Ovelha Negra
Capítulo VI
Mas o Sr. Calverleigh apareceu em Sydney Place no dia seguinte. Mitton, reconhecendo-o como o cavalheiro que havia acompanhado a Srta. Abby na tarde anterior, admitiu-o sem hesitação e o conduziu à sala de estar, onde ela, instruída pela irmã, endereçava os convites para a festa que planejavam oferecer. Ela não o esperava, e o susto que levou foi tamanho que fez sua pena espirrar tinta. Virando-se depressa, e incrédula, deparou-se com o mais afável dos sorrisos, e a mais delicada das reverências, antes de o Sr. Calverleigh seguir na direção de sua irmã. Que desculpa ele pretendia usar para justificar sua visita foi um enigma logo decifrado: o Sr. Calverleigh, aceitando a mão estendida e trêmula de Selina, e sorrindo com calma para seu rosto agitado, disse-lhe que havia conhecido seu irmão mais velho, e que não conseguiu resistir ao impulso de estender sua relação com a família de Rowland.
— Da qual ontem tive o prazer de conhecer dois membros. — Ele balançou a cabeça com uma informalidade cordial para Abby.
— Como vai, Srta. Abigail?
Ela recebeu sua saudação da maneira mais fria que conseguiu, mas, ao invés de se desconcertar, ele riu e disse:
— Ainda inclemente comigo? Tenho de lhe contar, senhora, que sua irmã ficou extremamente aborrecida por eu tê-la acompanhado até em casa. Mas, no meu tempo, moças de sua classe não andavam sozinhas.
Selina aturdida com as maneiras de seu visitante inesperado, se confundiu em um emaranhado de palavras, pois embora, por um lado, partilhasse de seu preconceito antiquado, por outro, sabia muito bem que concordar com ele seria atiçar a ira de Abby. Portanto, depois de se atrapalhar com várias frases não concluídas, convidou-o a se sentar e lhe perguntou onde conhecera seu irmão. Abby suspendeu a respiração, mas ele deu uma resposta vaga, e ela voltou a respirar.
— E conheceu minha cunhada também! — falou Selina. — Parece tão estranho eu nunca... não que eu conhecesse todos os amigos deles, é claro, mas pensei... isto é... meu Deus, que idiota! Eu esqueci o que ia dizer!
Ele considerou sua confusão com deleite.
— Não, não, não desvie do assunto! Achava que eu tinha sido despachado para a Índia antes de seu irmão se casar, e tem toda razão. Conheci Celia quando ela era ainda a Srta. Morval.
— Muito tempo atrás — disse Abby. — Tempo demais para mim, acho.
— Abby querida...!
Abby deu de ombros, mal-humorada.
— Ah, é tão tedioso ser obrigada a discutir tempos antigos, uma época de que não se participou! E casos, também! Estou até aqui das histórias contadas pelo general Exford. Preferia que nos falasse de suas experiências na índia, Sr. Calverleigh.
— Mas isso seria meramente mudar de um tipo de caso para outro — salientou ele. — E muito mais chato, posso lhe garantir!
— Ah, não! Estou convencida de que será... tão mais interessante! Aqueles mahratas, e tudo o mais! — alvoroçou-se Selina, espantada com o comportamento da irmã. — Não que eu quisesse morar lá... e o clima está longe de ser salubre... bem, é se pensar no coitado do jovem Sr. Grayshott! Mas acho que o senhor deve ter vivido muitas aventuras excitantes!
— Não tantas quando vivi na Inglaterra! — Olhou para Abby perguntando-lhe maliciosamente: — Não precisa ficar tão aterrorizada, Srta. Abigail. Não tenho a intenção de contá-las! Em vez disso, vamos falar dos prazeres de Bath! Pretende ir ao concerto desta noite?
Por um momento colérico ficou na ponta da sua língua negar qualquer intenção de comparecer ao concerto, mas a lembrança de que se comprometera a ir com um grupo seleto de amigos a deteve. Replicou com um sorriso radiante:
— Sim, pretendo! A Signora Neroli vai cantar, sabe... um grande prazer para aqueles de nós que amamos música. O senhor, creio eu, acharia extremamente aborrecido, pois penso que não gosta de música.
— Pelo contrário! Acho a música extremamente entorp... extremamente enaltecedora!
Um sorriso insinuou-se no canto da boca de Abby.
— Tenho dúvidas se vai achar as tribunas entorp-enaltecedora.
— Eu sempre tenho uma carta na manga! — disse ele em tom de aprovação.
O tédio flagrante em sua voz escandalizou Selina, que protestou: Ela soltou um risinho e, então, vendo a expressão da irmã corou.
Nesse momento, Fanny entrou, para alívio de Abby. Cumprimentou o Sr. Calverleigh com um prazer espontâneo: exatamente como teria cumprimentado qualquer outro admirador mais velho de sua tia, Abby observou, de certa maneira achando graça se perguntando o quanto o Sr. Calverleigh teria gostado do toque de deferência, tributo cobrado por sua idade avançada. Foi obrigada a reconhecer que ele o aceitou com uma tranquilidade inabalável, respondendo de uma maneira positivamente avuncular.
Ele não se demorou, o que fez Selina dizer, depois que ele havia se despedido, que, apesar de suas maneiras serem muito estranhas, o que sem dúvida era devido ao fato de ter vivido na índia, ele sabia não ser conveniente permanecer mais de meia hora em uma visita de cerimônia.
— Eu avisei que as maneiras desse homem eram deploráveis! — disse Abby. — E não diria que ele tem a menor ideia do que é cerimônia.
— Certamente não é muito refinado nos visitar de calça até o joelho e botas de cano alto... cavalheiros fazem isso no campo, evidentemente, mas não em Bath, sem um cavalo, e teria sido mais correto meramente ter deixado seu cartão... mas não vi nada em suas maneiras que me desgostasse em especial. Ele é bastante descontraído, mas de maneira nenhuma vulgar. De fato, tem um ar de boa estirpe, e seria muito injusto culpá-lo por sua aparência, pobre homem, porque pode estar certa de que ele de tato foi à Índia, e o pai dele foi excessivamente insensível, eu acho, ao mandá-lo para lá, independentemente do que fez!
— Por que, ele fez algo horrível? — indagou Fanny, os olhos arregalados de surpresa.
— Não, querida, certamente não! — replicou logo Selina.
— Mas você disse...
— Meu amor, eu não disse nada desse tipo! Como entende tudo errado! Não é nada apropriado! E isso me faz lembrar de uma coisa! Abby, nunca pensei que ficaria envergonhada com um mau comportamento seu! Confesso que fiquei tão mortificada... Você foi tão petulante e grosseira! E depois de se mostrar excessivamente arrogante, além de tratá-lo da maneira mais rude, riu diante dele! Como se o conhecesse há anos!
— Deus do céu, por que nunca ninguém me disse que eu só deveria rir do que um homem diz se o conheço há anos? — contrapôs Abby.
— Sim, mas conhece! Quer dizer, a pessoa sente como se conhecesse! De minha parte, não me importo com o fato de ele esteja mal vestido e não ter maneiras formais; eu gosto dele. Tive a impressão de que você também, Abby, porque ele é brincalhão como você! Não é?
— Devo admitir — interferiu Selina — que ele foi muito divertido. E quando sorri...
— O sorriso do Sr. Calverleigh deve ser considerado seu maior...seu único... triunfo! — comentou Abby, mordaz. — Quanto a gostar ou não dele, o que posso afirmar? Eu mal o conheço, Fanny.
— Isso não tem importância! Ele mal a conhece e qualquer um pode ver que gosta muito de você! — retorquiu Fanny de maneira insolente. — Acha que ele vai ao concerto desta noite?
— Não faço a menor ideia — replicou Abby. — Certamente não, se o traje de montar for sua única roupa!
— Coitado! — disse Selina, sua compaixão sendo incitada. — Acho que não tem dinheiro.
Antes de Selina ter tempo para reunir seus pensamentos rudimentares, Fanny falou de súbito: Embora estas palavras pudessem ser verdadeiras, o Sr. Calverleigh tinha os recursos, ou o crédito, para possuir um fraque, calças até os joelhos e as meias de seda que constituíam o traje a rigor masculino para a noite, pois apareceu assim vestido alguns minutos antes do início do concerto, acompanhando a Sra. Grayshott. Mas como usava essa roupa tão casualmente quanto a de montar, e parecesse ter-se preocupado mais com o conforto do que com a elegância, nenhum aspirante à moda teria sentido a menor inclinação para descobrir o nome de seu alfaiate.
A Srta. Abigail Wendover observou sua chegada, olhando-o discretamente, e a partir de então restringiu sua atenção ao próprio grupo. Ela mesma estava (como sua sobrinha atrevidamente lhe dissera) muito elegante em um dos vestidos novos, mandados fazer em Londres, de musselina imperial, mangas curtas, baixadas nos ombros, uma saia estreita e um corpete adornado com um franzido duplo de fita. Tornava sua figura esbelta admirável, e não tinha sido sua intenção original desperdiçá-lo em um mero concerto fora da temporada, mas ao ter examinado melhor seu crepe lilás, tinha-se dado conta de que estava realmente gasto demais para ser usado mais uma vez. Pelo menos essa foi a explicação que deu a sua surpresa sobrinha. Quanto ao cabelo, que havia penteado em cachos soltos, com um único cacho comprido e lustroso sobre o ombro esquerdo, o que Selina achava? Era a moda em Londres, mas talvez não conviesse a Bath.
— Oh, minha querida, nunca a vi tão elegante! — disse Selina, em um acesso de lágrimas sentimentais. — Está tão bonita! Sei que vai querer me matar, mas devo e vou dizer que ninguém acharia que é tia de Fanny!
Em vez de demonstrar disposição para se melindrar, Abby riu, lançando um olhar avaliador a seu reflexo no espelho acima da lareira, e replicou francamente: — Bem, nunca fui uma beldade, mas ainda não sou tão desprezível, sou?
Certamente ninguém presente ao concerto naquela noite concordava com Abby nesse sentido. Na sala octogonal, onde esperavam o resto do grupo se reunir, Abby recebeu tantos elogios quanto Fanny; e a caminho da sala de concerto teve a grande satisfação de ser olhada por um estranho.
Durante o intervalo, não acompanhou imediatamente a Sra. Faversham à sala ao lado, onde o chá estava sendo servido, sendo abordada pelo Sr. Dunston, que apareceu de braço dado com a mãe. A cortesia obrigou-a a falar trivialidades com a Sra. Dunston, e quando a atenção dessa senhora afável e banal foi desviada por uma de suas relações, o filho preencheu a lacuna instantaneamente, dizendo simplesmente:
— "Bela é a rosa de maio!" Sabe que este verso não me sai da cabeça desde que a vi hoje à noite? Está ofuscando todas as outras pessoas, Srta. Abby!
— Bobagem! — intrometeu-se uma voz divertida ao lado de Abby. — Não deve ter visto a sobrinha da Srta. Wendover!
— Senhor! — exclamou o Sr. Dunston, ultrajado. — Creio que ainda não tive o prazer de conhecê-lo.
— Permitam-me que os apresente!—disse Abby rapidamente.
— Sr. Dunston, Sr. Calverleigh... Sr. Miles Calverleigh.
O Sr. Dunston fez uma pequena e rígida mesura, recebida por um balançar da cabeça e, pela primeira vez em sua carreira imperturbável, desejou que o tempo de desafiar um homem para o duelo por causa da mais insignificante provocação não pertencesse ao passado.
— Vim buscá-la para tomar um chá com a Sra. Grayshott — informou o Sr. Calverleigh, pegando a mão de Abby e a pondo em seu braço. — Deixei-a guardando uma cadeira para a senhorita, por isso venha logo! — Concedeu ao Sr. Dunston outro aceno com a cabeça e um sorriso breve, e conduziu Abby inexoravelmente para longe, dizendo: — Ele com certeza estava derramando bajulação em cima da senhorita, não estava? Quem diabos é ele?
— É um homem muito respeitável que mora com a mãe a alguns quilômetros da cidade — replicou ela com gravidade. — E mesmo que estivesse me adulando, não foi nada elegante o senhor falar assim!
— Eu não fico bajulando, se é isso o que quis dizer — retorquiu ele. — Gostaria que sim?
— Certamente, Sr. Calverleigh, sua vasta experiência com mulheres deve ter lhe ensinado que elogios são sempre agradáveis para nós, não? — disse ela, recatada.
— Para nove entre dez mulheres, sim! Mas não para a Srta. Abigail Wendover! A senhorita é mais inteligente! Sabe muito bem que em questão de beleza não ofusca todas as outras damas: há pelo menos três diamantes verdadeiros aqui hoje à noite, sem contar Fanny.
— Meu caro senhor, basta me apontá-los e os apresentarei! Espero conhecê-las... na verdade, tenho uma ideia de quem são!
Ele sacudiu a cabeça. — Não. Prefiro admirá-las a distância. Minha vasta experiência me avisa que lhes falta uma coisa que a senhorita tem em profusão.
— Minha... suficientemente vasta experiência do senhor, Sr. Calverleigh, alerta-me de que está para dizer algo ultrajante!
— Não, eu garanto! Nada derrogatório! Moças encantadoras, todas elas! Apenas não tenho vontade de beijá-las!
Ela arfou sobressaltada. — Não quer... Ora, realmente! E se pretende que eu entenda isso como...
— Pretendo. — Ele sorriu para Abby. — Eu adoraria beijá-la... aqui e agora!
— Be-bem, não pode! — Abby quase perdeu o equilíbrio.
— Sei que não posso... não aqui e agora pelo menos!
— Nunca! — exclamou ela furiosamente consciente das bochechas vermelhas.
— Ah, isso é uma outra história! Quer apostar uma pequena soma na possibilidade? Esforçando-se desesperadamente para se recompor, ela disse:
— Não, nunca aposto em certezas! Ele riu.
— Sabe, a senhorita é um amor! — elogiou ele, completando a confusão de Abby.
— Bem, o senhor é... é um...
— Um escroque? — sugeriu ele, prestimosamente, quando ela se interrompeu, na falta de palavras aviltantes o bastante para descrevê-lo.— Um bobão? Um delinquente? Um grosseirão? Um maluco?
Ela se pôs a rir, e falou por cima do ombro, entrando na sua frente na sala de chá:
— Tudo isso... e ainda mais! Em suma, um infame! Sra. Grayshott como está? E... o que penso é o mais importante: como vai o nosso doente?
Sentou-se ao lado da Sra. Grayshott enquanto falava, desviando a atenção do infame Sr. Calverleigh, que se afastara para buscar uma xícara de chá para ela.
— O meu doente — replicou a Sra. Grayshott — não está tão forte quanto eu gostaria, nem tão dócil! O Dr. Wilkinson foi vê-lo e me assegurou de que não preciso temer que algum dano permanente tenha sido causado à sua saúde. Recomendou uma série de banhos quentes que, ele me disse e sei por experiência própria, são excelentes para restaurar um corpo debilitado. Abby, minha querida, tenho de elogiar o seu novo penteado. Você está linda... e criou uma nova moda em Bath, se meu julgamento não for falho! Se que só dá importância a elogios feitos à aparência de Fanny, por tanto não direi mais nada para elogiá-la! Acho que já recebeu um excesso de cumprimentos, se não do Sr. Dunston, que me parece perdido de paixão, certamente do Sr. Calverleigh.
— De jeito nenhum! — replicou Abby. — O Sr. Calverleigh me considera uma vela na luz do sol de três verdadeiros diamantes presentes nesta noite! Quatro, incluindo Fanny!
— Mesmo? — divertiu-se a Sra. Grayshott. — Acho que ele é o que Oliver chama de mão de pôquer. Sabe, querida, tenho de admitir que fico feliz em ver que está se dando tão bem com ele, pois está pesando na minha consciência que quase o impus a você, que, espero que saiba, nunca foi minha intenção!
— Ah, sei que não! Não quero que pense mais nisso. Mais cedo ou mais tarde eu teria de encontrá-lo, como sabe.
— E gosta dele? Receei que as maneiras descontraídas do Sr. Calverleigh a ofendessem.
— Pelo contrário, me divertem! Ele é certamente muito original!
A Sra. Grayshott sorriu, mas disse, pensativa: — Ora, sim! Mas não é só isso. Ele é tão gentil! Não dá importância aos serviços que prestou a Oliver durante toda a viagem exaustiva, mas ouvi a verdade da boca do meu próprio filho. Se não fossem os cuidados incessantes do Sr. Calverleigh, acho que o meu pobre menino não teria sobrevivido, pois me contou que sofreu um recrudescimento daquela febre horrível dois dias depois de embarcar! Foi o Sr. Calverleigh, e não o cirurgião do navio, que preservou sua vida, sua longa estada na índia, tendo-o familiarizado com o distúrbio, muito mais do que qualquer médico de bordo! Serei eternamente grata a ele!
— Sua voz falhou. Ao se recuperar da forte emoção, falou com um esforço de animação: — E como se já não tivesse feito o bastante por mim, comprou entradas para o concerto de hoje e literalmente me obrigou a acompanhá-lo! Alguma coisa que eu lhe disse deve ter-lhe dado a ideia de que eu gostaria muito de escutar Neroli, e acho particularmente generoso ele ter me oferecido a oportunidade, porque receio que ele próprio não seja um amante da música.
Tendo motivos para supor que a generosidade do Sr. Calverleigh se manifestara por interesse próprio, Abby teve de se esforçar para conter a língua. Talvez tenha sido uma sorte ele voltar a se juntar a elas nesse exato momento, encerrando, assim, a discussão sobre o seu caráter. Ela aceitou o chá que ele trouxera, com uma palavra de agradecimento e um sorriso encantador, mas não conseguiu reprimir o impulso de lhe perguntar se não tinha sido arrebatado pela voz de Neroli.
Ele respondeu de imediato: — Não completamente. Vibrato em excesso, não concorda?
— Ah, vejo que é um expert! — Abby controlou-se para não rir. — Por favor, esclareça a minha ignorância, senhor! O que isso significa?
— Bem, o meu latim está muito enferrujado, mas acho que significa tremer—replicou ele calmamente. — Ela também parece um manjar-branco. Tem a mesma forma — acrescentou, pensativo.
— Oh, criatura terrível! — protestou a Sra. Grayshott, animando-se. — Eu não quis dizer isso quando falei que a achava excessivamente vibrato! Sabe que não!
— Achei que ela tinha tudo excessivo — replicou ele com sinceridade.
A Sra. Grayshott disse-lhe que devia se envergonhar e Abby que bebia o chá, engasgou. Quando a devolveu ao seu próprio grupo, ela se sentiu poupada da necessidade de lhe apresentar a Sra. Faversham, pois essa senhora o cumprimentou pelo nome e com um sorriso gracioso. Lady Weaverham já tinha feito isso, no balneário, de manhã.
O Sr. Faversham sentou-se ao lado de Abby. — Então este é o tio do jovem Calverleigh! — Ele examinou criticamente a figura alta do Sr. Calverleigh. — Parece-me um cínico, mas gosto mais dele do que de seu sobrinho. Insinuante demais, o rapaz!
— Não gosta dele, senhor?
— Não, não posso dizer que gosto — replicou ele abruptamente. — Na verdade, não consigo confiar nesses jovenzinhos que entram na moda. Minha mulher diz que sou um velho retrógrado, acho que a senhorita também acha, pois as mulheres todas parecem ter ficado loucas por ele! Ainda não o conheceu, conheceu?
— Não, esse prazer ainda não me foi concedido — replicou ela, em um tom de voz seco.
Seria concedido no dia seguinte. O Sr. Stacy Calverleigh, vindo de Londres na diligência do correio, chegou a White Hart de manhã, e só permaneceu ali tempo suficiente para trocar a roupa de viagem pelo casaco cor de corvo extremamente refinado, a calça clara e as botas hessianas lustrosas, usadas pelos janotas de Bond Street, antes de partir em um carro alugado para Sydney Place.
As mulheres estavam todas em casa. Abby, que acabara de vir da Milsom Street, submetia alguns padrões de renda à inspeção crítica da irmã, Selina, reclinada no sofá, e Fanny estava lutando com a composição de um acróstico na sala dos fundos. Ela não ergueu o olhar imediatamente quando Mitton anunciou o Sr. Calverleigh mas Stacy, ao entrar na sala, falou em tom encorajador:
— Srta. Wendover! O que é isso que ouvi a seu respeito? Mitton me disse que não esteve bem desde a última vez que a vi. Oh, eu lamento, lamento muito!
A voz fez a cabeça de Fanny se erguer abruptamente. Ficou de pé com um pulo e praticamente correu para a sala da frente, exclamando com uma alegria sincera:
— Stacy! Oh, achei que era o seu tio!
E estendeu as mãos para ele, que as pegou, levando aos lábios uma de cada vez, com o que Abby, observando a empolgação da sobrinha com reprovação, reconheceu como uma elegância ensaiada.
— Achou que eu era o meu tio? Agora começo a desconfiar que foi você e não a Srta. Wendover que não andava bem! — disse ele de maneira carinhosa. — Bom, não sou mesmo meu tio! — Apertou levemente as mãos de Fanny antes de soltá-las, e avançou, ajoelhando-se diante do sofá. — Querida Srta. Wendover, o que houve? Dá para ver que está abatida, e suspeito que tenha galopado depressa demais!
A risada afetadamente tímida na voz do rapaz anulou o insulto de suas palavras. Selina, sucumbindo completa e obviamente no charme do rapaz atraente e audacioso, repreendeu-o por sua impertinência como faria uma tia indulgente, e contou-lhe a respeito de sua indisposição recente.
Desse modo, Abby teve oportunidade de examiná-lo à vontade. Achou que era fácil ver por que ele conquistara Fanny tão rapidamente: era bonito, suas maneiras eram naturais e elegantes, um misto simpático de deferência e confiança. Somente nas feições aquilinas podia-se detectar qualquer semelhança com o tio: em todos os outros aspectos, não poderiam ser mais diferentes. Sua altura não passava da mediana, mas, em comparação com os membros compridos e desengonçados de Miles Calverleigh sua figura era particularmente elegante. Ao contrário de Miles não parecia ter-se forçado para dentro do paletó, e sim que o paletó se moldara à sua forma; as golas não poderiam estar mais engomadas; a gravata não estava amarrada de qualquer maneira, mas os nós estavam bem feitos, seja no estilo simples de Napoleão ou nas dobras mais intricadas e precisas. E demonstrava um gosto refinado na escolha do colete. Pessoas antiquadas como o Sr. Faversham, talvez o estigmatizassem como afetado, um dândi, mas sua antipatia instintiva pelas gerações mais novas de rapazes galantes e audaciosos as levava longe demais. Stacy Calverleigh era elegante, mas não um perfeito dândi, pois exibia poucas das extravagâncias da moda. As pontas de sua camisa talvez estivessem um pouco altas demais, as ombreiras do paletó fossem um tanto exageradas, e o próprio paletó cintado demais, mas ele nunca se cobria de joias ou revoltava homens comuns usando uma pá de prata para aspirar tabaco.
Seu perfil, quando se ajoelhou do lado do sofá, estava virado para Abby, e ela foi forçada a reconhecer que era um perfil singularmente belo. Então, quando Fanny aproveitou a oportunidade oferecida por uma pausa na loquacidade de Selina para apresentá-lo à sua outra tia e ele virou a cabeça e olhou para Abby, ela o achou menos belo, mas não saberia explicar por quê.
Ele ficou de pé com um pulo, exclamando com uma virilidade que, a seus ouvidos críticos, soou falsa.
— Oh! Este é o momento pelo qual ansiei... e ainda assim atemorizante! Seu humilde criado, senhora!
— Atemorizante? — Abby franziu a testa. — Foi levado a crer que eu era uma górgona?
— Ah, não, longe disso! Uma tia muito querida!
Seu sorriso oportuno ondulou seus lábios enquanto falava, mas Abby, procurou em vão um vestígio pelo menos do charme que despertava uma reação instantânea quando o Calverleigh mais velho sorria. Também percebeu que seu sorriso se limitava aos lábios, não atingindo os olhos. Achou que mantinha um olhar calculado e desconfiou que a examinava atentamente para descobrir se estava lhe causando uma boa ou má impressão.
Ela replicou delicadamente: — Esta não parece ser uma boa razão para seu pavor, senhor.
— Não, e é uma bobagem! — exclamou Fanny. — Como pode lalar uma tolice dessa, Stacy?
— Não é bobagem. A Srta. Abigail a ama e deve achar que não a mereço... que sou um espantalho até mesmo para sonhar aspirar à sua mão! — Sorriu de novo e falou simplesmente:—Também acho, senhora. Ninguém melhor do que eu para saber como sou indigno.
— Está tentando me confundir, Sr. Calverleigh? — perguntou ela.
Se ele ficou desconcertado, não deixou transparecer, e respondeu de imediato:
— Não, mas talvez... tirar as palavras da sua boca. Intimamente, ela lhe deu crédito pela astúcia considerável, mas tudo o que disse foi: — Está enganado. Sou uma pessoa que preza a cortesia.
— E não é verdade! — interferiu Fanny, apaixonadamente. — Não vou permitir que ninguém diga uma coisa dessas... nem mesmo você, Abby!
— Bem, eu não disse isso, querida, nem diria, por isso não há necessidade alguma de se exaltar! Diga-me, Sr. Calverleigh, já esteve com seu tio?
— Meu tio? — repetiu ele. Relanceou os olhos para Fanny, sem entender. — Mas o que significa isso? Você disse, quando entrei que achou que eu era o meu tio! O único tio que tenho... se ainda o tenho... mora no outro extremo do mundo!
— Não, não mora — corrigiu Fanny. — Quer dizer, não mais; Trouxe o irmão de Lavinia Grayshott de Calcutá e está aqui, em York House!
— Deus do céu! — exclamou ele.
— Ele é completamente diferente de você, mas muito agradável, não é, tia Selina?
— Sim, é verdade — concordou Selina. — É excêntrico... tão informal, mas acho que isso ocorre por ter vivido tanto tempo na Índia, o que não me parece nada o tipo de lugar em que alguém desejaria viver, mas, afinal, não foi culpa sua, pobre homem, e ele é um perfeito cavalheiro!
— Fico feliz em ouvir isso, pelo menos! — replicou Stacy, pesarosa. — Nunca o vi em toda a minha vida, mas desejaria sinceramente que estivesse em qualquer outro lugar, pois receio que destrua o pouco de crédito que talvez eu tenha de vocês! Ai de mim, o que corre é que ele é a ovelha negra da minha família!
— Oh, achei que o conhecia! — Abby demonstrou irritação— Ele não se lembra, acho, mas pensa tê-lo visto quando não passava de um, segundo suas palavras, pirralho!
Lançou-lhe um olhar sagaz, mas disse, de novo sorrindo: — Ah, é bem provável! Não posso ser culpado de esquecer a circunstância, posso? Eu me pergunto o que o terá trazido de volta à Inglaterra.
Um suspiro sentimental e um murmúrio desarticulado de Selina mostraram que essa confissão sincera a tinha comovido profundamente. Em Abby, o efeito foi diferente.
— Mas eu já disse! — lembrou-lhe Fanny. — Ele veio trazer Oliver Grayshott! E cuidou tão bem dele que a Sra. Grayshott diz que nunca será capaz de lhe agradecer como merece! Quanto a Oli... quanto ao Sr. Grayshott, diz que ele é uma ótima pessoa, e não permite que se diga uma palavra sequer que o degrade!
— Pior ainda! — falou ele, com uma careta cômica. — Um acompanhante, na verdade! Uma tênue... muito tênue esperança de que deve ter feito sua fortuna na Índia fenecer no começo!
— Muito deve-se perdoar ao filho pródigo que à casa retorna com os bolsos cheios, não? — Abby lançou-lhe um sorriso tão falso quanto acreditava ser o dele.
— Oh, tudo! — assegurou ele, alegremente. — Assim é a vida, senhora!
— Errado... muito incorreto! — interveio Selina, tentando sem muito êxito reunir suas ideias rudimentares em palavras compreensíveis. — Isto é... quer dizer, dinheiro não deve e não pode restaurar uma personalidade! E esperar que um homem que foi repudiado de uma maneira completamente desumana, pois é assim que me parece e não me importa o que qualquer outra pessoa diga, venha para casa para... despejar guinéus em suas relações nada naturais é... é monstruoso! Ou, de qualquer maneira — contemporizou ela —, absurdo!
— Bravo, Selina! — exclamou Abby.
Corando ligeiramente por causa dessa aclamação, Selina continuou: — Bem, assim me parece, embora não tenha nada a ver com o Sr. Calverleigh, por isso não deve pensar que pretendo censurá-lo de qualquer maneira, o pobre Sr. Miles Calverleigh não fez nenhuma fortuna. Pelo menos não parece alguém que fez, pois usa as roupas mais deselegantes! Por outro lado, ele está na York House, e lá, como sabe, não é de jeito nenhum tão barato, como amigos queridos nossos, que também se hospedam ali, me disseram.
— Pelo contrário! — disse ele. — Está me apavorando, senhora! Ele sempre teve a reputação de ser excessivamente gastador, e sempre sem um tostão no bolso! Só espero que ele não banque o generoso no York House, me deixando a conta para pagar! — Percebeu que esse discurso tinha chocado Selina e feito Fanny olhar para ele com gravidade, e de maneira rápida e suave recuperou sua posição dizendo:—A verdade, sabem, é que ele causou muito constrangimento ao meu avô e também ao meu pai, de modo que nunca ouvi falarem nada positivo sobre ele. No entanto, admito que muitas vezes me perguntei se ele seria tão terrível quanto me contaram. Na verdade, Srta. Wendover, se simpatiza com meu tio, ele não pode ser tão ruim! Não vou perder tempo e quero conhecê-lo logo. — Virou-se para Fanny; seu sorriso era uma carícia. — Conte-me as novidades de Bath! — pediu. — Lady Weaverham me perdoou por ter sido obrigado a cancelar meu jantar com ela? A Srta. Ancrum reuniu coragem para arrancar o dente ou continua com a cara inchada? Conte-me tudo! Parece que fiquei ausente por um ano!
Como o evento mais interessante ocorrido recentemente em Bath era o retorno de Oliver Grayshott à sua mãe, logo Fanny estava lhe contando tudo sobre isso, e pedindo sua ajuda com o acróstico que estava compondo para divertir Oliver.
— Sabe, estou fazendo tudo o que posso para entretê-lo — explicou ela. — Coitado, está tão deprimido que não consegue participar de nossos passeios nem comparecer a reuniões, nada, por isso quando Lavinia me pediu para ajudá-la a animá-lo, é claro que aceitei! — Acrescentou para indignação reprimida de sua tia mais nova: — Achei que não faria objeção.
Ele respondeu de maneira conveniente, mas Abby, que estava rapidamente antipatizando com o rapaz, teve a impressão (bem-vinda) de que ele não considerou a intrusão do Sr. Grayshott no cenário de Bath com aprovação.