Ovelha Negra
Capítulo X
A ida ao teatro provocou a repercussão inevitável. Somente críticos severos como a Sra. Ruscombe viram algo chocante no fato. Mas foi surpreendente a rapidez com que o comentário de que o Sr. Miles Calverleigh estava se tornando extremamente particular em suas atenções à Srta. Abigail Wendover se espalhou por Bath. Não havia nada nisso que desse margem a especulação, pois nunca havia faltado admiradores a Abby; mas um interesse considerável foi prestado ao caso pelo que, de maneira geral, foi considerado seu encorajamento às pretensões do cavalheiro.
— Imaginem só, ela foi ao teatro sozinha com ele! Quando Lady Templeton me contou, fiquei olhando pasma para ela! Tenho certeza de que ela nunca fez algo assim antes! — comentou a Sra. Ancrum.
— Guarde bem minhas palavras — disse Lady Weaverham — aí tem coisa! Bem, desejo-lhes felicidades!
— Um novo début! — A Sra. Ruscombe abriu um de seus sorrisos maliciosos. — Não me espanta nada. Sempre a achei um tanto ousada.
Abby estava ciente de que, de uma hora para outra, havia se tornado objeto de curiosidade, assim como, dali a alguns dias, Selina, que se viu envolvida no que chamou de captura pelos esforços astuciosos de uma de suas conhecidas para descobrir se a querida Srta. Abigail estava para noivar.
— Nunca fui tão provocada em toda a minha vida! — declarou Selina. — Que impertinência! Cortei-lhe imediatamente, como pode supor. Você e o Sr. Calverleigh...! E se não tivesse ficado mortalmente vexada, poderia ter rido na cara dela! Ora, ele nem mesmo é bonito, além de estar abaixo de você, não, é claro, por nascimento, mas um homem com uma reputação detestável, se bem que essa Sra. Swainswick não sabe nada a respeito, e pode ter certeza de que não falei nem uma única palavra. Mas como ela teve o descaramento de imaginar... não que eu não soubesse como seria desde o começo... mas devo lhe pedir, querida Abby, que o mantenha a uma distância apropriada!
Abby estava tão contrariada quanto Selina, mas a sua indignação assumiu uma forma diferente.
— Tanto barulho por nada! — ela desdenhou. — Eu teria pensado que você trataria com desprezo essa mexeriqueira vulgar! O que estaria abaixo de mim seria dar a menor atenção que fosse a qualquer coisa que ela, ou outros como ela, dissessem a meu respeito!
Teria sido necessário mais do que a pergunta maliciosa da vulgar Sra. Swainswick para inflamar o espírito de rebelião adormecido em seu peito, e esse motivo foi fornecido pelo Sr. Peter Dunston, que lhe disse que receava que sua mãe tivesse ficado chocada com as notícias de sua saída.
— Ela é antiquada, sabe. Não preciso lhe assegurar que não partilho seus sentimentos! O que a senhorita faz nunca é errado, Srta. Abigail. Na verdade, se eu respeitasse tão pouco seu bom nome em Bath como Calverleigh, teria arriscado convidá-la a ir à peça em minha companhia!
Abby ficou tão irritada que se o Sr. Calverleigh a tivesse convidado para ir a Gales só com ele, teria aceitado de imediato. Não estando a par de sua disposição, ele não fez o convite; mas quando os dois membros mais jovens do grupo logo se afastaram juntos, ao chegarem a Gales, ele se tornou, de fato, sua única companhia por grande parte do dia, a única falha desse arranjo agradável sendo que nenhum dos bisbilhoteiros de Bath soube nada sobre isso. Mas esse desapontamento foi logo esquecido no prazer de apresentar à catedral que ela tanto adorava alguém que logo apreciou sua beleza, sem nenhuma necessidade de estímulo. Pensou, inocentemente, que encontrara no Sr. Miles Calverleigh um amigo, um amigo muito melhor do que qualquer outro, porque a mente dele era rápida, porque a fazia rir mesmo quando estava irritada com ele, e por causa de uma dúzia de outros atributos completamente frívolos — na verdade, não eram atributos —, mas que no todo resultavam encantadores, sendo mais importante do que os defeitos de seu caráter. Estava ciente deles, mas desculpava o cinismo e até mesmo a frieza que o faziam olhar de cima os problemas que acossavam outras pessoas com um desinteresse tão profundo que parecia inumano. Não era de admirar que vinte anos de exílio o tivessem tornado uma pessoa sem sentimentos: o que era de admirar era o fato de ele não ser amargo. Ela não achava que, na vida que ele levara durante aqueles anos, a virtude houvesse desempenhado um papel importante, mas isso não era da sua conta. Tampouco queria saber quantas amantes ele tivera ou que excessos poderia ter cometido. O passado devia guardar seus segredos, deixando-a desfrutar o prazer do presente. Se pensava na sobrinha, a quem tão repreensivelmente havia permitido escapar de sua companhia, era meramente para desejar que estivesse aproveitando o dia tanto quanto ela. A menina não estava alegre no começo da expedição. Tinha tentado ocultar isso com uma vivacidade maior do que a normal, mas a sua alegria havia sido transitória.
Abby não se atreveu a pensar que ela teria brigado com Stacy; provavelmente estava deprimida porque começava a perder a esperança de conseguir o consentimento da sua família para o seu noivado. Talvez Oliver conseguisse tirá-la da melancolia; talvez, se Lavinia, que ainda não tinha aprendido a guardar confidências daqueles que amava, tivesse lhe contado a paixonite de Fanny, pudesse até mesmo arriscar-se a lhe dar um pequeno conselho. Abby não tinha dúvida de que seria um bom conselho, e poucas dúvidas de que o conselho de um homem com quem Fanny mantinha uma relação de amizade seria escutado muito mais prontamente do que o dado por uma tia.
Oliver conhecia a história, mas o único conselho que deu foi à irmã. Tinha escutado seu extravasamento sentimental em silêncio, desapontando-a ao dizer calmamente, quando acabou:
— Lawy, não devia repetir o que Fanny lhe conta.
— Oh, não! Só para você... e para mamãe, é claro!
— Bem, para mamãe, talvez, mas para mim, não. Deixei que contasse só porque eu já sabia, por mamãe, que Fanny começara...uma relação que sua tia não aprovava. E porque sei que você a apoia.
— Sim, apoio! — replicou ela com seriedade. — É a coisa mais comovente que se pode imaginar, pois se apaixonaram à primeira vista! Ele é tão bonito, e que maneiras! Só porque ele não tem fortuna... como se isso tivesse importância, quando Fanny positivamente nada em fortuna!
— Não se trata disso — interrompeu ele, hesitando um pouco.
— Não é nada disso.
— Ah, está achando que ele antes era muito irresponsável, e desregrado, mas...
— Não, não estou, Lawy. Não sei nada sobre ele, exceto que...
— Hesitou de novo. Então, quando ela lhe dirigiu um olhar intrigado, falou, com certa dificuldade: — Ele não é nenhum menino, nenhum ingênuo. Deve ser uns 12 anos mais velho do que Fanny, além de muito experiente.
— Sim! — concordou Lavinia, com veemência. — Qualquer um pode perceber isso assim que o vê, o que torna particularmente tão romântico ele ter se apaixonado por Fanny! Não que ela não seja encantadora e linda, o que ela é, mas acho que há milhares de moças londrinas elegantes de olho nele, não acha?
— Ouça, Lawy. A questão é que ele não se comportou como devia! Um homem honrado não passa a conversa em uma garota para que o encontre às escondidas e não lhe propõe casamento sem antes pedir a autorização de seu tutor!
— Ah, Oliver, você está repetindo o que mamãe diz! Como pode ser tão rígido? Agora vai dizer que Fanny deve esperar, submissa, até seu guardião lhe escolher um marido!
— Não vou dizer nada desse tipo. Mas somente uma coisa, Lawy: se fosse você o objeto das atenções suspeitas de Calverleigh, eu o faria engolir os dentes!
— Deus meu! Faria mesmo isso? Nossa!
— Tentaria, pelo menos. — Ele riu. — É o que qualquer homem faria.
Ela não pareceu completamente convencida. Ele pôs o braço ao seu redor e lhe deu um abraço
fraternal.
— Não me cabe interferir. Não tenho o direito. Mas você será uma amiga má para Fanny se não fizer um esforço para persuadi-la a não se deixar ser atraída para um casamento oportunista. Isso só resultará em humilhação.
Surpresa e impressionada, ela replicou: — Ele não disse mais nada à irmã, e se o que disse foi repetido a Fanny, não havia como saber, pois tomava cuidado para não trair mais do que um interesse neutro no caso e, portanto, não feria perguntas. Entre ele e Fanny, o assunto nunca havia sido discutido, e por mais que ansiasse lhe pedir que não se desperdiçasse com um bufão que, ao seu ver, era um patife da pior categoria, se é que algum dia já havia realmente conhecido um tipo desta categoria, não era da sua alçada se meter nos assuntos de uma garota que nunca fora para ele mais do que um sonho irrealizável, além de seus princípios não lhe permitirem falar mal de alguém pelas costas. Considerando-se a mais tênue das justificativas — se pelo menos fosse um parente mesmo que remoto de Fanny! —, ele teria rapidamente cortado o sujeito; pois embora ainda não estivesse completamente restabelecido, não tinha dúvida de sua capacidade de dar um murro no nariz do elegante Sr. Stacy Calverleigh, além de lhe deixar os dois olhos roxos, antes de derrubá-lo. Suas mãos formaram, instintivamente, dois punhos prontos para esmurrar enquanto imaginava, com prazer, um confronto com Stacy. Era naturalmente um cavalheiro, mas não teria qualquer pesar em lutar com aquele tratante dissimulado que, mesmo que algum dia na vida tivesse lutado com as mãos (do que o Sr. Grayshott duvidava), certamente não seria páreo para alguém cuja ciência, e a esquerda inclemente, tinham conquistado fama nos anais da escola e da universidade. Mas a visão só durou por um momento: até mesmo a justificativa da rivalidade lhe era negada. O Sr. Grayshott, partindo para a Índia esperançoso e determinado a se provar merecedor da confiança do tio, tinha sido derrotado pela própria constituição, e se revelou um fracasso. O Sr. Balking tinha-lhe dito para não se preocupar com o futuro, e não levar tão a sério o fato de a sua saúde ter-se prejudicado. "Pois como poderia ter evitado? Queria nunca tê-lo mandado para Calcutá, exceto pelo fato de que a experiência que adquiriu vai ser positiva. Tenho uma posição para você na casa de Londres, mas vamos ter muito tempo para falar disso quando estiver bem de novo."
O Sr. Balking havia sido generoso, mas Oliver, seu ânimo, assim como seu corpo emaciado, exauridos pela febre recorrente, previu que estava destinado a se tornar um escriturário da contabilidade, e nesse cargo prosaico provavelmente permaneceria durante muitos anos terríveis. Não deu importância à garantia de seu tio Leonard de que estava muito satisfeito com seu trabalho em Calcutá: era o tipo de coisa que se esperava que um tio afetuoso dissesse. Chegara a Bath em um estado de profunda depressão, mas à medida que sua saúde melhorava, melhorava seu ânimo, e começou a pensar que não demoraria a conquistar uma posição de confiança. Quando foi capaz de refletir com imparcialidade sobre os dois anos que passou na índia, pensou que talvez o tio realmente estivesse satisfeito com seu progresso naquele país. Considerara o trabalho muito interessante e absorvente, e sabia que tinha talento para negócios. De fato, se fosse um fanfarrão e ficasse se vangloriando de cada pequeno sucesso, diria que tinha-se saído muito bem na firma de Calcutá. Como era um rapaz modesto e reticente, manteve um silêncio estrito sobre o assunto e esperou, com uma esperança crescente, o dia em que o médico diria que estava bem o suficiente para dedicar-se, mais uma vez, aos negócios.
Mas o seu otimismo não chegava ao ponto de fazê-lo supor que os Wendover o achariam um bom partido para Fanny. Maduro para a sua idade, reconhecia, na paixão de Fanny por Stacy, a paixonite violenta e breve de uma menina. Lembrou-se do sofrimento de Lavinia aos 15 anos, quando, de forma súbita e inexplicável, se apaixonara por um dos professores temporários do educandário da Srta. Trimble. Isso a deixara notavelmente aborrecida por várias semanas, mas não havia nenhuma ofensa, sua paixão não foi correspondida, e o professor era um homem respeitável devotado à mulher e aos cinco filhos. Nem Oliver nem a Sra. Grayshott deram qualquer importância ao caso; Oliver achou que daria tão pouca importância também a atual fascinação de Fanny se ela tivesse se apaixonado por um homem de caráter. Mas ele tinha certeza de que ela caíra na armadilha montada por um elegante caçador de dotes, e se sentia extremamente apreensivo. Algo que a língua solta de Lavinia deixara escapar, e logo reprimira, havia feito com que Oliver suspeitasse de que a possibilidade de uma fuga para um casamento clandestino já houvesse sido cogitada. Achou que a mãe partilhava sua desconfiança, e só ficou minimamente tranquilo quando soube que ela avisara a Srta. Abigail Wendover de um possível perigo. A Srta. Abigail não era nenhuma tola, mas ele achava que a situação necessitava de uma interferência masculina. Descartando o irmão, que parecia alguém com que a Srta. Abigail não contava, o homem óbvio a intervir era Miles Calverleigh. Mas Miles não demonstrava a menor disposição a fazer isso, nem mesmo a se interessar pelas atividades do sobrinho. Isso não surpreendeu Oliver: não passara várias semanas na companhia do Sr. Calverleigh sem descobrir que ele nunca se interessava por pessoas de quem não gostava. Era inconcebível que um homem de seu caráter pudesse vir a gostar de Stacy, e era inútil supor que a preocupação com o bom nome de sua família fosse impeli-lo a se esforçar para preservá-lo. Ele não tinha tal preocupação. Por outro lado, não havia dúvida de que realmente gostava muito da Srta. Abigail Wendover. Oliver, naturalmente impossibilitado de discutir a respeito de Stacy com o próprio tio do rapaz, só podia esperar que seu afeto por ela o compelisse a ajudá-la.
Era um homem estranho, tão frio e ainda assim tão generoso; não o entendia, mas uma coisa era certa: se ele se tornasse realmente amigo de alguém, não haveria limites para a ajuda que, de maneira desinteressada, ofereceria. Evidentemente era possível que a Srta. Wendover, assim como ele, sentisse constrangimento em abordar o assunto, Oliver achava que talvez sua mãe pudesse persuadi-la a superar tais escrúpulos, e decidiu incitá-la a fazer a tentativa. No caminho para Gales, percebeu, tão rapidamente quanto a tia da moça, que Fanny estava fazendo o possível para ocultar uma preocupação sob a máscara de alegria. Sentiu pena dela, daquela menina doce e tola. Sentiu muita vontade de abraçá-la. Mas esse desejo teve de ser reprimido: não somente suas condições impossibilitavam que se declarasse, como Fanny não queria o seu amor, somente sua amizade. Uma vez, quando sua mãe o repreendera por chamá-la pelo primeiro nome, ela tinha dito: "Oh, mas eu pedi a ele que fosse assim! Lawvy e eu sempre fomos como irmãs, portanto Oliver tem de ser como meu irmão!"
Metade de um pão era melhor do que pão nenhum. Oliver não sabia quem era o criador daquele provérbio tolo, apenas que devia ter sido um idiota. Não era melhor. Quando uma garota adorável e querida, que você daria a alma para possuir, o convidava a ser seu irmão, era infinitamente pior. Mas se o que Fanny queria era um irmão, teria um irmão; e talvez, adotando esse papel detestável, poderia, pelo menos, ganhar sua confiança e a oportunidade de lhe oferecer um conselho mais sensato do que ela receberia de sua irmã tola.
Desse modo, quando estavam há algum tempo na capela, na ala norte da catedral, onde o famoso relógio havia sido colocado, e já tinham observado os pequenos cavaleiros lutarem interminavelmente um com o outro, ele deteve Fanny quando ela estava para acompanhar sua tia e o Sr. Calverleigh para outra parte da catedral, e propôs que se sentassem um pouco lá fora. Ela concordou prontamente, seu coração apertando ao olhá-lo com apreensão.
— Sim — concordou ela —, é claro, se você não preferir voltar ao Swan. Não há nada tão cansativo quanto catedrais! Está cansado, não está?
— Não, juro que não... ou só um pouquinho. Mas acho que posso ficar, se for obrigado a andar por todo este lugar, pois vai significar ficar em pé olhando túmulos, telas e janelas! Ainda não consigo ficar em pé por muito tempo, se bem que começo a andar como qualquer um de vocês.
— Pois não vai ficar em pé. Se não estiver muito frio para você, vamos nos sentar à beira do fosso ao redor do palácio e observar os cisnes. E se a minha tia lhe perguntar o que achou das figuras na frente oeste, poderá responder que nunca viu nada tão genuinamente refinado. Não vai ser mentira, acha que vai?
Os olhos deles assumiram uma expressão divertida. — Não, apenas suggestio falsi! — replicou ele, com gravidade.
— Devo vê-las?
— Deus meu, não! Há uma série interminável delas!
— Nesse caso, estou disposto a dizer quantas mentiras forem necessárias, até mesmo uma bem estapafúrdia!
Ela riu, depois ficou um momento em silêncio. Ele não fez nenhuma tentativa de interromper sua abstração. Então, ela pareceu voltar à realidade e encetou uma conversa corriqueira, como faria uma anfitriã tentando entreter um convidado difícil. Era um esforço flagrante e ele a interrompeu, dizendo involuntariamente:
— Ah, não, Fanny!
Sobressaltada, ela olhou rapidamente para Oliver, uma pergunta em seus olhos: — Não?
— Não se sinta obrigada a conversar. Não é assim que se trata alguém que considera um irmão!
— Oh! — Ela corou e virou a cabeça.
— Alguma coisa a está perturbando? — perguntou ele delicadamente.
— Não... oh, não! É claro que não! Veja, há dois cisnes! Pena não termos trazido pão para jogar para eles! Acho que os cisnes são as aves mais belas do mundo, e você? Ou prefere os pavões?
— Não — replicou ele direto, conduzindo-a a um banco situado convenientemente. Sentou-se ao lado. — O que houve, Fanny? Não diga que não está triste! Seria uma grande mentira... para não dizer uma mentira deslavada!
Ela deu um risinho nervoso. — Não foi nada. Bem, nada sério! Apenas briguei com Abby...bom, não brigue exatamente, mas... — Fez uma pausa e sua expressão se fechou. — Achava... Mas as pessoas... os adultos... — disse ela, traindo sua juventude — não entendem! Não ligam para outra coisa que não classe social, decoro, respeitabilidade e... e...conveniência, e sempre que queremos fazer o que eles não querem que façamos, dizem que somos jovens demais e logo nos esqueceremos daquilo!
— Sim, e também que um dia ainda vamos lhes agradecer! — concordou ele, solidário.—E o pior de tudo é que geralmente estão certos!
— Nem sempre!
— Não, mas com uma frequência detestável!
— Quando tiver a minha idade..! — disse Fanny, imitando com ressentimento.
— Não me diga que a Srta. Abigail proferiu essas palavras abomináveis!
— Não. Não, ela não falou assim, mas não entende meus sentimentos, e eu achava que ela entenderia! Nunca sequer imaginei que ela seria igual ao meu tio! Mundana e... e preconceituosa, e achando que não importa que se sinta infeliz contanto que não faça nada que seu horrível tio não aprove! — acrescentou ela com indignação. — E ela nem mesmo gosta dele!
Ele não disse nada por um momento, mas ficou olhando para a frente, com o cenho franzido, contemplando o muro ameado além do fosso. Fanny, pegando um lencinho na bolsa, assoou o nariz. Oliver respirou fundo e disse, escolhendo as palavras com cuidado: — Se alguém que lhe é muito querido, como você é para a Srta. Abigail... parecer estar sendo levado a dar um mau passo, você tentaria impedi-lo, concorda?
— Sim, mas não vou dar um mau passo! — retrucou Fanny.
— E não sou jovem demais para saber o que quero! Eu sempre soube! E não vou deixar que arruínem a minha vida, mesmo que eu tenha de cometer um ato desesperado!
— Não! Como poderia ser feliz se fizesse o que certamente partiria o coração da Srta. Abigail? Perdoe-me, Fanny, mas acho que sei qual é o problema e gostaria que houvesse alguma coisa que eu pudesse fazer para ajudá-la. — Interrompeu-se. — Conheceu meu tio? Que graças a Deus não é em nada parecido com o seu! É muito generoso e muito sábio, e uma vez ele me disse para nunca tomar decisões importantes de maneira apressada, nunca fazer o que não poderia ser desfeito até eu estar perfeitamente seguro de que nunca vou querer desfazê-lo.
— É claro que não! — disse Fanny simplesmente. Levantou-se. — Já descansou? Importa-se de dar uma volta pela cidade? Acho que aqui está um pouco frio, não está? Passaremos pelo Dean's Eye para a Saddler Street. Espero que goste de ver isso. Suas confidências tinham-se encerrado, e como ela, inequivocamente, baixara o véu para prevenir olhares curiosos, não lhe restou outra coisa a fazer se não aquiescer. E a fez rir ao dizer que apesar de se colocar sem reservas nas suas mãos, não podia deixar de sentir que corriam um grande risco de serem presos por tal irreverência; e expressou grande alívio quando ela explicou que o Dean's Eye era meramente um portão antigo. A brincadeira conseguiu fazê-la descontrair de novo; passou então a distraí-la e conseguiu o suficiente para que ela dissesse, ao se unirem aos mais velhos no Swan, onde jantariam antes de retornarem a Bath, que passara uma tarde adorável. De modo um pouco nervoso, acrescentou:— E não vai dar importância a nada do que eu disse, vai? Foi tudo bobagem! Acho que sabe como é quando caímos em depressão: dizemos coisas que não queríamos dizer. Ele tranquilizou-a, mas não conseguiu deixar de completar: — Embora eu seja apenas um irmão de mentira, você me contaria se um dia se encontrasse em uma situação embaraçosa, ou... não estivesse segura do que deveria fazer, não?
— Ah, obrigada! Você é muito bom! — gaguejou ela. — Se bem que não haja necessidade... Isto é, foi só uma tristeza, como você disse! Não há nada de errado!
Ele não falou mais nada, mas essas palavras, longe de aliviarem sua apreensão, a intensificaram consideravelmente. Ele desejou poder saber o que havia ocorrido que a deixara tão aflita, mas talvez sua suspeita não fosse confirmada, já que não tinha nem o direito nem ainda a força física para lidar apropriadamente com o Sr. Stacy Calverleigh, e teria sido impossível controlar seu instinto. Pois o Sr. Calverleigh, vivendo o perigo iminente de uma cobrança executiva, e vendo a sombra da King's Bench Prison se arrastando inexoravelmente na sua direção, tinha abandonado a esperança de conquistar essa herdeira sem violência, e decidira (com um forte senso de crueldade) que não restava outra coisa a fazer a não ser fugirem e se casarem clandestinamente.
Mas Fanny, que sempre sonhara tão entusiasticamente viver uma aventura romântica desse tipo, tinha de súbito sido levada a perceber que uma coisa era declarar sua disposição para se libertar de sua educação e se divorciar de sua família e de sua casa, e outra, completamente diferente, era fazer isso de verdade. Stacy insistiu em sua proposta desesperada na abadia de Bath, circunstância que a deixou nervosa e incomodada já no começo. Quando ele marcara esse encontro, ela quase se chocara. Certamente não era apropriado! Mas ele tinha rido de seus escrúpulos, chamando-a de sua adorável puritana, e ela acabara consentindo — pelo menos para lhe provar que não era nenhuma puritana. Havia sido decidido às pressas, na Meyer's Library, e acarretado um planejamento de certa forma difícil e, o que ela não pôde deixar de achar, horrivelmente falaz. Entretanto aceitou e foi recompensada por sua audácia com beijos apaixonados em suas mãos e elogios à sua coragem. Mas ela não se sentia nada corajosa e olhava em volta, nervosa, morrendo de pavor de ser vista por alguém conhecido. Era improvável, evidentemente, que algum residente de Bath se encontrasse na abadia em uma hora em que não acontecia nenhum serviço religioso, mas havia sempre a possibilidade de alguém levar um visitante para conhecê-la. Fanny sussurrou:
— Oh, por favor, cuidado! — E puxou as mãos das dele. — Se eu for reconhecida...! Estou com muito medo! Acho que ninguém me viu vindo para cá, mas nunca se sabe. Grimston ia comigo à casa da Srta. Trimble, e vai me buscar mais tarde na casa da Sra. Grayshott, mas, oh, Stacy, fui obrigada a fingir para a Srta. Trimble que me enganara, trocando o dia da aula de canto, e me senti péssima por fazer isso!
— Não é de admirar! — concordou ele, afetuoso. — É intolerável sermos obrigados a recorrer a subterfúgios. Sinto isso tanto quanto você, meu amor! Mas desde que a sua tia retornou a Bath, não tenho nenhuma oportunidade de estar com você por mais de cinco minutos. Como podemos nos falar em um concerto ou um em baile? E preciso conversar com você!
— Sim... oh, sim! Desejo tanto estar com você! Se eu tivesse um véu! Quem são aquelas pessoas ali?
— Só um grupo de excursionistas — replicou ele calmamente — Não tenha medo, minha querida! Ninguém aqui a conhece, vamos nos sentar mais para lá, onde está escuro e não chamaremos a atenção dos visitantes. Eu ser forçado a encontrá-la às escondidas! De todas as coisas é a mais repugnante para mim, mas que outra alternativa me é oferecida? Somente uma! Renunciar a você, e isso não vou suportar!
— Stacy, não! — falou ela ofegante, segurando o braço dele. Ele pôs a outra mão sobre a dela e segurou-a firme.
— Nunca conquistarei o apoio da sua tia, ela deixou isso bastante claro para mim! Ela vai tomar providências para que não nos vejamos, como fizemos hoje, exceto com outros por perto. Querida, como podemos continuar assim? — Pegou a mão dela e beijou a palma. — Se soubesse como desejo tê-la em meus braços, chamá-la de minha!
— Também quero isso — consentiu ela, tímida.
— Então, venha comigo, como planejamos! Ousa desafiar a sociedade? Responda!
— Sim, ouso! — disse ela com os olhos brilhando.
— Como poderei, um dia, lhe provar o quanto a adoro? Vamos pôr um ponto final nessa situação detestável a que fomos levados e agir o mais rápido possível! Amanhã?
— Amanhã?. — repetiu Fanny, pálida. — Oh, não, Stacy! Eu...eu não poderia! Quer dizer, é cedo demais!
— Depois de amanhã, então!
Nesse momento, Fanny começou a perceber a diferença entre sonhos e realidade. Sacudiu a cabeça e disse em tom de súplica:
— Gostaria de poder, mas... você não entende, Stacy! Seria difícil demais. Tenho tantas coisas a fazer!
— Tem de ser logo! — insistiu ele. — A qualquer momento você poderá ser tirada de mim! Suspeito que sua tia já esteja pensando em fazer isso. Se demorar, nosso plano será revelado!
— Não, não será! Além do mais, ela não está pensando nisso. Como poderia, se vamos oferecer uma festa na semana que vem? E esta é outra razão por que não posso fugir já. Acho que se esqueceu disso, mas...
— E eu por acaso estou me importando com festas? A nossa felicidade está em jogo!
Fanny não tinha objeção a fazer às palavras dramáticas do Sr. Calverleigh, pois se assemelhavam muito aos discursos apaixonados de seus heróis de romance favoritos, mas uma forte inclinação ao bom senso subjazia às suas fantasias, e ela replicou, com um espírito alarmantemente prático: — Não, não! Como poderia estar? É somente um adiamento!
— Somente...! Quando cada hora que estou longe de você parece uma semana, e cada semana, um ano!
Mesmo sem ser nenhum aritmético, ela não viu erro algum naquela progressão matemática. O sentimento expresso dessa maneira a fez corar intensamente e, mais uma vez, deslizar a mão para a dele.
— Eu sei. É assim comigo também, mas você não refletiu, meu amor! Como posso fugir antes da festa de tia Selina? Seria a coisa mais infame que eu poderia fazer, pois ela anseia tanto por essa festa, a pobre querida, e destruiria todo o seu prazer se... Deus do Céu, ela a suspenderia! Imagine a confusão que seria!
Ele foi dominado pela exasperação e, por um instante, Fanny vislumbrou isso em seu rosto. Desapareceu tão rapidamente que ela não poderia afirmar que havia percebido corretamente. Ele viu a dúvida nos olhos arregalados dela e disse, arrependido: — Eu nunca iria querer arruinar um plano de tia Selina! Tão generosa e tão... creio eu... minha amiga! Por quanto tempo devo esperar até poder chamá-la de minha... até acariciá-la e protegê-la?
Se houvesse tido o privilégio de ouvir essas nobres palavras, a Srta. Abigail Wendover teria informado ao Sr. Calverleigh, explicitamente, que Fanny precisava ser protegida somente dele mesmo.
O efeito sobre Fanny foi fazê-la enrubescer ainda mais intensamente e sussurrar em resposta: — Não por muito tempo! Prometo!
Ele raramente se sentira menos amoroso, pois achava que ela estava sendo irritantemente caprichosa, mas respondeu de imediato com um de seus discursos que se assemelhavam aos de um amante. Seu receio era ela, se tivesse tempo para refletir, voltar atrás da decisão do casamento clandestino. Não lhe escapara o fato de ela ter recuado diante da sua sugestão de fuga imediata. Empenhou-se na tarefa de recuperar-lhe a antiga disposição de concordância impetuosa empregando todas as artes que dominava. Não havia dúvidas de seu poder sobre a jovem, mas não levou em conta o traço de obstinação que as tias dela conheciam bem: ela reagiu deliciosamente à forma como ele expressava o seu amor, ela escutou extasiada ao quadro idílico que ele pintou da vida que levariam juntos, mas não consentiu em fugirem antes da festa das tias. Ele não se atreveu a insistir, pois a face da moça expressava determinação, e seu medo era de que se a pressionasse muito, ela desistisse de tudo. Ele garantiu-lhe que não tinha outro desejo se não o de agradá-la, e rezava a Deus que ela não tivesse muitos caprichos inesperados.