Ovelha Negra
Capítulo XI
O encontro clandestino na abadia não foi descoberto; mas apesar de Fanny ficar aliviada por suas tias não suspeitarem de nada, sentiu-se culpada e envergonhada. Tampouco se sentiu completamente feliz em seu amor. Não que tivesse deixado de desejar ardentemente passar o resto da vida nos braços protetores de Stacy, mas não conseguiu evitar pensar em como seria muito melhor se pudessem se casar com a bênção de sua família. Fugir tinha o sabor de uma grande aventura e havia sido completamente sincera quando dissera que não recuaria diante de um passo tão audacioso, e que não se importava nem um pouco com a inevitável censura da sociedade. Não lhe ocorrera, até se lembrar da festa de suas tias, que a fuga lhes provocaria uma situação muito desagradável. Flutuando em um sonho de amor e heroísmo, mal considerou outros aspectos do caso que não os mais óbvios, e ainda assim somente aqueles que lhe diziam respeito. A opinião da sociedade não tinha importância; seria indiferente para ela e Stacy se a sociedade os rejeitasse, pois precisavam apenas um do outro para serem felizes. Quanto às tias, ficariam muito chocadas no começo, até mesmo furiosas, mas quando vissem como ela fizera bem em se casar com Stacy, mudariam de opinião e acabariam se afeiçoando a ele tanto quanto eram afeiçoadas a ela. Só quando Stacy insistiu em que fugissem juntos começou a perceber certas objeções a um casamento clandestino. Coisas como festas não tinham importância, como Stacy dissera.
Mas tinham importância para duas mulheres solteiras que pertenciam a um dos círculos mais respeitados de Bath. Nenhum dos convites de borda dourada enviados por tia Selina havia sido declinado, pois o convite para comparecer a uma das seletas festas das senhoritas Wendover conferia distinção a quem o recebia. Havia passado rapidamente pela mente de Fanny, quando Stacy lhe fizera a proposta, que submeter as tias à humilhação de serem obrigadas a cancelar a festa seria uma conduta muito vil, que não mereceria ser perdoada jamais. Também seria muito pior para elas se decidissem mantê-la, como se não tivessem sido envolvidas em um escândalo (pois seria idiota supor que a notícia da fuga não se propagaria por Bath feito um rastilho de pólvora), já que sua grande sala dupla ficaria miseravelmente escassa de companhia. Várias outras objeções menos importantes lhe ocorreram, mas ela as baniu com determinação. Não se podia esperar que alguém sacrificasse a própria felicidade e a de seu amado meramente para poupar o constrangimento às tias.
Havia outra objeção que ela achava estranhamente desanimadora. Sem nunca ter formado uma imagem muito clara da cerimônia verdadeira, de quem a realizaria, onde aconteceria, foi com um choque que ouviu Stacy descrever, com detalhes românticos, uma fuga até a fronteira. Ainda que ela fosse tão inocente, percebeu que nada poderia ser mais impróprio. Até mesmo suas amigas mais íntimas não conseguiriam justificar uma conduta tão indelicada. Era o mesmo que atar a liga em público!
— Não está se referindo a Gretna Green, está? — indagou Fanny, incrédula. — Não, não! Pessoas nos romances fazem isso, mas não... pessoas de verdade, como nós! Isso não é apropriado, Stacy! Levaríamos dois ou três dias para chegar à fronteira! Não pode ter pensado direito! Temos de nos casar em Londres, ou... ou em Bristol, ou qualquer outro lugar mais perto de Bath!
Portanto Stacy tivera de explicar que havia certas dificuldades relacionadas aos casamentos clandestinos de menores. Ele explicou muito bem, de modo que quando se separaram à porta da abadia, ela estava convencida de que não havia outra saída para eles, e que era tão repugnante para ele quanto para ela. Ele não seria nada além de seu acompanhante de viagem até a relação estar selada.
— Mas não vou pressioná-la — ele dissera. — Se lhe faltar coragem... se não confiar em mim o bastante... me diga! Vou embora... tentarei esquecê-la! — ele acrescentara com um sorriso melancólico. — Será mais fácil para você me esquecer!
Ela tinha protestado. Não era tão fraca ou tão covarde, e quanto à sua confiança nele, era infinita! Prometera fugir com ele logo depois da festa, como tinham planejado. E no calor de um momento apaixonado, afirmou isso com entusiasmo. Somente mais tarde uma dúvida, não admitida, começou a perturbá-la. Então aconteceu a expedição a Gales e sua conversa com Oliver. Ele tinha dito que gostaria de poder ajudá-la, mas todo o resto que dissera não havia ajudado em nada: na verdade, tinham agravado seu desconforto.
Abby, reconhecendo os sinais de perturbação interior, tentou em vão conquistar a sua confiança. Não conseguiu descobrir que havia acontecido uma divergência entre os enamorados, e o medo de que Stacy estivesse tentando convencer Fanny a fugir com ele começou a assombrá-la. Falou com o Sr. Miles Calverleigh, enquanto ele a conduzia a Stanton-Drew para inspecionar o monumento druídico, que vivia em pânico de um dia acordar e Fanny ter desaparecido.
— Oh, não acho isso nem um pouco provável! — replicou ele. Falando como alguém a quem não falta experiência, não é tão fácil assim fugir na calada da noite, como imagina.
Ela não conseguiu reprimir sua covinha, mas disse com austeridade: — O senhor é completamente impudente! Por que não é fácil? Achei que seria muito mais fácil do que durante o dia.
— Isso porque não refletiu com mais atenção sobre a questão.
— É verdade. Acontece que a necessidade de fazer isso nunca se apresentou a mim.
— Ah, dá para ver! Não me admiraria saber que imagina que se usaria uma escada de corda nesses casos.
— E me admiraria muito saber que alguém consegue fazê-lo! Sabe, nunca fui capaz de entender como alguém é capaz de escapar por uma escada de corda,
particularmente uma mulher. Tudo bem dizerem que a jogam pela janela, mas as chances são de que não se consiga agarrá-la, ou que se caia da janela ao tentar fazer isso. E onde a prenderia, se realmente a pegasse?
— Não faço ideia.
— Não, e mesmo que estivesse presa, a minha ideia é que não seria nada fácil descer uma escada de corda. Com certeza requer muita prática.
— Mais difícil ainda por causa das anáguas — acrescentou ele, pensativo. — Vejo que refletiu sobre o problema. Conte-me tudo sobre isso!
Ela riu. — Não, não vou deixar que me distraia. Não é um assunto engraçado. Sei que acha extremamente aborrecido, mas...
— E a senhorita não acha?
— Como poderia? Acho vexatório. Na verdade, seria capaz de dar um tapa em Fanny por ser tão idiota! Mas não se acha aborrecido algo que diz respeito a alguém a quem se está muito ligado afetivamente e por quem se é responsável, concorda?
— Como nunca estive nessa posição, não posso dizer.
— Sei disso — replicou ela, solidária —, e tenho pena do senhor! Disse certa vez... que não era objeto de compaixão, mas é, Sr. Calverleigh!
— Sim, cheguei a essa conclusão eu mesmo — confessou ele; inesperadamente. — Antes não pensava assim, mas desde que cheguei em Bath, convenço-me mais a cada dia de que estava enganado.
Pega de surpresa, sentindo como se tivesse sofrido um choque elétrico, Abby arfou. Após uma pausa breve, mas perceptível, ela falou com o máximo de compostura que conseguiu: — Penso que talvez não tenha sentido falta de vínculos familiares enquanto esteve no exterior. Mas estávamos falando de Fanny, e o senhor estava prestes a explicar por que eu não precisava temer que Fanny fugisse em plena noite, quando caímos em uma digressão absurda sobre escadas de corda. Ficaria muito feliz se pudesse acreditar no senhor, mas... mas por quê?
— Oh, seria perigoso demais! A coitada da garota seria obrigada a levantar, e arrastar-se em suas roupas no escuro, para o caso de algum outro membro da casa estar acordado e ver a luz por baixo da porta. Depois disso, teria de tatear o caminho por dois lances de escada, e se o rangido dos degraus não o despertasse, a chegada da caleche sobre a pavimentação de pedras certamente o despertaria. Além disso, ela teria de retirar os ferrolhos da porta da frente, a corrente e, por último, a tarefa mais difícil de todas, fechar a porta atrás de si: tudo isso sem fazer o menor ruído! É claro que ela pode escolher deixar a porta aberta a qualquer saqueador eventual, mas tenho certeza de que me dirá que ela não perderia todo o juízo!
— Sim! — Abby começou a perceber a força dessas objeções, o quarto dela fica nos fundos da casa, portanto como ela poderia saber que seu odioso sobrinho seria pontual? Alguma coisa poderia detê-lo, e imagine só como seria constrangedor para ela! Fanny fatalmente pensaria nessa possibilidade. Qualquer uma pensaria! Além do mais, Grimston, nossa velha ama, dorme em um quartinho ao lado do dela, e apesar de eu acreditar que nada menos ruidoso do que uma trombeta em seu ouvido a desperte, pode ter certeza de que Fanny estaria amedrontada! Oh, acho que está absolutamente certo! Ela não fará a tentativa à noite, e tomarei cuidado para que não tenha oportunidade de fazê-lo durante o dia, nem que tenha de acompanhá-la para todo lugar, como o preceptor severo que jurei nunca ser.
— Isso poderia se tornar um tanto tedioso. Tem certeza de que ela planeja fugir para se casar com meu odioso sobrinho?
— Não — respondeu ela de imediato. — Às vezes penso que estou sofrendo de uma estúpida irritação dos nervos. Que por mais que ela se imagine apaixonada, nunca faria algo tão indecoroso, tão sem escrúpulos! Mas então penso que ele domina de tal modo a mente de minha sobrinha que ela fará o que ele quiser. Mas ela tem andado triste nos últimos dias, preocupada, acho. Talvez não consiga convencer a si mesma a fazer o que sabe que é errado. Tive a esperança de que ela tivesse brigado com Stacy, mas não. — Soltou um suspiro. — Ele estava no concerto na noite passada, e ela o olhava como se ele representasse toda a segurança e o prazer do mundo.
— Não, verdade? Invejo-o. Não, é claro, que tenha o menor desejo de ser o alvo desse olhar de Fanny, mas sim do seu.
De repente, ela ficou ciente que seu coração, em geral um órgão bastante confiável, estava se comportando de uma maneira alarmante, primeiro tentando saltar por sua boca, depois batendo de forma tão violenta que ela ficou sem ar e se sentiu desconfortavelmente quente. Precisou de um esforço para conseguir falar:
— Sr. Calverleigh... não estou com disposição... para flertes!
— Mas quando tentei flertar com a senhorita? — protestou ele.
Ela sentiu-se impelida a olhar furtivamente para ele, o que percebeu instantaneamente ter sido algo imprudente, pois ele estava sorrindo e de uma maneira que fez seu coração bater mais violentamente ainda.
— Eu a amo, sabe — disse ele, informal. — Quer se casar comigo?
A maneira como fez essa proposta abrupta lhe pareceu tão típica dele que lhe provocou um riso nervoso: — Que maneira mais canhestra de me propor casamento! Não, não, não está falando sério! Não pode estar!
— É claro que estou falando sério! Em que situação constrangedora eu ficaria se não estivesse e a senhorita aceitasse minha oferta! A questão é que faz tanto tempo que propus casamento a uma garota que não me lembro mais de como se faz. Se é que já soube algum dia, mas acho que não, pois sempre fui ruim em fazer discursos floreados. — Sorriu de novo para ela, um tanto compassivamente. — Que eu ame uma estrela brilhante particular!
— Oh...! — exclamou ela, arfando. — Por favor, não diga esse tipo de coisas!
— Não direi, se não gosta — replicou ele, submisso.
— Não gostar! Como pode uma mulher não gostar de ouvir uma coisa assim? Mas não convém! Não deve dizer mais nada parecido! Por favor, não!
— Não, é totalmente irracional. Não lhe farei nenhum elogio, mas não espere que eu não fale mais nada! Pedi que se casasse comigo, Abigail!
— Deve saber que não posso... que isso é impossível!
— Não, não sei. Por que deveria?
— As... as circunstâncias! — disse ela, com a voz abafada.
Ele pareceu bastante intrigado. — Que circunstâncias? Minhas? Oh, sou perfeitamente capaz de sustentar uma esposa. Deve ter andado ouvindo meu odioso sobrinho.
— Não fiz nada disso! — replicou ela, furiosa. — E se tivesse, não acreditaria em uma palavra que ele dissesse! Alem de considerações dessa natureza não terem influência sobre mim, se... se eu correspondesse ao seu sentimento!
— Não corresponde? Em absoluto?
— Eu... Não! Isto é, não se trata disso!
— Bem, se não é isso... Deus do céu, não está querendo me dizer que é porque banquei o bobo com Celia Morval vinte anos atrás, está? O que isso teve a ver com você? Ainda devia usar fraldas nessa época!
— Sim, mas... Oh. certamente deve perceber como seria impossível eu me casar com o senhor, não? Ela era mulher do meu irmão!
— Não, não era.
— Estava comprometida com meu irmão, de qualquer maneira, e se tornou mulher dele! E se o caso não tivesse sido abafado, teria sido um escândalo terrível... por sua causa!
— Mas foi abafado — salientou ele. Ela olhou impotente para ele.
— Como posso fazê-lo entender?
— Ah, eu entendo! Você não dá a mínima para essa história antiga, mas sabe que James daria, e receia que ele remexa o diabo da poeira. Ele não faria isso, mas acho que iria exauri-la, aborrecendo-a e tentando convencê-la a abrir mão de mim. Mas não precisa se preocupar com isso. Posso lidar com James.
— Não tenho medo de James... — disse ela, em tom baixo.
— Se eu... se eu soubesse que estou fazendo a coisa certa. Mas não seria apenas James. Minhas irmãs, toda a minha família...seria uma comoção geral! Só queria não ser rejeitada por todos!
— Relanceou os olhos para ele rapidamente e tentou falar de forma mais gentil. — Eu não gostaria disso, entende? Talvez não saibam sobre Celia, na verdade, tenho certeza de que não, embora Cornelia talvez, já que é mulher de James, mas infelizmente sabem que é o filho pródigo!
— Infelizmente? E se não soubessem? Meu passado indigno pesaria para você? Ela baixou a cabeça e a sacudiu ligeiramente.
— Não, se eu o amasse o bastante.
— Isso me soa extraordinariamente franco. Não ama? Ela replicou francamente.
— Não sei. Quer dizer, é tão fácil confundir os sentimentos. Isso eu sei realmente, pois já me confundi anos atrás. Não estava pensando em casamento, e creio que o senhor tampouco, de modo que... não tive tempo para refletir. Admito que se as circunstâncias fossem diferentes, eu... eu me sentiria muitíssimo tentada! Mas casar... e na minha idade!... E afrontar a família não deve nem mesmo ser considerado. Percebe?
— Bem, percebo que exagera em seus escrúpulos, mas não adianta esperar que eu os tenha. Vínculos familiares não significam nada para mim. Já não lhe disse isso? Quanto a se sacrificar para se ajustar à noção de respeitabilidade de sua família, chamo isso de estupidez!
Ela sorriu, relutante. — Claro que chamaria! Mas não é isso. Não sei como explicar porque está tudo emaranhado na minha cabeça... me deixando estúpida! Pareço odiosamente sentimental?
— Sim, mas eu não ia dizer isso — tranquilizou-a.
O riso manifestou-se nos olhos dela. — Criatura odiosa! Se pelo menos não me fizesse sempre rir! Às vezes me pergunto se tem algum sentimento digno!
— Quase nenhum, acho. Mas se casaria comigo se eu tivesse?
Ela ignorou o que ele disse. — Ou algum senso de vergonha! Mas tem bastante perspicácia e estou convencida de que percebe como seria ultrajante se eu fizesse o mesmo que estou tentando impedir Fanny de fazer!
— Ah, meu Deus! Esses Calverleigh...
— Exatamente!
— Acha exatamente?. — perguntou ele, modesto. — Faria objeção se eu destacasse algumas diferenças entre os Calverleigh?
Ela estendeu a mão, impulsiva. — Eu sei, sei! Não há comparação entre vocês!
Ele pegou uma das mãos de Abby e a segurou levemente sobre o joelho. — Oh, há uma certa comparação! Nós dois somos repreensíveis. Fui um dos garotos baderneiros quando estava na cidade. Costumavam dizer que eu era um bebê nascido no inferno... excessivamente turbulento. Mas nunca ninguém disse, nem mesmo minha amada família, que eu era um mentiroso ou um maltrapilho!
— Dizem isso de Stacy? — perguntou ela, apreensiva.
— Assim fui informado, e não acho nem um pouco difícil de acreditar. Bem, prosseguindo nossas respectivas histórias, cada um de nós fugiu para se casar com uma herdeira... ou melhor, tentou se casar.
— Mas o senhor estava apaixonado por Celia! Não se importava com a fortuna dela! — interrompeu Abby imediatamente.
— Não, tampouco tinha 29 anos. Estou apaixonado por você e não ligo para a sua fortuna.
— Não precisa me dizer isso! Além do mais, não tenho fortuna. Não como Fanny! Eu chamaria mais de uma independência, talvez, ou de uma situação confortável.
— Bem, menos uma objeção. Ninguém poderia dizer que me casei com você por sua fortuna.
— O senhor não se importaria se dissessem! — replicou ela, perspicaz.
— Não, mas você sim. — Havia uma boa dose de diversão em seus olhos quando se detiveram nela. — O que imagina que andei fazendo durante os últimos vinte anos, inocente querida?
— Não sei. Como saberia? Nunca me contou!
— Vou contar agora. Andei fazendo a minha fortuna, é claro.
Ela riu. — Então, agora é um nababo! Que tola fui por não perceber!
Um sorriso estranho aflorou no canto da boca dele. — Exatamente! Não está nem mesmo interessada, está?
— Bem, não — confessou ela. — Exceto que achei que talvez não tivesse muito dinheiro, e percebo que não é o caso, o que me deixa feliz, pelo senhor.
— Obrigado — ele agradeceu, humilde.
— Sabe, se fosse um nababo rico, o seu sobrinho recorreria ao senhor e não a Fanny para salvá-lo de suas dificuldades.
— Não a menos que fosse louco! Seria uma esperança vã, minha querida!
Ela sorriu, mas suas próprias palavras fizeram a apreensão tornar à sua mente. Retirou a mão que deixara confortavelmente na dele e soltou um suspiro. — Não faria isso, se estivesse em seu poder? Não, suponho que não. Há alguma coisa que possa fazer para salvar minha pobre Fanny?
— Achei que não ia demorar a voltar à questão de sua pobre Fanny. Está determinada a me envolver nos assuntos dela, não está?
— Não se aborreça comigo! — pediu Abby. — É tão importante! Talvez não possa fazer... mas talvez seja capaz de... se não por Fanny, por mim?
— Sim, bem, vamos sair desse conto de fadas! — disse ele, com um quê áspero. — Se imagina que sinto o menor desejo de receber sua mão como recompensa por ter realizado uma tarefa difícil para satisfazê-la, está muito enganada, menina! Não tenho nenhum desejo de uma esposa relutante. Quero o seu amor, não a sua gratidão.
— Eu não disse isso! — balbuciou ela. — Verdade, não disse!
— Mas chegou bem perto de dizer, não? — replicou ele de maneira provocadora. Levantou-se e estendeu a mão para ela. — Vamos! Se não retornarmos à hospedaria e prepararmos os cavalos nos atrasaremos e a Srta. Wendover vai pensar que você fugiu, não Fanny!
Ela aceitou a ajuda dele para se levantar. Andando ao seu lado em direção à hospedaria onde haviam deixado a carruagem, ela falou, hesitante:
— Espero que não tenha se ofendido.
Ele relanceou os olhos para ela que se sentiu aliviada ao ver que voltara a sorrir com ternura. — Não, nem um pouco. Estava tentando decidir se a amo mais quando é perspicaz ou quando é uma boba. Os olhos dela baixaram enquanto enrubescia. Replicou com um riso nervoso:
— Devo parecer uma boba, eu sei. A culpa é sua por... colocar caraminholas na minha cabeça! Não é assim para o senhor, mas me colocou um problema que tenho de resolver, acho, sozinha... Entende?
— Bem, chega, não vou pressioná-la mais hoje. Quando pressioná-la, tomarei o cuidado para não ser aqui. Ou em qualquer outro lugar em que haja uma lenda venerável que tome posse de sua mente!
— Lenda venerável?—repetiu ela, momentaneamente intrigada.
De repente, entendeu. — Oh, a noiva e suas ajudantes sendo transformadas em pedras! Tinha-me esquecido.
Esse interlúdio reduziu muito seu embaraço. Durante a viagem de volta a Bath, ele conversou sobre tópicos banais, de modo que logo ela ficou à vontade. Abby teve o cuidado de não introduzir o nome de Fanny na conversa e ficou bastante surpresa quando ele falou abruptamente: — Não se aflija demais com Fanny! Tem algum motivo para temer que ela pretenda fugir com Stacy? Tenho dúvidas disso, sabe.
Ela replicou calmamente: — Não sei. Ela não pretendia fazer isso até quinta-feira, creio. Estava analisando qual dos vestidos novos usaria na festa naquela mesma manhã, portanto me acho razoavelmente segura no momento. Depois... se ela realmente tem a intenção de fugir, achará a aventura mais difícil do que esperava!
— Acho que vai saber lidar com ela, mas isso me lembra uma coisa! Tenho de me desculpar com sua irmã. Não estarei em Bath na próxima semana.
Ela percebeu que ficara excessivamente decepcionada e um pouco inquieta. — Minha irmã vai ficar triste — disse ela. — Vai... espera ficar fora por muito tempo?
— Não mais do que o necessário. Preciso tratar de alguns negócios que não podem ser adiados.
— Não, é claro — concordou ela, em tom grave. Então, ocorreu-lhe um pensamento e Abby proferiu uma exclamação de aborrecimento: — Se eu soubesse, não teríamos precisado convidar Stacy também!
— Convidaram? Por quê?
— Ah, porque Selina achou que se o senhor seria convidado, Stacy também deveria ser.
— Não! Ela realmente quis tanto me convidar que se dispôs a receber Stacy? Devo tê-la agradado mais do que pensei! — observou ele, com um tom gratificado.
Abby mordeu o lábio e informou com grande dignidade: — Minha irmã... lamento dizer... não desgosta dele. Ela acha suas maneiras muito dignas, de modo que não é nenhum sacrifício para ela ser obrigada a convidá-lo!