruscombe. Ela é a amiga íntima de Cornelia. — Ergueu o olhar para ele, sorrindo, por um instante, irônica. — Acho que não fomos muito discretos, Miles, pois ela disse a Cornelia que eu estava encorajando suas investidas e isso fez James aparecer, como pode imaginar. É claro que brigamos... sempre brigamos... mas ainda que eu estivesse realmente furiosa, não consegui conter o riso. Nunca ouviu nada tão pretensioso e pomposo em sua vida! E eu me vi querendo que você estivesse aqui para se divertir também!
— Eu também gostaria de ter estado —admitiu o Sr. Calverleigh. — Ele proibiu os proclamas de casamento?
— Céus, sim! Disse que se me casasse com você eu seria banida da família, e ele teria divulgado a Terrível Verdade sobre você e Celia, se eu não lhe tivesse dito que já sabia, o que o chocou tanto que começou a pensar que nós... você e eu... combinávamos!
— Sabe, afinal ele não é tão mau sujeito assim! — observou Miles.
— Ele é repulsivo. Não foi nada do que ele disse que me fez perceber como era impossível. Nada do que me disse. Mas ele repetiu tudo para Selina e, receio, muito mais. — Calou-se, bastante perturbada. Por fim, soltou um suspiro, e prosseguiu: — Nunca soube o quanto Selina me amava. James lhe disse que teria de escolher entre mim e a família e, oh, Miles, ela respondeu que nunca me abandonaria, independentemente do que eu fizesse! Selina! Mas ela ficou profundamente abalada, adoeceu, e ainda está completamente arrasada, e não suporta se ver longe de mim nem por um instante. Fica repetindo que não sabe o que vai fazer da vida quando eu tiver ido embora, e que... ela me fez ver como seria errado e... como seria insensível se me casasse com você. Se você fosse do tipo de homem sem graça, respeitável, do tipo que a família aprovaria, acho que ela se acostumaria aos poucos... embora, às vezes, eu ache que não devesse deixá-la, independentemente de quem me pedisse em casamento. Sabe, ficamos juntas por toda a minha vida, e durante anos, desde a morte de minha mãe, cuidei de tudo para ela, cuidei dela. Mas se você fosse Peter Dunston, com quem ela tentou me convencer a me casar durante os últimos três anos, ela teria gostado, e isso teria ajudado-a a suportar a solidão de que tem tanto horror. Ela saberia que eu estava por perto e não seria banida da família, ou... Oh, não posso explicar isso a você! Tantos... tantos males resultariam do nosso casamento! Se acha que não se tornaria conhecido o fato de eu ter me casado com você contra a vontade da família, não conhece Bath! Pode parecer sem importância para você, parece para mim, mas não para Selina. E ainda tem Fanny!
— Eu me perguntava quando chegaríamos a Fanny — observou Miles, de maneira casual.
— Temos de falar nela. Não posso abandoná-la, Miles. Está sofrendo muito, a pobrezinha, pois descobriu o verdadeiro caráter de seu odioso sobrinho!
— Exatamente como queria que descobrisse — interpolou ele.
— Sim, é verdade, e dou graças a Deus! Mas isso a transtornou, e... e também ela precisa de mim. Não daria certo deixá-la com Selina... totalmente separada de mim! Pois ficaria, sabe. James não permitiria nem mesmo que eu escrevesse para ela. Quando soube sobre Stacy, ela disse que ficava feliz por me ter. Para sempre. Não vai me querer sempre, é claro, mas talvez por alguns anos, sim.
— Adiantaria alguma coisa eu sugerir que há soluções para todos esses problemas?
Ela sacudiu a cabeça. — Não. Sabe, pode-se argumentar... pode-se convencer a si mesmo que nenhuma dessas coisas importa, mas sabemos, o tempo todo, que importam. Miles, eu não poderia, de maneira deliberada e egoísta, em nome de minha felicidade, causar tantos problemas à minha família, e também causar a infelicidade das duas que mais amo! Imploro que não tente me convencer! Estou exausta de tanto pensar!
— Não, não vou tentar convencê-la — confirmou o Sr. Calverleigh, calmamente.
Alguém devia ter avisado Selina de que sua irmã eslava a sós com o Sr. Calverleigh. Desde a visita de James Wendover, ela não deixava seu quarto antes do meio-dia, mas ali estava ela, entrando na sala com uma tosse nervosa, e parecendo muito menos elegante do que o usual, como se tivesse se vestido apressadamente.
— Oh! — exclamou ela, com uma surpresa afetada. — Sr. Calverleigh! Eu não fazia ideia de que estava em Bath! Foi muito cortês nos visitando! Que dia horrível!
Ela se pôs, cuidadosamente, a dobrar seu lenço molhado.
Sua voz falhou, levantou a mão e a pôs sobre os olhos, e sentiu a outra ser sustentada com firmeza.
Abby se levantou e foi até a janela. O Sr. Calverleigh se levantou mais lentamente, sem demonstrar o menor sinal de estar desconcertado, apertou a mão de Selina, e perguntou sobre sua saúde com toda calma. Permaneceu por apenas mais alguns minutos, e quando se despediu, foi com uma compostura inabalável.
Nem bem a porta se fechou atrás dele, Selina falou, agitada: — Ele estava segurando a sua mão! Oh, Abby, por que ele veio? Não me deixe em suspenso! Não posso suportar isso!
— Imagino que deva saber por que ele veio — respondeu Abby sem alterar a voz.
— Eu sabia! — lamentou-se Selina, levando a mão ao coração.
— Qual foi a sua resposta? Diga-me, Abby!
— Não se aflija! — replicou Abby, cansada. — Recusei sua proposta.
— Oh! — gritou Selina, de repente radiante. — Ah, como estou feliz! Minha querida, querida Abby, agora voltaremos a ser felizes!
Sentindo-se incapaz de responder a isso, Abby saiu da sala sem dizer uma palavra e se isolou em seu quarto. Permaneceu lá por um tempo considerável, e portanto foi poupada do relato da chegada do Sr. Calverleigh a Bath, que a Srta. Butterbank, com uma echarpe ao redor do rosto, levou a Sydney Place. Selina não falou nada a esse respeito quando, mais tarde, contou o resto das novidades que a Srta. Butterbank despejara em seus ouvidos. Eram surpreendentes e intrigantes: a Sra. Clapham, acompanhada de seu séquito, havia deixado Bath na noite anterior; e o Sr. Stacy Calverleigh sem dúvida a seguira, pois havia embarcado em uma das diligências nessa mesma manhã, e, segundo a Srta. Butterbank, sem avisar ninguém.
Abby ficou aliviada em saber que ele partira de Bath, mas apesar de fazer um esforço para participar das especulações de Selina sobre as várias causas possíveis dessas partidas separadas, não sentiu nenhum interesse. A próxima notícia de Bath veio com a Sra. Leavening, e interessou-lhe muito.
A Sra. Leavening, agora instalada em Orange Grove, havia passado no York House para buscar algumas cartas que teriam sido enviadas para lá, e ficara sabendo do retorno do Sr. Calverleigh. Também tinha ficado sabendo que ele permanecera somente por uma noite, até desaparecer de novo, misteriosamente.
— Não se pode saber que coisa excêntrica fará a seguir! — falou a Sra. Leavening com um risinho. — O que o fez vir de tão longe quanto Londres só para passar uma única noite? Parece que providenciou o seu próprio cabriolé, mas para onde foi, só Deus sabe! Ele está na minha lista negra, como vou lhe dizer, pois prometeu passar quando voltasse a Bath, e não recebemos nem um olá da parte dele. Mas dizem que pretende retornar, por isso acho que terei oportunidade de repreendê-lo.
Abby, sabendo que seria melhor para ela não revê-lo, tentou alimentar a esperança de que ele não voltasse a Sydney Place, mas não conseguiu. A separação dos dois havia sido muito abrupta; tanta coisa ficara sem ser dita; e ter sido obrigada a lhe dizer adeus como se fosse um mero conhecido era insuportável.
Nada mais soube dele por três intermináveis dias. Selina, com a saúde e o ânimo miraculosamente restabelecidos, escreveu uma carta furtiva a James informando-o, em termos estritamente confidenciais, que estava tudo acabado entre Abby e o Sr. Miles Calverleigh, e que ela soubera desde o começo que o caso havia sido grosseiramente exagerado pela Sra. Ruscombe. Acrescentou que esperava que a querida Cornelia, no futuro, não desse tanta atenção aos comentários maliciosos Daquela Mulher.
Sua expressão de consternação, quando, no quarto dia, Mitton anunciou a chegada do Sr. Calverleigh, foi quase risível. Chamou a atenção de Fanny e a fez olhar rapidamente para Abby, uma desconfiança repentina penetrando sua mente.
O Sr. Calverleigh, com seu costumeiro desdém pelas convenções que governavam os círculos educados, escolhera uma hora extremamente inconveniente para a visita. As mulheres haviam terminado o café da manhã havia apenas dez minutos. Ele parecia não perceber que estava cometendo um solecismo social, pois entrou na sala seguro de que seria bem recebido e as cumprimentou animadamente. Disse estar contente por tê-las encontrado em casa, congratulou Fanny por ter se restabelecido e, virando-se para Abby, disse sorrindo:
— Vim buscá-la para fazer um passeio de carro.
Selina ardeu de indignação. O que Abby acreditava gostar nessa criatura sem modos, grosseira, estava além da sua compreensão!
Apressou-se a falar: — Muito gentil de sua parte, senhor, mas seria uma insensatez de minha irmã se arriscar a sair em uma carruagem aberta! O tempo está tão incerto... deve chover daqui a uma hora, acho, pois nesta época não se tem como prever! Além do mais, quero que ela vá comigo ao balneário.
Esquecendo-se de seus próprios problemas, e com a curiosidade atiçada, Fanny disse animadamente:
— Vou com você, tia Selina. Uma volta de carruagem vai fazer muito bem a Abby, depois de trancafiada em casa por tanto tempo!
O Sr. Calverleigh sorriu para a jovem: — Boa garota!
Isso fez com que Fanny desse um risinho e mandasse Abby subir para buscar o chapéu. O Sr. Calverleigh acrescentou a recomendação de que trouxesse também uma estola ou um xale.
— Para que não precise se preocupar! — disse ele, dirigindo-se a Selina. — Não creio que se resfrie, caso se agasalhe bem. E se chover, sempre podemos encontrar um abrigo, como sabe.
Quando Abby retornou à sala, vestida apropriadamente para o passeio, Selina fez uma última tentativa de convencê-la de que estava correndo um grave risco de contrair uma gripe grave, se não uma inflamação dos pulmões, mas Fanny, dando um beijo impulsivo em Abby, interrompeu-a rudemente: — Bobagem! Faz um dia lindo, como não faz há semanas! Vou enfiá-la embaixo de milhares de xales, Abby!
— Obrigada. — Abby riu. — Acho que basta um! Até logo, Selina, não há motivo para você se inquietar, juro.
O Sr. Calverleigh observou-a sair da sala e se virou para se despedir de Selina
— Não se preocupe! — disse ele. — Cuidarei muito bem dela.
Cinco minutos depois, deixando Fanny acenando à porta da frente, ele conduziu o cabriolé a trote rasgado e disse, sombrio: — Maneiras indianas, querida! Abby reprimiu o riso.
— Maneiras péssimas! Pobre Selina!
— Receei que cedesse às suas súplicas.
— Não. Esperava revê-lo. Foi tão desagradável... nos despedirmos como fizemos. E não cheguei a lhe contar sobre Fanny, tampouco. Nós... não vamos discutir esse outro assunto, porque não há nada a dizer, e sei que não vai me atormentar tentando me convencer, vai?
— Não, não tentarei convencê-la — prometeu ele.
Essa pronta aquiescência foi inesperada, e nada bem-vinda; mas depois de alguns instantes, Abby disse, com uma alegria determinada: — Stacy pretendia mesmo fugir com Fanny, sabe. Ela me contou tudo. Se não tivesse adoecido, só Deus sabe o que poderia ter acontecido! Mas adoeceu, e enquanto ela estava acamada, nos aconteceu um golpe de sorte surpreendente!
Ele riu. — Não! Verdade?
— Sim, pois quem não veio a Bath a não ser uma viúva rica! Extremamente rica! Nunca a vi, mas disseram que era bem jovem e muito bonita. E se instalou no White Hart!
— Não!
— Sim! Com uma acompanhante, uma criada e um lacaio...oh, e um emissário também! Você não acreditaria!
— Oh, não acreditaria! — repetiu o Sr. Calverleigh.
— E ainda nem se passara seu primeiro dia em Bath, e Stacy já demonstrava interesse por ela! Você teria pensado que isso seria possível?
— Não só possível, como certo.
— Bem, devo admitir que eu não, quando soube. Nunca supus que ele fosse tão... tão descarado assim!
— Meu odioso sobrinho, lamento dizer, é completamente descarado.
— Deve ser. Não posso deixar de sentir pena da viúva, pois acho que ela vai encontrar-se com ele fora daqui. Deixou Bath de maneira repentina, e embora eu dê graças a Deus por Stacy ter se ligado a ela, deve ter sido muito doloroso para a pobre viúva.
— Fique tranquila, meu amor! Não foi nem um pouquinho doloroso para ela.
— Não pode saber disso — objetou Abby.
— Ah, sim, posso sim! Eu a mandei para cá!
— Você? — falou ela, boquiaberta.
— Sim, é claro. Não pensou nisso? Achei que perceberia.
— Deus do céu, não! Mas quem era ela? Como conseguiu mandá-la para Bath? E que coisa terrível de se fazer! Expô-la a...Miles, foi monstruoso!. Como pode rir?
— Não devia me fazer rir. Minha tolinha preciosa, eu a contratei para atrair Stacy! Pelo que soube, sua atuação foi talentosa...embora pareça que ela tenha saído um pouquinho do papel antes de a cortina final baixar. Quanto a quem é ela, realmente não sei, exceto que foi atriz.
A Srta. Abigail, tendo digerido essa informação, disse, em um tom severo de censura: — Pelo que entendo, senhor, ela não era uma mulher respeitável...?
— Digamos, senhora, que seria improvável que a conhecesse nos círculos mais educados.
— Você parece ter feito isso!
— Não, não, não nos círculos mais educados! A covinha de Abby estremeceu, mas ela a reprimiu:
— E se dá muito com ela? — perguntou polidamente.
— Oh, não! Só a encontrei uma vez, para fazê-la ensaiar o papel, entende? Dolly encontrou-a para mim. Dolly era a acompanhante da Sra. Clapham. Eu me relacionei bastante com ela, vinte anos atrás — explicou ele de maneira ultrajante. — Era conhecida como a Grã-Fina e era uma rapariga muito vistosa! Agora está envolvida em... em um outro ramo da profissão, e se tornou elegante de uma maneira alarmante. No entanto, consentiu, a um preço exorbitante, em participar da minha trama. De fato, insistiu em participar. Nunca conseguiu resistir a uma farra.
— Você — a voz de Abby soou trêmula — é a pessoa mais infame que já conheci!
— Bem, isso não é dizer muito! Exceto por meu odioso sobrinho, não creio que já tenha conhecido qualquer pessoa infame. — Virou-se e acrescentou: — Você não me conheceu no meu tempo infame, Abigail. É passado.
Ela baixou os olhos. Depois de um minuto, disse: — Deve ter-lhe custado uma fortuna, acho. Eu me refiro à encenação. Quando pedi que salvasse Fanny, nunca tive a intenção...
— Ah, eu tinha um interesse pessoal também — assegurou a Abby.
— Oh! — Ela estava em dúvida. — Bem... — Interrompeu-se de repente reconhecendo o marco. — Meu Deus, esta é a estrada para Londres! Aonde estamos indo?
— Reading.
— Reading? — repetiu ela. — Não seja absurdo! Deve ficar a 95 quilômetros daqui!
— Cento e dez.
Ela riu. — Apenas um passeio para exercitar os cavalos! Agora fale sério, aonde vamos?
— Estou falando sério.
— Oh, está mesmo? E estaremos de volta a tempo do jantar, sem dúvida!
— Não, querida, não estaremos — replicou ele.—Não vamos voltar.
Ela olhou para ele, sem acreditar.
— Não... Miles, pare de brincar comigo! É ridículo! Não pode supor que sou tão boba a ponto de acreditar que poderíamos ir até Reading em uma carruagem tão frágil quanto esta!
— Oh, não, é claro que não! Iremos somente até Chippenham nesta carruagem. Minha caleche está aguardando lá, para nos transportar o resto do caminho.
Ela ainda achava que ele estava brincando, mas começava a ficar inquieta.
— E o que vamos fazer quando chegarmos a Reading?
— Vamos nos casar, minha querida.
— Ficou louco?
— Bem, acho que não!
— Miles... Miles, está brincando comigo, não está?
— Juro que nunca fui tão sério. Não posso lhe mostrar agora, mas tenho uma licença especial no bolso.
— Oh, como se atreve? — Ela ofegou. — Pare imediatamente! Se pensa que vou fugir com você...
— Não, não! Não é uma fuga! Eu a estou raptando! Ela tentou falar, mas não confiou na própria voz.
— Achei que seria a melhor coisa a fazer — explicou ele.
Isso foi demais para o autocontrole dela; por mais que se esforçasse para se conter, caiu na risada. Quando conseguiu parar de rir, disse: — Oh, por favor, me leve para casa! Como pôde pensar que eu consentiria com uma coisa dessa?
— Minha garota querida, não há consentimento em um rapto. Você consente em fugir, e eu sabia que não faria isso.
— Você me disse certa vez que uma noiva relutante seria um inferno! — lembrou-lhe ela.
— Se eu achasse que você estava relutante, não estaria sentada ao meu lado agora.
— Mas estou relutante! Miles, não vou... não posso! Oh, achei que tinha entendido!
— Entendi. Disse que não podia se casar comigo por vários motivos, quase todos completamente idiotas, mas também disse que não podia procurar sua felicidade sacrificando a de Selina e de Fanny. Bem, você tem o direito de fazer um sacrifício por si mesma, mas eu não deixaria que me sacrificasse também!
Depois de um momento de silêncio perplexo, Abby falou, com remorso:
— Nunca pensei nisso! Seria... seria...?
— Sim! Seria!
— Ah, se pelo menos eu soubesse o que devo fazer! — gritou ela com tristeza.
— Não sabe, mas eu sei. Portanto, pare de brigar consigo mesma! Não tem escolha. Por isso a trouxe à força. Facilita muito para você, não acha?
— Miles, você é a criatura mais insuportável, mais... Pense só no escândalo que vai ser!
— Não imagina que algum membro da sua família vai dizer uma palavra sequer sobre isso, imagina? Não, não! O casamento foi privado, é claro! Espero que James encontre alguma razão excelente para isso.
— James! Ele vai me renegar!
— Não há a menor chance disso. Acho que vai resistir por alguns meses para salvar sua dignidade, mas não por muito mais tempo. Você, minha amada, por menos que isso a interesse, está prestes a se tornar uma mulher muito rica. Também vai se tornar a dona de Danescourt.
— Danescourt? Mas não pertence a Stacy?
— Não, pertence a mim. Comprei dele. Eu a levarei para lá hoje à noite. Encontra-se em um estado deplorável, mas despachei um bando de gente para lá na semana passada, para pôr um pouco de ordem no lugar, e mandei o nosso antigo zelador contratar alguns criados, de modo que espero que não ache a casa desconfortável demais. Não ficaremos lá mais de um ou dois dias, mas quero que a inspecione e decida como quer decorá-la, que cortinas e coisas no gênero. Aonde gostaria de ir depois?
— Não sei — replicou ela, impotente. — É tudo fantástico demais! Pelo amor de Deus, me leve para casa! Pense só na pobre Selina!
— Nada me fará levá-la de volta. Pode escrever um bilhete para a pobre Selina de Chippenham. Eu o enviarei por um garoto do correio. Mas só vai vê-la de novo quando estiver casada, minha garota, e for tarde demais para ela agarrar-se em seu pescoço!
— Mas o que vai ser dela? — indagou Abby, aflita.
— Provavelmente encontrará uma substituta na Srta. Butterbank — replicou ele calmamente. — E tem mais: se darão muito bem juntas. Fanny, acho, vai para a casa da sua irmã em Londres. A propósito, quer uma casa em Londres?
— Não, é claro que não! Miles, percebe que não tenho sequer uma escova de dentes?
— Sabe que acho que tem razão? E eu que achei que havia pensado em tudo! Foi bom mencionar isso! Vamos ter de comprar uma em Reading.
— Teve a audácia de... Oh, você é abominável demais! Não quero me casar com você! Não vou! Leve-me para casa!
O Sr. Miles Calverleigh parou seus cavalos à margem da estrada, virou-se e sorriu para ela.
— Diga-me que é isso, do fundo do seu coração, que quer que eu faça, e farei.
Ela olhou nos olhos dele, e o que viu fez sua pulsação se acelerar.
— Diga-me, Abby!
— Pode ser capaz de me raptar — disse Abby, com dignidade —, mas não pode me forçar a mentir!... Miles! Há uma carruagem vindo e um homem nos olhando por cima da sebe! Pelo amor de Deus...!
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