Ovelha Negra
Capítulo III
O Sr. Calverleigh não reapareceu em Bath naquela semana nem escreveu a Fanny. Abby começou a acalentar a esperança a que havia, de fato, sido feita uma tempestade em copo d'água, e que ele simplesmente se divertira com um flerte; e teria suportado com comedimento o comportamento lânguido de Fanny se não fosse a revelação da cordial Lady Weaverham, que recebera uma carta dele escusando-se, com muita propriedade, por não jantar em sua companhia na quarta-feira, mas que certamente estaria em Bath no fim da semana seguinte, quando visitaria Lower Camden Place para se desculpar pessoalmente.
Essa notícia acabou com o otimismo de Abby. Seu ânimo afundou ainda mais quando Selina anunciou, com um fiapo de voz, que contraíra uma dor de garganta acompanhada de febre, forte dor de cabeça e cólica. Não pregara os olhos a noite toda, e só esperava que tais sintomas aflitivos não fossem o presságio de uma enfermidade, se não imediatamente fatal, que a deixasse se arrastando, pelo resto da vida, entre a cama e o sofá. Abby não partilhou essas apreensões sombrias, mas tampouco perdeu tempo e mandou chamar o mais recente médico a gozar da simpatia de Selina. Pediu-lhe para não encorajar a doente a se achar à beira do túmulo.
Ele prometeu tranquilizar Selina e quase perdeu sua paciente mais lucrativa ao dizer-lhe, em tom enfático, que nada muito grave a acometera além de, como foi muito inábil em chamar, um leve resfriado. Antes de ter tempo de vaticinar um rápido estabelecimento, se deu conta do erro cometido e, com uma destreza que (mesmo contra a vontade) Abby foi obrigada a reconhecer, recuperou sua posição dizendo que, embora geralmente considerasse essa doença trivial, quando acometia pessoas com a constituição tão frágil quanto a da Srta. Wendover, era necessário o máximo de cuidado para evitar consequências graves. Recomendou que permanecesse de cama, prometeu lhe enviar, em uma hora, uma poção salina, aprovou remédios como o extrato de malte para uma possível tosse, soro de leite de cabra, para se proteger da consumpção, cápsulas de láudano para o caso de insônia, e uma dieta de caldo de cordeiro, gelatina de tapioca e água com cevada, tudo sugerido por ela mesma. E assim ele deixou o quarto da doente praticamente certo de que restaurara a fé, um pouco abalada, de Selina em sua capacidade. Ele disse a Abby, a título de desculpas, que esses remédios ou a dieta deprimente não causariam nenhum mal, e ela teve de se contentar com isso, resignando-se ao inevitável, extraindo o consolo que fosse do fato de que, pelo menos por alguns dias, não haveria perigo de que, enquanto desse atenção à irmã, o Sr. Calverleigh fortalecesse seu domínio sobre a afetividade da jovem Fanny.
A Srta. Wendover mais velha demonstrava todos os sinais de estar gostando da doença demorada, pois embora a febre logo tenha baixado, manteve uma tosse discreta e, depois de um acesso de cardialgia, lançou tantas indiretas sombrias a quem estava a volta sobre nervos cardíacos que Fanny se alarmou e perguntou a Abby se o coração da pobre tia Selina tinha sido realmente afetado.
— Não, querida, de jeito nenhum! — respondeu Abby, animada.
— Mas... Abby, às vezes me pergunto se... Abby, minha tia gosta de ficar doente?
— Sim, certamente gosta. Por que não? Tem muito pouco com que se distrair, afinal! Além de se tornar o centro das atenções, e seria uma malvadeza queixar-se dela por causa disso! A triste verdade, meu amor, é que mulheres solteiras da idade dela são praticamente compelidas a assumirem doenças perigosas, se quiserem ser objetos de interesse. E não somente as solteironas! Deve ter observado como várias matronas, cujos filhos estão todos casados e que gozam de uma posição confortável e segura, não lhes restando realmente muito o que fazer, desenvolvem os distúrbios mais interessantes!
Com os olhos mais parecendo dois pires, Fanny perguntou: — Está dizendo que a minha tia vai ficar deitada em um sofá pelo resto da vida?
— Não, não! Mais cedo ou mais tarde vai acontecer alguma coisa que dará novo rumo a seus pensamentos, e você ficará surpresa com a rapidez de sua recuperação!
Em suma, aconteceu mais cedo do que se esperava. Um belo dia, logo depois do meio-dia, Abby entrou em seu quarto e a encontrou sentada ereta no sofá, para o qual, apoiada em sua criada, tinha cambaleado uma hora antes, lendo com atenção a carta que acabara de ser entregue pelo correio.
— Oh, querida, o que acha? — perguntou, em um tom surpreendentemente diferente do que usara para receber a irmã mais cedo, naquele mesmo dia. — Os Leavening estão vindo passar o inverno em Bath! Meu Deus, já devem ter chegado! A Sra. Leavening escreveu que pretendem ficar na York House enquanto procuram acomodações, e cabe a nós aconselhá-los, pois nunca estiveram aqui antes, como você sabe! Penso se as acomodações que os Thursley alugaram no Westgate Building não seriam convenientes... mas ficam na parte mais baixa da cidade, e é claro embora seja uma rua larga... ou alguma coisa por aqui, ou na Pulteney Street, ou Laura Place, talvez seja muito cara para eles... não que a Sra. Leavening tenha dito o preço que tem em mente, mas não creio que a fortuna do Sr. Leavening seja mais do que apropriada concorda?
— Minha querida, como não faço a menor ideia de quem sejam os Leavening, não posso responder! — Os olhos de Abby se iluminaram com a vontade de rir. A Srta. Wendover ficou chocada.
— Abby! Como pode ter esquecido? De Bedfordshire... o nosso próprio condado! Quase nossos vizinhos! Ele tinha uma verruga na bochecha esquerda, uma pena! Mas em todos os outros aspectos nada tinha de excepcional! Ou estou pensando no Sr. Irvin? Sim, acho que era ele que tinha a verruga, o que tornava tudo encantador, pois existe um quê nas verrugas, não existe? Querida, gostaria que fosse à York House hoje à tarde! Foi tão descortês não recebê-los imediatamente, e não quero por nada deste mundo que a Sra. Leavening suspeite que nos esquecemos dela! Vai dizer-lhe como fiquei feliz em saber de sua chegada e explicar por que não posso visitá-la. Mas que hoje estou me sentindo muito mais forte, e acho que amanhã já poderei descer. E se for à Milsom Street, Abby, podia passar na Godwin's, para saber se já receberam aquele livro que a Sra. Grayshott disse que eu ia gostar. Chama-se O cavaleiro de não sei o quê... não, é claro, que eu seja uma defensora da leitura de romances. Talvez a Sra. Leavening pudesse vir e ficar um pouco comigo, amanhã. Quanta coisa terá para nos contar sobre nossos velhos amigos, o que James e Cornelia nunca fazem! Confesso que me animo só em pensar! Temos de oferecer uma de nossas festas, querida! Vou fazer a lista das pessoas que serão convidadas enquanto você está na cidade. — Acrescentou, gentil: — Está uma linda tarde! Vai lhe fazer bem dar uma volta, querida. Tem estado confinada comigo por tempo demais.
Abby ficou feliz demais em promover esses planos animados para levantar qualquer objeção à programação da sua tarde, que ela pretendera passar de maneira completamente diferente. Fanny tinha sido persuadida a fazer uma expedição a Claverton Down com um grupo de amigas, de modo que Abby partiu sozinha para realizar suas duas incumbências. Nenhuma das duas teve sucesso a biblioteca Godwin's ainda não tinha um exemplar do último romance da Sra. Porter e, embora o Sr. e Sra. Leavening fossem esperados naquele dia na York House, ainda não tinham chegado e dificilmente isso aconteceria antes da hora do jantar. Abby declinou o convite cortês para aguardar em um dos salões do hotel, e ia deixar apenas um recado para eles, mas achou que Selina diria que eia deveria ter escrito uma mensagem. Foi para a sala do lado do vestíbulo, e sentou-se a uma de suas duas escrivaninhas para cumprir a tarefa. Não havia ninguém na sala, mas, quando estava para lacrar a breve carta com o sinete que encontrou em uma das gavetas da mesa, ouviu sons que indicavam a chegada de alguém, interrompeu o que fazia, pensando que poderia ser os Leavening. Mas somente uma pessoa entrou no hotel, um homem, como percebeu, olhando de relance pela porta aberta. Firmou o sinete e estava escrevendo o endereço no bilhete quando viu, pelo canto do olho, que ele entrara na sala. Ela não lhe deu atenção, mas se sobressaltou, no momento seguinte, ao escutar alguém no saguão mandar o engraxate do hotel levar a valise do Sr. Calverleigh para cima, para o apartamento n° 12.
Pega de surpresa, passaram-se instantes até ela ser capaz de decidir se deveria apresentar-se ela mesma ou se aguardaria uma apresentação formal. O decoro com que foi criada incitava-a a adotar a última alternativa. Mas então lembrou que não era mais uma jovem, e sim uma tia e tutora, com idade suficiente para abordar um cavalheiro estranho sem correr o risco de ser considerada audaciosa demais. Tinha-se perguntado como conseguiria, sem o conhecimento de Fanny, falar em particular com o Sr. Calverleigh, e ali estava um verdadeiro golpe da providencia, a oportunidade. Recuar diante do que certamente seria um encontro extremamente desagradável seria um ato, pensou, de fraqueza. Preparando-se com determinação, levantou-se da escrivaninha e virou-se, falando em tom calmo e agradável: — Sr. Calverleigh?
Ele tinha pego um jornal na mesa no centro da sala e o estava foleando, mas o baixou e olhou de maneira inquiridora para ela. A expressão em seus olhos, que eram fundos e de um cinza claro, tornados mais impressionantes por sua compleição morena, era de uma leve surpresa.
— Sim? — replicou ele.
Se Calverleigh estava surpreso, Abby estava perplexa. Não tinha formado uma imagem muito precisa dele, mas nada do que disseram a levariam a esperar ser confrontada com um homem alto, de membros relaxados, consideravelmente mais velho do que ela própria, com feições desarmoniosas em um rosto com rugas profundas, uma pele deploravelmente pálida e sem o menor vestígio de elegância. Usava um casaco folgado nos ombros largos, como estava na moda, com calça de couro e botas de cano alto; a gravata estava atada de maneira negligente; nenhuma corrente de relógio pendia em sua cintura; e a gola da camisa não era apenas extremamente moderada, como nem mesmo estava bem engomada.
Ela ficou tão atônita que, durante um minuto inteiro, não conseguiu fazer outra coisa a não ser ficar olhando espantada para ele, sua cabeça dando mil voltas. Ele tinha-lhe sido descrito como um dândi jovem e bonito da capital, e não tinha nada a ver com essa imagem. Também tinha sido descrito, por seu cunhado, como nada confiável, e nisso estava muito mais disposta a acreditar: havia um quê de libertino nele, e aquelas rugas profundas na face magra podiam (supunha ela) trair devassidão. Mas o que havia nele para cativar Fanny — e Selina também! —, não conseguiu nem mesmo imaginar-Então, ao continuar a observá-lo, percebeu uma certa expressão divertida no rosto dele, e que um sorriso tremulava no canto de sua boca, e ela se deu conta, claramente, do motivo pelo qual Fanny tinha-se deixado fascinar por ele. Porém, mesmo quando respondeu com um sorriso involuntário, ocorreu-lhe que Selina, mesmo em seus momentos mais frívolos, não se referia a um homem da sua idade como um rapaz de belas maneiras, e ela exclamou, com a impetuosidade tão frequentemente deplorada pelos membros mais velhos de sua família:
— Oh, perdão! Eu me enganei... quer dizer... isto é... O senhor é o Sr. Calverleigh?
— Bem, nunca tive motivos para acreditar não sê-lo!
— O senhor é? Mas certamente... — Recompondo-se, Abby se interrompeu, e falou com toda a compostura que conseguiu: — Devo dizer-lhe, senhor, que sou a Srta. Wendover!
Ela observou, com satisfação, que essa revelação exerceu um forte efeito sobre ele. Aquele sorriso perturbador desapareceu, e suas sobrancelhas negras, de súbito, se juntaram.
— Senhorita quem7. — perguntou ele.
— Srta. Wendover— repetiu ela, acrescentando, para esclarecê-lo melhor: — Srta. Abigail Wendover!
— Meu bom Deus! — Por um momento, ele pareceu levar um susto, e então, enquanto seus olhos iluminados pela curiosidade a examinavam, desconcertou-a dizendo: — Gosto do nome! Cai-lhe muito bem.
Indignada, Abby, esquecendo-se da questão principal, caiu na cilada e retorquiu: — Obrigada! Estou extremamente grata! É um nome fora de moda, que costuma significar criada! Talvez o senhor goste dele, mas eu não! — Ela acrescentou, depressa: — Nem me apresentei, senhor, com o propósito de discutir o meu nome!
— É claro que não! — disse ele, de tal modo querendo acalmá-la que Abby teve vontade de esbofeteá-lo. — Diga-me o que deseja discutir! Responderei da melhor maneira que puder, embora, assim de imediato, eu não compreenda por que a senhorita teria algo a discutir comigo. Perdoe-me! Não sou muito bom socialmente... mas já nos vimos antes?
— Não. — Os lábios curvos de Abby formaram um sorriso desdenhoso — Não nos vimos, senhor... como bem sabe! Mas não pode negar que se relaciona com outro membro da minha família!
— Ah, não! Não vou negar! — assegurou-lhe ele. — Não quer se sentar?
— Eu, senhor — Abby ignorando o convite —, sou tia de Fanny!
— Ah, é mesmo? Não parece ter idade para ser tia de ninguém, tais palavras audaciosas foram proferidas da maneira mais trivial, como se fosse um lugar-comum e não uma impertinência. Ele não parecia fazer ideia de que havia dito algo impróprio, nem pelo seu ar de indiferença, ela poderia supor que tivesse tido a intenção de lhe fazer um elogio. Começou a achar que era um homem muito estranho, com quem seria muito mais difícil lidar do havia previsto. Obviamente estava se esquivando de dar respostas diretas, e quanto mais cedo fizesse ele perceber que tal táticas não funcionaria, melhor. Portanto retrucou, fria:
— Deve saber muito bem que sou tia de Fanny.
— Sim, já me disse.
— Soube assim que me apresentei ao senhor! — Conteve-se, decidida a não perder o controle, e disse da maneira mais simpatia que pôde: — Ora, Sr. Calverleigh! Vamos ser francos! Imagino que também saiba por que me apresentei. Certamente planejou insinuar-se com minha irmã, mas não podia supor que acharia todas as relações de Fanny tão amáveis!
Ele a olhava, atento, mas com uma expressão divertida, o que a deixou furiosa.
— Não, não poderia, poderia? Ainda assim, se a sua irmã gosta de mim...!
— Minha irmã, Sr. Calverleigh, não estava ciente, até eu informá-la, de que o senhor não era, como ela supunha, um homem de caráter, mas um homem de... de reputação detestável! — falou ela; abruptamente
— Bem, que coisa nada generosa de se fazer! — ele a reprovou. — E ela não gosta mais de mim?
Abby, então, descobriu que era possível estar, ao mesmo tempo, furiosa e ter a maior dificuldade de reprimir um desejo quase irresistível de cair na gargalhada. Depois de um esforço árduo, conseguiu pronunciar:
— Isto... isto é inútil, senhor! Posso lhe assegurar que não deve fomentar nenhuma esperança de conseguir o consentimento do tutor de Fanny para a sua proposta! E também quero lhe dizer que ela só terá a posse de sua herança quando completar 25! O que, entendo, é algo de que o senhor não estava a par!
— Não — admitiu ele —, não estava!
— Até essa data — prosseguiu Abby —, sua fortuna estará sob o controle exclusivo de seu tutor, e devo dizer-lhe que de maneira nenhuma ele passará tal controle às mãos de seu marido antes de Fanny completar 25 anos, se se casar sem o consentimento dele. Acho até mesmo duvidoso que vá permitir que ela continue a receber parte da renda resultante de sua fortuna. Não é um bom negócio, senhor, concorda?
— Parece ser um péssimo negócio. Quem, a propósito, é o tutor de Fanny?
— O tio, é claro! Certamente ela lhe contou isso, não? — replicou Abby com impaciência.
— Mas não! — O tom dele era ainda mais apologético. — Ela realmente não teve oportunidade para isso! Não teve... Sr. Calverleigh, está querendo que eu acredite que o senhor... se lançou nessa tentativa de recuperar sua fortuna sem primeiro descobrir quais eram os termos exatos do testamento do pai dela? Isso está se tornando intolerável!
— Quem foi o pai de Fanny? — interrompeu ele, olhando para Abby com o cenho franzido. — Falou de sua herança... Não está querendo me dizer que ela é filha de Rowland Wendover, está?
Sim... se isso fosse necessário... o que duvido muito! — Abby olhou-o com hostilidade. — Ela é órfã, e protegida de meu irmão, James.
— Pobre menina! — Examinou-a. — Então, você é irmã de Rowland Wendover! Sabe, é difícil de acreditar.
— Realmente! No entanto é verdade... se bem que no que interessa à questão...
— Ah, não interessa! — Ele sorriu, desarmando Abby. —Agora que penso nisso... ele tinha várias irmãs, não tinha? Acho que deve ser a mais nova. Ele era mais velho do que eu, e a senhorita não passa de uma criança. A propósito, quando ele morreu?
Essa pergunta, feita em tom de um interesse casual, pareceu tão despropositada que lhe ocorreu a possibilidade de ele estar bêbado. Não demonstrava nenhum dos sinais reconhecíveis de embriaguez, mas sabia que sua experiência era limitada. Se não estava embriagado, a única explicação para o seu comportamento fantástico era o de ser ligeiramente perturbado mentalmente. A menos que estivesse tentando, de alguma maneira obscura, confundi-la. Mas a expressão divertida no rosto dele a fez sentir incomodada e pensar que ele tinha um objetivo em mente: provavelmente um objetivo inescrupuloso. Observando-o atentamente, ela disse: — Meu irmão morreu 12 anos atrás. Sou sua irmã caçula, mas está enganado em achar que não passo de uma criança. Acho que gostaria que eu fosse.
— Não, não gostaria. Por que gostaria? — perguntou ele, surpreso.
— Porque acharia mais fácil me engambelar!
— Mas não quero engambelá-la!
— Ainda bem! Pois não conseguiria! Tenho mais de 28 anos Sr. Calverleigh!
— Bem, isso é uma criança para mim. Quantos mais?
Ela agora estava extremamente irritada, mas pela segunda vez se viu obrigada a reprimir o riso. Disse de maneira vacilante: — Falar com o senhor é como... falar com uma enguia!
— Não! É mesmo? Nunca tentei falar com uma enguia. Não é uma perda de tempo?
Ela se desconcertou.
— Não tanta perda de tempo quanto falar com o senhor:
— Certamente não vai me dizer que enguias a acham mais interessante do que eu. — Ele parecia, incrédulo.
Isso foi demais para Abby. Ela riu e ficou furiosa por isso.
— Assim é melhor — disse ele, aprovando.
Ela se recuperou.
— Deixe-me fazer-lhe uma pergunta, senhor! Se eu realmente lhe pareço uma criança, como considera uma menina de 17 anos?
— Ah, como um membro da infantaria.
Essa resposta indiferente a fez ofegar. Seus olhos faiscaram.
— Por favor, quantos anos acha que minha sobrinha tem?
— Nunca vi sua sobrinha, não faço a menor ideia!
— Nunca viu... Mas... Meu Deus, então não pode ser o Sr. Calverleigh! Mas quando perguntei, o senhor respondeu que era!
— É claro que sim! Diga-me, tem um sobrinho meu andando aqui por Bath?
— Sobrinho? Um... Sr. Stacy Calverleigh!
— Sim, exatamente. Sou seu tio Miles.
— Oh! — exclamou ela, olhando para ele completamente atônita. Não está dizendo que é aquele que... — Interrompeu-se, confusa e então acrescentou apressadamente: — O que foi para a Índia!
Ele riu. — Sim, sou a ovelha negra da família. Ela enrubesceu.
— Eu não ia dizer isso!
— Não ia? Por que não? Não feriria meus sentimentos!
— Eu não seria tão descortês. E quando se trata de ovelha negra...!
— Quando se envolve com os Calverleigh, é inevitável. Viemos para a Inglaterra com o Conquistador, sabe. Acredito que nosso ancestral foi um dos aterradores piratas que ele trouxe junto. Havia inúmeros deles em sua comitiva.
Ela soltou uma risada deliciosa.
— Não diga! Havia? Não sabia... mas nunca ouvi falar de ninguém reivindicando um pirata aterrador como ancestral!
— Não, acho que não. Nunca conheci nenhum de nós, os que vieram-com-a-Conquista, que não quisesse se manter fiel, e se aferrar a ideia de que seu ancestral era um barão normando, quando provavelmente pertencia à ralé da Europa. Gostaria que se sentasse!
A essa altura, Abby sabia que lhe cabia se despedir educadamente do Sr. Miles Calverleigh. Sentou-se, concedendo à sua consciência uma justificativa na forma de esperança de que o Sr. Miles Calverleigh pudesse ajudá-la a frustrar as intenções do sobrinho. Escolheu uma das cadeiras de espaldar reto ao redor da mesa, e observou-o dispor as pernas e braços compridos em outra, que formava um ângulo reto com a sua. Sua atitude foi tão negligente quanto sua conversa, pois cruzou as pernas, pôs uma das mãos no bolso, e estendeu o outro braço sobre a mesa. Parecia dar pouca importância às convenções que governavam a conduta polida e Abby, em quem as convenções estavam profundamente inculcadas, achou isso mais divertido do que insultante. Seus olhos expressivos cintilaram de maneira atraente quando ela perguntou:
— Posso lhe falar com franqueza, senhor? A respeito do seu sobrinho? Não quero ofendê-lo, mas acho que ele é mais a ovelha negra da sua família do que o senhor!
— Ah, eu não diria isso de jeito nenhum! Ele me parece mais um parvo, se está se insinuando para uma garota que só terá direito a sua herança daqui a oito anos!
— Tenho todos os motivos para achar — replicou Abby gelidamente — que minha sobrinha não é a primeira herdeira para quem ele, como o senhor mesmo disse, se insinuou!
— Bem, se o que ele está querendo é uma esposa rica, suponho que ela não seja o melhor partido.
Os dedos delas apertaram o cabo da sombrinha.
— Sr. Calverleigh, ainda não conheci seu sobrinho. Ele veio a Bath quando eu estava fora, visitando minhas irmãs, e, segundo me disseram, foi chamado a Londres para tratar de alguns negócios antes de eu retornar. Minha esperança é que ele tenha-se dado conta de que sua... sua corte é vã, e que não retorne, mas a sua presença em Bath destrói essa esperança, já que entendo que deva ter vindo na expectativa de vê-lo.
— Ah, não! — assegurou-lhe ele. — O que a faz pensar isso? Ela hesitou.
— Presumi que... bem, naturalmente presumi que tivesse vindo à procura de seu sobrinho! Isto é... um parente tão próximo e, compreendo, o único membro de sua família ainda vivo...?
— E daí? Sabe, perder tempo com família e parentes próximos é uma bobagem! Não vejo meu sobrinho desde que ele era um pirralho, se é que o vi então, o que é muito improvável, pois nunca me aproximei de meu irmão podendo evitá-lo. Portanto, por que diabos eu deveria vê-lo agora?
Não lhe ocorreu nenhuma resposta, mas lhe pareceu tão impensável que se perguntou, lembrando-se de que ele tinha sido enviado para a índia em desgraça, se esse comportamento não havia sido provocado por sentimentos de rancor. Entretanto, suas palavras seguintes, proferidas em um tom pensativo e desapaixonado, enfraqueceram sua suspeita:
— Sabe, há muito palavrório a respeito de afeto familiar. Quanta afeição tem por sua própria família?
Ela nunca tinha se feito essa pergunta; e como amar e respeitar seus pais, e (pelo menos) amar seus irmãos e irmãs, era um dos dogmas aceitos, ela nunca tinha refletido sobre isso. Mas assim que estava para garantir àquela pessoa ultrajante que era dedicada a cada membro de sua família, as imagens nada querida de seu pai, seus dois irmãos e mesmo de sua irmã Jane vieram à sua mente. Respondeu, com um leve pesar:
— Por minha mãe e minhas duas irmãs, muita.
— Ah, nunca tive irmãs, e minha mãe morreu quando eu era pequeno.
— É uma pena.
— Ah, não, eu não acho! Não gosto de obrigações! — O sorriso cândido voltou aos olhos dele quando estes repousaram no olhos de Abby. — Minha família me renegou há mais de vinte anos, como sabe!
—
Sim, eu soube. Isto é... me disseram que fizeram isso. — Ela acrescentou, com um certo sorriso tímido:
— Acho que foi uma coisa terrível o que fizeram, e... e talvez seja essa a razão de não querer se encontrar com seu sobrinho, não?
Isso o fez rir.
— Meu bom Deus, não! O que isso tem a ver com ele? — Só achei que... pensei... já que foi seu pai...
— Não, não, isso é muito pretensioso! — protestou ele. — Não pode me transformar em objeto de compaixão! Eu não gostava do meu irmão Humphrey, nem do meu pai, mas não tenho por eles nenhum ressentimento por terem me mandado para a índia. Na verdade, foi a melhor coisa que podiam ter feito, e me foi perfeita mente conveniente.
— A compaixão parece ter-se esgotado no senhor! — ela comentou, mordaz.
— Sim, certamente. Além do mais, gosto da senhorita, e vou deixar de gostar se sentir pena de mim.
— Bem, isso não me perturbaria!
— O que seria desejável! — disse ele, compreensivo. — Conte-me mais sobre essa sua sobrinha. Pelo que entendi, a mãe dela também morreu, não?
— A mãe morreu quando ela tinha 2 anos, senhor.
A expressão no rosto dele era inescrutável, e embora mantivesse os olhos nela, a impressão que teve foi de que não a estava olhando e sim para algo muito distante. Então, com um sorriso retorcido e repentino, voltou a se concentrar nela, e perguntou abruptamente: — Rowland casou-se com ela, não? Celia Morval?
— Sim! Conheceu-a?
Em vez de responder, ele fez outra pergunta: — E o meu sobrinho está querendo conquistar a filha dela?
— Receio que seja mais grave do que isso. Eu não o conheci, mas ele parece ser um rapaz de maneiras cativantes. Conseguiu... fazer com que ela se interessasse por ele... bem, para falar com franqueza, senhor, ela se imagina perdidamente apaixonada por ele. Talvez ache que não seja tão grave, já que é tão jovem, mas a questão é que se trata de uma menina orgulhosa, e seu caráter é... determinado. Ela tem estado aos meus cuidados, e da minha irmã mais velha, desde a infância. Talvez tenha sido muito mimada, e tido independência demais. Eu não pensava assim, entende? Eu mesma, nós todas fomos criadas em tal submissão que jurei que não permitiria que Fanny fosse oprimida como nós fomos. Até mesmo pensei, sabendo como desejei ter coragem para me rebelar, e como ressenti a tirania do meu pai, que se eu a encorajasse a ser independente, a me ver como uma amiga e não uma tia, ela não se tornaria uma rebelde, que se permitiria ser guiada por mim.
— E não foi assim? — indagou ele, solidário.
Abby sentiu-se impelida a retrucar rapidamente: Não nesse caso. Mas até seu sobrinho enfeitiçá-la, sim! É a menina mais perfeita do mundo, mas reconheço que pode ser voluntariosa e excessivamente impetuosa. — Fez uma pausa, depois prosseguiu, pesarosa: — Quando decide alguma coisa, é muito difícil fazê-la mudar de opinião. Ela... ela não é uma moça sem convicção! Uma das características de que, particularmente, gosto nela, mas que nesse caso é desastrosa! Enamorada, ela está? Acho que vai se recuperar. — Ele demonstrou um toque de aborrecimento na voz. Sem dúvida! O meu medo é que faça isso tarde demais! Sr. Calverleigh, mesmo que o seu sobrinho fosse o melhor partido do país eu me oporia à relação! Ela é jovem demais para pensar em casamento. Acho que não preciso ter escrúpulos para lhe dizer que ele não é um bom partido! Tem uma reputação deplorável, e afora qualquer outra coisa, acredito que seja um caçador de dotes!
— É muito provável — concordou ele.
Essa observação fria exigiu dela esforço para não perder o controle. Replicou com a voz impassível: — O senhor talvez encare esse fato com tolerância, mas eu não!
— Não, acho que a senhorita não — disse ele, amável.
Ela ruborizou-se.
— E o que é mais importante, tampouco o meu irmão!
Isso pareceu reacender seu interesse. Um fulgor passou pelos olhos dele. — Ele sabe disso?
— Sim, senhor, sabe e posso lhe assegurar que nada o desgostaria mais do que essa relação! Foi ele que me contou o que tinha acontecido aqui, em Bath, durante a minha ausência, tendo ele próprio tomado conhecimento através de alguém que, casualmente, é amiga íntima de sua mulher. Foi de Bedfordshire a Londres para me informar. Por favor, não pense que estou exagerando quando digo que em raras ocasiões o vi tão profundamente abalado, ou... ou o ouvi expressar-se com tal violência! Acredite, senhor, nada o faria consentir com a proposta de seu sobrinho!
— Acredito... implicitamente — replicou ele, a luz de diversão profana em seus olhos. — E tem mais, eu daria 500 libras para tê-lo visto! Deus, que engraçado!
— Não foi nada engraçado! E...
— Sim, foi, mas isso não importa. Por que está tão aflita? Se o virtuoso James proíbe as núpcias, e se o meu sobrinho é um caçador de dotes, com certeza vai romper com ela. — O homem percebeu a dúvida no rosto de Abby. — Não acha?
Ela hesitou. — Não sei. Talvez ele espere dobrar James...
— Ele não fará isso!
— Não. A menos... Sr. Calverleigh, tenho motivos... um motivo para temer que seu sobrinho consiga persuadi-la a fugir! Uma vez atado o laço, meu irmão será obrigado a... — Interrompeu-se quando ele caiu na gargalhada. E então disse, com indignação: — Pode parecer engraçado para o senhor, mas juro que...
— E é! Que tema para uma farsa! A história se repete... como uma vingança! Completamente perplexa, ela perguntou:
— O que quer dizer? O que quer dizer afinal?
— Menina inocente — o tom de voz dele era gentil e com um quê de zombaria —, ninguém nunca lhe disse que sou eu o homem que fugiu com a mãe de Fanny?