Ovelha Negra
Capítulo V
Por um momento terrível, Abby sentiu pavor do que ele poderia dizer em seguida. Então, no momento exato em que seus olhos, com um apelo desesperado, encontraram os dele, percebeu que ele estava apenas se divertindo à custa dela e maliciosamente gostando de sua inquietação. O medo foi sucedido pela raiva, mas não uma raiva absoluta: havia desculpas tanto quanto zombaria no sorriso dirigido a ela por sobre a cabeça de Fanny, e uma sugestão desconcertante de confraternidade, como se o Sr. Miles Calverleigh acreditasse ter descoberto na Srta. Abigail Wendover um espírito semelhante ao seu.
Fanny, erguendo o olhar da sua maneira espontânea, exclamou:
— Oh, conheceu minha mãe, senhor? Eu nunca... quer dizer, não consigo me lembrar dela! — Hesitou, depois perguntou timidamente; — É o tio do Sr. Stacy Calverleigh? Ele é um amigo meu!
Se havia alguma coisa, pensou Abby, capaz de convencer Miles Calverleigh de que Fanny era um cordeiro a ser protegido de lobos extraviados, seria a espontaneidade dessa observação. Esperou que ele o percebesse, mas não podia ter certeza. A expressão dele era a de um homem escutando com uma indulgência um tantinho aborrecida a uma tagarelice infantil.
— Então, poderá apresentá-lo a mim, não? — retrucou ele.
Ficou evidente, pelo olhar de surpresa de Fanny, que o Sr. Stacy Calverleigh não lhe tinha contado nada sobre esse tio réprobo: omissão pela qual, concluiu Abby, submetendo a questão a uma consideração desapaixonada, ele não poderia ser culpado. Fanny respondeu, reprimindo o riso: — Está brincando comigo, não está? Falei alguma bobagem? É claro que deve conhecer Stacy melhor do que eu!
— Pelo contrário! Eu não o conheço, não o reconheceria se entrasse nesta sala neste exato instante! Quando parti da Inglaterra, ele ainda não devia nem saber andar.
— Ah, entendo. — Fanny relaxou a testa franzida.
— Bem, arrisco a dizer que não vai se decepcionar com ele! — disse Lady Weaverham. — Se bem que à primeira vista talvez o tome por um janota da Bond Street, como eu mesma achei, até descobrir que não era nada disso. Ele não é arrogante, e mais ainda, sua cabeça não virou, como seria de esperar considerando-se como tentaram conquistá-lo, aqui em Bath! — acrescentou ela, enquanto Fanny, ficando escarlate, se afastava do Sr. Calverleigh.
— Não, não, minha querida, não me referia a você! Pelo contrário! Ele não dará nenhuma atenção às outras moças, o que não me surpreende nem um pouco! — Um risinho sacudiu seu peito gordo. Agravou o constrangimento de Fanny dizendo: — Quantas vezes Sir Joshua me disse que você era a melhor, minha querida; não que ele precisasse dizer isso, pois eu já sabia!
Nesse ponto, Oliver ganhou a aprovação de Abby, afastando Fanny um pouco do grupo, com o pretexto de mostrar alguma coisa na rua. Sentaram-se juntos e logo Lavinia e a Srta. Sophia Weaverham se juntaram a eles, e os quatro ficaram conversando alegremente até serem interrompidos por Lady Weaverham, que se levantou dizendo que ela e Sophia tinham de ir, ou Sir Joshua se perguntaria o que tinha acontecido com elas. Abby teria seguido seu exemplo se não tivesse recebido um sinal inconfundível de Fanny, adiando assim sua despedida. O motivo do sinal foi revelado assim que a Sra. Weaverham partiu, quando Lavinia perguntou animadamente à mãe se Fanny poderia ficar para jantar com elas.
— Diga que sim, mamãe! Quero lhe mostrar as coisas lindas que Oliver me trouxe da índia, particularmente o xale... não, não o xale. Não falo dos xales de caxemira, embora sejam os mais lindos que já vi, mas da outra coisa...
— Sari — completou o irmão, sorrindo.
— Ah, sim! Sari! — Lavinia tentou guardar o nome. — E os desenhos que fez de todos aqueles lugares estranhos, e dos nativos, e tantas coisas! Mamãe?
— Ora, é claro, meu amor! — consentiu a Sra. Grayshott. — Se a Srta. Wendover permitir.
— A Srta. Wendover acha, como estou certo que a senhora também, que o doente já teve visitas suficientes por um dia — replicou Abby. — Uma outra vez, Fanny!
Fanny assentiu com a cabeça e se levantou.
— Sim, é claro. Acho que tem razão.
Isso gerou protestos imediatos e a insistência de Oliver e Lavinia, e a Sra. Grayshott aproveitou-se disso: — Gostaria que permitisse! Ela está fazendo tanto bem a Oliver! Ele faz de tudo para não demonstrar, mas está muito deprimido, acho, por ter falhado em justificar a confiança do tio. Um absurdo, é claro, mas como entender o que se passa na cabeça de um rapaz? A querida Fanny o fez rir três vezes da maneira como era antes! Permita que fique conosco! Sabe que respeitamos o horário do campo! Martha a levará para casa antes de escurecer, prometo.
— Minha querida, se realmente é o que quer... Mas se for para dar trabalho à sua Martha, não! Mandarei a carruagem buscá-la, e só espero que ela não a atrapalhe!
Despediu-se, então, da anfitriã. O Sr. Miles Calverleigh fez o mesmo, circunstância que ela considerou com sentimentos mistos. Acompanhou-a na descida da escada, e lhe ocorreu que seu objetivo fosse se desculpar por tê-la alarmado meia hora antes. Mas como, à essa altura, já tinha formado uma ideia de sua personalidade, não se surpreendeu muito quando suas primeiras palavras para ela, assim que atravessaram a porta da entrada do edifício foram: — Diga-me uma coisa: quem é Sir Joshua?
— Sir Joshua — respondeu ela, formalmente — é o marido de Lady Weaverham, senhor.
— Sim, menina bonita, e o pai de Sophy também! — replicou ele de maneira ultrajante. — Meu cérebro potente me capacitou assimilar esses fatos inúteis! Não banque a tola!
— Permita-me dizer, senhor, que se desejar ser aceito na sociedade de Bath, terá de corrigir suas maneiras! — retorquiu Abby.
— Não tenho nada a corrigir e nem o menor desejo de ser aceito pela sociedade de Bath, ou por qualquer outra. E se a sociedade de Bath é composta por Lady Weaverham e outros iguais a ela...
— É claro que não! — interrompeu Abby impulsiva. — Isto é... Ah, que homem detestável é o senhor!
— Bem, se é isso mesmo que quis dizer, deve ter uma mente muito fantasiosa! Posso ser detestável, na verdade sei que sou... mas o que isso tem a ver? — Enquanto Abby se continha, ele continuou — Sim, está rindo! Tem um riso bonito, e gosto da maneira como seus olhos se movem.
Ciente de que essas palavras impróprias a tinham agradado ao invés de ofender, e se sentindo culpada por isso, falou da maneira mais indiferente que pôde: — Estávamos falando dos Weaverham, acho eu. São muito gentis, pessoas dignas, e apesar de não serem... extremamente refinados, têm a estima das pessoas de uma maneira geral.
— Cheios da grana, não? — Ele demonstrou logo ter entendido o que Abby quis dizer, deixando bem claro seu menosprezo por ambiguidades polidas. — Onde conseguiram o título? Em Londres?
— Não sei. Sir Joshua certamente era negociante até se aposentar, não fazem segredo disso... mas... mas de uma maneira muito respeitável!
— Não precisa defendê-lo — disse ele gentilmente. — Eu mesmo estive envolvido com o comércio, embora acredite que não tenha agido de maneira respeitável.
— Ficaria pasma se descobrisse que já chegou a fazer alguma coisa respeitável. — retrucou Abby, enfática e irritada. Chocada com a própria falta de decoro, sentiu-se aliviada ao ver que tinham chegado a York House, e acrescentou rapidamente: — Aqui nos separamos, senhor, portanto me despeço agora!
— Não, não se despeça! Seria prematuro! Vou acompanhá-la até sua casa.
— Agradeço, mas não é necessário, posso lhe assegurar! Ela tinha parado na entrada do hotel, e estendeu a mão, repelindo:
— Adeus, Sr. Calverleigh!
— Se pensa que vou andar atrás da senhora, como um lacaio, até Sydney Place, está muito enganada, senhorita Abigail Wendover!
— Ele pegou a mão dela e a pôs em seu braço. — Agora é moda mulheres jovens passearem pela cidade desacompanhadas? Não era assim quando eu vivia na Inglaterra!
— Não sou jovem e não estou passeando! — Abby retirou a mão, mas foi andando ao lado de Calverleigh.
— Os tempos mudaram desde que partiu da Inglaterra, senhor!
— Sim, e não para melhor! — concordou ele, em um tom de lamento. — Tenha paciência com minhas fraquezas, senhora! Sendo a senhora já avançada em idade, isso não será difícil!
Um risinho escapou dela.
— Não seja tão ridículo! — ela o advertiu. — Posso não ser avançada em idade, mas há muito tempo não sou tão moça a ponto de precisar de acompanhante. Não gosto de deixar Fanny sair sozinha, apesar de conhecer várias mães que não fazem objeção a isso, aqui. Não em Londres, é claro. — Fez uma pausa de alguns instantes, depois prosseguiu: — Posso lhe pedir para ter cuidado com o que diz a Fanny? Como decidiu informá-la de que conheceu a mãe dela muito bem, ela pode tentar falar com o senhor sobre Celia, e é suficientemente perspicaz para somar dois e dois. Sei que fez isso para me deixar apreensiva, mas, tendo conseguido, por favor, fique satisfeito!
Ele riu. — Não, não! Só brinquei um pouco com a senhora. Estava me olhando com tal furor, que não resisti!
— Muito galante! — observou ela.
— Nem um pouco! Avisei que não tenho nenhuma virtude.
— Então, por que insiste em me acompanhar até em casa?
— Porque quero acompanhá-la, é claro. Que pergunta tola! Os olhos dela se agitaram, e seus lábios começaram a tremer.
— Sabe, é a criatura mais exasperadora que já conheci.
— Ah, deixe disso, está exagerando! — protestou ele. — Não esqueça que conheci seu irmão Rowland! Nunca convivi com James, mas não me admiraria que ele fosse tão ruim quanto. Ou não acha os chatos pretensiosos exasperadores?
— Não acredito que esteja morto a qualquer sentimento digno — A voz de Abby soou vacilante. — Devo salientar que isso é... é uma coisa abominável de se dizer!
— Graças a Deus a senhorita se dá conta disso! — replicou ele. — Agora, vamos prosseguir muito mais à vontade.
— Não, não vamos. Não até que o senhor pare de querer me fazer crer que é completamente odioso! Por favor, trouxe Oliver Grayshott para casa porque quis?
— Sim, gosto do garoto. Não gosta?
— Sim, acho, mas...
— Não, não fugi com a ideia de justificar meu retorno à Inglaterra por causa dele! — advertiu-a. — Nada poderia estar mais longe da verdade! Tudo o que fiz foi me encarregar dele durante a viagem. Uma tarefa não muito árdua!
— E subsequentemente deu-se o trabalho de trazê-lo para Bath — disse Abby, pensativa.
— Ah, isso foi porque... — Interrompeu-se para então dizer, afável: — Porque o tio dele é um homem de vastos interesses, e nunca se sabe quando o favor de um homem desse tipo poderá ser útil.
— Com que rapidez se recuperou! — elogiou Abby, com admiração. — Estava a um passo de dizer que veio a Bath para ver seu sobrinho também!
— Ah, já disse que não sabia que ele esteve aqui! Achei que já tinha mencionado isso — falou ele, sem se perturbar. — Espero que pretenda retornar. Segundo Lady Weaverham, ele é um modelo de perfeição, e gostaria de conhecer um Calverleigh que se ajustasse a essa descrição.
— Não vai conhecê-lo na pessoa de seu sobrinho!
— Como sabe? Nunca pôs os olhos nele!
— Não, mas...
— Além do mais, Selina gosta de meu sobrinho — prosseguiu ele. — A senhorita mesma me disse isso, e tenho o maior respeito pelo julgamento dela.
— Verdade? — disse ela furiosa. — Quando nunca pôs os olhos nela.. !
— Não que eu saiba — admitiu ele. — No entanto, entendi que é a sua irmã mais velha, e não posso afirmar não tê-la conhecido... antes de ser excluído dos círculos educados, é claro. Se não conheci, estou ansioso por conhecer.
Tinham chegado à esquina da Bridge Street, e Abby se deteve abruptamente.
— Não! — exclamou com vigor. — Não quero que a conheça! Ela não sabe nada do que o senhor me revelou... não sabe nem mesmo que o conheci ontem! E não tenho a menor intenção, nenhuma mesmo, de apresentá-lo a ela.
— Não tem? Mas o que vai parecer se não contar? Se a Sra.Grayshott não realizar essa tarefa, pode apostar que Lady Weaverham realizará.
— Não... ou na condição de que não conte instantaneamente sobre nossos encontros anteriores! — disse Abby, com um ressentimento flagrante. — E sem corar!
— Muito plausível — concordou ele. Sem lhe ocorrer nenhuma resposta conveniente, continuaram a andar em silêncio.
— E prometo que não vou corar — acrescentou ele, de maneira tranquilizadora. Ela ficou sem respirar, mas acabou conseguindo retorquir com uma gravidade razoável: — Não deveria ter achado que saberia como! |
— Não, acho que não saberia. — Ele considerou o assunto passível de consideração. — Na minha idade, é tarde demais para aprender, não acha?
— Sr. Calverleigh! — Abby virou a cabeça para olhar para ele. —Vamos falar sério! É verdade que eu ainda não conheci seu sobrinho, mas o senhor conheceu minha sobrinha! Não lhe falta inteligência. Não é mais um garoto, mas... um homem experiente, e amou a mãe de Fanny! Não tenho dúvidas disso, ou que ao ver Fanny deve ter sentido uma certa... dor, trazendo tudo isso de volta!
— Sabe, o estranho é que não trouxe — interrompeu ele. — Ela é tão parecida assim com Celia? Pasma, Abby ficou sem ar:
— A própria imagem!
— Não! É mesmo? Que peças a memória nos prega! Eu achava que Celia tinha olhos castanhos.
— Está dizendo que a esqueceu? — perguntou Abby, perplexa.
— Bem, tudo isso aconteceu há mais de vinte anos — respondeu ele a título de desculpas.
— E sem dúvida sua memória a confundiu com outra!
— Sim, é bem possível — admitiu ele.
A Srta. Abigail Wendover decidiu, enquanto lutava com suas emoções, que um dos piores traços da personalidade do Sr. Miles Calverleigh era a sua capacidade detestável de lhe provocar o riso nos momentos mais inoportunos. Sendo uma mulher resoluta, dominou-se.
— Mas se lembra de que a amou, e não creio que vá querer que a filha de Celia... se torne vítima de um caçador de dotes, mesmo que ele seja o seu sobrinho!
— Não. Não que eu tenha considerado a questão, mas não desejo a ninguém se tornar vítima de um caçador de dotes. Ou, agora que penso nisso, de qualquer outra pessoa predatória. Mas sou da opinião de que talvez esteja enganada a respeito do meu sobrinho tolo. Ele pode simplesmente ter se apaixonado por ela, sabe? Sem dúvida alguma, a moça é uma perfeição!
Ela ergueu o olhar depressa, incitada por esse elogio à sua protegida.
— Ela é muito bonita, não é?
— Ah, incontestavelmente! O que me leva a supor que talvez o coitado esteja apaixonado por ela! Ela franziu o cenho por um momento, antes de dizer, decidida:
— Vai ser em vão, se estiver. Ele não é uma pessoa digna dela! Alem disso, ela é jovem demais. Certamente sabe disso!
— Não, não sei. A mãe dela tinha mais ou menos 17 anos quando se casou com Rowland.
— O que prova que era jovem demais! Ele abriu um sorriso largo, mas disse:
— Talvez esteja certa, mas não pode esperar que eu concorde Afinal, tentei me casar com Celia!
— Sim, mas não passava de um menino, na época. Deve ser mais sensato hoje!
— Muito mais! Sensato o suficiente para não me meter no que não é da minha conta!
— Sr. Calverleigh, é da sua conta!
— Srta. Wendover, não é!
— Então, se não tem nenhum interesse em seu sobrinho, porque pretende se demorar em Bath? Por que espera que ele retorne!
— Eu não disse que não tinha nenhum interesse nele. Admito que achava que não tinha, mas isso foi antes de saber que estava cortejando sua sobrinha. Não pode negar que é uma situação muito interessante.
— Excessivamente divertida, também!
— Sim, é o que acho.
Ela replicou em desespero: — Vejo que falar com o senhor é o mesmo que falar com uma porta!
— Como a senhora fala coisas estranhas! Acha que portas são menos dadas a respostas do que enguias?
Ela não pôde deixar de sorrir, mas falou com gravidade:
— Prometa-me uma única coisa, pelo menos, senhor. Mesmo que não queira intervir nesse caso infeliz, prometa-me que não o promoverá.
— Ah, prontamente. Sou um mero espectador.
Ela foi obrigada a se satisfazer com isso, entretanto, disse em um tom de certa forma ameaçador: — Confio na sua palavra, senhor.
— Pode confiar com segurança. Não vou sentir nenhuma tentação em quebrá-la — assegurou ele, animado.
Achando que essa observação demonstrava que ele era incorrigível, Abby continuou a andar em silêncio, tentando descobrir por que se permitia conversar com ele, e ainda por cima concordava que a acompanhasse. Nenhuma resposta satisfatória se apresentou, pois, embora ele parecesse impermeável a desfeitas, ela sabia que poderia ter ignorado suas investidas se tivesse leito qualquer esforço nesse sentido. Após uma tentativa desanimada de se convencer de que suportava a companhia e a conversa com o único objetivo de conquistar seu apoio para a sua cruzada contra seu sobrinho, se viu na necessidade vergonhosa de admitir que gostava das duas coisas, e — o que era pior! — teria ficado consideravelmente desapontada se ele anunciasse a intenção de deixar Bath em um futuro imediato. Só podia supor que era sua diferença dos outros cavalheiros, de suas relações, que estimulava seu senso de humor e tornava possível tolerá-lo, pois não havia realmente nada mais que o tornasse aceitável: não era nem bonito nem elegante, suas maneiras eram descuidadas, e sua moralidade, inexistente. Era, precisamente, o tipo de pessoa desengonçada de quem as investidas não seriam encorajadas por nenhuma dama de alta linhagem, educação e decoro. Não tinha nada que o recomendasse, a não ser o sorriso, e ela era certamente velha demais e tinha bom senso suficiente para não se deixar iludir por um sorriso, por mais atraente que fosse. Mas assim que chegou a essa conclusão, ele falou algo, ela relanceou os olhos para ele, e se deu conta de que tinha superestimado tanto sua idade quanto seu bom senso. Ele estava sorrindo, e, por mais que se esforçasse, ela não conseguiu deixar de sorrir de volta. Era quase como se existisse um elo entre eles, retesado pelo sorriso daquele homem. Em repouso, sua face era severa, mas o sorriso a transformava. Os olhos perdiam a expressão fria, cínica aquecendo-se com o riso, e apresentando, além da diversão, um aspecto indefinível de compreensão. Ele fazia troça, mas não de maneira grosseira; e quando a desconcertava, seus olhos sorridentes transmitiam tanto simpatia quanto divertimento, pensou Abby, o pior era que ela partilhava disso. Ele parecia acho que eram espíritos afins, e a suspeita perturbadora de que ele tinha razão a fez olhar à frente resolutamente, dizendo:
— Sim, senhor? O que disse?
Logo percebendo o tom repressivo em sua voz, ele replicou docilmente: — Nada, posso lhe assegurar, a que pudesse fazer a menor objeção! Apenas gostaria que me dissesse. Ao que a senhorita virou cabeça e olhou para mim de uma maneira tão encantadora que o resto todo desapareceu de minha mente! Como diabos conseguiu escapar do casamento em todos os incontáveis anos de sua vida?
Uma covinha impossível de ser escondida deixou-se entrever, mas ela respondeu, pedante: — Estou muito satisfeita em permanecer solteira, senhor. Ocorreu-lhe, então, que isso poderia levá-lo a supor que sua mão nunca havia sido pedida em casamento, o que, por alguma razão que lhe era desconhecida, foi um equívoco intolerável, e ela destruiu qualquer que fosse o efeito amenizador que sua resposta digna pudesse ter exercido sobre ele, acrescentando: — Mas não suponha que não recebi várias propostas excelentes!
Ele riu para si mesmo. — Não supus!
Enrubescendo, ela falou, tentando recuperar a dignidade perdida: — E se era isso que queria que eu...
— Oh, não! — interrompeu ele. — Até a senhorita sorrir tão encantadoramente, achei que sabia. Mas não é uma garota maliciosa experiente... não é mesmo!
— Oh! — Abby perdeu o ar. — Maliciosa experiente? Oh, o senhor... o senhor... Não sou nada disso!
— Foi o que eu disse — salientou ele.
— Não disse! O senhor disse... disse... — Seu senso de ridículo socorreu-a e ela caiu na risada. — Criatura odiosa! Agora, por favor, pare de zombar de mim! O que quer que eu lhe diga realmente?
— Ah, eu estava apenas procurando informação! Não me lembro de ter visitado Bath no meu tempo de garoto, de modo que conto com a senhorita para me informar as normas e etiquetas... que interessam a alguém desejoso de se introduzir na sociedade.
— O senhor? — Abby lançou um olhar surpreso para ele.
— Mas é claro! Como posso travar relações com... — Fez uma pausa, deparando-se com um fulgor perigoso nos olhos dela, e então prosseguiu, suave: — Lady Weaverham e sua amável filha!
Ela se conteve. — Não, realmente! Que distraída sou! Lady Weaverham tem várias filhas amáveis, também.
— Meu bom Deus! Todas têm rosto rechonchudo?
— Hã... um pouco! — admitiu ela. — Vai poder julgar por si próprio, se pretende comparecer aos bailes. Receio que não haja nenhum baile ou concerto programado até novembro nos Lower Rooms. Mas ali encontrará um lugar muito agradável durante o dia, e espero que aconteçam algumas palestras. Todas as quartas-feiras há concertos nos New Rooms. E também há a Harmonic Society — prosseguiu ela, animando-se com a coisa. — Cantam cânones e madrigais, e se reúnem no White Hart. Pelo menos durante a temporada, mas não tenho certeza...
— Vou me encarregar de descobrir a data da primeira reunião. Nesse meio-tempo, moça bonita, isso basta!
A Srta. Wendover, por um momento, entreteve-se com a ideia de passar-lhe uma descompostura por dirigir-se a ela de maneira tão imprópria, mas decidiu que seria mais sábio ignorara impertinência.
— Não gosta de música, senhor? Ah, talvez prefira as cartas! Há duas salas de carteado no New Assembly Rooms. Uma delas é um octógono, geralmente muito admirada. Mas devo avisá-lo que o jogo de azar não é permitido, ou nenhum outro jogo ilegal. E não pode, de maneira nenhuma, jogar cartas aos domingos.
— Está me intimidando! A propósito, quais são os jogos ilegais que mencionou?
— Não sei — respondeu ela com franqueza —, mas é o que está dito nas Normas. Espero que não adiante iniciar uma partida de pôquer, ou qualquer coisa dessa natureza.
— Não seria de admirar, se estiver certa — concordou ele, com extrema gravidade. — E como sou admitido nesse estabelecimento?
— Ah, deve escrever seu nome no livro do Sr. King, se quiser se tornar um contribuinte! Ele é o mestre de cerimônias, e o livro é guardado no balneário. Bailes a rigor são às segundas-feiras, carteados às terças, e bailes à fantasia, às quartas. Os bailes têm início logo depois das 19 horas e se encerram pontualmente às 23. Só são permitidas quadrilhas nos bailes a rigor, mas há, em geral duas danças de cotilhão nos bailes à fantasia. Ah, e se paga 6 centavos pelo chá!
— E ainda dizem que Bath é um lugar atrasado! Parecem adorar os prazeres sociais. O que acontece, a propósito, se batem 23 horas no meio de uma contradança?
Ela riu. — A música para! É a norma! Tinham chegado a Sydney Place, e ela parou em frente à casa e estendeu a mão.
— É aqui que moro, por isso me despeço do senhor, Sr. Calverleigh. Muito obrigada por me acompanhar e desejo que aprecie sua estada em Bath.
— Sim, se eu não ficar exausto com todas essas festas e diversões que me descreveu. — Ele pegou a mão dela e a reteve, por um momento, em um aperto forte. Sorriu. — Não vou dizer adeus e sim au revoir, Srta. Wendover!
Ela receou que ele insistisse em entrar para conhecer Selina, e ficou aliviada quando não houve essa tentativa, simplesmente esperando até Mitton abrir a porta, depois se afastando com apenas um aceno da mão.
Descobriu, ao subir a escada, que Selina havia progredido para o sofá da sala de estar, e tinha tido a satisfação de receber a visita da Sra. Leavening. Tinha tantas fofocas de Bedfordshire para contar que levou algum tempo até Abby ter a oportunidade de contar que o filho da Sra. Grayshott havia retornado. Foilhe inexplicavelmente difícil revelar que o Sr. Miles Calverleigh o havia trazido para Bath, e quando, depois de responder às perguntas exclamativas da irmã, contou, com a voz um tanto afetada.
Felizmente, Selina ficou surpresa demais para reparar nisso.
— O quê? — exclamou ela. — O tio do pobre Sr. Calverleigh? Aquele de que me falou? Aquele que foi despachado em desgraça? Não está falando sério! Mas por que ele trouxe o rapaz para casa? Achei que o Sr. Balking faria isso!
— Creio que tomou conta dele durante a viagem.
— Deus meu! Afinal, ele não deve ser tão mau e é muito provável que tampouco o Sr. Stacy Calverleigh! A menos, é claro, que ele tenha vindo à procura do sobrinho. Não que haja qualquer coisa a se reprovar nisso. Na verdade, demonstra um sentimento muito digno!
— Bem, não veio! — replicou Abby. — Ele não sabia que o sobrinho esteve em Bath, e não nutre absolutamente nenhum sentimento familiar!
— Então, querida, como pode... Não me diga que o conheceu de verdade!
— Ele passou na casa da Sra. Grayshott quando eu estava lá... e foi muito atencioso me acompanhando até em casa. Tão gótico!
— Não acho nem um pouco gótico — afirmou Selina. — Isso faz com que eu tenha uma boa opinião a respeito dele! Exatamente como tenho do sobrinho, cujas maneiras são tão agradáveis!
— De tudo o que me contou a respeito do sobrinho dele, o Sr. Miles Calverleigh não tem nada que lembre o rapaz! — Abby teve um acesso de riso involuntário. — Não é nem bonito, nem elegante, e suas maneiras são deploráveis!
Selina olhou-a com uma preocupação sincera.
— Querida, estou convencida de que deve estar cedendo ao preconceito, e não devia realmente, se bem que o querido Rowlard sempre dizia que era o seu pecado dominante, mas isso quando você era apenas uma criança, e era perfeitamente compreensível como eu dizia a Rowland, pois não se pode esperar encontrar em cabeças jovens... não, quero dizer cabeças velhas sobre ombros jovens... não que eu esperasse encontrar quaisquer cabeças que fossem sobre ombros, a menos, é claro, que fosse um monstro! Do que sei muito pouco, porque como deve se lembrar, Abby, o querido papai tinha profunda aversão a affairs, e nunca permitiria que nos envolvêssemos em um. Mas o que eu disse para que ria tanto?
— Nada, Selina! — Abby tentava falar enquanto ria. — Pelo,pelo contrário! Di-disse-me que apesar de todos os meus defeitos não sou um monstro!
— Querida, você permite que seu amor por gracejos a leve longe demais. Nunca houve nada assim em nossa família — Selina disse em reprovação.
Vencida por essa demonstração confortadora, Abby saiu da sala, ciente do desejo de que o Sr. Calverleigh estivesse presente para partilhar sua diversão.
Selina continuou a especular, de sua maneira divagadora durante todo o jantar, sobre a provável personalidade do Sr. Calverleigh, o que teria feito para merecer ser banido, e o que o trouxera de volta à Inglaterra. Mas a chegada de Fanny logo antes de a bandeja de chá ser trazida deu uma guinada bem-vinda na conversa. Fanny tinha muito a contar sobre as coisas exóticas ou belas que Oliver Grayshott havia trazido da índia, e apesar do interesse de Selina por esculturas de marfim ou metal de Benarel ser moderado, a primeira menção a xales de caxemira e peças de musselina indiana despertou todos os seus instintos de costureira.
Um único minuto de descrição do sari a fez se perguntar quanto tempo levaria para se aventurar a sair, e a exortar Fanny a pedir a Lavinia que não mandasse os tecidos para a modista antes que os tivesse visto.
— Pois sabe, querida, que por mais excelente criatura que a Sra. Grayshott seja, não tem o menor gosto, e que terrível seria se uma coisa tão sofisticada fosse arruinada!
Fanny tinha passado um dia delicioso em Edgar Buildings e pretendia, se suas tias não fizessem objeção, repetir a visita. Lavinia, que era sua melhor amiga, tinha lhe dito como o pobre Oliver estava abatido e deprimido, e havia lhe pedido para voltar, pois fazer brincadeiras com ela e inventar charadas tinha elevado o ânimo do rapaz,
— Por isso creio que eu deveria atendê-la, não acham? — Fanny refletiu. — Não sou eu, particularmente, mas ser obrigado a agir de maneira cordial e animada com uma visita nos faz muito bem quando estamos doentes.
Ela tinha muito pouco a dizer sobre Miles Calverleigh. Estava claro que o único interesse que tinha por ela era por sua relação com Stacy. Disse que não se parecia nada com Stacy; e mencionou, como se pensasse melhor, que ele tinha conhecido bem sua mãe.
Para alívio de Abby, Selina aceitou o que ouviu sem fazer perguntas, vendo nisso mais uma razão para ele não ser tão horrível quanto tinha sido pintado. Tendo decidido que seria tanto inseguro quanto indelicado divulgar a história de Miles Calverleigh e Celia Morval, Abby agradeceu ser poupada de perguntas sobre as circunstâncias sob as quais Miles Calverleigh tinha planejado se tornar íntimo de uma garota que se casara dois meses depois que debutara na sociedade e que tinha vivido, a partir de então, em uma casa senhorial em Bedfordshire.
Recolheu-se ao seu quarto, desejando sinceramente que o Sr. Calverleigh deixasse Bath antes de Selina emergir de seu isolamento autoimposto.