Ovelha Negra

Georgette Heyer · Capítulo 10 de 19

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Ovelha Negra

Capítulo IX

O Sr. Stacy, tendo dormido até o sono curar sua bebedeira, despertou tarde no dia seguinte com apenas uma vaga lembrança do que se passara entre ele e seu tio. Gabava-se tanto de sua capacidade para beber muito mais do que qualquer outro homem que atribuiu a circunstância de ter arriado na cama à qualidade do brandy oferecido no White Hart; e quando encontrou casualmente o Sr. Miles Calverleigh na Milsom Street, dois dias depois, desculpou-se rindo do efeito que a bebida exercera sobre ele, descrevendo o fato como tendo extrapolado um pouquinho. Falou alegremente, mas por trás de sua despreocupação ocultava-se o medo de ter se traído na indiscrição. Disse que esperava não ter falado bobagens demais _e foi tranquilizado pela flagrante falta de interesse do tio. Então, arriscou-se a expressar a esperança de que Miles não o traísse entregando-o às mulheres em Sydney Place.

— Eu ficaria mal se a Srta. Abigail chegasse até mesmo a suspeitar de que eu, de vez em quando, entorno demais! — disse ele.

— Foi bom me avisar para não entregá-lo! — retrucou Miles, sardônico. — Entreter mulheres com relatos das divagações de bêbados é um de meus passatempos preferidos.

Deixou Stacy com um de seus acenos de cabeça indiferentes e desceu a rua, em direção ao balneário. Ali encontrou todas as Wendover: Abby, escutando com uma expressão de interesse cortês uma das histórias do general Exford; Fanny, em um grupo de jovens animados; e Selina, com a Srta. Butterbank ao lado, recebendo congratulações de amigos por seu aparecimento após o período de reclusão. Depois de um olhar divertido na direção de Abby, Miles foi ate* Selina, saudando-a com a descontração de uma antiga amizade, dizendo, com seu sorriso atraente:

— Não vou perguntar como está, senhora. Perguntar sobre a saúde de uma dama implica que ela não está com boa aparência. E vejo que está cheia de viço.

Ela tinha observado sua aproximação com dúvidas, mas não era de jeito nenhum impermeável à lisonja, ou ao seu charme efusivo, e devolveu o sorriso, embora desaprovasse seu elogio: — Deus do céu, senhor, na minha idade não se fala em viço! É coisa do passado... não que eu nunca... isto é, não mais que passável!

— Ah, minha prezada Srta. Wendover, como pode dizer isso? — admirou-se a Srta. Butterbank, levantando as mãos. — Nunca ouvi tamanho disparate! Mas sempre foi tão modesta! É claro que tenho de pedir ao Sr. Calverleigh que não lhe dê ouvido!

Como, nesse momento, ele estava perguntando à Sra. Leavening se tinha prosperado em sua procura de apartamento, não teve dificuldade em lhe obedecer. A única dificuldade que experimentou foi como se livrar de uma discussão sobre os méritos e desméritos dos vários apartamentos que a Sra. Leavening havia inspecionado. Mas tendo concordado com Selina que Axford Buildings situava-se em uma parte horrível da cidade, e com a Sra. Leavening de que a Gay Street era íngreme demais para pessoas mais idosas, ele riu e revelou, com uma franqueza que desarmou todos, que nada sabia de nenhuma das duas localizações.

— Mas acho que as pessoas falam bem MarlBorough Buildings — disse ele. — A menos que prefira a paz e o silêncio de Belmont.

— Belmont? — repetiu Selina, incrédula. — Mas não serviria nunca! O caminho todo é uma subida! Não pode estar falando sério!

— É claro que não está, querida. — A Sra. Leavening soltou um risinho. — O Sr. Calverleigh não faz a menor ideia de onde se localiza. Faz, senhor?

— Nenhuma! Mas faço questão de descobrir, e lhe direi hoje à noite, senhora — prometeu ele.

Fez então uma ligeira mesura e se afastou. Selina, ressentida com a sugestão de que existiria alguma parte em Bath que ela desconhecia, exclamou: — Bem, tenho de admitir que o acho uma criatura muito estranha! É a impressão que dá, não que eu o conheça bem, e não devemos julgar ninguém em uma única visita pela manhã, nem mesmo usando traje de montaria, o que não consigo aprovar, embora Abby me assegure que ele não jantará conosco vestido assim, mas suas maneiras são muito estranhas e abruptas!

— Oh, certamente é um excêntrico, mas muito engraçado! — disse a Sra. Leavening. — Gostamos muito dele, sabe, e não vejo nada em suas maneiras que nos desagrade.

— Exatamente o que eu estava dizendo à querida Srta. Wendover! — interpolou a Srta. Butterbank. — Quem a Srta. Abby aprova não pode não ser um cavalheiro!

— Sim, mas não é apropriado para ela ir ao teatro em sua companhia — disse Selina. — Pelo menos, não segundo o senso de decoro, embora, sem dúvida, minhas ideias sejam antiquadas, e, é claro, Abby não é exatamente uma menina, mas falar como se já estivesse fora de circulação seria uma grande bobagem! A Sra. Leavening concordou, mas, como seu marido apareceu nesse momento, Selina não contou à sua velha amiga que Abby, não contente em aceitar acompanhar o Sr. Calverleigh ao teatro, o tinha convidado a jantar em Sydney Place!

Esse gesto audacioso prostrara Selina. A notícia de que o Sr. Calverleigh havia sido tão gentil a ponto de convidar Abby ao teatro tinha sido recebida placidamente, embora com certa surpresa: parecia muito estranho que um único cavalheiro fizesse parte do grupo, mas sem dúvida ele desejava retribuir a hospitalidade de senhoras como a Sra. Grayshott e Lady Weaverham. As Ancrum também iriam?

Abby sentiu-se, por um momento, tentada a responder sem se comprometer, mas superou o impulso e replicou em um tom afetado:

— Oh, não é um grupo! Acha que eu não devia ter aceito? Na verdade, hesitei, mas na minha idade certamente não é impróprio, é? Além do mais, a peça é The Venetian Outlaw, a que quero muito assistir. Por um motivo ou outro nunca consegui, sabe? A primeira vez que foi apresentada eu estava doente, e da outra, eu estava fora de Bath. Mas você a viu duas vezes, não viu? E saiu extasiada!

— Sim, mas não com um cavalheiro! — repreendeu Selina, escandalizada. — Uma vez fui com a nossa querida mamãe, você era menina demais, na época. A segunda vez, Lady Trevisian me convidou... ou essa foi a terceira vez? Sim, porque na segunda vez George e Mary estavam conosco, e você teve uma terrível inflamação de garganta, por isso não pôde ir!

— Agora estou decidida a não ter nenhuma inflamação na garganta!

— Não, de verdade! Espero que não! Mas o Sr. Calverleigh deve convidar também outras pessoas! Acho que não devia ter feito isso. Não foi um comportamento conveniente, e a Índia não pode ser usada como desculpa, pois não há teatros lá... pelo menos acho que não, e você?

— Não, querida. Por isso o Sr. Calverleigh, naturalmente, não podia saber que estava fazendo algo não convencional, coitado!

—Quanto a lhe dizer para convidar outras pessoas além de mim, espero que não deseje que seja eu a fazer isso! Isso sim seria impróprio! E, realmente, Selina, que objeção pode haver a eu ir assistir a uma peça acompanhada por um homem de meia-idade? Além disso, sou muito conhecida, e sem dúvida encontrarei muitos dos nossos amigos no teatro!

— Isso vai fazê-la parecer tão... tão particular, querida! Nunca faria isso em Londres! É claro que Bath é outra história, mas a situação é ainda pior! Pense só em como vai ser desagradável se as pessoas disserem que está encorajando o Sr. Calverleigh a cortejá-la!

Esse pensamento já tinha ocorrido a Abby, fazendo-a hesitar e quase desfazer o compromisso; e se Selina não tivesse falado mais nada, provavelmente teria feito isso. Mas o gênio maligno de Selina a incitou a proferir as palavras fatais.

— Estou convencida de que James mandaria que desfizesse o compromisso, Abby!

— Está mesmo? — Abby enraiveceu-se no mesmo instante. — Bem, isso define a questão! Não farei uma coisa dessa! Ah, Selina, por favor, não faça disso um drama! Se está receosa do que vão perguntar, basta responder que ainda não se arrisca a sair à noite e que por isso o Sr. Calverleigh gentilmente se ofereceu para representá-la. E quando souberem que ele jantou aqui conosco, antes de me acompanhar ao teatro...

— Nada... nada me obrigaria a fazer algo tão impróprio quanto convidar um cavalheiro solteiro a jantar conosco ! — declarou Selina, com um vigor inusitado.

— Não, querida, não vai ser obrigada a fazer isso — disse Abby, maliciosa. — Eu o fiz por você.

— Abby! — Selina empalideceu de consternação estupefata. — Convidou um homem a jantar conosco sozinho? Não pode estar falando sério! Nós nunca faríamos algo assim! Exceto, é claro, se fosse James, o que é um caso diferente!

— Muito diferente — concordou Abby. — O Sr. Calverleigh talvez seja excêntrico, mas nunca um chato de galocha!

— Nunca me senti tão mortificada! — lamuriou-se Selina. — Tão agressiva, como se não soubesse como se comportar, e exatamente o que o querido papai deplorava, e o que ele diria, se estivesse vivo, o que agradeço a Deus ele não estar, tremo só de pensar!

 

Tinha sido preciso tempo, paciência e muito tato para acalmar Selina, mas, no fim, ela consentiu em receber o Sr. Miles Calverleigh, persuadida pela terrível suspeita de que, se recusasse, sua frívola irmã mais nova seria bem capaz de deixar a cidade em polvorosa jantando com ele no York House. Dedicou, então, a maior parte da tarde na composição de um convite formal, escrito com sua bela letra, combinando com requinte condescendência e cortesia. O Sr. Miles Calverleigh respondeu à missiva, com uma diligência louvável, em uma breve, mas bem escrita, mensagem, que transmitiu à mente de Selina a impressão de que ele tinha convidado sua irmã à peça com um espírito de filantropia avuncular. Portanto, foi capaz de encontrá-lo no balneário com uma dose de amabilidade; e quando a deixou para se unir ao grupo ao redor de Abby, não ficou apreensiva com a sensação de risco. Não era tão extraordinário ele mostrar interesse por ela; muitos cavalheiros demonstravam o mesmo. Mas se lhe sugerissem que Abby sentia-se tão fortemente atraída por ele quanto ele por ela, acharia não só extraordinário quanto absurdo. Abby gostava de flertes inconsequentes, mas Selina já quase havia perdido a esperança de descobrir entre os pretendentes da irmã algum dotado de todas as perfeições que ela aparentemente exigia. Certamente não seriam encontradas no Sr. Miles Calverleigh, com sua tez morena, suas maneiras casuais e sua deplorável carência de tato.

Tampouco Abby estava apreensiva achando que sua relação com ele pudesse colocá-la em perigo. De maneira alguma estava certa a respeito do fato de gostar dele. Era divertido e ela gostava da sua companhia; mas frequentemente a fazia perder o controle, além de chocá-la com seu repúdio despreocupado a qualquer virtude indispensável a um homem de princípios. Ele era indubitavelmente o que seu cunhado descrevia sucintamente como um tipo duvidoso, e tão obviamente mau partido que nunca sequer lhe passou pela cabeça que fosse ele a cumprir seu destino. Tampouco lhe ocorreu que encorajando suas tentativas de aproximação, estava influenciada por nada além da esperança de assim poder persuadi-lo a afastar o sobrinho. Ele tinha-se recusado peremptoriamente a se intrometer, mas a esperança persistiu e, com ela, a convicção cada vez mais firme de que se ele quisesse frustrar os planos de Stacy, saberia exatamente o que deveria ser feito. Inspirar tal desejo nele era claramente seu dever; se lhe dissessem que seu dever, nesse caso, havia assumido um aspecto inesperadamente agradável, ela teria admitido imediatamente que era uma sorte não achar o Sr. Calverleigh repelente; mas acharia graça se alguém sugerisse que estava rapidamente se apaixonando por uma ovelha negra.

Portanto foi capaz de saudá-lo quando ele surgiu no balneário com uma cordialidade calma; e quando ele a separou do grupo, convidando-a, com sua habitual falta de finesse, a dar uma volta, de uma maneira aceita por aqueles que fazem do passeio um fato diário, ela se sentiu perfeitamente disposta a se afastar com ele.

— Recebi um convite de sua irmã — disse ele. — Espera ela que eu conceda a vocês duas o prazer de jantar em Sydney Place no sábado, mas não me iludo; sua esperança é a de que eu quebre uma perna ou seja acometido de uma cólica grave, antes de expô-las à censura daqueles de suas relações. Estarei fazendo isso?

Ela riu. — Deus do céu, não! Espero que meu crédito seja bom o bastante para sobreviver a uma ida ao teatro em sua companhia! Eu deveria me preocupar, se não fosse assim! Sempre tive muita vontade de assistir a essa peça em particular e nunca consegui! É muito popular em Bath, sabe. — Os olhos de Abby brilharam.

— Se pelo menos o senhor tivesse o bom senso de ser um viúvo, acho que Selina não teria levantado a menor objeção. Ela não vê mal nenhum em eu frequentar as corridas de cavalo com o general Exford. Há um quê muito respeitável nos viúvos! Cavalheiros solteiros na opinião dela, são cercados de uma aura de impropriedade.

— Como?! Mesmo o chato que lhe faz elogios tão extravagantes?

— Se está se referindo ao Sr. Dunston, Selina sabe que ele é um homem muito digno e seu comportamento moral não permitiria que transgredisse nem uma polegada dos limites do decoro!

— Ele e meio paspalhão, não é? Coitado!

— Melhor ser paspalhão do que maltrapilho! — retorquiu Abby, com ironia.

— Não!... Acha mesmo? A propósito, foi um insulto a mim ou a Stacy?

— Bem, ao senhor — replicou Abby, francamente. — Não acho Stacy maltrapilho. Eu o acho um tratante! Sr. Calverleigh, se o tivesse ouvido tentando me bajular na volta de Lansdown, teria se enojado!

— É provável. A questão é que Fanny não parece estar nem um pouco enojada.

— Ela é muito jovem e nunca, até esse infeliz chegar, havia conhecido outros homens que não os que residem aqui: amigos de Selina e meus, ou irmãos de suas amigas! Tem de saber que só recentemente começou a frequentar alguns poucos eventos sociais, e apesar de, no inverno, Bath receber muitos visitantes de Londres, ela não conheceu nenhum. Providenciei para que assim fosse!

— Por que se aflige tanto? Ela vai se recuperar!

— Não tenho dúvidas, se ele for tirado do seu caminho!

— Ou se ela for tirada do dele — propôs ele.

Ela franziu o cenho, refletindo por um momento. Então falou, dando um suspiro: —Pensei nisso, é claro, mas creio que não daria certo. James falou em mandá-la para Amberfield, o que seria fatal: ela fugiria! E se a minha irmã Brede a convidasse para ficar em sua casa, em Londres, ela perceberia que eu a instigara a isso, para separá-la de seu sobrinho. E mais ainda: ele a seguiria e pode ter certeza de que seria muito mais fácil eles se encontrarem em Londres do que aqui, onde todos a conhecem. Também acho que se fosse possível impedir isso, ela não se recuperaria, ou não por muito tempo. Ficaria ressentida comigo, ah, já está! — Hesitou antes de dizer com um sorriso triste: — Eu achava, sabe, que com a relação que mantínhamos seria simples orientá-la, até mesmo vigiá-la! Que a minha influência era forte o bastante para... Mas parece que não tenho nenhuma. Acho que a tratei da maneira errada: nada que eu defenda terá peso para ela! Eu queria... ah, como queria... que seus olhos pudessem ser abertos para o que acredito ser o verdadeiro caráter dele! Seria a melhor coisa que poderia acontecer. Seria doloroso para ela, pobre criança, mas não choraria por muito tempo, é orgulhosa demais! E, acima de tudo, nunca se faria de mártir. Isso é muito importante, porque quando nos consideramos vítimas de tirania, há muitas chances de cairmos na letargia.

—Imagino que isso tornaria a vida muito desconfortável para você. Mas não lhe ocorreu que meu sobrinho tem um rival?

— Oliver Grayshott? — Ela sacudiu a cabeça. — Não creio, diz que é como um irmão! E embora eu imagine que ele tenha uma grande afeição por ela, não fez nada para prendê-la.

— Bem, se acha que não é nada enviar-lhe versos laudatórios disfarçados em acrósticos, e revirar as obras dos poetas favoritos de Fanny em todas as bibliotecas, penso que é tão inexperiente quanto ela! — comentou ele, cáustico. Ela não conseguiu evitar rir.

— Ele faz isso? Pensei que também fossem seus favoritos. Ele certamente é versado neles.

— Sua tola! A senhorita também seria, se dedicasse seu tempo a estudá-los!

— Pobre rapaz! Porém mesmo que Fanny o preferisse a seu sobrinho, receio que de nada adiantaria.

— Por quê?

— Porque... sabe muito bem! James o consideraria quase tão inaceitável quanto Stacy!

— Não sei de nada disso. Seu irmão James jogaria fora uma fortuna? Tolices!

— Mas Oliver não tem nenhuma fortuna! — protestou ela.— Está envolvido com comércio, o que James também desaprovaria.

— Ah, desaprovaria? Sua bobinha, é só James farejar a presença do herdeiro de um mercador da índia Oriental em Bath e não perderá um segundo em armar um laço para capturar uma presa como essa!

Ela não fez caso das palavras dele, exclamando: — Deve estar enganado! Oliver não tem essas expectativas! Na verdade, ele acha que decepcionou tristemente o tio.

— Não mesmo! Balking o admira muito, pretende fazê-lo seu sócio assim que tiver se restabelecido.

— Não, verdade? Fico tão feliz! Mas quanto a ele se casar com Fanny, é uma quimera! Admito que ficaria grata se ela se apaixonasse por Oliver, embora seja muito nova para se casar, mas não há a menor possibilidade de isso acontecer enquanto estiver encantada por seu odioso sobrinho.

— Sabe, se pretende só falar de sua sobrinha tonta e de meu odioso sobrinho vou ter uma cólica — informou-lhe ele.

— Bem, que coisa mais detestavelmente rude de se dizer...! — falou ela, ofegante.

— Se a questão é essa, que assunto mais detestavelmente maçante para uma conversa!

— Peço perdão — replicou ela, gélida. — Para mim, é um assunto de suma importância.

— Sim, mas não para mim.

Como a Srta. Butterbank apareceu naquele exato momento para dizer que a querida Srta. Wendover estava pronta para ir para casa, Abby foi impedida de proferir a resposta que estava na ponta de sua língua; mas quando seu atormentador deselegante se apresentou em Sydney Place, no sábado, ela o recebeu com uma acentuada reserva e frieza. Até onde percebeu, isso não exerceu nenhum efeito sobre ele. Dedicou-se na maior parte do tempo a Selina, escutando de maneira afável seu discurso desconexo, até ela embarcar em um catálogo de diversas doenças que a acometeram, e a várias de suas amigas, quando então ele revidou contando-lhe a quantidade de horríveis enfermidades indianas. A partir daí foi apenas um pequeno passo para a descrição de aspectos da vida na índia, o clima e a paisagem, calculados para fascinar uma senhora de meia-idade de mente inquiridora e disposição crédula. Selina abrandou perceptivelmente sob esse tratamento e disse a Abby, ao se retirarem à sala de jantar, deixando seu convidado se deliciar com um vinho do Porto solitariamente, que realmente o Sr. Calverleigh era um homem muito interessante.

— Digo que me senti como estando na índia. Tão vívidos, tão singulares... todos esses costumes estranhos! Tigres e elefantes, também... não que eu quisesse viver com tigres, e embora acredite que elefantes sejam extremamente dóceis, não creio que conseguiria me sentir à vontade com eles. Mas realmente muito interessante... igual a um conto de fadas!

Abby, que achava que algumas histórias do Sr. Calverleigh eram precisamente contos de fadas, concordou com toda sinceridade. Estava determinada a manter uma cordialidade formal, e teria conseguido se ele não tivesse dito, ao se sentar do seu lado na carruagem alugada para aquela noite: — Deveria ter pedido que fornecessem um tijolo quente.

— Obrigada, mas não haveria a menor necessidade. Não sinto nem um pouco de frio.

— Acho que icebergs também não sentem, mas eu sinto! Ela se traiu com o esforço de reprimir o riso, e depois ele acrescentou: — Por ter vivido muito tempo em um clima quente, entende?

— Entendo perfeitamente, senhor, e tomarei a liberdade de dizer que não há nem verdade nem vergonha no senhor!

— Bem, talvez não muito — admitiu ele.

Como isso derrubou sua gravidade, ela foi obrigada a se aplacar, e quando alcançaram a Beaufort Square a relação havia sido restaurada e ela foi capaz de ansiar por uma noite genuinamente agradável, que nem mesmo os olhares surpresos das pessoas conhecidas perturbaria seriamente. O Sr. Calverleigh se revelou um anfitrião excelente: não somente tinha reservado um dos confortáveis camarotes em um dos primeiros níveis, como também havia providenciado chá e bolos para serem servidos em um dos intervalos.

— Como é confortável não ser obrigada a abrir caminho pela multidão no foyer! — comentou Abby —Está me fazendo as honras da casa regiamente, Sr. Calverleigh!

— Como, com chá e bolinhos? Se a recebesse regiamente eu lhe ofereceria champanhe!

— E eu não teria gostado!

— Exato, por isso não ofereci.

— Suponho — Abby provocou-o — que na Índia fiquem invariavelmente embriagados, até mesmo no café da manhã! Mais um dos estranhos costumes que descreveu à minha irmã!

Ele riu. — Exatamente!

— Bem, se ela contar suas mentiras ao jovem Grayshott, terá de lidar com as consequências! Ele vai refutá-las, e o senhor vai parecer um mentiroso!

— Não, não, está tendo uma impressão errada do garoto! Ele não é nenhum idiota!

— Incorrigível! Fez muito mal em zombar da pobre Selina.

— Oh, não zombei! Está claro para mim que ela tem uma disposição romântica e que gosta do prodigioso, portanto fiz o possível para satisfazê-la. Para abrandá-la, sabe.

— Tentando ver quantas histórias fantasiosas conseguiria fazê-la engolir é o que quer dizer! Quantas me contou?

Ele sacudiu a cabeça.

— Nenhuma! Não devia estar me perguntando isso. Já lhe disse que não a bajulo, e digo agora que tampouco lhe conto mentiras.

Ele percebeu a expressão surpresa nos olhos dela, o quase imperceptível movimento de retirada, e acrescentou apenas: — Não acreditaria nelas.

Isso a fez rir de novo, mas por um momento realmente se assustara, percebendo nos olhos dele um fulgor que não deixava dúvida. De repente, se sentira sem ar e constrangida, pois até agora não havia suspeitado de que ele estivesse pretendendo mais do que um flerte inconsequente. Mas tinha havido um tom de sinceridade em sua voz, e seu sorriso tinha sido uma carícia, então, justo quando ela estava pensando Isso nunca daria certo, ele fez uma de suas observações irreverentemente desconcertantes, que a deixou se perguntando se sua imaginação não seria capaz de desorientá-la.

O comportamento subsequente do Sr. Calverleigh foi irrepreensível, e havia tão pouco do amante em suas maneiras que o constrangimento dela se desvaneceu rapidamente. Refletiu que ele realmente era uma companhia muito agradável, com uma mente tão afinada com a sua que nunca precisava explicar o que queria dizer com um comentário de certa forma obscuro ou conter a língua com receio de chocá-lo. Ele se preocupava com o seu conforto, também, mas de uma maneira casual: colocava o xale sobre seus ombros sem fazer disso um ato de exibição e não apertava nem retinha sua mão ao ajudá-la a entrar na carruagem. Esse tratamento a fazia se sentir tão à vontade que quando ele lhe perguntou se participaria de uma expedição a Gales e lhe mostraria a catedral, ela não hesitou em responder:

— Sim, com prazer. Ir a Gales, ver os fidalgos a cavalo, sempre foi um prazer para mim!

— Quem diabos são eles? — perguntou ele.

— Um dispositivo mecânico... mas não vou dizer mais nada! Verá por si mesmo. Quem mais fará parte do grupo?

— Não sei. Sim, eu é claro! E levaremos também Fanny e o jovem Grayshott.

Ela sorriu, mas disse: — Devia convidar Lavinia também.

— Oliver não seria da mesma opinião. Nem eu. Não há lugar na carruagem para uma quinta pessoa.

— Ela poderia ir no meu lugar. Ou então a Sra. Grayshott. Ela adoraria o passeio.

— Ela o acharia muito cansativo. Não consegue pensar em outra pessoa para ocupar o seu lugar?

— Sim, Lady Weaverham! — replicou ela instantaneamente, um som entrecortado de alegria em sua garganta.

— Não, acho, se eu tivesse que procurar uma substituta, indicaria a amiga inseparável de sua irmã... Como é mesmo o nome dela? Buttertub? Aquela mulher de cara sebosa e dentes de coelho.

— Laura Butterbank! — corrigiu Abby, com a voz falhando.

— O senhor é uma criatura odiosa, infame!

— Posso ser mais odioso ainda! E se ouvir mais um sarcasmo da senhorita, Srta. Abigail Wendover, darei provas disso!

— Totalmente desnecessário! — assegurou-lhe ela. — Não tenho a menor dúvida disso.

Abby não pôde ver o rosto de seu acompanhante na escuridão da carruagem, mas sabia que ele estava sorrindo. Entretanto, ele perguntou com a voz séria:

— Irá a Gales comigo ou não?

— Sim, senhor — respondeu Abby, humildemente. — Se tiver certeza de que não prefere a companhia da Srta. Butterbank à minha.

A carruagem havia parado diante da casa. O Sr. Calverleigh, descendo e se virando para lhe dar a mão, replicou:

— Preferiria, é claro, mas como já a tinha convidado, acho que seria descortês dispensá-la.

— Entrego os pontos! — disse Abby, reconhecendo a derrota.