Ovelha Negra

Georgette Heyer · Capítulo 3 de 19

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Ovelha Negra

Capítulo II

 

Pouco depois das 23 horas, uma leve batida à porta do quarto de Abby foi seguida da entrada da Srta. Fanny Wendover, que antes perscrutou cautelosamente o cômodo. Ao ver a tia sentada à penteadeira, emitiu um gritinho de alegria e correu aos braços que lhe foram estendidos, exclamando: — Não está deitada dormindo! Eu disse a Grimston que não estaria! Ah, como estou feliz em vê-la! Como senti sua falta, querida, minha querida Abby!

Abby não teria se surpreendido se tivesse sido recebida com reserva, mesmo com as maneiras precavidas e um pouco desafiadoras de alguém que esperasse ser repreendido e pronto para se defender; mas não houve nenhum vestígio de precaução no acolhimento carinhoso, e nada além de afeição nos belos olhos que Fanny, ao se abaixar e segurar suas mãos, ergueu tão inocentemente para ela.

— É horrível sem você! — Fanny apertou as mãos da tia. — Nem imagina como!

Abby curvou-se para beijá-la no rosto, e respondeu, brincando: — Minha pobre querida! Tia Selina foi tão severa e pouco generosa! Eu receava que isso acontecesse.

— Por isso senti tantas saudades suas! — replicou Fanny, com certa hilaridade. — Sou sinceramente afeiçoada a tia Selina, mas... mas ela não é lá muito brincalhona, é? E nem um pouco despachada!

— Acho que não — respondeu Abby, cautelosa. — Embora não saiba o que você quer dizer com "despachada", não soa como algo que Selina seja, e eu acrescentaria que não parece tampouco uma linguagem apropriada para uma garota de boa educação!

Isso fez os olhos de Fanny piscarem.

— Sim... uma gíria! Significa... vivaz, alegre! Como você!

— Mesmo? Entendo que sua intenção tenha sido me fazer um elogio, mas se você se atrever a associar tal epíteto comigo de novo, Fanny, eu... eu... bem, não sei o que farei, mas pode ter certeza de que será algo terrível! Despachada! Deus do céu!

— Não faço mais — prometeu Fanny. — Mas agora, vamos falar sério, querida! Tenho tanta coisa a contar. Uma coisa de... de muita importância.

Abby sentiu que o impulso do medo lhe pregaria uma peça, mas o conteve, replicando com uma voz que esperou não soar falsa:

— Não?! Tem? Então ficarei completamente séria. O que é? Fanny olhou-a de maneira inquiridora.

— Tia Selina... ou tio James, talvez... lhe falaram sobre... sobre o Sr. Calverleigh?

— Sr... ? Oh! O londrino elegante que você acertou com um dardo lançado por seus olhos? Certamente falaram, e os achei muito divertidos! Quer dizer — corrigiu-se, assumindo um tom comicamente severo —, têm toda razão em achá-la jovem demais para estimular um flerte! Muito audacioso de sua parte, querida... na verdade, impróprio!

— Não foi assim. Desde a primeira vez que nos vimos... — Fanny fez uma pausa, e deu um longo suspiro.

— Nós nos amamos! — falou de uma só vez.

Abby não esperava uma confissão tão franca, e não lhe ocorreu nada a dizer além de que aquilo estava parecendo um conto de fadas, o que não era em absoluto o que devia ter dito, como se deu conta no instante seguinte.

Erguendo os olhos brilhantes para ela, Fanny replicou simplesmente:

— Sim, é exatamente assim! Ah, sabia que você ia entender, minha querida! Apesar de ainda não conhecê-lo! E quando conhecê-lo... ah, vai adorá-lo! Só não quero que o pegue para você!

Abby concedeu a essa tirada um sorriso, mas recomendou à sua enlevada sobrinha que não bancasse a tola.

— Oh, só estava brincando! — garantiu-lhe Fanny. — O fato é que ele não é um garoto tolo como Jack Weaverham, ou Charlie Ruscombe, ou... ou Peter Trevisian, mas um homem experiente, e muito mais velho do que eu, o que torna tudo particularmente gratificante... não, não foi isso o que eu quis dizer! Tão maravilhoso que, apesar de ele estar na capital, como dizem, há muitos anos, nunca tinha conhecido ninguém com quem desejasse manter uma relação duradoura, até vir para Bath e me conhecer! — Dominada por essa reflexão, pôs o rosto no colo de Abby e disse com a voz abafada: — E ele deve ter conhecido garotas muito mais bonitas do que eu, não acha?

A Srta. Wendover, ciente de que sua tendência era dar vazão ao primeiro pensamento que lhe ocorria, reprimiu o impulso de responder "Mas poucas com tal fortuna!" Em vez disso, replicou: — Bem, como não conheço as beldades mais recentes, não posso dizer. Mas ter feito de um dândi londrino a sua primeira vítima certamente é um triunfo. É claro que sei que não devia ter-lhe dito isso, sua tia Cornelia chamaria de fomentar a sua vaidade! Por isso peço que não me exponha à censura dela tornando-se presunçosa, querida!

Fanny olhou para ela.

Ah, você não entende! Abby, é uma relação duradoura! Tem de acreditar! Meu tio disse que ele é namorador? Ele tem essa reputação Ele mesmo me contou. Mas não me importo nem um pouco, porque embora tenha-se sentido apaixonado muitas vezes, nunca quis se casar com ninguém até me conhecer! E se o meu tio disse que ele é um libertino inconsequente, podia ter poupado a língua, pois Stacy também me contou o mesmo. Ele disse... ah, Abby, ele disse que não era digno de tocar na minha mão, e que ninguém poderia culpar meu tio se se recusasse a consentir no nosso casamento!

Mais uma vez, escondeu o rosto no colo de Abby, levantando-o pura dizer:

— Por isso, entende...

Abby achou que entendia, mas simplesmente respondeu, afagando a cabeça dourada sobre seus joelhos: — Mas o que aconteceu que a deixou neste estado de aflição? Qualquer um teria suposto que seu tio já tivesse recusado seu consentimento e ameaçado vocês dois com penalidades terríveis!

— Oh! — Fanny ofegou, olhando ansiosa para a tia. — Está dizendo que acha que ele não recusará?

— Ah, não! Tenho certeza de que vai recusar! E embora eu não tenha boa opinião de seu julgamento, dou-lhe crédito por não ser tão idiota a ponto de aceitar a primeira proposta por sua mão que lhe fazem. Que bom tutor seria ele se permitisse que você se prendesse a seu primeiro flerte! Sim, sei que isso vai deixá-la com raiva, querida, e pronta para brigar comigo, mas imploro que não brigue! Talvez seu tio sonhe com uma relação esplêndida para você, mas você sabe que eu não compartilho deste pensamento! Tudo o que quero é uma relação feliz.

— Eu sei, ah, sei! — declarou Fanny. — E por isso vai me apoiar! Melhor das minhas tias, diga que sim!

— Ora sim, se me convencer de que o seu primeiro amor também será o último.

— Mas já disse! — Fanny sentou-se sobre os calcanhares e olhou fixamente para Abby, cada vez mais indignada. — Nunca amarei ninguém como amo Stacy! Meu Deus, como pode... logo você, falar assim comigo? Eu sei, minha tia me contou, que meu avô rechaçou o homem que você amava! E nunca mais amou outro, e... e sua vida foi arruinada!

— Bem, foi o que pensei na época — admitiu Abby. Um sorriso se insinuou nos cantos de sua boca. — Mas tenho de reconhecer, no entanto, que sempre que o meu primeiro cortejador é lembrado, só posso agradecer a sua avó por tê-lo rechaçado! Sabe, Fanny, a triste verdade é que o primeiro amor raramente guarda a menor semelhança com o último e mais duradouro! Ele é o homem com quem nos casamos e com quem vivemos felizes para sempre!

— Mas você não se casou! — murmurou Fanny com rebeldia.

— É verdade, mas não porque não o esqueci! Eu me apaixonei e deixei de me apaixonar dezenas de vezes, acho. Quanto à sua tia Mary, sempre foi considerada a beldade da família, e teve inúmeros admiradores! O primeiro deles não poderia ser mais diferente de seu tio George.

— Achei que o meu avô tivesse arranjado esse casamento — interveio Fanny.

— Oh, não! Ele certamente o aprovou, mas George foi apenas um dos três pretendentes qualificados! Não era nem o mais belo nem o mais elegante, e não apresentava a menor semelhança com os primeiros amores de sua tia. E eles têm um casamento muito feliz, posso lhe afirmar.

— Sim, mas não sou como minha tia. Acho que ela seria feliz com qualquer outro homem amável, porque tem uma disposição feliz, além de ser muito, mas muito resignada! — Fanny deu uma piscadela para Abby.

— O que não sou! Minha tia é como uma... uma almofada deliciosamente macia, que pode tomar a forma que se quiser, mas eu sei o que quero, além de estar decidida.

— Mais parecida com um grande travesseiro, de fato — concordou Abby, com uma afabilidade que estava longe de sentir.

Fanny riu. — Sim, se você assim prefere... pior das minhas tias! De qualquer maneira, pretendo me casar com Stacy Calverleigh, independentemente do que meu tio disser ou fizer!

Ciente de que poucas coisas eram mais fortificadoras para adolescentes orgulhosas do que a oposição, Abby replicou instantaneamente:

— Ah, certamente! Mas o seu pai, sabe?, era um excelente condutor de carruagens e dizia que se devia atravessar um solo pesado da maneira mais leve possível. Sou da opinião de que você e o Sr. Calverleigh não devem declarar suas intenções ao seu tio até poderem apresentar provas da durabilidade do seu afeto.

— Ele não se importaria, tem de saber que ele não se importaria! E se está dizendo que devo esperar até ser maior de idade, ah, não, não pode ser tão insensível! Quatro anos inteiros! Quando conhecer Stacy, vai entender!

— Ficarei encantada cm conhecê-lo, e espero que seja em breve.

— Ah, eu também! — disse Fanny, animada. — Não imagina como sinto falta dele! Sabe, foi obrigado a ir a Londres, mas me disse que seria apenas por alguns dias, de modo que retornará a Bath no fim da semana. Ou, pelo menos, na semana que vem, pode ter certeza!

Essas palavras foram pronunciadas com uma expressão radiante, seguidas de um relato inebriado do primeiro encontro com o Sr. Calverleigh e uma descrição dos diversos encantos do rapaz. Abby escutou com atenção e comentou convenientemente, mas aproveitou a primeira oportunidade que surgiu para desviar Fanny para outro assunto. Dirigiu a atenção da sobrinha para a pilha de tecidos que comprara em Londres, perguntando se lhe agradavam. Deu resultado, e, extasiando-se com uma gaze, se perguntando se preferiria um crepe azul celeste debruado com uma fita ou uma musselina, discutindo com Abby os respectivos méritos das mangas circassianas ou Cottage, para um vestido para a manhã, Fanny esqueceu-se temporariamente do Sr. Calverleigh e foi para a cama sonhar (Abby esperava) com moda.

Na manhã seguinte, parecia que tinha sido assim, pois foi a quarto de Abby antes que esta tivesse se levantado da cama, ansiosa por mostrar o último número do Ladies' Home Journal, adulando-a para convencê-la a irem, antes do desjejum, à costureira em South Parade. Não conseguiu, pois Abby lembrou-lhe que sua tia Selina, que nunca se levantava cedo, ficaria ressentida se fosse excluída da expedição. Acrescentou que quando se tratava de bom gosto e moda, Selina era incomparável.

Fanny fez cara feia mas assentiu, reconhecendo a verdade dessas palavras. Podia estigmatizar muitas das ideias de Selina como antiquadas, mas ninguém nunca contestara seu olho para o que era elegante e apropriado. Quando jovem, tinha sido a menos bonita, porém a mais elegante das Wendover; na meia-idade, dotada de uma competência natural, gozava a reputação de ser a mulher mais bem vestida de Bath. Apesar de Fanny não pedir, como Abby fazia, seus conselhos, era perspicaz o bastante para respeitar o julgamento da tia; de modo que quando mostrou a Selina o esboço de um vestido excessivamente adornado, seu desejo secreto de ser vista naquela vestimenta foi cortado no ato pela crítica devastadora de Selina:

— Ah, querida! — Selina torceu o nariz com desgosto. — Todos esses babados, franzidos, fitas...! Tão... tão rebuscado!

Portanto não mais olharam aquele croqui, e as três mulheres partiram na nova caleche para South Parade, onde se localizava o elegante showroom de madame Lisette.

 

Madame Lisette, cujo nome era Eliza Mudford, desfrutava do patrocínio Real, mas apesar de ser protegida da princesa Elizabeth, em cujo serviço havia iniciado a sua carreira, e raramente deixar de receber encomendas dos visitantes mais nobres e elegantes de Bath, as senhoritas Wendover ocupavam um lugar privilegiado entre suas clientes favoritas: eram ricas, residentes em Bath, e realçavam os frutos de seu talento. De modo algum todas as suas clientes eram honradas com sua atenção pessoal, mas assim que sua vendedora-chefe divisava a caleche estacionando à sua porta, fazia uma aprendiz subir correndo ao escritório de madame com a notícia de que as senhoritas Wendover — todas as senhoritas Wendover! — estavam chegando à loja. Portanto, depois que as Srtas. Wendover tinham perguntado gentilmente como estava a Srta. Snisby, e seu lacaio havia passado aos cuidados de um subalterno o embrulho com as sedas, crepes e musselinas compradas em Londres pela Srta. Abigail, a Srta. Mudford entrou em cena, usando, de maneira conveniente mas refinada, um robe de uma seda magnífica, mas de um matiz sóbrio, combinando, com a descontração de uma expert, a deferência devida a damas distintas com o privilégio da familiaridade concedido a uma velha criada digna de confiança. Não demonstrou menos habilidade ao convencer a Srta. Wendover mais nova de que o estilo de vestido apropriado para uma matrona jovem pelo qual a donzela ansiava não a faria parecer audaciosa, pelo contrário, positivamente desmazelada. Foi tal sua habilidade que Fanny saiu do salão uma hora depois perfeitamente convencida de que, longe de ser tratada corno uma colegial, seu gosto tinha sido aprovado, e que as criações resultantes a deixariam no topo da moda.

A sessão tendo-se encerrado de maneira satisfatória, as damas se dirigiram ao balneário, aonde Selina ia com frequência (a menos que o tempo estivesse inclemente, ou uma diversão mais agradável surgisse) beber, em pequenos e sofridos goles, um copo das famosas águas. Ali se encontraram com vários amigos e conhecidos. Entre os mais proeminentes estavam o general Exford, um dos admiradores de mais idade de Abby, e a Sra. Grayshott, com sua filha Lavinia, a melhor amiga de Fanny. As duas moças logo se uniram, e enquanto Abby resistia graciosamente aos galanteios do general, Selina, que às vezes parecia ter mais interesse pelos assuntos de estranhos do que os de sua própria família, encetava com a Sra. Grayshott uma conversa apaixonada, sendo o objeto de sua simpática investigação descobrir se a amiga tinha recebido alguma notícia do filho, de quem a última informação dizia estar em Calcutá, mas vivendo a expectativa de embarcar a qualquer momento na longa viagem de volta à Inglaterra. A apreensão transmitida pela face atormentada da Sra. Grayshott se intensificou quando sacudiu a cabeça e respondeu, com um sorriso resoluto:

— Ainda nada. Mas meu irmão me assegurou que tomou todas as providências concebíveis para o conforto de Oliver, e estou convencida de que não vai demorar para que esteja de novo comigo. Meu irmão tem sido tão bom! Se fosse possível, tenho certeza, enviaria seu médico pessoal ao encontro de Oliver! Ele se culpa por essa doença terrível, sabe? Mas isso é absurdo. Oliver quis muito ir para a Índia, e como, eu lhe perguntei, ele poderia prever que a constituição do pobre garoto fosse tão incompatível com o clima? Eu não poderia, pois ele sempre gozou de excelente saúde.

— Ah! — disse Selina com pesar. — Se pelo menos não tivesse sido arruinada por esse triste infortúnio!

Seu tom não transmitia nenhuma esperança no futuro; e quando prosseguiu contando a história sombria do sofrimento vivido em outro caso igual — que não fora vivenciado por ninguém que ela própria conhecesse, mas por um rapaz que era primo de uma conhecida sua, ou se não primo, um grande amigo, e não que isso tivesse importância —, a Sra. Grayshott só poderia ficar agradecida à Srta. Butterbank por chegar e interromper a narrativa desanimadora antes que alcançasse ao clímax do leito de morte. Conseguiu escapar sem perda de tempo. Percebendo que a Srta. Wendover acabara de se livrar de seu admirador, foi até ela, antecipando um cavalheiro em um casaco azul e calça Angola, que se aproximava, determinado. Ciente disso, pediu, rindo, o perdão de Abigail, acrescentando:

— Espero que não se importe, Abby!

— Não me importo, é muito mais agradável conversar com a senhora do que com o Sr. Dunston! Como vai? Não muito bem, receio, mas não tenho dúvidas de que vai me assegurar de que está animada. Está passando por um período de grande apreensão.

— Sim, mas sei que se tivesse acontecido alguma coisa, alguma coisa ruim, eu teria sido informada, portanto não vou me deixar abater, ou me mudar para Londres, até meu irmão me mandar notícias. Quando isso acontecer, vou deixar Lavinia em suas mãos, e partir. Fiquei muito grata à Srta. Wendover por ter se oferecido para cuidar dela! Mas será você que fará isso, se importa?

— Querida, como pode pedir isso? Fico, naturalmente, muito perturbada só com a ideia de ter tal carga pesada lançada sobre mim! Só a polidez me faz dizer que vai ser um prazer cuidar de Lavinia.

A Sra. Grayshott sorriu e apertou as mãos de Abby.

— Sabia que podia contar com você. Não creio que ela vá lhe dar trabalho. O que realmente acho... Abby, posso lhe falar francamente?

— É claro! Se bem que eu ache que sei o que está pensando. Fanny?

A Sra. Grayshott balançou a cabeça, assentindo.

— Então, já sabe? Fico feliz que tenha chegado. Tenho andado um pouco apreensiva. Sua irmã é uma criatura muito querida e generosa, mas...

Hesitou, e Abby disse calmamente: — Verdade. Uma grande boboca querida e generosa! Ela parece ter-se enfeitiçado por esse Calverleigh.

— Bem, ele... ele é muito envolvente — confessou a Sra. Grayshott, com relutância. — Só que tem uma coisa nele de que não gosto! É difícil explicar porque não tenho motivos para antipatizar com ele. A não ser... — Mais uma vez hesitou, mas, ao ser estimulada a prosseguir, disse: — Abby, nenhum homem pode ser culpado por se apaixonar por Fanny, mas não acho que um homem de princípios, tão mais velho do que ela, ia querer, muito menos instigar, que ela fizesse o que facilmente desencadearia comentários. As atenções dele são extraordinárias demais para se ajustarem às minhas ideias antiquadas. Isso me torna alvo de gozação em Bath, acho, mas você sabe, minha querida, que quando um homem elegante e sociável faz de uma criança da idade de Fanny o alvo de suas atenções, não é de admirar que ela fique deslumbrada e perca a cabeça, ou que seja facilmente levada a acreditar que as normas de conduta com que foi criada sejam antiquadas, na verdade, provincianas!

Abby concordou com a cabeça. — Como a impropriedade de passear pelos Sydney Gardens com ele? Conte-me tudo, senhora! Houve outros... bem, outros encontros clandestinos?

— Receio que sim. Bem, nada de sério, ou que seja do conhecimento de todos, ou... ou que você não encerrasse rapidamente! Talvez não lhe contasse se isso tivesse sido tudo, se não fosse necessário, e não aprecio a posição de ser sua informante, mas tenho motivos para crer que realmente isso não foi tudo, e gosto demais de Fanny para não lhe contar que baseada em algumas coisas que Lavinia, com toda a inocência, deixou escapar, acho que esse caso infeliz talvez seja mais sério do que supomos no começo. Até que ponto Lavinia é a confidente de Fanny, não sei, e, tenho de admitir, que não investigo, pois receio que se ela pensar que eu estava tentando descobrir um segredo que lhe foi confiado, se torne evasiva, até mesmo minta e, certamente, no futuro, controlaria a língua ao falar comigo. Talvez lhe pareça tolo, mas o fato é que ela tem sido uma companheira próxima, tão franca e verdadeira em seu afeto... — A voz da Sara.

Grayshott falhou. Sacudiu a cabeça e depois prosseguiu, com esforço: — Não posso lhe explicar isso!

— Não há a menor necessidade — assegurou Abby. — Compreendo-a perfeitamente. Não tenha receio de mim. Prometo que não deixarei Fanny sequer suspeitar que Lavinia traiu sua confiança. Vou ser franca com a senhora. Tenho todos os motivos para suspeitar que Calverleigh é um caçador de dotes, e ficou bastante claro para mim que Fanny crê estar sentindo uma paixão duradoura por ele. Não sei se Calverleigh espera conseguir o consentimento do meu irmão para o casamento, mas duvido muito. De modo que o que este homem pretende? Ele espera angariar meu apoio? Está se permitindo um simples flerte? Ou tem a intenção de fugir com Fanny? — A Sra. Grayshott arregalou os olhos, e ela percebeu o olhar da outra e sua risada.

— Minha querida! Eu estava só brincando!

— Sim, eu sei, mas... Abby, às vezes me pergunto se nossos pais não estavam certos ao nos proibirem de ler romances! Tudo isso é culpa das bibliotecas, que emprestam livros!

— Por colocar ideias românticas na cabeça das moças? — Abby sorriu ligeiramente. — Não acho que seja assim. Eu mesma criei muitas e nunca tive permissão para ler nada além de obras úteis. Posso estar enganada, mas penso que por mais que uma moça admire, ou inveje, a heroína de um romance que se encontra nas situações mais extraordinárias, e por mais que se imagine nessas situações, sabe que não passam de uma brincadeira infantil de faz de conta, e que, de fato, ela não se comportaria como sua heroína. Como os filhos de minha irmã quando me pegam na moita de arbustos, e me dizem que são assaltantes e que pretendem me tomar como refém!

Seu sorriso se refletiu nos olhos da Sra. Grayshott, que soltou um suspiro e replicou: — Pode ser... não sei! Mas e quando uma moça se apaixona por... ah, por um homem que chamam de homem da capital... experiente na arte da sedução...?

— Tampouco eu sei — disse Abby —, mas me ocorre que o seu homem da capital, supondo-se que esteja em busca de fortuna, não escolheria uma moça a que ainda faltam quatro anos para atingir a maioridade! Na verdade, oito, porque Fanny só terá a posse de sua herança quando completar 25 anos. Não sou bem informada sobre essas questões, mas não seria um tempo longo demais para... viver na expectativa?

— Ele sabe disso? — perguntou a Sra. Grayshott. — Fanny sabe disso?

Os olhos de Abby ergueram-se rapidamente e sua expressão se imobilizou. Passado um momento, ela falou:

— Não. Quer dizer, a questão nunca foi levantada. Não sei, mas acho que ela não sabe. Vejo que cabe a mim informar Calverleigh, se for necessário. Nesse meio tempo...

— Nesse meio tempo —a Sra. Grayshott abriu um sorriso significativo —, o Sr. Dunston está vindo na nossa direção, determinado a tirá-la de mim à força, de modo que tenho de me despedir! Não me ache impertinente se digo que gostaria de vê-la bem estabelecida, Abby!

Afastou-se enquanto falava, deixando o caminho livre para o cavalheiro de casaco azul e calça Angola, que se aproximou dizendo simplesmente:

— Voltou, finalmente! Bath estava um deserto sem a senhorita.

Abby replicou com uma risada e, depois de perguntar com cortesia como estava a mãe dele e conversar brevemente sobre questões triviais, mentiu que viu a irmã chamando-a e o deixou.

A Srta. Wendover, que observara com satisfação a presença do Sr. Dunston, deu um suspiro. Assim como a Sra. Grayshott, ela queria muito ver Abby bem estabelecida, e ninguém seria um marido melhor tio que Peter Dunston. Era um homem muito respeitado, dono de uma propriedade considerável a algumas milhas de Bath; suas maneiras eram descontraídas e agradáveis, e a Srta. Wendover tinha ouvido da própria mãe viúva do Sr. Dunston, que morava com ele, que a amabilidade do filho só rivalizava com a elegância de sua mente e a superioridade de sua inteligência. Tal era a excelência de seu caráter que nunca fizera a mãe sofrer qualquer apreensão. Seria de se supor que Abby, correndo o risco iminente de se tornar uma solteirona, acolheria com prazer o interesse de um pretendente tão seleto, ao invés de declarar que nunca tinha conseguido sentir a menor afeição por homens de virtudes uniformes.

Ela certamente não sentia nada por Peter Dunston, mas a Srta. Wendover estava enganada ao suspeitar, o que a deprimia, que sua irmã querida, mas obstinada, resistia ao casamento. Abby estava plenamente consciente das desvantagens da sua situação e mais de uma vez considerara a possibilidade de aceitar uma proposta do Sr. Dunston. Ele seria um marido delicado, embora nada excitante; ele desfrutava do conforto e da importância de uma casa grande e uma fortuna segura; casando-se com ele, permaneceria próxima de Selina. Por outro lado, nenhum romance resultaria dessa união, e Abby que, quando jovem e inexperiente, recusara a proposta lisonjeira de lorde Broxbourne, ainda acreditava que existia, em algum lugar, o homem por quem ela iria sentir mais do que uma simpatia fraterna. No passado acreditara, também, que estava fadada a, mais cedo ou mais tarde, se deparar com ele. Isso nunca tinha acontecido e começava a parecer improvável que viesse a acontecer; mas sem se permitir lamúrias mórbidas, não estava inclinada a aceitar um substituto que só conseguiria, aos seus olhos, ser o segundo em qualidade.

No momento, entretanto, sua mente não se atinha a essa questão, estando completamente ocupada com o problema mais importante de encontrar a maneira menos dolorosa de afastar Fanny do indesejável Sr. Calverleigh. A Sra. Grayshott não era nenhuma mexeriqueira e, sendo extremamente reservada, Abby sabia que somente um estrito senso de dever a teria obrigado a passar por cima de sua repugnância por falatórios. O que ela soube, ou por sua própria observação ou pelas inocentes revelações da filha, considerou francamente grave demais para ser oculto da tia de Fanny. Ao mesmo tempo, pensou Abigail, considerando-a imparcialmente, a serenidade de suas maneiras educadas escondia uma disposição super-excitante, que a levava a aumentar possíveis perigos. As circunstâncias trágicas de sua vida, associadas à sua constituição doentia, não lhe estimulavam o otimismo. Casada com um oficial combatente e mãe de três filhos promissores, tinha suportado anos de separação, sempre ansiando uma reunião feliz, até seus sonhos serem destruídos pela notícia da morte do capitão Grayshott, durante o cerco de Burgos. Esse golpe foi seguido, menos de um ano depois, pela demorada doença e morte do filho caçula, e o colapso de sua própria saúde, de modo que não causava surpresa ela estar mais preparada para prever um desastre do que um final feliz.

Não que traísse seu abatimento. Se fosse levada a falar de suas provações, o que era raro, e a somente poucos amigos de confiança, dizia ser muito mais afortunada do que muitas viúvas de soldados, porque tinha sido apoiada o tempo todo pelo irmão, de quem não conseguia falar da afeição e generosidade sem se emocionar. Ele era um mercador da índia Oriental — mas como os moralistas mais antiquados de Bath reconheciam, uma pessoa extremamente distinta —e solteirão, que diziam nadar em dinheiro. Não somente a tinha adulado até convencê-la e intimidá-la a aceitar uma pensão que permitiu que se estabelecesse com uma elegância modesta nos Edgar Buildings, como vinha reivindicado o direito de manter seu sobrinho sobrevivente em Rugby e sua única sobrinha, no seleto seminário da Srta. Trimble, em Bath. A suposição geral era de que Oliver Grayshott estava destinado a ser seu herdeiro, e embora houvesse quem reprovasse o Sr. Balking por ter enviado o único filho homem que restara de sua pobre irmã a Índia, era a opinião quase unânime que ela estaria errada se tivesse se recusado a se separar dele.

Ela não tinha feito isso e agora, como várias pessoas tinham previsto desde o começo, o rapaz estava voltando para a mãe, se não à porta da morte, na melhor das hipóteses em um estado de total prostração.

Abby, abençoada por uma mente animada, tinha uma visão mais otimista do caso de Oliver, mas compreendia a apreensão que a Sra. Grayshott devia estar sentindo, e estava inclinada a acharque a perturbação consequente de seus nervos poderia naturalmente levá-la a exagerar na intensidade da paixonite de Fanny.

Os três dias seguintes nada contribuíram para promover um pensamento tão otimista. Não havia dúvida de que Fanny, deslumbrada com as atenções de um janota de Londres, tinha mergulhado de cabeça em seu primeiro caso amoroso e estava pronta para qualquer insensatez ultrajante. Sem nenhuma prática na arte da dissimulação, suas tentativas espasmódicas de parecer despreocupada traíram sua juventude e, em circunstâncias diferentes, talvez tivessem divertido Abby. Mas não demorou para que a tia descobrisse muito mais motivo para se afligir do que achar graça. Ela mesma era impulsiva, quase sempre impaciente com as convenções e, quando mais jovem, rebelde, mas tinha sido educada de maneira muito mais severa do que Fanny, e foi um choque desagradável quando descobriu que a sobrinha todos os dias vigiava a chegada do carteiro, e ao primeiro vislumbre de seu casaco escarlate e o chapéu com insígnia, escapava da sala para interceptar as cartas que chegavam à casa. Nunca, nem em seus momentos mais rebeldes, Abby teria sonhado em manter uma correspondência clandestina! Tal conduta, se fosse levada a público, renderia a Fanny muito mais do que uma repreensão. Era um insulto em todos os sentidos, e se não tivesse certeza, pelo olhar baixo de Fanny, de que nenhuma carta do Sr. Calverleigh tinha chegado, teria abandonado qualquer cautela e repreendido severamente a menina. De início, inclinada a dar ao Sr. Calverleigh o crédito de decoro, uma breve reflexão a fez se dar conta de que se o casamento fosse realmente o seu objetivo, não cometeria um ato tão insensato quanto escrever cartas a Fanny que provavelmente cairiam nas mãos de suas tias. Sua meta devia ser apaziguar os tutores de Fanny; e, ao lidar com Selina, tinha demonstrado estar ciente disso. Abby achava que ele tinha se saído bem demais. Selina mostrava-se excessivamente chocada com as revelações que ela tinha feito, e esperara, embora de maneira indefinida, que talvez, afinal, se descobrisse serem falsas; tinha-se comovido, o que Abby considerava um excesso de sensibilidade, com o espetáculo da sobrinha correndo para olhar ansiosamente pela janela toda vez que um veículo estacionava à porta da casa.

— Pobre menina, coitadinha! — lamentava-se. — É tão tocante! Não sei como consegue permanecer insensível! Nunca a teria imaginado tão... tão insensível, Abby!

— Não sou insensível — replicou Abby, irritada. — Estou profundamente tocada... por um forte desejo de dar a Fanny a maior surra de sua vida! E a daria, se não temesse que isso fosse encorajá-la em sua crença de ser uma heroína perseguida!

Com a nobre determinação de se abster de realizar seu desejo, foi fortalecida pela recepção de Fanny do único conselho que se permitiu dar à donzela morrendo de amor: que não expusesse seus sentimentos. Queixo para cima, os olhos brilhantes, a face corada, Fanny replicou:

— Não tenho vergonha de amar Stacy! Por que eu esconderia?

Muitas respostas pungentes ocorreram a Abby, mas graças a seu autocontrole, nenhuma delas foi proferida. A intuição tinha feito Fanny suspeitar que sua tia predileta estava do lado dos inimigos de Stacy Calverleigh; e pôs-se ligeiramente na defensiva, ainda não hostil, mas pronta para demonstrar irritação. Nada de útil resultaria em dar-lhe um tapa, pensou Abby, portanto ficou calada.