Ovelha Negra

Georgette Heyer · Capítulo 14 de 19

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Ovelha Negra

Capítulo XIII

A noticia não demorou a chegar a Stacy Calverleigh, mas não aliviou suas apreensões, que se agravavam rapidamente. Não tinha suposto, ao ser obrigado a esperar por um longo tempo em Sydney Garrdens, que Fanny o tivesse desapontado intencionalmente nem lhe ocorrido que pudesse estar doente. Sem ser dotado da percepção que distinguia o Sr. Oliver Grayshott, não havia reparado em sua face corada e olheiras, e tinha atribuído sua dor de cabeça, de que se tinha queixado, a um acesso aborrecido de afetação. A explicação mais provável lhe pareceu ser ela ter sido impedida de manter o compromisso pela vigilância da tia. Primeiro isso o exasperou; mas depois de refletir, chegara à conclusão de que a frustração de seu plano talvez acabasse se tornando tudo que era preciso para que uma garota voluntariosa, teimosa, como Fanny se jogar em seus braços em uma fúria de indignação. Seguro de que ela devia estar ansiosa para lhe contar por que faltara ao encontro, e igualmente te ansiosa para escapar do que a prendia, ele se exibiu no balneário, na manhã seguinte; e como nem ela nem a Srta. Wendover apareceram, perdeu um tempo considerável dando uma olhada nas bibliotecas, caminhando pelas ruas elegantes, onde seria provável encontrá-la indo às compras, e flanando interminavelmente pela Queen's Square. Não acontecia nenhum baile nem concerto nos Assembly Rooms às sextas-feiras, e como não recebeu nenhum convite para uma festa privada, somente no sábado ficou sabendo da indisposição de Fanny.

Isso provocou-lhe um desânimo. Significava atraso, mesmo que ela se recuperasse rapidamente, e atraso era justamente com o que não podia arcar. Não era da sua natureza antever desastres. Tinha uma crença genuína de jogador em sua sorte, e a experiência o tinha encorajado a pensar que quando a sorte lhe falhava, algum golpe inesperado da Providência o salvaria da situação difícil. Mas vários comunicados desagradáveis, que o mais ferrenho dos otimistas não podia deixar de reconhecer como precursores de intimações, chegaram às suas mãos; e uma carta inquietante de seu contador transmitia-lhe a informação de que a execução da hipoteca de suas propriedades era agora iminente. Talvez pela primeira vez na vida, sentiu pânico e, por alguns instantes de desvario, pensou em fugir para o continente.

Enquanto durou o delírio, seu ânimo se elevou: a vida no exterior tinha seus atrativos. Um jogador inteligente, que sabia dançar conforme a música, podia fazer uma fortuna se montasse um estabelecimento de jogo em qualquer uma da meia dúzia de cidades que lhe ocorreram logo de pronto. Paris, não. Não, Paris não. Agora que Napoleão havia sido abandonado na ilha de Santa Helena, haveria ingleses demais se divertindo em Paris. Ele também tinha montado um estabelecimento desse tipo em Londres e não havia se dado nada bem. Mas havia outras cidades promissoras, distantes, onde as chances de ser reconhecido por um viajante inglês eram insignificantes.

Isso era importante. O Sr. Stacy Calverleigh, olhado de través pela sociedade em que nascera, até mesmo sofrendo, desde a sua tentativa desastrosa de segurar uma herdeira, a humilhação de mais de uma pessoa passar por ele e fingir não reconhecê-lo, aplicou-se em seduzir uma segunda herdeira para que fugisse em sua companhia, não tinha perdido totalmente o senso de suas obrigações que não recuasse do pensamento de se transformar abertamente no proprietário de uma casa de jogo. Tinha muitas vezes pensado que capital teria feito disso, se tivesse sido possível se unir à companhia dessa pequena nobreza; nunca considerara suas propriedades outra coisa que não um cofre no qual podia pôr a mão sempre que quisesse; mas os preceitos inculcados de sua educação permaneciam com ele.

Havia certas coisas que um Calverleigh de Danescourt não deveria fazer nunca; e no topo da lista dessas proibições estava a única profissão na qual achava que teria se superado. Mas se fosse possível iniciá-la sem o conhecimento daqueles que condenariam com mais insolência? Quando sua fantasia brincou com as possibilidades de tal situação, seus olhos brilharam, e se pôs a imaginar um futuro cor-de-rosa, e muito mais do seu gosto do que qualquer outro que já tivesse se apresentado a ele.

Entretanto, somente por alguns instantes fugidios. Para iniciar essa carreira era necessário dinheiro, e não tinha dinheiro. Não havia outra a solução para suas dificuldades a não ser um casamento rico. O casamento com Fanny não era a solução ideal, mas uma comunicação (já a havia rascunhado) enviada ao Gazette e ao Morning Posty de seu casamento com a filha única do falecido Rowland Wendover, Squire, de Amberfield, no condado de Bedfordshire, repeliria seus credores e tornaria no mínimo muito difícil para o Sr. James Wendover repudiar a união.

Uma visita a Sydney Place para sondar e mostrar interesse pela doente não fortaleceu sua esperança. Foi recebido pela Srta. Wendover mais velha; e apesar de recebê-lo bem, com uma gentileza culpada, cujo relato da doença de sua sobrinha não foi animador. O Sr. Miles Calverleigh, com sua capacidade desinteressada, ainda que perspicaz, de resumir a maneira de ser das pessoas, teria dado à recepção seu verdadeiro valor; o Sr. Stacy Calverleigh, absorto em sua própria entidade, só reparava nas peculiaridades das pessoas com quem entrava em contato quando suas idiossincrasias o afetavam diretamente, e desse modo não considerou os exageros de uma mulher idosa cujo interesse supremo estava nas próprias doenças ou de alguém ligado a ela. Deixou Sydney Place com a impressão de que se Fanny não estava à beira da morte, estava tão gravemente doente que se passariam semanas até que se restabelecesse. A Srta. Wendover disse que muitas vezes temera que a constituição de Fanny se assemelhasse demais à dela, e acrescentou a essa declaração alguns exemplos que, se ele a estivesse escutando com a atenção que sua expressão solícita indicava, poderiam tê-lo levado a concluir que Fanny, apesar de sua aparência de vitalidade, era uma criatura frágil, sustentada por seus nervos que a traíam com excessiva frequência.

Ele não estava prestando atenção. A fragilidade da constituição de Fanny era uma questão de importância secundária. De importância primordial era a possibilidade de seu restabelecimento do atual distúrbio ser excessivamente vagaroso para que ela fosse capaz de, ou até mesmo estar disposta a, empreender a longa viagem até a fronteira com a Escócia.

Ele manteve o sorriso e seu ar cortês de preocupação, mas quando se despediu da Srta. Wendover, deixando aos seus cuidados o belo buquê que se arriscara a trazer para a enferma, estava tão perto do desespero quanto era possível para alguém com o seu temperamento. Caminhou lentamente de volta ao centro da cidade, tentando, em vão, pensar em outros meios de restabelecer sua fortuna que não o casamento. Uma série de boa sorte poderia salvá-lo da ruína imediata, mas uma série prolongada de uma maldita má sorte tinha-lhe tornado impossível continuar endividado. Apesar de seus vales continuarem a ser aceitos em determinados círculos, o eram com relutância; e tinham-lhe recusado a admissão — da maneira mais cordial — nos dois cassinos mais exclusivos que, durante vários anos, desfrutara de seu patrocínio. Pela primeira vez na vida, sabia que não podia fazer mais nada, e sem qualquer esperança de ser salva Mas a Providência, no que há tanto tempo depositava sua confiança incauta, não havia se esquecido dele. A Providência, no disfarce da Sra. Clapham, estava nesse exato momento atravessando os portais de White Hart, precedida de seu emissário e sua acompanhante, seguidos de sua criada e seu lacaio.

Ele não se deu conta imediatamente de que a Providência havia intervindo a seu favor. Quando chegara a White Hart, a Sra. Clapham havia sido escoltada, reverentemente, aos aposentos indicados por seu emissário, e os únicos sinais de sua presença que se faziam notar eram a elegante carruagem que a conduzira a Bath, e que permanecia no pátio, e o extraordinário rebuliço entre os diversos criados do hotel.

Havia quem considerasse a situação do White Hart ruidosa demais para ser confortável, mas era prestigiado por tantas pessoas de posição e influência que a agitação provocada pela chegada da Sra. Clapham foi notável o bastante para despertar o interesse de Stacy. Perguntou ao garçom que levou uma garrafa de brandy ao seu quarto quem diabos era a Sra. Clapham, e porque estavam todos se alvoroçando para providenciar seu conforto.

O garçom respondeu, com uma cortesia estrita, mas de maneira inibidora, que era a senhora que reservara os maiores e mais suntuosos apartamentos da casa. O engraxate do hotel deu mais informações, e Stacy ficou sabendo que a Sra. Clapham era uma viúva muito rica, e que gastava ostensivamente. Exigia tudo de melhor e estava disposta a pagar o que fosse para isso. Muito afável e agradável também, o que era mais do que podia dizer de sua acompanhante.

Arrogante é o que ela era, dando ordens como fosse uma duquesa, dizendo que isso e aquilo não condiziam com sua patroa, que seus próprios lençóis e travesseiros deveriam ser postos na cama, e que deveria ser-lhe servido seu próprio chá, e só Deus sabe o que mais!

A curiosidade de Stacy foi apenas ligeiramente atiçada por essa descrição. Somente quando esbarrou com a Sra. Clapham na manhã seguinte que a ideia de que a Providência mais uma vez talvez tivesse vindo em sua ajuda lhe passou pela cabeça. Uma viúva viajando com uma grande comitiva, trazendo sua própria roupa de cama, sugeriu-lhe uma matrona com turbante, a viúva de uma geração anterior. A Sra. Clapham podia ser uma viúva, mas não era nenhuma matrona. Era uma mulher jovem: passara da meninice, mas não um dia a mais dos 30, se é que já tinha isso.

Era extraordinariamente bonita também, com uma boca atraente e olhos castanhos tão inocentes quanto enormes, até ela baixar as pálpebras pudicas sobre eles e olhar de soslaio por baixo dos cílios longos. Então se tornavam inequivocamente provocadores. Estava vestida com muita elegância, em um tom leve de lavanda, que parecia indicar que, apesar de ter tirado o luto, sua perda havia sido recente. Quando Stacy a viu pela primeira vez, ela estava descendo a escada, tentando abotoar uma de suas luvas, sem deixar cair o livro de orações que estava segurando.

Quando Stacy olhou para ela, o livro escapou-lhe e quase caiu a seus pés.

— Oh...! — exclamou ela, aflita. Depois, quando ele o apanhou e alisou suas páginas amassadas, ela disse: — Ah, como foi gentil! Obrigada! Que idiota eu sou! É tudo culpa destas luvas complicadas, que vão ficar sem abotoar!

Sua acompanhante, que descia atrás dela, estalou a língua. — Por favor, deixe-me ajudá-la, Sra. Clapham!

A Sra. Clapham estendeu o pulso impotente, repetindo com um sorriso pesaroso para Stacy.

— Que idiota eu sou! Ah, obrigada, querida Sra. Winkworth! Não sei o que faria sem a senhora!

Stacy, entregando-lhe seu missal, fez uma mesura elegante e disse: — Uma ou duas páginas um pouco amassadas, senhora, mas nenhum dano irreparável, creio eu! Permita que me apresente. Stacy Calverleigh, a seu serviço!

Ela estendeu-lhe uma das mãos enluvadas. — Oh, sim! E eu sou a Sra. Clapham. Esta é a Sra. Winkworth, que cuida tão bem de mim. Vamos à igreja, à abadia. É uma sensação! Nunca assisti a uma missa em uma abadia, não é um absurdo?

— É a sua primeira visita a Bath, senhora? — perguntou ele, dirigindo uma mesura modificada à sua acompanhante.

— Oh, sim! Nunca estive aqui antes, embora tenha ido a Tundbridge Wells. Mas vivi retirada nos últimos tempos, no campo, mas era tão melancólico que fui ficando completamente apática. Então o médico me aconselhou a vir a Bath, tomar o Banho quente e beber as águas.

— São detestáveis!

— Sra. Clapham, o sino parou de tocar — interrompeu a Sra. Winkworth.

— Sim, parou! Temos de nos apressar!

Ela sorriu, fez uma mesura e se afastou às pressas. A Sra. Winkworth também fez uma reverência, bem discreta, mas não riu.

Com o ânimo muito melhor, Stacy retirou-se para o seu próprio quarto para refletir sobre as possibilidades desse novo e inesperado acontecimento. A Sra. Clapham era obviamente rica, mas a presença da Sra. Winkworth deixava claro que era mantida sob uma vigilância cuidadosa. A Sra. Winkworth era uma senhora de meia-idade que devia ter sido bonita quando jovem, pois suas feições eram agradáveis e seus olhos cinza eram belos, embora duros, Stacy achou, por sua fisionomia intimidadora e a maneira de certa forma autoritária como lidava com a Sra. Clapham, que havia sido contratada mais como uma chaperon do que simplesmente uma acompanhante, e isso mostrava que as relações da viúva eram zelosamente protegidas de cavalheiros em busca de esposas ricas.

Nenhuma das duas mulheres, ele logo percebeu, eram muito refinadas. A Sra. Winkworth era claramente de origem cockney, isto é, da classe baixa de Londres. Seu sotaque refinado era sobreposto a esse inconfundível som nasalado provinciano. A Sra. Clapham ele teve certeza de ser uma provinciana cujo marido quase certamente teria feito sua fortuna no comércio.

Se é que havia uma fortuna, o que ainda não era certo. Não era desconhecido uma viúva bonita, desejosa de contrair um segundo casamento mais sofisticado, investir uma renda modesta como a Sra. Clapham podia estar fazendo: vestindo-se com apuro, visitando uma estação de águas elegante na esperança de atrair e fisgar um bom partido. Não que Bath continuasse a ser um resort da moda, mas provavelmente ela desconhecia que seus visitantes atuais raramente incluíam solteirões elegantes, sendo a maior parte de pessoas mais velhas, que ali iam passar o inverno por seu clima ameno, ou enfermos, para beber suas águas e tomar uma série de Banhos a Vapor.

Por outro lado, ter uma acompanhante de viagem e um lacaio, sem falar em sua insistência no uso de sua própria roupa de cama, pareciam excessivos; e a presença de uma acompanhante megera não acrescentava plausibilidade à suspeita de que fosse uma mulher ambiciosa atrás de uma oportunidade. Tampouco seu vestido, que era caro, mas sem ostentação.

Lembrou que ela usava grandes gotas de pérolas nas orelhas e no pescoço, um colar também de pérolas que, que se fossem autênticas, deveria ter custado uma boa nota ao falecido Sr. Clapham. Mas nesses tempos, ninguém podia saber; as pérolas mais convincentes poderiam ter sido feitas de vidro e escamas de peixes. Ele tinha comprado um desses colares falsos certa vez, para uma rapariga que ele mantinha na época, e o brilho dessas contas falsas iludiria qualquer um, exceto um joalheiro.

Decidiu, considerando a Sra. Clapham com frieza, que se empenharia em ser aceito por ela como companhia, e não teve dúvidas de sua habilidade em consegui-lo: mulheres mais velhas — a Srta. Wendover era uma prova disso! — eram fáceis de ser engambeladas. Não seria difícil ter a Sra. Winkworth nas mãos, e se confirmasse que a Sra. Clapham era tão rica quanto aparentava ser, isso seria fundamental.

Outra possibilidade lhe ocorreu: frequentemente a riqueza herdada pela viúva era tão controlada que viviam, na verdade, como se fossem miseráveis. Não fazia muito quase caíra na armadilha. Prestes a pedir a mão de uma viúva rica, havia descoberto que a maior parte de sua generosa renda seria perdida se ela se casasse de novo. Realmente quase caíra naquela armadilha, e a partir de então tomava muito cuidado para não correr o mesmo risco.

Nessas conjeturas, Fanny não foi esquecida. Se fosse maior de idade, não teria pensado nem por um instante nas pretensões da a. Clapham de chamar a sua atenção, pois embora naturalmente (isto é, se lhe fosse possível consultar somente sua inclinação) não tivesse escolhido uma noiva tão dinâmica e obstinada quanto Fanny, ela era uma criaturinha adorável e casar-se com ela ajudaria muito na sua reabilitação aos olhos da sociedade. Os Wendover não figuravam entre os membros do haut ton mas poderiam muito bem figurar, se assim quisessem. A família, apesar de não ser de uma linhagem tão antiga quanto os Calverleigh, era de uma distinção inquestionável, e estava estabelecida no condado de Bedfordshire havia muito tempo. Também era extremamente bem relacionada. Quando o Sr. James Wendover, que não era muito afeito à vida na cidade, foi compelido por sua esposa, igualmente bem relacionada, a alugar uma casa em Londres para o début da filha mais velha, não seria preciso nenhum esforço de sua parte para introduzir a Srta. Albinia nos círculos mais influentes. Todo mundo conhecia os Wendover, e um número surpreendente de pessoas distintas reconhecia algum tipo de relação com a família. Pessoas frívolas talvez zombassem dos preconceitos do Sr. James Wendover, mas o casamento com sua sobrinha, a herdeira de Amberfield, poderia restaurar a respeitabilidade do noivo.

Mas Fanny não era maior de idade; e apesar de Stacy conhecer o suficiente de seu tio para ter quase certeza absoluta de que se veria obrigado, por seu pavor ao escândalo, a perdoar seu casamento clandestino e colocá-la na posse, no mínimo, da renda derivada de suas propriedades — se não de imediato, certamente quando ela manifestasse os efeitos do matrimônio —, sabia que não havia tempo a perder em se livrar desses embaraços. Tinha esperado ter partido com Fanny no dia seguinte à desgraçada festa de suas tias, mas ela contraíra a gripe, e agora se passariam semanas até estar em condições de pensar em fugir para se casar clandestinamente. Nem ele poderia ter certeza de que poderia fazê-la manter a promessa, quando sua saúde se restabelecesse. Havia precisado de muita lábia para vencer a aversão da jovem ao casamento em Gretna Green, se é que conseguira vencê-la, do que tinha dúvidas. Tinha acreditado que conseguira, mas ela praticamente o repelira na festa. Era bastante provável que fosse precisar de muito mais do tempo precioso para reconquistá-la.

Mas se a Sra. Clapham estivesse realmente na posse de sua grande fortuna, se ficasse profundamente impressionada com as atenções de um homem bem-apessoado, de boa família, e elegante — e que, além do mais, possuía um lugar que era mencionado, e minuciosamente descrito, em qualquer Guia de Turismo de Berkshire —, Badbury, seu contador, não acharia impossível persuadir seus credores a lhe dar mais algumas semanas antes de instituir os procedimentos de confisco. Também não haveria o problema dos altos custos de uma fuga — e isso, quando os proprietários da casa há muito tempo estabelecida com quem a sua família tinha conta desde há não se sabe quanto tempo estavam indicando, de maneira lamentável mas é, implacável, que a menos que a dívida com eles fosse substancialmente reduzida, seriam obrigados a desonrar qualquer outra ordem de pagamento, seria uma vantagem. A Sra. Clapham não era menor e a notícia de seu compromisso com ela, junto com a revelação a Badbury de sua situação financeira, seria o bastante para engambelar seus credores.

Tinha pouca dúvida de que a conquista da Sra. Clapham não seria difícil. Percebera instantaneamente o convite em seu olhar, aquele arregalar de olhos que traía admiração, e que, de sua maneira inocente, ela confessara ao informar-lhe que estava extremamente enfadada com a conduta decorosa imposta por sua viuvez. Talvez fosse filha e viúva de comerciantes respeitáveis, mas a experiência tornava fácil, para o Sr. Stacy Calverleigh, detectar nela sinais do Acessível.

Era possível que tivesse ido a Bath em busca de diversão, e que, quando lhe lançou aquele olhar tantalizador por baixo das pestanas trêmulas, não tivesse nada mais sério em sua mente do que um flerte; mas ele achava improvável. Ela devia ter os instintos de da donzela comum, mas achava que vinha de pais da classe média e que estaria excessivamente imbuída das noções maçantes, pretensiosas entre os membros deprimentes e cada vez em maior número dessa classe para encorajar a corte de qualquer cavalheiro incapaz de, ou que não estivesse disposto a, lhe oferecer a segurança do casamento.

Ele teria preferido, é claro, casar-se com uma mulher de sua própria classe social, mas as exigências de sua posição tornavam impossível ser excessivamente rigoroso em sua escolha. De qualquer maneira, ela parecia ser uma criatura simples que poderia ser transformada em uma mulher de qualidade. Sua simplicidade a levara a Bath, o que era ao mesmo tempo uma sorte e um tanto melindroso. Revendo as várias pessoas que conhecera em Bath, não lhe ocorreu nenhum rival. Mas nas semanas passadas, os olhos dos residentes tinham observado com interesse sua corte a Fanny, e por menos que desse importância à censura de gente como a Sra. Ancrum ou Lady Weaverham, ficaria em maus lençóis se suas atenções chegassem aos ouvidos da Sra. Clapham. Se decidisse que valia a pena transferi-las a ela, seria obrigado a buscar uma saída de uma situação obviamente constrangedora. Bem, haveria tempo suficiente para saber qual a melhor maneira de lidar com o problema que tivesse de encarar esta sempre fora a sua norma e, de maneira geral, sempre dera bons resultados. Nesse meio-tempo, o mais importante e urgente era investigar mais precisamente a situação financeira da Sra. Clapham.

De sua janela, pôde ver quando ela retornou a White Hart; e, portanto, assim que a viúva começava a subir a escada, ele estava descendo. Ao vê-la, se deteve e, com um pedido de desculpas assustado, recuou para a metade do patamar.

— Oh, por favor, não... Ora, mas não é o senhor... o Sr. Calverleigh! — exclamou ela. — Não me diga que está hospedado aqui também!

Ele riu. — Não devia? Receio ter de admitir que estou! Lamento que faça objeção a isso, mas eu já estava aqui antes, como sabe! O que fazer?

Ela emitiu um som jovial. — Como se eu tivesse pretendido algo tão descortês! Está caçoando de mim, senhor! Não, na verdade, estou contente por estar hospedado aqui, pois não conheço mais ninguém em Bath. Estava ainda há pouco, há não mais de alguns minutos, dizendo a Sra. Winkworth como gostaria de conhecer alguém que pudesse me dizer como andar pela cidade ou aonde ir para comprar um guarda-chuva, que pelo o que vi é do que vou precisar!

— Mas como, veio a Bath sem um guarda-chuva? Ah, isso não fica bem! Certamente vou orientá-la à loja de guarda-chuvas mais próxima! Também vai querer assinar o livro de associados do Sr. King, creio eu.

— Devo fazer isso? Vai me achar uma perfeita simplória, mas não entendi direito. Quem... quem é o Sr. King?

— É o mestre de cerimônias do New Assembly Rooms, os Upper Rooms, como são chamados. Lá são oferecidos bailes, concertos, e carteados.

— Bailes! Oh, não, não acho que devo! Ainda não! Sabe, ainda não completou um ano que o Sr. Clapham faleceu, e apesar de eu ter tirado o luto, porque ele nunca gostou que eu usasse preto, não gostaria de demonstrar desrespeito... Tenho certeza de que não seria conveniente eu ir a bailes. Mas assinarei o livro, se for apropriado, o que o Sr. Clapham gostaria que eu fizesse, pois nunca ele se comportou de maneira mesquinha, nem mesmo quando não lucraria nada ao dar seu dinheiro! Por isso me diga... oh, tem tanta coisa que quero saber! — Fez uma pausa, depois prosseguiu timidamente: — Pensei se... Gostaria de tomar um chá conosco, em nossa sala privada? Ficaríamos muito felizes... não ficaríamos, Sra. Winkworth? — Um pensamento pareceu lhe ocorrer e acrescentou: — A menos, é claro... não, não foi o que eu quis dizer! Quis dizer... quis dizer que talvez seja comprometido. Ou... se por acaso for um homem casado, ficaríamos honradas em receber a Sra. Calverleigh também!

— Não, não sou casado — replicou ele. — Seria um prazer tomar um chá com a senhora!

Com o rosto iluminado, ela disse: — Ah, então, por favor, venha quando quiser! Hoje à noite?

Astuto demais para aceitar o primeiro convite, desculpou-se, e depois de um pouco de hesitação, permitiu que o convencesse a aceitar para a noite seguinte. Achou ter percebido uma certa aprovação na expressão da Sra. Winkworth, e se despediu das duas mulheres sentindo que essa nova aventura tivera um começo promissor.

O chá foi muito bem-sucedido. Encontrou-a sentada de um lado da lareira, vestida toda de cinza, sem outros ornamentos que não pérolas e um belo anel de diamante, que ele pensou ter valor sentimental, já que ela o olhava de vez em quando com uma afeição tristonha.

Não foi difícil fazê-la falar, pois era predisposta a conversar e se abrir. Sua língua era solta, mas ele foi capaz de selecionar diversas informações em sua conversa. Soube que ela passara a vida toda em Birmingham, até que o Sr. Clapham comprou uma casa algumas milhas distante da cidade, e a deu a ela, pois sabia que ela sempre desejara uma casa no campo. Bem, casa...! Era mais uma propriedade.

— Mas o Sr. Clapham era assim — ela explicou. — Era idoso, sabe, mas eu era excessivamente ligada a ele.

— E só podia ser — interferiu a Sra. Winkworth bruscamente. — Do jeito que a idolatrava!

— Oh, quer dizer que me mimava! — A Sra. Clapham fez um beicinho. Riu e olhou arrependida para Stacy.

— Ela está sempre me dizendo isso, criatura indelicada! Mas receio que seja verdade. Sempre fui terrivelmente mimada, sabe, fui filha única do papai, e mamãe morreu quando eu era muito pequena. Depois, quando ele morreu, o Sr. Clapham foi muito bondoso, providenciando tudo, cuidando de todos os meus negócios, tentando me fazer entender coisas horríveis como títulos de dívida pública, só que nunca entendi, e acho que nunca vou entender, exceto que papai tinha uma grande quantidade deles. Negócios me dão dor de cabeça! Por isso, quando o Sr. Clapham me pediu em casamento, fiquei realmente agradecida. Ah, ele era tão bom comigo! Dizia que nada era bom demais para mim, e que não tendo ninguém de quem cuidar há tantos anos, pois sua irmã que cuidava da casa para ele morreu, e ele ficou sendo o único que restara,gostava de me dar coisas. Se eu gostasse de alguma coisa, ele a comprava, sem me dizer nada, e no dia seguinte, surpresa! Oh, gostaria de lhe mostrar meus rubis! São minhas joias favoritas, mas a Sra. Winkworth me obrigou a trancá-las no cofre do banco antes de virmos para Bath, porque não é apropriado usar pedras coloridas até passar o período do luto, e ela acha que seriam roubados se eu os guardasse no hotel.

— Querida senhora, como fala! — disse a Sra. Winkworth, fazendo uma carranca.

Ela mostrou-se arrependida no mesmo instante. — Nunca aprendi a conter a língua! É muito ruim! Papai dizia que eu falava como uma matraca, mas o Sr. Clapham gostava do meu blablablá tolo. Mas tem razão, não paro de falar! Não quero mais falar. Conte-nos sobre o senhor! Mora em Londres ou no campo?

— Oh, em Londres... embora tenha sido criado no campo.

— Achei que sim — comentou ela de maneira espontânea. — Pretendo morar lá, pois tenho certeza de que não vou suportar continuar nas Towers sem o Sr. Clapham. Ele me levou lá uma vez, gostei demais. Ficamos em um hotel muito confortável. Não me lembro do nome, mas o Sr. Clapham sempre ficava lá quando era obrigado a ir a Londres, porque dizia que serviam a melhor comida de todos os hotéis!

— Então acho que foi o Clarendon.

Ela bateu palmas. — Sim, era esse! Como foi inteligente em adivinhar! Só que eu não viveria em um hotel. Pretendo comprar uma casa.

— Alugar uma casa, senhora — corrigiu a Sra. Winkworth.

— Bem, talvez... se é isso que fazem em Londres — replicou a Sra. Clapham, em dúvida. Olhou para Stacy.

— É assim? O senhor aluga a sua casa?

Ele sorriu e replicou, com franqueza: — Não, tenho apenas um apartamento.

— Oh! — Ela pensou por um momento. — Acho que um apartamento dá menos trabalho para o senhor... sendo um cavalheiro.

— Muito menos trabalho! — concordou ele, com uma careta cômica.

— Sim, mas... mas uma casa nossa é mais agradável, acho. Mais como um lar!

— Não a minha casa! — disse ele com humor.

— Mas o senhor disse que só tinha um apartamento!

— Em Londres! Tenho uma casa em Berkshire. Minha família a possui há gerações. Acho que entende: muito histórica, muito inconveniente e precisa de um exército de empregados para mantê-la em ordem. Boa demais para mim! Eu a venderia, se pudesse.

— Não pode? Se não quer morar nela, por que não?

Ele agitou a mão com um horror cômico. — Vender Danescourt? Cara senhora, que nenhum membro da minha família a ouça sugerir tal coisa! Juro que considerariam quase uma blasfêmia!

Achou que tinha dito o bastante (e com habilidade suficiente) para impressioná-la, e logo se despediu. A Sra. Winkworth quase lhe deu um sorriso de aprovação, o que demonstrou a ele que a confissão franca de suas dificuldades financeiras tinha exercido o efeito calculado sobre ela.