Ovelha Negra
Capítulo XIV
A relação, que se iniciara tão promissoramente, amadureceu depressa, mas as dificuldades previstas pelo Sr. Stacy Calverleigh logo começaram a aumentar. Entre as paredes do White Hart, era fácil fazer a corte; fora do hotel, tornou-se perigoso. Ele sabia que seria assim; e seus pressentimentos foram confirmados quando (a pedido dela) acompanhou a Sra. Clapham ao balneário, e instantaneamente atraiu a atenção nada bem-vinda. Havia sido impossível evitar a aparição pública. "Oh, Sr. Calverleigh!", tinha falado a viúva com uma afetação de timidez, "Por favor, venha comigo! Não conheço ninguém e isso é tão constrangedor!" Ele tinha sido obrigado a acompanhá-la e, até mesmo, a apresentar as damas de suas relações que ele não podia evitar; mas apesar de achar que tinha se saído muito bem ("Senhora, deixe-me apresentar a... Sra. Clapham. É sua primeira vez em Bath e... está hospedada no White Hart!"), estava ciente de ter-se tornado objeto de todo tipo conjectura curiosa. Deu-se conta, tarde demais, de como tinha sido tolo ao se dedicar tão exclusivamente à Srta. Fanny Wendover, e fez o que pôde para minorar a suspeita ao responder a pergunta de uma matrona, famosa por suas maneiras abruptas, de "Quem é essa Sra. Clapham?" com seu ar atraente de franqueza pueril:
— Não faço a menor ideia, senhora, mas é perfeitamente respeitável, acho! Sim, sei o que está pensando, mas ela não merece ser desrespeitada! Sei que talvez se vista com certo exagero, mas... mas é extremamente amável!
A expressão galhofeira que acompanhou essas palavras dizia tudo, mas ele não teve certeza de ter sido compreendido. Deu graças a Deus pelos escrúpulos da Sra. Clapham proibirem-na de frequentar bailes, e desejou que isso incluísse concertos. Mas a Sra. Winkworth dissera que concertos eram irrepreensíveis, e ele foi obrigado a aceitar, com todos os sinais de prazer, o convite para acompanhar as duas mulheres a um evidentemente irresistível que prometia a apresentação, por quatro instrumentistas reputados, do Quarteto em Sol Menor, de Mozart. O Sr. Stacy Calverleigh não era musical e tampouco, a julgar por suas observações infelizes, a Sra. Clapham, mas quando entrou na sala de concerto de braço dado com a viúva, seus olhos suspeitos tiveram a impressão de que nenhum residente de Bath com que mantinha relação partilhava de sua indiferença em relação à música clássica. A sala estava lotada.
Percebeu, quando acompanhava as duas mulheres passando pelos assentos até as cadeiras oferecidas a pessoas tão ricas quanto a Sra. Clapham, que toda a população distinta de Bath estava presente. Ali estavam a Sra. Grayshott com os filhos, e, ao relancear os olhos na sua direção, Stacy se defrontou com um olhar demorado e grave de Oliver. Isso o enfureceu internamente, pois percebeu nele desprezo e reprovação. Pensou que não ia demorar para o intolerável frangote encontrar uma maneira de se comunicar com Fanny; e se perguntou se havia motivo para recear que, quando se vissem, ela fizesse uma cena desagradável. Passou a maior parte da noite tentando descobrir uma maneira de afastar a Sra. Clapham de Bath. Somente quando saíram dos Rooms para uma chuva miúda, lhe ocorreu uma possível solução.
Então, quando a Sra. Clapham, de maneira desesperançada, perguntou se estava sempre chovendo em Bath, ele expressou surpresa por ela não ter preferido ir para Leamington Priors, em vez de Bath. Sem dúvida ela devia saber que se tratava de um spa que desfrutava de um clima notoriamente agradável, e que oferecia aos visitantes, além das águas benéficas, todo tipo de amenidades, dos Pleasure Gardens as Assembly Rooms, tão elegantes quanto quaisquer outros na região. Não, a Sra. Clapham, estranhamente, nunca tinha estado lá, apesar de ficar tão perto de Birmingham. Acusou-o brejeiramente de querer se livrar dela.
— Isso, senhora, é um absurdo que não merece e não terá resposta! — replicou ele. — Para falar a verdade, tenho uma séria intenção de ir lá!
— Penso se... — disse a Sra. Clapham com recato. — Será que beber as águas de lá me faria bem?
Foi uma pergunta retórica, pois nunca tendo visitado o spa, e não fazia a menor ideia de porque as Águas de Leamington eram consideradas benéficas, e não poderia responder à pergunta. Tampouco, quando procurou, no dia seguinte, um guia para turistas das principais estações de águas e de banhos de mar, ficou mais bem informado. O guia não era reticente no assunto: apresentou-lhe uma lista das doenças para as quais as águas eram consideradas eficazes, mas como consistiam de distúrbios confrangedores, tais como constipação intestinal obstinada, tumores escrofulosos, inchaços do joelho, e verminoses, o Sr. Calverleigh só pôde torcer para que a Sra. Clapham não investigasse a fundo a questão.
Ele disse à Sra. Winkworth que Bath era um viveiro de escândalos, alertando-a, com sua risada pronta, que bastava um homem solteiro oferecer o braço a uma mulher solteira ao percorrer uma única rua para desencadear comentários de que ele a estava cortejando. Isso, ele esperava, frustraria qualquer fofoqueiro que tentasse convencê-la de que ele era um namorador atrevido e leviano.
A Sra. Winkworth tinha se abrandado em relação a ele, e deixara de lhe dirigir olhares desconfiados. Até mesmo pediu desculpas por ter sido, como ela mesma disse, um pouco dura quando o havia conhecido.
— O senhor não se admiraria de minha atitude se soubesse quantos oportunistas e flagrantes caçadores de dotes tive de afastar, Sr. Calverleigh — explicou ela. — Às vezes desejo não ter concordado em viver com Nancy, quando Clapham morreu, mas a conheço desde que era pequena, e não tenho coragem de lhe dizer não. Aliás, como ninguém nunca teve, uma pena! Não que ela não seja uma coisinha doce, mas permite que qualquer tratante se aproxime, já que não tem nenhum senso prático. E quanto a levar jeito para gerir negócios... nem é preciso falar!
— Acredito que seus contadores e advogados providenciarão para que ela não desperdice a fortuna — comentou Stacy.
Mas a Sra. Winkworth bufou: — Sim, acho que é o que fariam, se ela tivesse algum!
Parecia que o Sr. Clapham tinha morrido deixando tudo o que possuía para a sua amada esposa em um testamento redigido em um pedaço de papel qualquer. Uma aberração que a Sra. Winkworth atribuía em parte à sua morte súbita, e em parte à sua estupidez.
— E desafio qualquer um a me indicar um homem de negócios mais obstinado! — continuou ela. — Bem, mas, como dizem, ninguém é mais tolo do que um velho tolo.
Inevitavelmente, foi a Srta. Butterbank quem levou a Sydney Place a notícia da chegada da Sra. Clapham a Bath. Foi capaz de dizer à Srta. Wendover quantas vezes o Sr. Stacy Calverleigh havia sido visto na companhia da viúva, quantos baús de roupas ela trouxera, e foi, até mesmo, capaz de revelar, com um sussurro indignado, que ela jantara duas vezes com ele na table-d'hôtel, e que diziam que ele tomava chá com ela, em sua sala particular, todas as noites.
— O que não consigo acreditar! — disse Selina a Abby. — Não que eu esteja dizendo que a pobre Srta. Butterbank não é uma mulher confiável, mas pode ter certeza de que foi mal informada.
Abby tinha pouco tempo livre para fazer visitas, mas encontrara, por acaso, a Sra. Grayshott no farmacêutico, alguns dias antes, e havia escutado dela um relato menos empolado do caso.
— Uma viúva rica! — exclamara ela. — Nada poderia ser melhor! Queria que ele pudesse fugir com ela amanhã!
Abby não tinha mencionado o assunto com Selina, mas agora o comentou: — Acredito que seja verdade... que Calverleigh agora esteja fixando seu interesse nessa Sra. Clapham. Pelo menos, a Sra. Grayshott me falou nisso um ou dois dias atrás, mas ela não pode estar tão bem informada quanto a Srta. Butterbank, pois não mencionou o chá nem a table-d'hôtel. Querida, por que está tão consternada? Não vai continuar querendo que ele se case com Fanny, é claro!
— E quando penso na pobre Fanny... se for verdade, não que eu esteja completamente convencida, porque provavelmente isso não passa de calúnia, e imploro que não diga uma palavra disso a ela!
— É claro que não! Mas vai demorar para descobrir, pobrezinha! Talvez não lhe provoque um choque tão grande quanto receamos. Deve ter notado, Selina, que entre todos os buquês e cachos de uvas que foram enviados por seus admiradores, somente um que tinha o cartão do jovem Calverleigh, e ele só veio uma única vez ver como ela estava. Se você não reparou, estou convencida de que ela sim. Fanny não fala nada, mas é doloroso ver como procura ansiosamente o cartão de cada buquê que é levado ao seu quarto, e a sua expressão quando descobre que é somente de Oliver... ou Jack Weaverham... ou Peter Trevisian!
A Srta. Abigail Wendover parecia cansada, e com razão. A doença repentina de Fanny havia sido grave; a febre persistira por mais tempo do que, até mesmo, o Dr. Rowton, de maneira pessimista, havia previsto; e embora já pudesse se deitar no sofá da sala por algumas horas, diariamente, e até mesmo receber visitas de suas amigas mais íntimas, sua temperatura ainda tendia a aumentar ao cair da tarde, e era evidente que estava bastante enfraquecida. O grosso dos cuidados caíra nas costas de Abby, pois Fanny não conseguia suportar a assistência com gestos bruscos da Sra. Grimston. Queixava-se de que as mãos da criada eram rudes, que o chão tremia cada vez que ela pisava, que não conseguia chegar perto sem bater na cama, e que nunca parava de resmungar e reclamar. Essas queixas, se reais ou imaginárias, tornavam-na irritadiça, irrequieta e recalcitrante. Ela regredira à infância, gritando:
— Quero Abby — E Abby, como sempre fizera, respondia instantaneamente.
Não, Selina não queria isso, mas era tão terrível, tão aflitivo pensar que um rapaz de maneiras tão agradáveis acabasse se revelando um monstro de duplicidade! Nunca fora tão enganada em toda a vida!
Era razoavelmente dócil com sua tia, mas a atenção constante junto com um certo grau de apreensão estavam começando a deixar suas marcas. Selina, lastimando a fragilidade de sua própria constituição, que a impedia de dividir a tarefa de cuidar de Fanny, disse a Abby que ela estava parecendo realmente acabada e que implorava que se deitasse no sofá por pelo menos uma hora.
Apesar de parecer que Abby não tinha tempo de pensar em seus próprios problemas, eles sempre estavam ali, no fundo de sua mente, até ela se retirar para seu quarto, quando então vinham à tona e a mantinham acordada, virando-se na cama, quase tão inquieta quanto Fanny. Dizia a si mesma que havia sido muito bom Miles Calverleigh ter deixado Bath, mas a verdade melancólica era que sentia tanta falta dele que chegava a doer. Não recebera nenhuma notícia; ele estava ausente há mais tempo do que pensara que estaria; e o medo de que não pretendesse retornar a Bath era um peso esmagador em seu ânimo. Pegavase continuamente se perguntando onde ele estaria, o que estaria fazendo, e desejando poder saber se, pelo menos, nenhum acidente tinha-lhe ocorrido.
Não, nenhum. Ele estava em Londres, mas apesar de Abby ter cogitado sobre uma visita à sua tia, várias ao centro da cidade, e algumas conferências demoradas com seu advogado, era esperado que pelo menos uma de suas atividades lhe fosse desconhecida.
Lady Lenham recebeu-o com uma pergunta mordaz sobre quando ele pretendia se arrumar.
— Não sei. Devo? — replicou ele, beijando-a levemente no rosto.
— Não adianta esperar que o traga de volta à sociedade se não estiver disposto a se embelezar um pouco.
— Então, não vou esperar — disse ele, amavelmente. — Nunca fui um de seus dândis e é tarde demais para mudar meus hábitos, e se acha que eu ficaria bem em um casaco de cintura de vespa com as pontas da gola atingindo a metade de minhas bochechas, está perdendo o controle de sua imaginação, Letty. Pode ter certeza!
— Tudo tem um motivo — retorquiu ela. — Por onde andou durante todas essas semanas? Não me diga que se meteu em alguma trapalhada de novo!
— Não, não, tenho me comportado com muito decoro! — garantiu-lhe ele. — Qualquer um teria, em Bath. Um lugar diabólico!
Ela o olhou espantada. — Esteve em Bath?
— Exatamente. Levei o sobrinho de Leonard Balking, você sabe.
— Sim, me contou que ia fazer isso, mas o que diabos o manteve lá? — perguntou ela com desconfiança.
— Apenas finanças!
— Ah! Entendi, um namoro! Bem, e o que pretende fazer agora?
— Estabelecer-me. Você me disse que era isso o que eu devia fazer, lembra-se?
— O quê? Está querendo me pregar uma de suas peças? Quem é ela?
— Abigail Wendover — replicou ele calmamente.
A tia arfou alto. — Está falando sério? Uma das Wendover? Miles, ela não aceitou sua proposta, aceitou?
— Não, mas vai aceitar.
— Bem, ou você alimenta fantasias ou ela é muito, mas muito diferente do resto da família!
— É claro que é! Não acha que eu me apaixonaria se não fosse, acha?
— Não, e não acho que a família dela aprovaria nem por um instante!
— Por Deus, Letty, e por que eu me interessaria pela aprovação deles?
Ela riu. — Você não muda, Miles! Sempre foi um cínico e sempre será! Torço para que tenha êxito com a sua Abigail Ela é a irmã mais nova, não é? Nunca a vi, mas me dou com Mary Brede, e evito James Wendover e sua esposa odiosa há anos.
— Sim, é o que pretendo fazer — concordou ele.
Sua visita seguinte foi a um cavalheiro.um tanto corpulento que residia na Mount Street e que o ficou olhando surpreso por um momento, sem acreditar no que via, até exclamar: — Calverleigh! — E avançou para apertar sua mão. — Ora, ora, ora. Depois de todos esses anos! Mal o reconheci, seu velho maroto!
— Não, também precisei olhar duas vezes para você. Está gordo feito um barril, Naffy!
— Bem, pelo menos ninguém me tomaria por um mouro! — retorquiu o Sr. Nafferton.
Depois dessa troca de elogios, os dois homens de meia-idade se instalaram com uma garrafa entre eles, se permitindo reminiscências que se fossem ouvidas pela esposa do Sr. Nafferton, a teriam assustado e diminuído consideravelmente o crédito dele com seu herdeiro.
— Deus, que surpresa revê-lo! — disse o Sr. Nafferton, um pouco tristonho. — Aqueles sim foram dias inesquecíveis!
— Noites, principalmente — corrigiu o Sr. Calverleigh. — Quantas vezes você acabou sendo levado para um bar ou bordel ou uma garota? Eu perdi a conta! A propósito, que fim levou a grã-fina?
— Dolly! E pensar que me esqueci de que ela lhe pertencia! — o Sr. Nafferton soltou um risinho. — Não vai reconhecê-la! Estabeleceu um bordel há mais de 12 anos! Anda pelo parque em uma caleche elegante, com uma ou duas de suas meninas bonitas, e parece uma duquesa! E também se comporta como uma! Na sua casa não entra menina sem classe: todas são prostitutas de alto nível! Ou assim me disseram — acrescentou rapidamente.
O Sr. Calverleigh sorriu largo, mas comentou simplesmente: — Tornou-se cafetina, não? Sim, ela sempre foi perspicaz, onde fica o bordel?
De posse dessa informação, sua visita seguinte foi à casa em Bloomsbury, onde apresentou seu cartão. A Srta. Abigail Wendover certamente não aprovaria essa excursão.
O Sr. Calverleigh foi introduzido em um salão, e ainda estava inspecionando a elegância dos móveis e aprovando-a quando a mulher a quem fora procurar entrou com seu cartão na mão, e exclamou: — É você! Meu Deus! Não acredito!
O Sr. Calverleigh, com o riso nos olhos, deu dois passos largos na direção dela e a abraçou com prazer.
Ela devolveu o abraço, mas disse: — Bem, chega! Devo informá-lo de que agora sou uma mulher respeitável!
O Sr. Calverleigh, repreensivelmente, riu com alegria. — Bem, sabe o que quero dizer! — explicou ela, um pouco ressentida.
— Sim, é claro que sei. Quem lhe deu a grana, Dolly?
— Ah, ele era um grande tolo! Não o conheceu, pois foi muito depois do seu tempo. Nunca gostei muito dele, mas era cheio do dinheiro, e tenho de admitir que não regateava. O que quero dizer é que foi muito generoso comigo — emendou, de repente atacada de um acesso de recato alarmante.
O Sr. Calverleigh não se impressionou. — Não, foi isso que quis dizer? Deixe de pose! Lembra-se da noite em que um grupo nosso fez uma farra em Tothill Fields e você quebrou uma garrafa de Stark Naked na cabeça do sujeito que estava tentando arrancar meus olhos?
— Não, não me lembro! — respondeu ela, ríspida. — E se você não tivesse entrado numa briga com um boxeador e dois carroceiros, porque estava bêbado feito um gambá, eu não teria precisado me rebaixar! Se é que fiz alguma coisa desse tipo, do que absolutamente não me lembro!
— Deve ter sido outra pessoa — disse o Sr. Calverleigh, dócil.
— Como era o nome daquele pedaço de mau caminho de cabelo cor de cânhamo que Tom Plumley carregou?
— Aquela gorda flácida! — exclamou ela, com escárnio. Ora, aquela não tinha coragem nem para matar uma barata! Agora, abra o jogo, Miles! Não vou dizer que não estou contente em revê-lo. Bem, é como respirar o ar dos velhos tempos, mas aí está o problema! Vê-lo me faz perder a reserva e começar a falar bobagens, o que é uma coisa que não faço há anos! Além do que você não veio aqui para falar de farras e festas! E se, Sr. Calverleigh — acrescentou ela com mais uma transição para o refinamento, mas com um certo brilho nos olhos perspicazes —, veio em busca de uma garota, aviso que não encontrará nenhuma garota barata neste estabelecimento, somente jovens distintas.
— Isto é ótimo, Dolly! — aprovou ele. — Levou muito tempo para aprender a falar assim?
— Basta! O que quer? — perguntou ela, ignorando o gracejo.
— Exatamente o que você disse, é claro. Uma jovem distinta!