Ovelha Negra
Capítulo IV
Foi preciso um minuto para Abby se recompor e conseguir de falar, e quando o fez não foi de maneira inteiramente apropriada:
— Então eu tinha razão! E é você, aquilo!
Aparentemente se divertindo, ele replicou instantaneamente: — Até eu saber o que é aquilo, reservo-me o direito de defesa.
— O esqueleto no armário! Só que eu disse a Selina que acabaria sendo nada mais do que o esqueleto de um rato!
— Então, mentiu! O esqueleto de uma ovelha negra, se quiser, mas não o de um rato... nem mesmo um rato negro!
A voz dela saiu tremida, pois estava se segurando para não rir. — Não, claro que não! Que... que horrível! Mas como... quando... Por favor, me conte!
— Está me surpreendendo, Srta. Abigail Wendover! Sabe, eu realmente gosto deste nome. Quem sou eu para revelar um segredo que foi tão bem guardado?
— O esqueleto, é claro!
— Mas esqueletos não falam! — ressaltou ele.
Absorta nos próprios pensamentos, ela não prestou atenção nisso, e falou de súbito: — Foi por isso que James ficou tão preocupado! Então, não é típico de James não ter me contado a verdade?
— Exatamente.
— Mas por que George ... Não, ele tampouco sabia! Porque Mary não sabe, embora tenha sempre suspeitado, assim como eu, de que havia algo em relação a Celia que era mantido em segredo. Será que Selina soube? Não tudo, é claro, pois se soubesse, nunca teria encorajado seu sobrinho, teria?
— Ah, não! Ela não teria, e provavelmente Mary tampouco, mas George, acho, é outra história. Esclareça-me: quem são essas pessoas?
Ela hesitou. — Quem...? Ah, perdão! Continuei falando como uma idiota, falando comigo mesma! Selina é a minha irmã mais velha: Moramos juntas em Sydney Place. Mary é a minha irmã seguinte, quer dizer, seguinte em idade. E George Brede é o marido dela. Mas isso não importa! Quando fugiu com Celia?
— Quando ela ficou noiva de Rowland — respondeu ele, como se fosse de se esperar.
— Meu Deus! Está dizendo que a raptou7. — Ela ofegou.
— Não, não me lembro de já ter raptado alguém. — Ele refletiu sobre a questão. — Na verdade, tenho certeza de que não. Uma noiva relutante seria um inferno, sabe?
— Bem, foi o que sempre achei! — exclamou ela, feliz por partilharem a mesma opinião. — Quer dizer, sempre que lia isso em algum romance barato. Evidentemente, se a heroína é uma herdeira, o caso é compreensível, mas... Oh! — Sua voz transmitiu consternação, e, dolorosamente mortificada, ela gaguejou:
— P-perdão! Não sei o que me levou a dizer...
— Não, de jeito nenhum! — tranquilizou-a ele, delicadamente.
— Uma observação muito natural!
— Está querendo me dizer que foi por isso que... que fugiu com Celia? — perguntou, incrédula.
— Não! Mas não pode esquecer que eu era muito jovem naquela época. Crianças raramente são oportunistas. Tudo pelo amor. Nós nos apaixonamos loucamente ou pelo menos achamos que tínhamos nos apaixonado. Sabe, é uma história extremamente doentia. Vamos falar de outra coisa!
— Acho que é uma história triste. Mas não entendo direito como Celia ficou noiva do meu irmão se estava apaixonada pelo senhor.
— Não entende? Devia! Conheceu Morval? Ela negou sacudindo a cabeça.
— Talvez o tenha visto, mas não me lembro. Eu era muito pequena na época. Sei que era um dos amigos mais íntimos do meu pai.
— Então é capaz de fazer uma ideia precisa dele. Eram como unha e carne. O casamento foi feito entre eles. Celia ficou proibida de me dispensar mais do que um cumprimento comum com a cabeça, imagine, eu não era de maneira alguma um bom partido, ela foi obrigada a aceitar a proposta de Rowland.
— Entendo sua submissão à primeira ordem, mas não à segunda! Eu também me submeteria em um caso semelhante. Não é fácil se casar contra a vontade dos pais. Mas ter afeição por um e decidir se casar com outro só porque é a vontade de seu pai, é algo que não entendo! Se Celia estava disposta a fugir com o senhor, deve ter sido uma garota de vontade própria, e não a criatura resignada e obediente que sempre pensamos!
— Ah, não, ela não tinha nem um pingo de força! — replicou ele, tranquilamente. — Era romântica, se bem que certamente dócil. Uma daquelas mulheres bonitas, emocionalmente dependentes que invariavelmente cedem a uma vontade mais forte! Não percebi isso até chegarmos ao ponto crítico e ela se desmanchar em lágrimas. E foi uma coisa muito boa o que ela fez. Poderíamos ter levado o caso adiante, se ela tivesse se mantido firme, eu teria concordado. Não pensava assim na época, é claro, mas nunca estive tão perto de me arruinar. Como ela lidou com Rowland?
Ele tinha anulado todo o fator romântico do caso, mas Abby não conseguia deixar de pensar se sua aparente indiferença não escondia uma mágoa. Abby respondeu à pergunta de maneira reticente:
— Não sei. Não tinha idade para saber. Ela era muito calada, mas nunca demonstrou ser infeliz. Agora vejo que não podia ter amado Rowland, mas sei que o respeitava muito. Isto é confiava totalmente no julgamento dele, e estava sempre repetindo, "Rowland diz" como se fosse um argumento definitivo para qualquer discussão!
O tom ligeiramente ácido com que Abby emitiu essa conclusão o fez rir.
— Uma opinião não partilhada por Abigail Wendover!
— Não! — Os olhos dela estavam inflamados pelas reminiscências. — Não partilhada por mim! Rowland era... — Interrompeu-se, fechando a boca, resoluta.
— Rowland — disse Miles Calverleigh, intervindo prestimosamente para preencher a lacuna que se formara —era um grosseirão pomposo!
— Sim! — Abby perdeu a cabeça por um momento. — Era exatamente isso! O mais presunçoso, valente só quando bebia...!
— Interrompeu-se de novo, depois acrescentou, depressa: — Isso não importa!
— Não para mim... e parece que para Celia tampouco. Não, para ela não, é claro. Sabe, quanto mais penso nisso, mais acho que foram feitos um para o outro! Fico feliz em saber que ela não sucumbiu à melancolia.
O cenho de Abby estava franzido.
— Sim, mas... Rowland sabia da fuga?
— Oh, Deus, sim! — Ele encarou o olhar espantado dela com um sorriso de puro escárnio. — Ora, ora, senhora! Onde foi parar sua sagacidade? Celia era uma herdeira! Considere, além disso, o escândalo que a ruptura do noivado causaria. As pessoas devem ter comentado, e nada seria mais nefasto para um Wendover ou um Morval! O caso tinha de ser abafado, e é preciso reconhecer que foram habilidosos, os quatro!
— Os quatro?
— Sim. Seu pai, o pai de Celia, meu pai e Rowland — explicou ele.
— Respeitabilidade! — falou ela com amargura. — Ah, como detesto isso... esse deus idolatrado por meu pai! Seu pai adorava no mesmo altar?
— Não, o que ele adorava era o bom-tom. A minha conduta não esteve nem um pouco de acordo com a boa educação, de modo que ele ficou feliz com a oportunidade de se livrar de mim, e não posso culpá-lo. Eu era muito caro, entende?
— Pelo que soube, o seu irmão é ainda mais caro! — disse ela.
— E me admira não terem se livrado dele!
Ele sorriu.
— Ah, mas Humphrey era o seu herdeiro! Além do mais, as dívidas dele eram de honra: irrepreensíveis, particularmente quando contraídas em clubes na última moda! Ele costumava frequentar os círculos mais influentes, também, o que eu... hum... não fazia!
— Sem dúvida ele não teria feito nenhuma objeção à carreira ruinosa de seu filho!
— Oh, isso não aconteceu! Estando ele próprio confinado, teria provavelmente feito a maior objeção. No entanto, morreu antes de Stacy atingir a maioridade, portanto nunca saberemos. A julgar por minha própria experiência, Stacy deve ter se endividado em Oxford, mas provavelmente sem se arruinar, a menos, é claro, que fosse um expert regular, o que, pelo que a senhorita me disse, ele não parece ser.
— Esteve em Oxford? — perguntou ela com curiosidade.
— Fui expulso de Oxford, expulso! — replicou ele, afável. Ela se espantou, mas conseguiu dizer, depois de algum esforço.
— O que... quaisquer que possam ter sido seus desatinos da juventude, senhor, acredito que os tenha superado, e... e não consigo pensar que queira que seu sobrinho, o chefe de sua casa, que ele... que ele recupere sua fortuna seduzindo uma moça... oh, uma criança, em um casamento clandestino!
— Mas se o pobre está na miséria, o que mais pode fazer? Ela respondeu entre os dentes:
— Até onde me diz respeito, pode fazer o que quiser, exceto casar com minha sobrinha! Certamente... certamente percebe como, como isso seria um erro!
— Devo dizer que me parece uma idiotice — concordou ele.
— Ele faria melhor caso se interessasse por uma moça que já estivesse na posse de sua fortuna.
— Meu Deus, isso é tudo o que tem a dizer? — gritou ela.
— Bem, o que esperava que eu dissesse?
— Como? Esperava... esperava que fizesse alguma coisa!
— Fizesse o quê?
— Pusesse um fim nesse caso!
— Como?
— Fale com seu sobrinho... diga-lhe... ah, sei lá! Deve ser capaz de pensar em alguma coisa!
— Bem, não sou. Além do mais, por que deveria ser?
— Porque é seu dever! Porque ele é seu sobrinho!
— Vai ter de pensar em razões melhores do que essas. Não tenho a menor obrigação com Stacy, e mesmo que tivesse, não suponho que fosse meu dever fazer isso.
— Sr. Calverleigh, não pode querer que seu sobrinho se degrade a ponto de ficar aquém de qualquer crítica!
— Querer? Não experimento absolutamente nenhum sentimento em relação a essa questão. Na verdade, pouco me importo com o que ele faz. De modo que não espere que eu vá atrás dele para censurá-lo!
— Oh, o senhor é impossível! — gritou ela, enrubescendo.
— É bem provável, mas que eu me dane se vou pregar moralidade para agradá-la! Que papelão não faria! Gosto da maneira como seus olhos faiscam quando está com raiva.
Eles positivamente lampejaram ao ouvir isso. Abby lançou-lhe um único olhar fulminante antes de se virar abruptamente e sair da sala.
Os Leavening foram esquecidos; somente quando chegou a Laura Place foi que se lembrou de que o bilhete tinha sido deixado na escrivaninha. Só podia desejar que fosse encontrado e entregue à Sra. Leavening. A essa altura, sua raiva havia abrandado um pouco, e ela pôde rever o encontro com o Sr. Miles Calverleigh com o ânimo menos exaltado. Afrouxando o passo, prosseguiu seu caminho, entrando na Pulteney Street, tão profundamente absorta que nem reconheceu — aliás, nem mesmo viu — a saudação que lhe foi dirigida da calçada oposta por seu admirador clerical, Canon Pinfold, uma aberração que fez o próprio reverendo examinar com rigor sua consciência, no esforço de descobrir de que maneira poderia tê-la ofendido. Não levou muito tempo para a Srta. Abigail Wendover, que não era do tipo de iludir a si própria, perceber que se sentia estranhamente atraída pelo abominável Sr. Miles Calverleigh.
Sua língua imprudente o condenara a ser uma pessoa indigna de respeito, mas quando se lembrou das coisas que ele havia dito, um acesso de riso repreensível dominou-a. Entretanto uma breve reflexão foi suficiente para fazer suas bochechas corarem. Não era para rir, e ela devia ser, de alguma maneira estranha, depravada por ter sentido, por mais leve que tenha sido, inclinação a rir da enumeração tranquila de suas iniquidades. Sabia que ele tinha sido expulso de Eton; tinha-lhe contado da maneira mais despreocupada possível que havia sido dispensado de Oxford; e agora parecia que tinha culminado suas más ações com a tentativa de se casar em segredo com uma colegial! De modo curioso, essa ruga a chocava menos do que o resto: não devia, ele próprio, ser muito mais velho, e a impressão é que estava loucamente apaixonado. Isso era errado, é claro, mas o pior foi a confissão de seus pecados sem nem um único traço de vergonha. Não os tinha mencionado de maneira presumida, mas como se fossem lugar comum, e como se o divertissem — apesar, da irreverência, pensou ela, mais uma vez sentiu-se forçada a reprimir um riso reminiscente. Quando se lembrou de sua recusa obstinada em intervir para salvar Fanny dos desígnios de seu sobrinho, entretanto, não sentiu a menor vontade de rir, achou aquela atitude imperdoável. Ele negou qualquer afeição por Stacy; e embora certamente não estivesse apaixonado pela recordação de Celia, era razoável supor que ainda sentia uma ternura por ela, o bastante para não ficar totalmente indiferente ao destino da filha dela.
Ao se recordar, exatamente, do final da entrevista com Miles Calverleigh, o desacato e a indignação tomaram o peito de Abby, e chegou a Sydney Place em um estado mental bastante inquieto: sem saber se abominava mais aquele homem por seu detestável cinismo, ou a si mesma por sucumbir a seu encanto depravado, agitada, proferiu em voz alta:
— Não passa de um imbecil! — Uma apóstrofe, dirigida a si mesma, que descompôs Milton, que abriu a porta naquele momento inoportuno.
Informada por ele de que a Srta. Butterbank estava com Selina, ela retirou-se para o próprio quarto. Quando saiu, tinha, de certa maneira, recuperado sua equanimidade costumeira e decidido (com fundamento indefinido) que seria mais sensato não ceder ao primeiro impulso, que teria sido despejar a história do seu encontro acidental, pela manhã, nos ouvidos de Selina. Não tocou no assunto. Apenas assegurou a Selina que deixara um bilhete na York House para ser entregue à Sra. Leavening assim que chegasse.
Afinal, um dos criados fatalmente o encontraria e daria, sem duvida, à Sra. Leavening.
Fanny, retornando da expedição a tempo de jantar, também parecia ter recobrado a equanimidade: circunstância que teria gratificado Abby se a garota não tivesse revelado, de maneira espontânea, que a Srta. Julia Weaverham, incluída no grupo a cavalo, tinha lhe contado da carta tão cortês que sua mãe recebera do Sr. Stacy Calverleigh e que anunciava seu retorno a Bath no fim da semana.
— E quando o conhecer, vai entender por que... não vai, tia Selina?
Desconcertada com o olhar brilhante e solícito lançado para ela, Selina se emaranhou em frases desconexas, das quais foi salva pela irmã, que afirmou calmamente que ficaria feliz em conhecer o Sr. Calverleigh, acrescentando que Selina não devia se esquecer de mandar-lhe um convite para o sarau que pretendia organizar Isso, ao mesmo tempo que levou Fanny a dirigir-lhe um sorriso tímido e grato — o que a fez se sentir uma traidora —, surtiu o efeito desejado de atrair Selina para uma discussão exaustiva sobre as pessoas a serem convidadas para conhecerem os Leavening, e as providências que precisariam ser tomadas para entretê-los. Nada mais foi dito a respeito de Stacy Calverleigh, mas Abby foi para a cama, mais tarde, com uma depressão que não lhe era comum, e passou grande parte da noite matutando sobre um problema que aumentava e se tornava mais insolúvel a cada minuto.
Despertou não muito revigorada, mas, ao se sentar à penteadeira, ocorreu-lhe que havia uma pessoa capaz de lhe dar um conselho valioso. A Sra. Grayshott, mulher de juízo superior, não somente tinha a afeição de Fanny, como também era mãe de uma menina bonita e supostamente saberia melhor do que uma tia solteirona como lidar com uma garota vivendo as aflições do primeiro amor. De qualquer maneira, não faria mal nenhum consultá-la, pois Abby achava que a Sra. Grayshott seria um repositório seguro de confidências, sentia necessidade de tal alívio.
Portanto, disse a Fanny que a acompanharia naquela manhã no lugar da Sra. Grimston, à Queen's Square, e que se ocuparia enquanto ela lutava com a gramática italiana sob a égide da Srta. Trimble, fazendo algumas compras necessárias. Depois disso, faria uma visita à Sra. Grayshott e ficaria com ela até Fanny e a Srta Lavinia Grayshott serem liberadas da aula de italiano e poderem de maneira perfeitamente apropriada, fazerem companhia uma outra até Edgar Buildings.
Fanny recebeu a notícia com entusiasmo: — Ah, que bom! Aí vou poder comprar um novo par de meia de seda na Milsom Street! Quis fazer isso na sua ausência, mas minha tia estava se sentindo mal para fazer compras, e nada me convenceria a ir de novo com a Sra. Grimston! Bem, sabe como ela é, Abby! Se não diz que aquilo que queremos exatamente não é conveniente, como se ainda fôssemos menininhas, nos constrange dizendo que é caro demais e que sabe onde podemos comprar a mesma coisa pela metade do preço!
Edgar Buildings, na George Street, localizava-se exatamente na parte elegante da cidade, que se estendia para o norte da parte mais alta da Milsom Street até as colinas exclusivas de Upper Camden Place. Sem encontrar acomodações aceitáveis para a sua irmã no distrito igualmente exclusivo que se situava do outro lado da ponte e incluía Laura Place. Great Pulteney Street e Sydney Place, o Sr. Leonard Balking teria escolhido, se tivesse consultado somente o seu próprio prazer, instalar a Sra. Grayshott com estilo, ali, mesmo alugando uma casa imponente; mas, além de sua profunda afeição por ela, tinha muito bom senso e percebeu que uma casa grande seria um fardo para ela, e a longa subida a Camden Place não era nada indicada para uma inválida. Portanto instalou-a no Edgar Buildings, de onde poderia visitar todas as melhores lojas e, sem exaustão, caminhar até o balneário ou ao Banho Privado, na Stall Street. Depois de condenar como contramão um grupo de apartamentos que nomeou como desconfortáveis, teve a sorte de descobrir um apartamento no primeiro andar que considerou tolerável e todos descreviam como bonito. (Quase todas as acomodações em Bath eram apartamentos, e na melhor parte da cidade consistiam, geralmente, de quatro ou cinco cômodos; pessoas que queriam somente dois cômodos eram obrigadas a procurar em um bairro menos elegante ou a suportar todas as desvantagens de uma das várias pensões de Bath.
O apartamento da Sra. Grayshott era um dos mais espaçosos, com quartos para ela, sua filha, sua criada e algum visitante ocasional. Além disso, havia uma grande sala de estar e uma pequena sala de jantar. A Sra. Grayshott havia insistido com o irmão que ela e Lavinia poderiam ficar perfeitamente confortáveis em acomodações mais modestas, mas foi silenciada por ele, que retrucou simplesmente:
— Magoa-me profundamente quando fala assim, minha querida. Você e seus filhos são toda a família que tenho, e certamente me permitirá ser seu protetor, não?
Desse modo, a Sra. Grayshott, cujas circunstâncias eram aflitivas, Se permitiu ser instalada em acomodações invejadas por muitos de seus conhecidos; e já que não fazia segredo do fato de dever sua evidente riqueza à generosidade do irmão, somente pessoas de má índole, como a Sra. Ruscombe, diziam que era estranho que uma viúva pobre pudesse viver com tanto conforto.
A Srta. Abigail Wendover, admitida no edifício pelo zelador responsável, foi informada de que a Sra. Grayshott estava em casa, e quando fez menção de subir a escada, o homem acrescentou:
— E o Sr. Oliver Grayshott também está lá, senhora! Chegou ontem! Quase desfaleci, e é de admirar que a Sra. Grayshott não tenha sofrido um espasmo! Mas, como dizem, a alegria nunca mata!
Essa notícia fez Abby se deter, sentindo que sua visita era inoportuna. Mas, quando estava para ir embora, ouviu seu nome, ao olhar para cima, viu a Sra. Grayshott sorrindo e a chamando:
— Suba, Abby! Eu a vi da janela e imaginei que não fosse ficar depois de saber o que aconteceu! Oh, querida, uma surpresa tão maravilhosa! Ainda mal posso acreditar que o tenho comigo de novo!
— É maravilhoso! — respondeu Abby afetuosamente. — Estou tão feliz... tão feliz pela senhora! Mas não vai querer receber visitas aborrecidas pela manhã!
— Você nunca seria uma delas! Tive uma, na pessoa da Sra. Ancrum, mas espero que ela logo se despeça, porque quero muito que conheça Oliver. E também quero lhe contar um fato surpreendente... Mas isso vai ter de esperar até nos livrarmos da Sra. Ancrum!
Enquanto falava, estendeu a mão, mas quando Abby pôs o pé na escada, chegaram mais duas visitas: Lady Weaverham acompanhada da Srta. Sophia Weaverham.
A fuga era impossível; a Sra. Grayshott não teve outra coisa a fazer a não ser pedir às recém-chegadas que subissem. Lady Weaverham, uma mulher extremamente robusta, irradiando jovialidade enquanto subia e garantindo, ofegante, à anfitriã que não se demoraria mais de um minuto, mas que ao saber do retorno em segurança de seu filho, tinha achado que o mínimo que podia fazer era passar por ali para felicitá-la.
— E aqui está a Srta. Wendover, que veio com a mesma intenção, tenho certeza! — Ela fez uma pausa para recuperar o fôlego e estendeu a mão em uma luva de pelica cor de lavanda. — Querida, como vai? Não que eu precise perguntar, pois vejo que está viçosa, e se não comprou este chapéu encantador em Londres, pode me chamar de apalermada! O que Sir Joshua diz que sou mesmo. Não sou nenhuma criança, juro, e posso reconhecer algo elegante quando vejo! — Ela examinou a Sra. Grayshott com seus pequenos olhos chamejantes. — E está com uma aparência esplêndida, que não é de se admirar! Eu estaria assim, se meu Jack me tivesse sido devolvido quando eu estava prestes a encomendar minhas roupas de luto! Agora me diga, como ele está?
— Não tão em forma quanto eu desejaria — replicou a Sra. Grayshott, ajudando-a a subir o resto dos degraus —, mas verá como vai se recuperar rápido! Achou que lhe apresentaria um esqueleto?
Se o Sr. Oliver Grayshott não era exatamente um esqueleto, certamente era um rapaz muito magro; e quando se levantou da cadeira para cumprimentá-las, Abby viu que era também muito alto. Suas feições eram aquilinas, tinha olhos aguçados, uma boca expressiva, e um certo humor por baixo da gravidade de sua expressão. Achou, ao apertar sua mão, que parecia mais velho do que seus 22 anos, mas talvez sua estada desastrosa na Índia fosse a responsável por sua face encovada e as pequeninas rugas no canto dos olhos. Suas maneiras eram seguras, mas apresentavam um pouco da timidez natural de um rapaz de educação estrita. Ele respondeu à quantidade de perguntas e exclamações de Lady Weaverham com a cortesia de um homem experiente, mas traiu sua juventude em um breve rubor ao recusar, gaguejando, seu pedido para que se deitasse no sofá.
Achando que uma matrona loquaz era o suficiente para um inválido, Abby se incumbiu de encetar uma conversa com a Sra. Ancrum, quase suplantando uma visitante como Lady Weaverham, falando sobre trivialidades. Estava escutando, com um falso ar de interesse, um relato das complicações sofridas no parto do primeiro neto da Sra. Ancrum, confiadas a ela a meia-voz, quando a porta se abriu e o Sr. Calverleigh foi anunciado.
Sobressaltada, Abby olhou rapidamente por cima do ombro, pensando por um instante ter escutado errado. Mas não tinha. Em pé, no limiar da porta, estava o Sr. Miles Calverleigh, vestido com tanta negligência quanto ao chegar na York House no dia anterior, e completamente à vontade. Seus olhos relancearam em volta da sala e se detiveram por um momento no rosto de Abby, e ela achou que se estreitaram na suspeita de um sorriso, mas ele não deu outro sinal de reconhecê-la. A Sra. Grayshott e Oliver se levantaram, e o rapaz exclamou: — Senhor! — O tom foi de satisfação.
A Sra. Grayshott avançou com as duas mãos estendidas em um gesto impulsivo de boas-vindas.
— Sr. Calverleigh, que gentileza! — exclamou ela. — Está me dando a oportunidade de reparar a omissão de ontem!
— Estou? — disse ele. — O que houve?
Ela sorriu. — Deve saber muito bem que a forte emoção me impediu de encontrar as palavras para expressar minha gratidão!
— Por me desfazer desse jovem magricela na sua porta? Não esperava ser agradecido por isso!
Ela riu.
— Não? Bem, não vou deixá-lo constrangido dizendo-lhe como estou profundamente agradecida! Direi, então, somente às minhas amigas. Lady Weaverham, permita-me apresentar-lhe o Sr. Calverleigh, Sr. Miles Calverleigh! — Ela esperou, enquanto ele fazia uma mesura com uma elegância casual, e seus olhos encontraram os de Abby por um momento carregado de significado, antes dela prosseguir. Encerrou a apresentação dizendo: — Preciso informá-las que o Sr. Calverleigh é o nosso anjo da guarda! Se não fosse sua imensa generosidade eu não teria meu jovem magricela devolvido ontem... talvez nunca!
— É verdade, mamãe — interveio o filho —, mas o está deixando embaraçado! Cuidado para ele não fugir!
— De jeito nenhum! — retrucou o Sr. Calverleigh. — Nunca conquistei mais gratidão com menos esforço! Prossiga, senhora! — Enquanto falava, fez Oliver voltar a se sentar, encerrando eficazmente os elogios da Sra. Grayshott sentando-se ao lado do rapaz e lhe perguntando se se sentia pior por causa da viagem do dia anterior. Oliver mal teve tempo de responder que se sentia cheio de energia e Lady Waeverham já exigia sua atenção, dizendo como estava encantada em conhecê-lo e como tinha gostado de seu sobrinho.
— Um rapaz tão amável, e que elegância! Tenho certeza de que conquistou nós todos!
— Não, verdade? — replicou ele, com um sorriso tão afável quanto o dela. — Todos, senhora?
Ao que tudo indicava, cega ao brilho trocista nos olhos do Sr. Calverleigh quando encontraram os seus rapidamente, Abby ferveu de indignação. Somente a lembrança de ter combinado com Fanny de encontrá-la no Edgar Buildings impediu-a de seguir o exemplo da Sra. Ancrum, que se levantou para se despedir. Estava evidente, pelo que a Sra. Grayshott dissera, que ele devia ter acompanhado Oliver desde Calcutá e igualmente evidente que, desse modo, conquistara o coração agradecido da viúva. A Sra. Grayshott o tinha chamado de anjo da guarda, o que teria feito Abby rir, se não tivesse ficado tão irritada. Talvez ele tivesse sido naturalmente generoso com Oliver, mas estava longe de ser um anjo, e Abby teria sentido grande prazer em dizer à Sra. Grayshott como ela estava enganada. Porém por mais detestável que ele fosse — e nunca tanto quanto nesse momento, quando estava tão obviamente gostando de seu transtorno —, esse pensamento era apenas um sonho melancólico. Não haveria nenhuma divulgação da natureza indecorosa de seu passado sem correr perigo, pois uma vez conhecido, ou mesmo suspeitado, que ele era o que o Sr. George Brede chamou de sujeito não confiável não se podia saber quanto mais os mexeriqueiros poderiam descobrir. Além disso, seria algo vil de se fazer. Fofoqueiros eram odiosos, e não se podia esquecer que ele pagara por seus atos da juventude com vinte anos de exílio. Seria, pensou Abby, improvável ele ter mudado seu modo de vida.
A Sra. Grayshott retornou à sala depois de ter acompanhando a Sra. Ancrum até a escada, sentou-se ao lado de Abby e disse baixinho: — Deveria ter-lhe contado. Percebi que foi pega de surpresa.
— Sim, mas não tem importância — tranquilizou-a Abby.
A Sra. Grayshott pareceu querer falar mais, porém sua atenção teve de se desviar para Lady Weaverham, e não tiveram outra oportunidade de conversarem em particular, pois, alguns minutos depois, a chegada da jovem da casa com a Srta. Fanny Wendover desviou a atenção de todos.
Entraram rindo de alguma piada não revelada e formavam um belo quadro: Lavinia, uma morena bonita, de olhos castanhos inocentes e um sorriso tímido, provendo Fanny de um excelente contraste. Muito loura, as belas feições emolduradas por um chapéu de palha Villager com fitas azuis como seus olhos, Fanny causou um impacto instantâneo em pelo menos um dos presentes: o jovem Sr. Grayshott, que se levantou olhando para ela, aparentemente enfeitiçado, até a mãe tirá-lo do transe, ele levar um pequeno susto, enrubescer terrivelmente e se adiantar para apertar a mão de Fanny.
Abby observou isso sem surpresa. Raramente Fanny não provocava admiração, e hoje ela estava particularmente graciosa. Por instinto, Abby relanceou os olhos para o Sr. Calverleigh, perguntando-se qual seria a reação dele diante da semelhança da garota com a mãe, que era forte o bastante para abalá-lo. Se abalou, ele não deu o menor sinal. Examinou Fanny criticamente e quando a Sra. Grayshott o apresentou a ela, o coração de Abby quase parou ao ouvi-lo dizer, enquanto pegava a mão de Fanny:
— Como vai? Então é a filha de Celia Morval! É um prazer conhecê-la, conheci sua mãe muito bem.