Ovelha Negra
Capítulo VII
O Sr. Stacy Calverleigh, tendo partilhado de uma refeição leve cm Sydney Place, retornou caminhando ao centro da cidade, mas Ao invés de virar à esquerda no fim da Bridge Street e pegar a High Street, hesitou na junção das vias, e então, com um dar de ombros, prosseguiu a caminhada ao longo de Borough Wall até Burton Street. Tomando a direção norte, logo alcançou a Milsom Street, no alto da qual, na George Street, situava-se o York House.
Esse hotel era o mais exclusivo, assim como o mais caro de Bath; e Stacy sentiu-se vagamente irritado com
o fato de seu tio irresponsável poder estar hospedado ali. Não que tivesse o menor desejo de ele próprio, ficar nesse hotel, pois por mais que devesse a seu alfaiate e o muito que devesse a muitos outros comerciantes de Londres, não tinha a menor intenção de prejudicar sua reputação em Bath, endividando-se ali. De fato, o White Hart lhe convinha muito bem, localizado na Stall Street com vários de seus quartos dando para Pump Yard. O sossego do York House não fazia de jeito nenhum o seu gênero: gostava de estar em meio à agitação e não fazia a mínima objeção ao barulho e ao movimento de uma estalagem de posta.
O tempo havia permanecido incerto durante o dia inteiro e, quando chegou ao York House, tinha recomeçado a chover. O ar estava frio e úmido, o que tornou o fogo aceso na lareira da sala privada nada importuno. O Sr. Calverleigh estava sentado ao lado fogo, com os tornozelos cruzados sobre um banco e um charuto entre os dedos. Passava a vista em um jornal quando um garçom anunciou Stacy. Depois de baixar o jornal e dirigir um olhar crítico ao sobrinho, largou-o, e disse, em um tom divertido e tolerante: — Deus do céu! Você é meu sobrinho?
— Assim fui levado a crer, senhor — replicou Stacy, fazendo uma mesura ligeira. — Se realmente for Miles Calverleigh.
— Sou, mas isso não deve preocupá-lo — respondeu Miles, gentilmente. — Você não se parece muito com seu pai: para começar, ele não era um sujeito tão elegante. Não tinha físico para isso. Posso concluir que essas calças amarelas são o sucesso do momento?
— Ah, com certeza! — replicou Stacy, cuja calça amarelo-clara era realmente o que primeiro chamava a atenção nele. Ele pôs o chapéu, as luvas e a bengala sobre a mesa. — Não estava em Bath ou o teria visitado antes, senhor. Deve perdoar minha aparente negligência.
— Sem problemas em relação a isso. Eu não tinha a menor expectativa de vê-lo.
— Ninguém desejaria não dar imediatamente atenção a um parente tão próximo — disse Stacy, com uma certa altivez.
— Nem mesmo a alguém com um parafuso a menos com eu? Ora, ora, sobrinho! Isso está muito pomposo! Na verdade, está se perguntando o que diabos me trouxe aqui e desejando que eu não tivesse vindo! — Riu ao ver que tinha pego Stacy de surpresa.
— Finque os pés no solo e não tente me causar impressão. Não tenho a menor inclinação para formalidades. Não me deve respeito nem obediência, sabe? Sente-se e desembuche logo!
— Bem, senhor... o que o trouxe à Inglaterra? — perguntou Stacy, com um sorriso forçado.
— Inclinação. Um charuto?
— Não, obrigado!
— Prefere o rapé, não? Vai acabar com manchas amarelas ao redor do nariz, mas acho que já terá pego sua herdeira antes de isso acontecer, portanto não tem importância.
— Não sei do que... quem lhe disse...
— Não se faça de desentendido! A Srta. Wendover me disse... A Srta. Abigail Wendover... e não creio que suas investidas prosperem.
— Não se ela tiver influência! — A expressão de Stacy se fechou. — Acho que é minha inimiga. Eu só a conheci hoje, e ficou claro que me daria uma surra se pudesse.
— Sem dúvida. Posso apontar outra pessoa que provavelmente brigará com você: James Wendover.
— Ah, ele! — Stacy deu de ombros. — Pode tentar, mas não vai conseguir nada. Fanny não lhe dá a mínima. Mas essa maldita tia é outra história. Fanny... — Interrompeu-se, percebendo, de súbito, que havia sido levado à indiscrição, e apelou para seu sorriso de garoto. — A questão é que Fanny é uma herdeira. Não se pode culpar sua família por querer que faça um bom casamento, mas quando se está muito apaixonado, considerações sobre riqueza e posição social não têm importância.
— Bem, uma moça aos 17 anos pode se acreditar profundamente apaixonada, mas, segundo minha experiência, não dura muito — comentou Miles, sarcástico. — Não vai me dizer que considerações sobre riqueza não têm importância para você, vai?
O sorriso se desfez sob esse olhar irônico; Stacy replicou com raiva: — Como eu poderia me casar com uma moça sem fortuna?
— Não achei que poderia. Segundo o que ouvi, está na bancarrota.
— Quem lhe disse isso? — perguntou Stacy com desconfiança. - Não sabia que tinha relações na Inglaterra!
— Como poderia saber? Tenho, mas foi Letty que me disse que você está completamente arruinado.
— Refere-se à minha tia-avó Kelham? — perguntou Stacy, incrédulo. — Está querendo que eu acredite que a visitou?
— Ah, não! Não dou a mínima para o que você acredita. Por que deveria? — replicou Miles, com uma afabilidade inabalável.
Enrubescendo, Stacy gaguejou: — Perdão! Foi só que... bem, ela é uma tremenda moralista e nunca teria pensado... isto é...
— Entendi! — disse Miles, encorajando-o. — Pensava que ela fecharia a porta na minha cara!
Stacy caiu na gargalhada. — Bem, sim! — admitiu ele. — Se não lhe devo respeito, não preciso dourar a pílula, pelo que entendi!
— Ah, não, não tem a menor necessidade disso — garantiu-lhe Miles.—A questão é que a sua tia-avó... Deus!, pensar que Letty é uma tia-avó, só tem 12 anos a mais do que eu! Bem, o fato é que ela era generosa comigo. Talvez porque detestasse meu pai, ou melhor, é claro que sim. Pensando nisso, o seu pai não era de jeito nenhum o favorito dela. Talvez porque a maior parte das mulheres goste de libertinos — acrescentou ele, pensativo.
— Foi por isso que o mandaram para o exterior? — perguntou Stacy. — Nunca soube exatamente... meu pai nunca falava do senhor, exceto para dizer que não era alguém de quem.se falar — Ah, eu era um verdadeiro delinquente! — respondeu o tio, em tom cordial. — Comecei me envolvendo com mulheres de baixa reputação, em Eton. Foi por isso que me expulsaram.
Stacy olhou-o com certa admiração. — E... e em Oxford?
— Não me lembro, mas deve ter sido pela mesma razão. O problema foi que eu era muito maduro e despachado demais; estava sempre aprontando alguma. Mas nada semelhante ao mau comportamento em Londres. Um marginalzinho, é o que eu era... um maldito garoto bobo! Culminei minha carreira tentando fugir para me casar clandestinamente com uma herdeira. Isso foi demais para a família, de modo que se livraram de mim, e sem dúvida não posso culpá-los. — Ele sorriu de maneira zombeteira para o sobrinho.
— A sorte tampouco o favoreceu, não foi? Stacy se enrijeceu:
— Senhor?
— Tentou o mesmo, não?
— Isso, senhor, é algo que prefiro não discutir! Foi um episódio infeliz! Fomos levados pelo que acreditávamos ser uma paixão inabalável! As circunstâncias... a verdade... não pode ser entendida pelo senhor... em resumo, não me sinto obrigado a me justificar com o senhor!
— Meu bom Deus, espero que não! Não me diz respeito. Posso ser seu tio, mas realmente tenho pouco interesse por você. É muito parecido comigo, e me acho terrivelmente chato. A única diferença que vejo é que você é um jogador. Este é o único vício que nunca tive, e não me desperta o menor interesse porque acho jogar entediante.
— Suponho que esteja tentando me engambelar... ou não sabe nada de jogo, e nisso eu não acredito!
— Ah, não! Tentei jogar, mas o jogo não exerceu nenhum fascínio sobre mim. Devagar demais!
— Devagar? — repetiu Stacy, perplexo.
— Ora, sim! O que tem de fazer além de apostar o próprio dinheiro e observar a virada da carta ou a queda dos dados? A mesma coisa com corrida de cavalos. Mas se me oferecessem uma competição em que eu montasse meu próprio cavalo, isso sim teria sido excitante! Mas monto pesado demais, sempre foi assim.
— Mas dizem... e entendi pelo que disseram... que custou uma fortuna ao meu avô!
— Eu era caro — admitiu Miles —, mas não usaria propriamente o termo fortuna. Porém me diverti muito com meus gastos. O que diabos tem de divertido no jogo de azar?
Estava evidente que Stacy achava isso incompreensível. Olhou para ele intrigado e, depois de um momento, falou:
— Eu devia invejá-lo, suponho! Mas não invejo. Está no meu sangue, e certamente no seu também! Meu pai... meu avô, meu tio-avô Charles... ah, todos eles!
— Sim, mas não pode se esquecer de que fui uma grande decepção para a família. Meu pai até mesmo suspeitou que eu fosse uma criança trocada. Uma teoria deliciosa, mas sem fundamento acho. — Jogou a ponta do charuto no fogo e se levantou, espreguiçando-se. Seus olhos claros dirigiram-se a Stacy, sua expressão difícil de interpretar. — Já perdeu Danescourt?
Stacy riu abruptamente. — Deus meu! Que homem em seu juízo perfeito apostaria contra essa maldita cabana. A hipoteca é impagável, e está em ruínas! Ficou endividada quando meu pai morreu, e eu não posso saldar essa dívida. Odeio aquele lugar... não investiria nem um centavo ali!
— Morada dos nossos ancestrais! — disse Miles, irreverente.
— Devem estar se virando em seus túmulos. Talvez você seja uma criança trocada! Ou veio me visitar na esperança de que eu possa restaurar sua fortuna perdida?
— Não! — Stacy olhou de relance para o tio. — Disseram-me que voltou para acompanhar o filho da Sra. Grayshott, o que não me leva a supor que esteja nadando em dinheiro! Queira Deus que isso não vaze!
— Oh, acho que não — replicou Miles com tranquilidade. — Mas ouviu errado. Não fui o tutor do jovem durante a viagem. Combinei os deveres de enfermeiro e criado de quarto.
— Deus do céu! Se isso se tornar conhecido...! Gostaria que considerasse minha posição, senhor!
— E por que eu deveria?
— Bem, diabos, sou seu sobrinho! — replicou Stacy com indignação. — E o senhor, afinal, é um Calverleigh!
— Sim, mas de maneira nenhuma orgulhoso, juro. Quanto à nossa relação, ninguém pode culpá-lo por ser meu sobrinho... Eu mesmo não o culpo... mas se isso o incomoda, não me reconheça!
— Pode lhe parecer engraçado — retorquiu Stacy, enrubescendo —, mas devo pedir permissão para lhe dizer, senhor, que não é uma coisa agradável para mim tê-lo aqui, parecendo... por mil demônios, parecendo um grosseirão! — Levantou-se, pegou o chapéu. — Não sei por quanto tempo pretende ficar em Bath, mas espero que esteja ciente do preço das taxas cobradas neste hotel!
— Não se importe com isso. Não vou debitá-las a você. Se eu ficar em uma situação embaraçosa, sempre haverá a possibilidade de fugir sem pagar.
Stacy replicou depressa, na defensiva: — Muito engraçado, senhor! — Pegou as luvas e a bengala. — Seu criado!
Executou uma ligeira mesura e saiu. Estava tão alvoroçado que chegou a White Hart antes de sua raiva ter abrandado o suficiente para lhe permitir refletir sobre se tinha agido bem ao perder o controle. Não era, naturalmente, um homem moderado, mas tinha cultivado um ar de bom humor sorridente, sabendo que era um trunfo tão importante para toda aquela sobrevivência precária, à margem da sociedade, quanto sua bela aparência. Raramente traía sua irritabilidade ou perdia a pose, mesmo sob uma grave provocação ao ser humilhado por algum cavalheiro mais exaltado, em cujo círculo tentara se insinuar, ou ao ser examinado de cima a baixo por uma grande dama, cujo favor queria conquistar. Começou a se afligir consigo mesmo e a se perguntar que característica era aquela em seu tio que o havia irritado; mas não foi por muito tempo, e, então, com relutância, o que lhe ocorreu foi que o tio o fizera para que se sentisse pequeno. O que não tinha nada a ver com a altura superior de Miles, muito menos com suas maneira que não tinham sido as de um homem falando com o sobrinho mas as de um homem falando com alguém da mesma idade, a quem olhava com indiferença. Ao relembrar como Miles se comportara de maneira descontraída, parecendo ter-se vestido ao acaso com um casaco fora de moda, o colarinho aberto, e um charuto abominável entre os dedos compridos e morenos, sentiu o ressentimento voltar a se manifestar. Ele, e não seu tio mal-afamado deveria ter sido o mestre da situação, mas, de alguma maneira misteriosa, sentiu-se constrangido. Tinha esperado ser recebido se não com satisfação, pelo menos com prazer. Havia sido condescendente, como chefe da família, em visitar seu réprobo, mas o réprobo aparentemente não estava ciente disso. Não tinha demonstrado nem prazer nem desprazer, e certamente não alegria; o único interesse que o homem demonstrara por seu sobrinho tinha sido de uma ordem casual. Stacy achou essa atitude de tal modo atrevida que quase desejou retornar ao York House, com o propósito de mostrar o desprezo que aquele sujeitinho impudente merecia.
Mas logo lhe ocorreu, entretanto, que cabia a ele agir com cautela: até mesmo, se pudesse, ficar amigo de Miles. O tio sabia que ele estava cortejando Fanny Wendover, e não havia praticamente nenhuma dúvida de que fora informado pelas tias dela. Ele não tinha dado nenhum sinal de que o reprovava. Na verdade, tinha demonstrado tanto interesse nisso quanto na revelação de que Danescourt estava seriamente endividada, mas se mantinha bom relacionamento com a Srta. Abigail Wendover, poderia valer a pena o esforço para conquistar seu apoio.
O casamento tinha poucos atrativos para o Sr. Stacy Calverleigh, mas ele estava ciente de que somente por meio de um casamento rico poderia escapar das dificuldades que haviam se tornando extremamente urgentes; e estava determinado a se casar com Fanny, mesmo que fosse obrigado a convencê-la a fugir com ele. Mas seria infinitamente preferível casar-se com o consentimento dos parenta da jovem. Selina, ele podia dominar brincando, mas tinha percebido desde o começo que ela tinha menos importância do que Abigail, e que era a influência desta tia que provavelmente teria maior peso com o Sr. James Wendover.
Não alimentava ilusões em relação a James. Nunca conhecera o pai dele, nem o irmão mais velho, muito menos o avô, mas sabia que tinham sido de muita notoriedade em seu tempo, e que James era comumente considerado o epítome de um Wendover. Era governado por duas paixões: uma determinação para fazer progredir os interesses da família e uma determinação ainda mais forte de evitar a todo custo qualquer coisa que sugerisse da maneira mais remota um escândalo. Com certeza se oporia ao casamento de Fanny com um rapaz sem dinheiro, com uma reputação comprometida, mas depois de atado o nó, certamente abafaria o escândalo consequente. E se não fizesse imediatamente uma provisão conveniente para sua rica tutelada, logo seria obrigado a fazê-lo, por medo do que as pessoas diriam. Isso, segundo os maliciosos, era o pavor que governava sua conduta. E se Stacy mostrasse ser um caráter reformado, as pessoas certamente diriam coisas muito rudes, a menos que James concedesse a Fanny entrar na posse, no mínimo, da renda de sua grande fortuna e da casa de seus ancestrais. Particularmente, pensou Stacy, se o casamento clandestino fosse abençoado com um herdeiro. Quanto a ele próprio, tinha a intenção de se comportar com todo o decoro, resignando-se, até mesmo, a viver durante meses em Amberfield. Seria um tédio, mas quando soubessem que tinha se casado com uma herdeira cuja propriedade se tornaria sua em alguns anos, poderia viver confortavelmente na expectativa. Seria possível para ele acertar as contas com seus credores mais insistentes, e embora continuasse devendo, não temeria mais ser encarcerado por isso. Nem o agiota mais avaro chegaria ao extremo contra um homem que era herdeiro (por casamento) de uma bela fortuna.
Não era evidentemente, o casamento ideal. Ele teria preferido — e de fato tinha preferido — uma noiva que já tivesse alcançado a maioridade; mas as herdeiras eram muito raras e desde a sua tentativa frustrada de um casamento clandestino, suas chances de ter permissão para se aproximar de uma tinham diminuído a ponto de praticamente desaparecerem. Por outro lado, Fanny era uma beldade, e ele achava que se tivesse de se casar, estaria mais disposto a se casar com ela do que com qualquer outra. Mas queria fazer isso com a aprovação das tias da moça; e tendo conquistado Selina, ficara esperançoso de obter o mesmo êxito com Abigail. Cinco minutos na companhia dela foram o bastante para arruinar seu otimismo. Abigail era feita de uma matéria mais austera do que a irmã, e havia resistido a ele francamente. Provavelmente James Wendover seria o culpado; talvez a influência de outro homem pudesse ser vantajosa. Ela parecia se dar bem com Miles, portanto era desejável não perder tempo para angariar seu apoio.
Assim, ao comparecer, naquela noite, ao baile no Upper Room, e ver que seu tio estava presente, conversando com a Sra. Grayshott, aproveitou a primeira oportunidade que se ofereceu para cumprimentá-lo, demonstrando extremo prazer. Ficou aliviado ao ver que Miles possuía, pelo menos, uma calça decente e um fraque, mas seus dedos coçaram de vontade de endireitar a gravata, que achou deplorável, e pentear de uma maneira mais moderna os cachos negros do tio. Os seus próprios estavam muito bem untados, e cortados ao estilo Brutus; seu paletó ajustava-se perfeitamente à sua figura esguia; uma corrente de relógio pendia da cintura e um monóculo, ao redor do pescoço; a pele exalava a fragrância sutil da lavanda Steek’s; e um alfinete de diamante aninhava-se nas dobras de sua gravata oriental. De fato, como Lady Weaverham comentou com a Sra. Slinfold, ele tinha o toque inconfundível de Londres. A Sra. Slinfold, concordando, acrescentou que, na sua opinião era o mais elegante de todos os cavalheiros presentes; mas, ao ouvir essa conversa, a Sra. Ruscombe soltou uma risada curta e disse: — Oh, acham mesmo? Tão frívolo! Meu marido... que maldade... diz que ele é um perfeito janota presunçoso!
Mas como todos sabiam que era costume da Sra. Ruscombe atribuir suas críticas ferinas ao marido submisso, além de ter feito de tudo para pôr a filha mais velha, das cinco que tinha, no caminho do Sr. Stacy Calverleigh, essa observação foi recebida com um silêncio absoluto. O Sr. Calverleigh podia ser uma criatura excessivamente janota para o gosto geral, mas não era um dândi, pois nunca se pavoneava nem afetava ares de arrogância. Suas maneiras eram muito agradáveis, de modo que mesmo as mais severas das pessoas mais velhas que ele eram obrigadas a admitir que suas maneiras eram impecáveis.
Quando a Srta. Abigail Wendover chegou, acompanhando sua adorável sobrinha, notou-se que estava usando outro de seus vestidos de Londres, e seus amigos concordaram que ela estava com excelente aparência. Somente a Sra. Ruscombe comentou que isso não era vantagem para quem podia esbanjar uma fortuna.
Essa avaliação era um exagero, mas estando em uma posição confortável, Abby não era obrigada a fazer economia, e não hesitara em comprar um manto extremamente caro de renda sobre um vestido de cetim que pendia em pregas suaves até os pés, terminando em uma pequena cauda. Isso, assim como o penacho adornado por diamantes em seu cabelo, proclamava aos bem informados que ela não tinha intenção de dançar; mas o Sr. Miles Calverleigh não era um deles, e abriu caminho até onde ela estava sentada e pediu que lhe concedesse a honra de conduzia-la ao grupo que se posicionava no salão.
Ela sorriu, mas recusou sacudindo a cabeça.
— Obrigada, mas não danço.
— Fico feliz com isso — disse ele. Então, quando seus olhos expressaram surpresa e divertimento, ele riu e acrescentou: — Sou um péssimo parceiro, sabe? Posso, então, me sentar e conversa com a senhorita?
— Por favor, fique à vontade! Estava mesmo querendo uma oportunidade de conversar com o senhor. Conheceu seu sobrinho?
— Sim, ele foi muito amável me visitando hoje.
— O que achou dele? — perguntou ela.
— Ora, nada! Devia achar algo?
— Gostaria que não fosse tão sarcástico!
— Não seria sarcástico com a senhorita por nada neste mundo. Mas o que gostaria que eu dissesse? Ele esteve comigo por menos de uma hora, e não me lembro de ele ter dito nada que me interessasse a ponto de me fazer refletir sobre sua pessoa.
— É um tio nada comum! — disse ela, com uma severidade que contradizia a covinha em sua bochecha.
— Sou? — Refletiu por um momento. — Não, não acho que seja. Tive três tios e nenhum deles tinha o menor interesse em mim. Afinal, por que teriam?
— Não havia motivo nenhum, acho eu! Está tentando me fazer... Ah, como dizem os caçadores?... Seguir a pista errada? Sim, é isso. Não vai conseguir! Também conheci seu sobrinho hoje e não tenho o menor escrúpulo de dizer que gosto dele menos ainda do que esperava gostar!
— Não, verdade? Suas expectativas deviam ser muito maiores do que me fez crer!
— Não, mas... Bem, suponha que esperava que ele fosse um homem com charme! Não o achei com charme nenhum, e não consigo imaginar por que Fanny apaixonou-se por ele! Agora, me diga: o senhor consegue?
— Ah, facilmente! É um sujeito muito bonito, a senhorita precisa admitir! Além do quê, estava extremamente elegante, e tem ótimas maneiras.
— Ah, sim! — concordou ela, amarga. — O jogo de adulação daquele rapaz! Ele tentou me amaciar, mas, para mim, é ele que esconde as garras. E quando sorri, não há sorriso em seus olhos. Somente... somente um olhar avaliador. Com certeza, o senhor também percebeu isso, não?
— Bem, não! — confessou ele. — Mas talvez porque ele não tenha sorrido tanto enquanto esteve comigo. Ou talvez porque não viu necessidade de... hã... me avaliar!
— Também não gostou dele, gostou? — perguntou ela rapidamente.
— Ah, não! Mas de quantas pessoas nós gostamos? Ela franziu o cenho, sua atenção momentaneamente desviada.
— Na primeira vez que as vemos? Não sei, não muitas, talvez. Mas não se precisa não gostar delas, e eu realmente não gostei do Sr. Stacy Calverleigh!
— É, achei que não — replicou ele com gravidade.
— E não acredito, apesar de todos os seus protestos e maneiras atenciosas, que ele ame Fanny de verdade ou que teria feito qualquer esforço para conquistar sua afeição se ela não possuísse uma grande fortuna!
— Oh, Deus, não!
Ela se virou de frente para ele, com os olhos súplices, e pondo uma das mãos ricamente enluvadas em seu braço, disse: — Se pensa assim, não vai... ah, Sr. Calverleigh, não vai fazer nada para salvar a minha pobre Fanny? Ele a estava olhando com o sorriso que, diferente do de seu sobrinho, se irradiava em seus olhos, mas tudo o que respondeu foi:
— Minha querida menina... Não, não se defenda! Foi um lapso de linguagem! Minha cara Srta. Wendover, o que imagina que eu possa fazer?
Não tendo nunca refletido sobre isso, ela ficou sem saber o que responder.
— Certamente, deve poder fazer alguma coisa — replicou Abby de maneira pouco convincente.
— O que a faz pensar assim?
— Bem... bem, afinal o senhor é tio do rapaz!
— Ah, isso não é razão! A senhorita mesma me disse que sou um tio nada convencional, e se isso significa ser um tio que não se mete na vida de um sobrinho sobre o qual não tem nenhuma autoridade e para quem não faria diferença se fosse sobrinho de qualquer outro, sem a menor dúvida está certíssima!
— Nenhuma autoridade, não! O que quer que diga não impede que o parentesco exista, e tem de ter influência, se quiser exercê-la, não?
Ele olhou-a com um ar divertido.
— Sabe, a senhorita tem umas ideias notavelmente fantasiosas nessa cabecinha encantadora! Como diabos eu poderia ter influência sobre um sobrinho que me conheceu hoje à tarde?
Ela percebeu a força desse argumento, mas a convicção de que poderia rechaçar Stacy, se quisesse, permaneceu. Era irracional e justificada apenas pela força que achava ter detectado em suas feições ásperas e por uma certa inclemência por baixo de suas maneiras negligentes. Falou com um ligeiro suspiro:
— Suponho que não tenha nenhuma. Ainda assim... e ainda assim... acho que poderia ter, se simplesmente quisesse!
— De minha parte, acho a senhorita perfeitamente capaz de resolver isso sozinha, sem qualquer ajuda minha.
Ao que parecia, não havia mais nada a ser dito, tampouco teve a oportunidade de insistir no assunto, sua atenção sendo requisitada, naquele mesmo instante, pelo Sr. Dunston, que a observava há minutos de maneira ciumenta, e que agora se aproximou para pedir que lhe concedesse o privilégio de conduzi-la à sala de chá.
Encontraram-se de novo dois dias depois, no Edgar Buildings; e por menos satisfeita que Abby tivesse ficado por encontrar o Sr. Stacy Calverleigh na sala de estar da Sra. Grayshott, cheio de gentilezas com a anfitriã e conquistando as graças de Fanny pela solicitude do tom que tratava o Sr. Oliver Grayshott, ficou incontestavelmente feliz ao ver seu tio, e traiu sua emoção com o sorriso repentino que lhe iluminou os olhos e a prontidão com que estendeu mão.
Percebeu que sua chegada interrompera uma discussão animada. O consultor clínico do Sr. Grayshott, que passara para vê-lo mais cedo, tinha-se declarado muito satisfeito com seu progresso e sancionado a crença, de certa forma recalcitrante, do paciente de que lhe faria muito bem abandonar o sofá e sair para um pouco de ar fresco e exercício. Uma ida a Lansdown e andar um pouco por lá, deleitando-se com a vista do Bristol Channel, foi o que recomendou; mas quando a Sra. Grayshott se opôs a esse programa dizendo, muito inconvenientemente, que ele seria fatalmente prejudicado caso se deixasse ser levado a Lansdown ou qualquer outro lugar, como se ele estivesse morrendo de um processo de debilitação drástica, o médico riu e disse:
— Bem, então saia a cavalo, se preferir! Não vai fazer mal, contanto que não vá longe demais, e que não se canse muito.
Isso não era de jeito nenhum o que a Sra. Grayshott desejava. Achava que ainda faltava muito para Oliver se recuperar completamente, sem conseguir se esquecer de como estava pálido e abatido ao chegar de Londres; e não podia gostar do projeto de sair de Bath tendo a irmã como única companheira. Lavinia era uma amazona nervosa, requerendo uma constante vigilância. De jeito algum o tipo de companhia ideal para um doente; e Fanny, que se ofereceu instantaneamente para acompanhá-los, não parecia à viúva a mais indicada. Fanny não era nervosa. A Sra. Grayshott, ela mesma não sabendo montar, tinha ouvido um dos admiradores da moça descrevê-la como uma amazona veloz, corajosa, um elogio que foi um golpe no coração de uma mãe apreensiva. Em seguida, para piorar a situação, Stacy Calverleigh, que encontrara as duas garotas na Queen's Square e as acompanhara ao Edgar Buildings, ofereceu seus serviços, assegurando, enquanto ria para a Sra. Grayshott, que traria o grupo de volta bem cedo e nem um pouco cansado.
A proposta foi instantaneamente aprovada pelas garotas, e possivelmente por Oliver, o que tornou difícil a recusa da Sra. Grayshott. Atrapalhava-se com algumas justificativas capengas quando Abigail foi anunciada.
— Em boa hora! Entre, querida, e me dê seu apoio! — exclamou ela, indo cumprimentar Abby. — Aqui está meu filho voluntarioso, determinado a cavalgar até Lansdown, e esses outros jovens querendo formar um grupo para ir com ele! Estou convencida de que não gosta do plano mais do que eu, pois apesar de o Sr. Stacy Calverleigh ser muito gentil oferecendo-se para acompanhá-los, receio que a missão de impedir três crianças tão impetuosas escape de seu controle!
— Não, não vai acontecer, verdade! — gritou Fanny. — Teremos o maior cuidado com Oliver e juro que não será nem um pouco difícil para Stacy nos impedir de ir longe demais, mesmo que quisermos, senhora! — Virou-se impulsivamente para Abby.
— Não se opõe, não é, Abby?
Reprovando o plano, mas incapaz de pensar em outro motivo para seu veto a não ser a inclusão de Stacy no grupo, Abby hesitou. A salvação veio de alguém inesperado.
— Monta, Srta. Wendover? — perguntou o Sr. Miles Calverleigh, lhe sorrindo do outro lado da sala, expressando tal entendimento no olhar que conseguiu fazê-la responder com um sorriso.
— Ora, sim! — replicou ela.
— Nesse caso, pode ficar tranquila—disse Miles à Sra. Grayshott.
— Cá entre nós, a Srta. Wendover e eu seremos capazes de controlar as atividades dos membros mais novos dessa expedição arriscada.
A única objeção que esse argumento inesperado provocou partiu de Oliver, que afirmou, ressentido, ser perfeitamente capaz de cuidar de si mesmo. Acrescentou que se fizesse a menor ideia de que seu desejo de sair para cavalgar fosse gerar tal comoção, nunca o teria expressado.
— Cale-se, jovem! — disse Miles, em tom chocado. — Vai fazer a Srta. Wendover supor que não quer que ela vá com você!
Essa intervenção naturalmente confundiu Oliver, que se apressou a tranquilizar Abby. Ela riu, deixando claro que não tinha a menor intenção de desempenhar o papel de ama-seca; e sentiu-se animada com a aprovação instantânea de Fanny:
— Ah, excelente ideia! — exclamou Fanny. — Virá, melhor das minhas tias, não virá?