Ovelha Negra
Capítulo I
Um pouco antes das 20 horas, no fim de um dia úmido de outono, uma caleche chegou a Bath, pela estrada de Londres, e logo parou diante de uma casa em Sydney Place. Era um veículo alugado, mas conduzido por quatro cavalos, e nada na aparência da dama que a ocupava sugeria que uma caleche particular, com seus próprios boleeiros, estivesse além de seus recursos. Ela estava acompanhada por uma criada de meia-idade e usava um redingote verde-oliva de seda canelada que lhe caía tão bem que qualquer mulher que a olhasse logo reconheceria ter sido obviamente confeccionado por uma modista. Combinava a simplicidade de um traje concebido para viajar com uma elegância só rivalizada pelo chapéu que emoldurava de maneira atraente o rosto da Srta. Abigail Wendover. Nem pluma curva nem ramos de flores adornavam a peça: era feita de Gros de Naples, atada com uma fita de cetim; a aba era moderada e a coroa, baixa, mas estava tão na moda quanto o redingote.
O rosto embaixo do chapéu não era nem o de uma menina em seu desabrochar nem o de uma beldade unânime, mas continha um encanto indefinido centrado nos olhos e no sorriso tímido que se ocultava neles. Eram olhos cinza, que transmitiam muita inteligência; mas seus outros traços não apresentavam nada de extraordinário, a boca grande demais para ser considerada bela, o nariz muito distante do clássico, e o queixo excessivamente resoluto. O cabelo não era nem de um tom escuro moderno nem dc um louro angelical, mas castanho-claro. Não estava cortado curto, segundo a moda dominante: ela o usava (rançado ao redor da cabeça, ou em um coque, com cachos soltos ao redor das orelhas. Ocasionalmente, e desafiando a reprovação veemente de sua sobrinha, atava uma louca de renda sobre o cabelo. Fanny dizia que isso a fazia parecer uma velha solteirona, e grilava indignada quando ela respondia, com sua bela e melodiosa voz: "Bem, eu sou uma velha solteirona!"
Parecia que sua chegada tinha sido ansiosamente aguardada, pois nem bem a caleche parou, a porta da casa. que era a sua residência, foi escancarada e um lacaio apareceu correndo para baixar ... os degraus do carro. Foi seguido de um mordomo idoso, que ofereceu a mão para ajudar a patroa a descer, recebendo-a com um sorriso radiante.
— Boa noite. Srta. Abby. Bem, é realmente uma boa noite que a traz de volta ao lar! Estou muito feliz em vê-la, senhora!
— Oh! e eu também estou tão feliz, Milton! — disse ela. — Acho que nunca passei tantas semanas fora! Minha irmã está bem?
— Bem vigorosa, senhora... só um pouquinho de reumatismo. Ficou um tantinho deprimida quando a senhora partiu, e meteu na cabeça que tinha contraído tuberculose...
— Oh, não — Abby demonstrou uma consternação cômica.
— Não, senhora — concordou Mitton. — Não passou de uma epidemia de resfriado, que a deixou com um pouco de tosse. Como o novo médico conseguiu convencê-la. — Seu tom era de respeito, mas um brilho em seu olhar provocou um risinho involuntário nela. O brilho se acentuou, mas tudo o que ela disse foi: — Ela vai ficar muito feliz em vê-la. Srta. Abby. Passou as últimas horas bastante irrequieta, receando que sua chegada fosse adiada mais uma vez.
— Então devo subir para vê-la imediatamente. — Abby entrou na casa, deixando Mitton estender, elegantemente, as boas-vindas à criada que a acompanhava.
Como a competição entre o mordomo, que envelhecera servindo a família, e a ex-ama das três filhas mais novas não tinha trégua, a Sra. Grimston tomou isso em mau sentido, detectando um quê de condescendência, e simplesmente exortou-o a não se incomodar com ela, e sim cuidar da caixa de joias da Srta. Abby.
Nesse meio-tempo, Abby, que subira correndo a escada, encontrou a irmã esperando-a no primeiro andar. A Srta. Wendover abraçou-a ternamente, derramando lágrimas de alegria, e implorou, em um discurso entrecortada que se retirasse imediatamente à cama depois de uma viagem tão cansativa; que entrasse logo na sala; que não se preocupasse em dizer uma única palavra até estar completamente descansada; e que lhe dissesse imediatamente tudo sobre a querida Jane. a querida Mary e o lindo novo bebê da querida Jane. Dezesseis anos separavam as irmãs, pois uma era o membro mais velho e a outra, o mais jovem de uma família numerosa, na qual três dos filhos morreram ainda bebês e outro, o primeiro menino nascido, faleceu quando seu próprio filho único mal deixara os cueiros. Entre Selina, na faixa sombria dos 40, e Abigail, com meros 28 anos, havia apenas James, Mary e Jane. Foi com Jane, casada com um homem de considerável propriedade em Huntingdonshire, que Abigail ficara na maior parte das últimas seis semanas, tendo sido chamada para dar apoio à irmã nos infortúnios que lhe haviam acontecido. O sarampo atacara as crianças no exato momento em que a ama, ao cair da escada dos fundos, quebrara a perna, e em que ela própria estava continuamente na expectativa de presentear Sir Francis com um quarto petit paquet. Em uma carta carregada de ênfases, Lady Chesham tinha implorado à sua querida Abby para vê-la imediatamente e levar Grimston junto, já que nada a faria abandonar seus filhos queridos aos cuidados de uma ama estranha.
Portanto Abigail tinha partido para Huntingdonshire, onde permanecera por cinco semanas, sob condições penosas, com três crianças rendendo-se ao sarampo antes de sua chegada, a irmã levada à cama dois dias depois e o cunhado, que nunca primara pela cordialidade, aparentemente aflito com a convicção de que esse infeliz encadeamento de circunstâncias tinha sido planejado com o propósito expresso de fazê-lo sofrer o máximo de provações injustamente.
_ Você deve estar morta de cansaço! — disse Selina, conduzindo-a à sala de estar — E ainda foi obrigada a ir a Londres com toda aquela agitação! Não acredito que Mary tenha lhe pedido isso!
— Não pediu, eu me ofereci, como recompensa por não ter brigado com Sir Francis. Nunca conheci um homem mais emburrado e desagradável! Sinceramente, tenho pena de Jane, e perdoo-lhe todo o mau humor. Não imagina como fiquei feliz ao ver a expressão bem-humorada de George quando cheguei à Brook Street, e ao ser tão bem recebida por ele e por Mary! Diverti-me muito, fiz muitas compras. Espere só para ver a touca que comprei para você. Vai ficar encantadora com ela! Também comprei uma peça linda de musselina para Fanny, além de uma quantidade de bugigangas para mim mesma, e... Mas onde está Fanny?
Ela vai ficar tão chateada por não estar aqui para recebê-la!
— Bobagem! Por que ficaria? Hoje é quinta-feira, não é? Então imagino que esteja dançando o cotilhão, não?
— Achei que não havia nenhum problema — replicou Selina um pouco na defensiva. - Lady Weaverham convidou-a para jantar e depois ir ao Upper Rooms, em sua companhia, e consenti, não tendo então esperado que você fosse estar de volta hoje.
— Ora, é claro! Teria sido muito grosseiro da parte de Fanny recusar!
— Exatamente! — concordou Selina, animada. — Com Lady Weaverham... uma mulher tão amável, eu sabia que você ia concordar.
Além do mais, ela tem duas filhas, o que torna particularmente gentil de sua parte tê-la convidado! Pois ninguém pode negar que a nossa querida Fanny é a moça mais bonita de Bath!
— Oh, sem dúvida! Quanto a Lady Weaverham, ninguém é mais amável. Ou mais aloprada! Gostaria de... Não, não tem importância. Fico feliz que ela a tenha levado ao baile, pois preciso lhe falar sobre Fanny.
— Sim é claro! Mas está cansada, e deve estar morrendo de vontade ir para a cama! Uma tigela de caldo...
— Não, não, só um pouco de mingau! — Abby riu da irmã.
— Sua boba, parei em Chippenham para jantar, e não estou nem um pouco cansada. Vamos tomar um chá assim que eu tirar o chapéu, e ter uma conversa tranquila. — Depois acrescentou, maldosa: — Parece a própria culpa em pessoa, como se estivesse apavorada de levar uma bronca! Mas como eu me atreveria a repreender minha irmã mais velha? Não sou tão insolente!
Deixou Selina batendo a campainha para pedir uma bandeja de chá e subiu ao seu quarto, onde encontrou a Sra. Grimston desfazendo sua bagagem. Com uma expressão de reprovação no rosto, que inspirava temor e respeito, esta recebeu a Srta. Wendover com a informação de que, desde o começo, pressentira como seria se a Srta. Fanny fosse deixada só com a Srta. Selina e Betty Conner (que tinha mais cabelo na cabeça do que juízo, e que além do mais era uma estouvada) para cuidarem dela.
— Badalação por toda parte! — comentou, sombria. — Concertos, bailes, teatros, piqueniques e sei lá mais o quê!
Abby tinha suas próprias razões para suspeitar de que a sobrinha havia desfrutado de muito mais liberdade do que lhe era permitido antes, mas como não tinha intenção de discutir a questão com a Sra. Grimston, simplesmente respondeu:
— Como pode dizer isso? — Isso efetivamente reduziu a velha ama a um silêncio ofendido.
As irmãs Wendover tinham praticamente se encarregado da educação da sobrinha órfã desde que a jovem tinha 2 anos, quando sua mãe morrera ao dar a luz um menino natimorto, e o pai confiara aos cuidados da avó. A morte dele, três anos depois, não afetou em nada o acordo; e quando Fanny completou 12 anos, seu avô sofreu um acidente fatal no campo de caça e sua viúva decidiu se retirar para Bath. Em Vez de continuar a suportar, em sua casa de viúva*, um clima que nunca foi benéfico à sua constituição frágil. Seu filho sobrevivente. James, que era o tutor de Fanny, ficou feliz em passá-la a seus cuidados. Ele mesmo já era o chefe de uma família promissora, mas sua esposa, uma mulher de personalidade forte, não tinha a menor vontade de assumir a sobrinha dele. Quando a Sra. Wendover morreu, três anos depois, Fanny prometia se tornar uma garota de beleza incomum, e a Sra. James Wendover sentiu ainda menos vontade de tê-la em sua casa, onde não somente ofuscaria suas primas, como talvez lhes ensinasse a ser tão frívola quanto ela própria.
*Dower house: na Inglaterra, a residência secundária de uma grande propriedade que, após a morte do dono, é ocupada por sua viúva, o herdeiro passando a se instalar na casa principal.
Portanto James, administrador e arrendatário da propriedade que pertencia a Fanny, informou cortesmente às suas irmãs que podiam, por enquanto, continuar a agir como tutoras da querida criança. Seria uma pena (como a sua Cornelia tinha ressaltado) interromper sua educação em uma das escolas seletas de Bath. James, mantendo-se fiel ao costume de sua família, estava determinado a providenciar um casamento vantajoso para Fanny; mas achava que havia tempo bastante até ser dever de Cornelia introduzi-la na sociedade sem prever que quando a menina estivesse com idade para isso, Cornelia estaria mais do que decidida a deixá-la com as tias. Sua esposa confessou que não era capaz de gostar de Fanny, em quem detectava uma triste semelhança com sua pobre mãe. Esperava-se que ela não se tornasse uma dessas mulheres que criavam confusão; mas, de sua parte, Cornelia considerava que sua vivacidade a levava a ser excessivamente promissora. Mas o que se podia esperar de uma garota criada por duas solteironas caducas?
A mais nova das solteironas caducas desceu novamente para a sala de estar, onde a irmã já estava sentada à mesa de chá. A Srta. Wendover, depois de relancear os olhos para o seu vestido com mangas franzidas e gola de musselina engomada, recebeu-a com uma exclamação de aprovação.
— Nunca a vi tão elegante! Londres, evidentemente, não?
— Sim. Mary foi tão amável, a ponto de me levar à sua própria Thérèse, o que achei de uma extrema generosidade.
— Thérèse! Acho que foi tremendamente caro, pois Cornelia me disse uma vez, tão despeitada, que esperava que George não fosse arruinado pela extravagância de Mary, e que ela não podia arcar com vestidos feitos por Thérèse.
— Podia, mas não arcaria — disse Abby, tomando lentamente seu chá. — Como James deve ser feliz por ter uma mulher tão insignificante quanto ele próprio!
— Oh, Abby, como pode? Não esqueça que ele é seu irmão!
— Não esqueço, e nunca paro de lamentar isso! — retrucou Abby. — E, por favor, não discorra um catálogo de suas virtudes, pois elas não o tornam nem um pouco mais adorável, na verdade o tornam ainda menos querido! Além do mais, é um intrometido incorrigível, e não consigo ser generosa com ele.
Selina protestou até perguntar, de maneira abrupta:
— James também escreveu para você?
— Escrever! Na verdade, foi a Londres para me fazer uma de suas preleções pomposas! Minha querida, o que andou fazendo? Quem é esse garoto deplorável que tem cortejado Fanny?
— Não é nada disso! — Selina ruborizou-se. — Foi um caso de amor à primeira vista... e um rapaz de muitos bons modos! Apenas pense nele saindo depressa da sala de águas medicinais do balneário, sem guarda-chuva, para buscar uma liteira para mim, ficando ensopado, pois sabe como Bath fica quando cai uma chuva repentina, nunca há liteiras ou carruagens de aluguel, e tive certeza de que ele se resfriaria, o que afetaria seus pulmões, mas ele não pegou nenhuma moléstia, tão atencioso! E então não trocou uma palavra sequer com Fanny, porque ela não estava comigo, e apesar de eu lembrar de tê-lo visto no Upper Rooms, dois... não, três dias antes, ele não falou, e Fanny estava comigo dessa vez, de modo que se está pensando que ele conseguiu uma liteira para mim porque queria conhecê-la, está muito enganada, Abby! Se essa fosse a intenção, ele teria desejado que o Sr. King o apresentasse a nós, no Upper Rooms.
— E — concluiu ela, com um ar de quem oferece o argumento definitivo — ele não é um garoto! Acho que tem a sua idade, provavelmente é até mais velho!
Abby não conseguiu reprimir o riso diante desse discurso tão confuso. Balançou a cabeça e suspirou.
— Ah, Selina, sua boba!
— Concluo que pretende me repreender — Selina sentou-se muito ereta na cadeira —, mas por que faria isso não tenho a menor ideia, pois Fanny tinha vários admiradores antes de você partir, e quando eu disse que ela era jovem demais para ir a bailes, você falou que eu era gótica, e que ela aproveitaria muito mais sua ida a Londres se tivesse, antes, frequentado um pouco a sociedade, o que é perfeitamente lógico, porque não há nada tão... tão angustiante quanto ser expulso da sala de aula, independentemente de quantas lições de dança e de como se comportar! Particularmente se se for um pouquinho tímido. Não que eu queira dizer que Fanny seja tímida, na verdade, às vezes me pergunto se ela não é excessivamente... embora nunca seja inconveniente! E se James andou fofocando com você, baseando-se naquela mulher detestável que é Cornelia, e não se esperaria nada diferente dela, se tornar amiga íntima de uma refiro-me a tê-lo encontrado, e Betty com ela, é claro, pelo menos, estava naquela hora, portanto repreendi Fanny severamente, e lhe disse como seria terrível se as pessoas a achassem leviana. Sim, e disse que fiquei surpresa com o Sr. Calverleigh, o que acho que ela lhe contou, pois ele veio me ver no dia seguinte de manhã para pedir desculpas e explicar que tinha sido a primeira vez que viera a Bath, o que justificava ele não saber que era impróprio para uma moça de família andar pelos jardins, para não falar no labirinto, sem uma acompanhante, nem mesmo sua criada, pois Fanny tinha mandado Betty para casa, o que foi muito feio da parte dela, muito irrefletido, mas ela ainda é tão criança que tenho certeza de que não fazia ideia... e ele, juro, entendeu isso como devia!
— Mesmo? — disse ironicamente a Srta. Wendover mais nova.
— Bem, não deve achar que pretendo fazer uma tempestade em um copo d'água! Mas a questão. Selina, é que por mais encantador que o Sr. Calverleigh seja. ele não convém a Fanny. Se George, que é de longe a pessoa mais generosa que existe e que nunca insultaria uma pessoa meramente por não simpatizar com ela, o considera um Don Juan, o que imagino que signifique libertino...
— Abby! Oh, não! — exclamou Selina, ultrajada.
— Bem, deve haver algo muito indesejável nele para levar James até Londres no maior alvoroço!
— Sim, porque ele quer que a coitadinha da Fanny faça um casamento maravilhoso! Espero respeitar meu irmão como devo, mas tenho de admitir que acho que ele só tem minhocas na cabeça quando se trata desse assunto!
— Tem mais do que isso — replicou Abby, bem devagar, uma carranca franzindo sua testa. — Ele me pareceu acabrunhado! Na verdade, não conseguiu proferir o nome sem estremecer! Eu teria rido, se ele não tivesse me irritado tanto. Quando lhe perguntei por que toda essa antipatia por Calverleigh, assumiu uma expressão afetada e respondeu que não era assunto para os meus ouvidos!
— Selina, ficou maluca? — interrompeu Abigail, olhando espantada para ela. — Que sofrimento?
— Pode tentar me enganar, mas nunca vou esquecer sua angústia quando papai proibiu o pobre Sr. Thornaby de voltar a se aproximar de você! Eu nunca vou esquecer! — declarou Selina.
— Meu bom Deus! — A expressão apreensiva nos olhos de Abby foi desfeita por uma alegria irreprimível.
— Boba, querida, tentar esquecer! Esqueci, juro! Na verdade, nem mais me lembro de como ele era, embora me lembre de que fiquei tristíssima na época. Aos 17 anos, fica-se triste, só para descobrir que se tinha enganado.
Essa triste falta de sensibilidade assustou Selina por um instante, mas ela se recompôs, dizendo, com um ar de compreensão infinita:
— Sempre foi tão valente, minha querida! Mas, se esqueceu o Sr. Thornaby por que recusou o pedido do Sr. Broxbourne? Tão promissor, um homem excelente, com uma mente superior, e todas as qualidades que o tornam um excelente partido!
— Exceto uma. Era um chato de galocha! — Os olhos de Abby recomeçaram a se agitar. — Imagina-me acalentando uma dor de amor durante todos esses anos? Minha querida, peço-lhe perdão, realmente, mas é completamente inútil me tornar a heroína de um romance trágico. Sempre a desapontarei.
— E agora vai me contar que também está determinada a arranjar um esplêndido partido para a pobrezinha da Fanny! Acho que a conheço bem o bastante para saber disso!
— Espero que sim. Reconheço que papai talvez estivesse certo quando despachou Thornaby, mas continuo a achar que a sua determinação, e a do meu avô antes dele, e a de James depois, em arranjar casamentos vantajosos para cada um de seus filhos não passava de uma obsessão! E pode ter certeza de que não permitirei que Fanny seja sacrificada como você e Jane foram! Mary foi James, seu pai estava longe de ser respeitável. Quanto ao tio, ele, depois de ter sido expulso de Eton, se lançou, ao que parece, em todas as loucuras extravagantes, até ser mandado para a índia com ordens expressas de nunca mais mostrar a cara para sua família! Quanto às propriedades, George disse que estão completamente endividadas. E se acha que todas essas circunstâncias tornam Stacy Calverleigh um pretendente qualificável...
—Ah, não, não, não! — gritou Selina, tomada pela aflição. — Não posso acreditar que o pobre Sr. Calverleigh... e sempre me pareceu extremamente injusto os filhos terem de arcar com os pecados dos pais, muito mais quando se trata de um tio realmente corrompido! Maneiras tão cativantes, e aparenta ser exatamente o que é esperado, além de demonstrar uma grande sensibilidade, e... ah, não acredito nisso!
— Bem, foi o que George disse, e tem de admitir que ele não é nada pudico, como James é. — Fez uma pausa, a testa franzida, pensativa.—E é de se supor, não é, que um libertino seja cativante?
— Abby! — Selina arquejou. — Tenho de lhe pedir que modere sua língua! Se alguém a escutasse...
— Ninguém pode me escutar, exceto você — destacou Abby.
— E tudo o que eu disse foi...
— Não sei nada sobre esse tipo de pessoa! — interrompeu Selina, depressa.
— Não, nem eu — disse Abby, com um quê de arrependimento. — Exceto o que li, é claro, e aquele homem divertido que foi a um baile oferecido pelos Ashenden... ah, anos atrás! Papai disse que não permitiria que uma filha sua dançasse nem uma única vez com um sujeito como esse, só que eu já tinha dançado, e foi muito agradável! Eu não sabia que ele era um libertino, mas sei que era um cortejador irresistível, e não porque Rowland me disse! Daquela maneira pomposa, que o fazia ficar igual ao papai... você sabe!
Estava evidente: o que quer que a Srta. Wendover soubesse, estava decidida a esquecer. Recorrendo à ajuda de toda a autoridade que a idade lhe conferia, comentou em tom de reprovação: —Devo lembrar-lhe, Abigail, que o querido Rowland está morto?
—Não, e também não precisa me lembrar de que ele era o nosso irmão mais velho. Nem me chamar por esse nome detestável. Posso perdoar a papai muitas coisas, mas isso nunca! Abigail! feirantes e criadas!
— Tem quem o ache um nome encantador! — Selina lançou um olhar de soslaio para a irmã. — Um deles é Canon Pinfold, que também a acha encantadora! Ele disse que é um nome hebreu que significa alegria do pai.
Passado um momento de susto, sua irmã degenerada caiu na gargalhada. Foram vários minutos até ela conseguir nada mais do que se lamuriar.
—Papai nã-não devia saber disso! Ele que-queria outro filho homem! — E quando conseguiu parar de rir, a expressão de censura doída de Selina quase a fez cair na risada de novo. Conteve-se f disse, ainda ligeiramente trêmula: — Não se preocupe comigo! Sabe o que sou! E o que tudo isso tem a ver com Fanny? Selina, |percebo que nutre uma afeição inabalável pelo Sr. Calverleigh, porém, mesmo que ele fosse o melhor partido no mercado, eu continuaria sendo contra! Meu Deus, quer que sua sobrinha mergulhe no casamento com o primeiro homem que conhece que não é nem de meia-idade nem um garoto com quem convive desde que era pequena? Aos 17 anos!
—Eu lhe disse que era jovem demais para falar em uma relação duradoura — respondeu Selina, de novo na defensiva. — Sim, lhe disse que seu tio nunca aprovaria, e que devia tirar isso da cabeça.
Isso realmente suprimiu qualquer vontade de rir de Abby.
— Não fez isso! — exclamou ela. — Ah, Selina, gostaria que não tivesse dito isso!
— Gostaria? — ecoou Selina, sua voz e expressão traindo-lhe a perplexidade. — Mas acabou de me dizer...
— Sim, sim, mas não vê que... — Abby interrompeu a frase abruptamente, ao perceber a insensatez de esperar que Selina visse o que era tão óbvio para a sua própria inteligência. Prosseguiu com a voz mais gentil: — Receio que isso a deixe irritada, que atice a independência de espírito que você deplorou tantas vezes. Sim, sei que acha que ela devia se submeter docilmente aos decretos de seu tutor, mas não se esqueça de que ela não foi criada como nós, para considerar o mais leve pronunciamento de um parente, ou uma tia, como algo que seria um sacrilégio questionar, e inconcebível de desobedecer!
Indignada, Selina retorquiu: — Bem, tenho de falar, Abby! Pois você fala de uma maneira, quando nunca demonstrou o menor respeito pelo julgamento do papai! Quando me lembro de quantas vezes discutiu com ele, deixando mamãe e eu agoniadas de apreensão... Puxa! Não, querida — acrescentou ela imediatamente —, não é que eu esteja dizendo que chegou realmente a desobedecer-lhe, pois, que eu saiba, nunca desobedeceu!
— Não — concordou Abby, em uma voz sem entonação. — O que não é nada lisonjeiro, é?
O tom de lamento surpreendeu a Srta. Wendover, mas em poucos segundos se deu conta de que isso era devido à fadiga, agravada pela ansiedade. Cabia-lhe distrair a mente da pobre Abby, e, com essa intenção amável, disse-lhe, primeiro, com um sorriso indulgente, que ela era uma gata travessa. Em seguida, deslanchou uma descrição do que havia acontecido recentemente em Bath. Seu discurso desconexo abarcou tópicos como o que seu novo médico disse sobre as saunas russas; como a Sra. Grayshott estava esperando ansiosamente o retorno de seu filho da índia, se o pobre rapaz sobrevivesse à viagem, já que estivera tão doente naquele país horrível; como estava grata à pobre Laura Butterbank, que não poupara esforços para animá-la e apoiá-la durante a ausência de Abby, vindo todos os dias ficar com ela, sempre tão conversadora e companheira, além de ser induzida a executar alguma pequena incumbência na cidade. Mas nesse ponto, se interrompeu, e acusou sua irmã de não estar escutando nem uma única palavra do que dizia.
Abby tinha, de fato, deixado a torrente delicada de futilidades fluir, mas, diante dessa censura, se recompôs.
— Sim, estou! A Sra. Grayshott... a Srta. Butterbank! Fico feliz que lhe tenha feito companhia enquanto estive fora... já que Fanny parece não ter feito!
— Deus do céu, Abby, como entende errado! Ninguém poderia ter sido mais atencioso, uma criança adorável! Mas com quase seu tempo todo ocupado com as aulas de música, de italiano, além de tantas amigas suas viverem aqui e estarem sempre convidando a para um passeio no campo ou um piquenique, o que é perfeitamente comum, tenho certeza de que não é de admirar que... isto é, quando Laura me dava o prazer de sua companhia todos os dias, não havia razão para Fanny ficar em casa, e eu teria sido muito egoísta se lhe pedisse isso! Sim, e não teria sido nada natural ela não querer estar com as garotas de sua idade!
— É verdade. Ou mesmo com o fascinante Calverleigh!
— Ora, Abby...!
— Bem, é normal — disse Abby, com franqueza. — Qualquer moça iria preferir a companhia de um rapaz sedutor à da tia! Não vai dar certo, Selina.
— Tenho certeza de que quando conhecê-lo, não que eu em algum momento a tenha encorajado... ah, Deus, como isso é comovente! Você terá de lhe dizer, pois sei que eu nunca conseguiria!
— Querida, não é tão terrível assim, a ponto de deixá-la nessa aflição. Certamente é uma infelicidade, e desejaria de todo coração que ela pudesse ser poupada de uma decepção tão dolorosa, mas ela vai se recuperar. Quanto a proibi-la de vê-lo ou contar-lhe o que dizem dele, não sou tão tola a esse ponto! Ela se lançaria logo em defesa do rapaz! Mas e se ele se retirasse? Não por ser obrigado, mas porque descobre que ela não é tão rica quanto ele supunha? Talvez ela se sinta um pouco infeliz, mas não por muito tempo. Não é o tipo de garota que fica de luto por causa de um flerte! — Acrescentou, pensativa: — E sob essas circunstâncias, ela poderia se imaginar uma amante condenada pelo destino? Realmente acho que isso deve ser evitado a todo custo, pois embora eu nunca tenha sido uma amante condenada, posso imaginar como seria romântico. Selina, não conheci a mãe de Fanny muito bem, mas você sim. Ela era alegre como nossa sobrinha? Talvez excessivamente audaciosa para os padrões Wendover de decoro?
— Celia? Deus meu, não! Era muito bonita, adorável quando menina, mas teve um fim triste, o que espero e rezo para não acontecer com Fanny, porque se parece muito com ela fisicamente, e mamãe costumava dizer que beldades louras raramente duram muito. Mas Fanny não tem nada do temperamento de nossa irmã! Ela é tão cheia de vida, enquanto a pobre Celia era uma moça quieta e tímida, e extremamente sugestionável! Por que me perguntou sobre ela?
— Uma coisa que James disse. Eu não estava prestando muita atenção, mas foi algo a respeito da grande semelhança de Fanny com a mãe. Então ele se interrompeu e quando lhe perguntei o que queria dizer exatamente, foi evasivo, afirmando que Fanny era tão frívola quanto a mãe. Mas não acho que falou sério, nem Mary. Ela se lembra mais do que eu, é claro, e disse que vocês mais velhas sempre acharam que tinha acontecido alguma coisa... alguma indiscrição, talvez...
— Nunca achei nada disso! — interveio Selina com firmeza. E se tivesse achado, teria considerado impróprio me meter nisso! Se mamãe quisesse que eu tomasse conhecimento de alguma coisa sobre isso, teria me contado!
— Então houve alguma coisa — disse Abby. — Um esqueleto em nosso respeitável armário! Gostaria de saber o que foi. Mas acho que se revelaria apenas o esqueleto de um rato.