Ovelha Negra
Capítulo XVI
Finalmente aceitando o conselho de Selina, Abby retirou-se para seu quarto, para se deitar. Contrariando sua expectativa, adormeceu quase que imediatamente, e ainda estava dormindo quando James partiu. Acordou quando eram 17 horas, e a casa estava em silêncio. Esbarrou com a Sra. Grimston no patamar e soube que a Srta. Fanny estava na sala de estar, e aparentemente não estava pior por causa do passeio, e que a Srta. Selina subira para descansar logo após a partida do Sr. James. Essas palavras soaram de maneira sinistra, mas como não foram seguidas de nenhuma menção a espasmos ou palpitações, e não se ouvia nenhum som de aflição vindo do quarto de Selina, Abby esperou que tivessem sido inspiradas por nada além da antipatia da Sra. Grimston por James. Abby desceu a escada e encontrou Fanny com a cabeça inclinada sobre o romance que Lavinia lhe trouxera. Ela ergueu o olhar e Abby se impressionou imediatamente com sua palidez, e com seu sorriso forçado.
— Está cansada, querida? — perguntou ela.
— Não, obrigada. Não, de jeito nenhum! Estou lendo o livro que Lawy me trouxe. É uma história muito excitante! Não consigo largá-lo!
Mas não pareceu a Abby, enquanto se ocupava de um bordado e observava de soslaio a sobrinha, que o livro a estivesse absorvendo. Ela o estava usando como um escudo. A suspeita de que a língua indiscreta de Lavinia houvesse se soltado passou pela cabeça de Abby. Quando guardou seu trabalho, perguntou:
— Vai se sentar para jantar, Fanny?
— Oh! — Fanny levou um pequeno susto. — Já está na hora do jantar? Sim... não sei... Ah, sim! Não estou doente!
Abby sorriu para ela.
— É claro que não está, mas saiu hoje pela primeira vez, e eu não ficaria surpresa em saber que Lavinia falou sem parar! Uma menina adorável, mas uma senhora tagarela!
Agora teve certeza de que Lavinia havia comentado. Fanny ergueu o queixo e seu olhar foi ao mesmo tempo desafiador e defensivo.
— Ah, não presto atenção! — disse ela, com uma risada pateticamente não convincente. — Ela está sempre deslumbrada, mas...mas muito divertida, sabe.
Sim, pensou Abby, Lavinia falara sobre a perfídia de Stacy, e embora ela não tivesse acreditado, estava com medo de que fosse verdade.
Seu impulso foi pegá-la em seus braços, acarinhá-la e confortá-la, como tinha feito tantas vezes, mas uma compreensão mais profunda a fez hesitar.
— Com licença, Srta. Abby — disse Fardle agourentamente, a porta. — Gostaria de dar uma palavrinha com a senhora, se puder!
— Ora, é claro! — assentiu Abby, com uma despreocupação que estava longe de sentir. Acompanhou Fardle para fora da sala e perguntou: — O que foi?
A criada dedicada da Srta. Wendover mais velha fitou-a com um olhar trágico e fez uma declaração surpreendente.
— Achei que era o meu dever lhe contar, Srta. Abby, que não estou gostando da aparência da Srta. Selina, não estou gostando nada!
— Oh! Ela está passando mal? Vou subir para vê-la.
— Sim, senhorita. Não sou do tipo de fazer tempestade em copo d'água, como se diz — falou Fardle, de maneira inexata —, mas tive um choque quando vesti a Srta. Selina há pouco menos de dez minutos. Não me cabe dizer o que a abalou, Srta. Abby, e espero saber qual o meu dever, e que acredito que foi o Sr. James que a deixou assim. Tudo o que sei é que nem bem ele saiu, ela subiu para o seu quarto, dizendo que ia descansar, o que seria de se esperar. Mas quando subi, ela não estava na cama, nem tinha estado, como verá por si mesma, Srta. Abby. E não falou uma palavra, a não ser para dizer que não ia descer para jantar e que não queria que lhe levassem uma bandeja. O que não é seu jeito, Srta. Abby, e que só pode nos fazer temer que está entrando em declínio.
Ao fazer essa sugestão encorajadora, introduziu Abby no quarto de Selina. Gentil, mas também firme, Abby fechou a porta deixando Fardle do lado de fora. Olhou para o outro lado do quarto onde estava Selina, sentada imóvel do lado do fogo, com um xale ao redor dos ombros, e uma expressão que Abby nunca vira antes em seu rosto.
— Selina! Minha querida! — Abby se aproximou depressa. Caiu de joelhos diante da irmã e pegou suas mãos. O olhar aturdido de Selina virou-se para ela, e a alarmou mais do que fariam se estivessem cheios de lágrimas.
— Estive pensando — falou ela. — Pensando, pensando... A culpa foi minha. Se não a tivesse convidado para a nossa festa, ela não teria escrito essas coisas para Cornelia.
— Bobagem, querida! — Abby afagou delicadamente as mãos da irmã. — Você me prometeu que nunca mais falaria Dessa Mulher!
Esperava conseguir um sorriso de Selina» mas ela depois de olhá-la sem compreender, falou: — Foi porque eu estava com raiva! Foi por isso que disse que ia se casar com ele, não foi? Mas eu não tive a intenção, Abby, não tive!
— Boba, sei que não!
Os dedos finos de Selina fecharam-se ao redor dos seus como garras.
— James disse... Mas eu respondi que não era nada disso! Ele a provocou, não foi? Imagino como deve ter sido. Eu lhe disse. Disse que não havia como... Disse que você nunca nem sonhou em se casar com o Sr. Calverleigh. E não se casaria, casaria, Abby?
Encarando os olhos tensos e inquiridores de Selina, Abby hesitou antes de responder: — Querida, por que ficar assim? Achei que queria que eu me casasse, não?
— Não com o Sr. Calverleigh! Nunca quis isso, a não ser para o seu bem, mas achei que caso se casasse com o Sr. Dunston... tão gentil... um bom partido em todos os sentidos... e todo mundo ficaria satisfeito, e você não teria se afastado de mim, não completamente porque eu poderia vê-la todos os dias...
— Selina, eu nunca me afastarei de você — prometeu Abby calmamente. — Isso é só uma agitação dos nervos! Deixou que James a abalasse! Apesar das botas de cano alto e das maneiras negligentes, você não desgosta do Sr. Calverleigh. Foi você a primeira a dizer como tinha sido injusto condená-lo por pecados da juventude!
— Mas eu não sabia que você pretendia se casar com ele — explicou Selina, simplesmente.
— Bem, nem eu, na época. Ora, minha querida, não há razão para este desespero!
Mas depois que Selina, sem largar sua mão, enumerou os males que resultariam daquele casamento, pareceu haver todos os motivos para desespero. A lista era comprida e abrangia um amplo universo, que incluía a mortificação que a família sofreria com o casamento de um de seus membros com uma ovelha negra; o escárnio da Sra. Ruscombe; a impossibilidade de Selina permanecer em Bath, onde era tão conhecida; o mal que causaria a Fanny, prestes a debutar; a infelicidade de Fanny ao ser separada da tia querida; ou sua própria infelicidade ao ser renegada por James, Jane e talvez Mary.
Nesse ponto, Abby foi obrigada a objetar. — Mas não seria, sua boba!
— James me avisou. Ele me deu tanta raiva! Porque eu lhe disse que nunca abandonaria você, independentemente do que fizesse, que eu nunca, mas nunca faria isso! E ele respondeu que se eu a apoiasse estaria me separando da família... tão terrível, Abby!... De modo que eu deveria refletir bem antes de fazer minha escolha, só que não há escolha, que coisa mais tola de se dizer, e como ele pode supor que se eu tivesse de escolher, escolheria qualquer um que não fosse você? E quanto a ver a cara de James de novo, eu disse que se ele fosse grosseiro com você, ele não precisava mais ver a minha cara, o que é verdade, só que não suporto pensar nisso, porque sempre fomos tão felizes, e mesmo que não nos vejamos com muita frequência, eles são a nossa família!
Abby se comoveu tanto com essa defesa inesperada que as lágrimas lhe vieram aos olhos.
— Oh, minha querida! Como foi valente... como foi leal! Realmente me ama tanto assim?
— Mas é claro que amo! Abby beijou-a.
— Melhor das minhas irmãs! — ela sorriu com ternura. — Mas quanto a James...! Como se atreveu a falar com você dessa maneira? Queria muito ter estado presente!
— Ah, não, Abby! Teria sido muito, muito pior! E não posso culpá-lo. Não depois do que me contou!
— Contou o quê? — perguntou Abby.
Selina desviou o rosto, tremendo.
— Celia...!
— Ele lhe contou isso, contou? Mas é mesmo um estúpido! — exclamou Abby, furiosa.
— Ele se sentiu obrigado a me contar e, é claro, entendo, porque eu disse que achava que o Sr. Calverleigh só tinha sido desregrado quando era jovem, que não é algo que eu aprove, mas ainda assim...! Então ele teve de me contar a verdade, e me abalou profundamente, e não consigo parar de pensar que preferia que não tivesse me contado, pois teria sido muito mais confortável, se bem que errado, mas eu não teria sabido que era!
— Tire isso da cabeça! Se não me preocupa, não precisa preocupá-la! Para falar a verdade, seria um pouco constrangedor se as pessoas soubessem, mas não sabem, e de qualquer maneira, Celia não era mulher de Rowland quando aconteceu!
— Abby, você não pode. Um homem que... Abby, reflita! Não, Não, prometa que não vai fazer isso! — As lágrimas começaram a correr por sua face. — Ah, Abby, não me deixe! Como eu poderia viver sem você?
— Cale-se, Selina! Não está nada decidido ainda. Não comece, eu lhe peço, uma de suas... de suas preocupações exageradas! Venha, deixe-me deitá-la! Você está exausta. Fardle trará seu jantar e...
— Coelho e cebolas! — Selina irrompeu em soluços de desespero. — Eu não poderia! Não poderia!
— Oh! — Um sorriso retorceu os lábios de Abby. — Não, também acho que não.
Selina olhou para a irmã horrorizada.
Talvez isso tenha sido afortunado, pois nenhuma oportunidade foi-lhe oferecida para comer esse ou qualquer outro prato. Os soluços de Selina foram o prelúdio de um de seus terríveis acessos de histeria, e como esses foram seguidos de espasmos e palpitações, levou muito tempo até Abby poder deixá-la. Quando Selina finalmente exausta caiu no sono, a única coisa que a irmã, igualmente exausta, queria era ir para a cama.
A manhã trouxe a confirmação de sua suspeita de que Lavinia realmente andara fofocando. A Sra. Grayshott foi ver Abby em Sydney Place.
— Eu não poderia fazer nada menos do que lhe contar, Abby, e pedir seu perdão! Nunca me aborreci tanto com Lavinia! E o pior é que ela fez de propósito, e não se arrepende! Contou-me o que fizera no instante em que chegou em casa, ontem, sabendo, é claro, que eu não aprovaria, mas alegando que era amiga de Fanny e que sabia ter feito bem em avisá-la.
— Talvez tenha. Não sei. Não acho que Fanny tenha acreditado.
— Não, Lavinia também me disse que não. Mas Oliver acha que mesmo que não acredite, o choque ao descobrir que é verdade seria menor para a pobre menina. Mas Lavinia não devia ter-se intrometido! Querida, como parece cansada!
— Estou um pouco cansada — admitiu Abby. — Minha irmã não está muito bem hoje, portanto...
Deixou a frase sem conclusão, mas dissera o bastante para fazer a Sra. Grayshott retornar a Edgar Buildings em um estado de tal agitação e indignação impotente, que disse a seu filho, com um rancor que não lhe era comum, que quanto mais cedo as várias doenças da Srta. Wendover a matassem, melhor seria para Abby.
Nem bem deixara Sydney Place, uma carta selada foi entregue na casa. Era endereçada a Fanny, e foi-lhe entregue na sala por Mitton. Ela a pegou com mãos trêmulas, fez menção de abri-la, mas então, com uma desculpa mal articulada, saiu da sala.
Não voltou. Abby, que adivinhara que a missiva tivesse sido enviada por Stacy Calverleigh, esperou cada vez mais inquieta por uma hora, e então subiu para o quarto de Fanny.
Ela eslava sentada à janela. Olhou para Abby, mas não falou nada, e sua face estava tão impassível que Abby hesitou. Em seguida, percebeu o sofrimento impotente nos olhos de Fanny e se aproximou dela, sem falar, e a abraçou com força. Fanny não resistiu, mas talvez por um minuto ficou tão rígida quanto uma estátua. Afagando seu cabelo sedoso, Abby disse:
— Não importa, minha querida, não importa!
Quase se amaldiçoou pela inadequação daquelas palavras tolas; mas um tremor percorreu Fanny, que se rendeu a um soluço, virou-se nos braços de Abby e se apertou contra ela, abalada pelas emoções enclausuradas dos últimos 15 dias.
Demorou até poder se acalmar, e seu pranto entrecortado foi, gradativamente, se reduzindo a soluços patéticos, e ela relaxou no abraço de Abby, descansando a cabeça em seu ombro, os cílios molhados nas bochechas. Quando Abby fez menção de buscar um pouco de água, foi interrompida:
— Oh, não! Está tão bom assim! — Depois acrescentou: — Você sabia, não sabia?
— Sim, mas não sabia como lhe contar.
— Lavinia me contou. Não acreditei nela. Mas era verdade. Foi somente a minha fortuna, não foi?
— Receio que sim, querida.
Outro silêncio se impôs, antes de Fanny dizer: — Fui muito idiota. Malvada também. Eu pretendia fugir com ele.
— Mas não acho que faria isso.
— Não sei. — Fanny suspirou. — Às vezes eu achava que não, mas quando estava com ele... — Sua voz falhou, e precisou de um momento para voltar a falar. — Aí fiquei doente, e ele não veio me ver, nem me escreveu, mesmo quando outras pessoas vieram. Tentei me convencer de que era por que estava com medo de você não permitir que ele me visse, mas acho que eu sabia... Só que continuei a ter esperança, e quando Lavinia me contou sobre a Sra. Clapham, de início achei que não podia ser verdade, depois não tive tanta certeza, e então... e então a carta chegou. — Um arrepio percorreu-a. — Abby, me deu nojo! Nojo realmente.
— Ele disse que tinha mudado de ideia?
— Não. Acho... acho que isso eu teria suportado. As pessoas deixam de amar, não é? Se ele tivesse me dito que havia conhecido alguém de quem tinha gostado mais do que de mim... Mas não. Antes de adoecer, eu era uma menininha idiota, mas cresci, e nunca mais me deixarei enganar.
Abby não tentou sorrir. — Espero que ninguém nunca mais tente enganá-la, querida.
— Não, pois acho que não vou me apaixonar nunca mais. Meu tio procurou-o ontem, não procurou? Abby, não foi você que mandou chamá-lo, mandou?
— Não só não mandei chamá-lo como brigamos antes de completar dez minutos de sua chegada.
— Achei que não teria feito isso. Ah, Abby, me perdoe! Fui terrivelmente rabugenta e grosseira, mas não tive intenção! Eu a amo mais do que a qualquer outra pessoa no mundo!
— Então vou me esforçar ao máximo para perdoá-la! Esse gracejo foi recebido com um risinho lacrimoso.
— Estou tão feliz por ainda ter você! Para sempre, Abby! — Levou a mão de Abby ao rosto e a aconchegou ali. — Amo tia Selina, também, é claro, mas... mas por um senso de dever. Eu não suportaria continuar vivendo aqui se só houvesse tia Selina.
Abby ouviu isso com sentimentos mistos. Apesar de aquecerem seu coração, aquelas palavras também a oprimiram. A imagem de Miles Calverleigh foi ficando cada vez mais distante.
— Queimei a carta — confessou Fanny abruptamente. — E a mecha de cabelo. Acha que devo lhe escrever dizendo isso?
— Ah, eu não o faria! É muito mais digno não lhe dar absolutamente nenhuma atenção!
— Sim... só que... — Ofegou. — Ele disse que guardaria a minha até o dia de sua morte, como recordação da única garota que amara verdadeiramente! Foi isso que me deu nojo!
— Não me surpreende, pois também me dá nojo.
— E finge estar me deixando pelo meu próprio bem, porque se deu conta, já que conversou com meu tio, de que não pode ter esperança de conseguir o seu consentimento, e seria muito errado nos casarmos dessa maneira, e que receia que eu me arrependa, e... Abby, foi falsa, cada palavra que escreveu! Nunca imaginaria que ele fosse capaz de me escrever esse tipo de coisa! E pensar que fui idiota o bastante para me deixar enganar! Ele sabia, desde o começo, que meu tio não daria seu consentimento, e que você tampouco, e foi por isso que quis que eu fugisse com ele! — Ergueu o corpo, os olhos e bochechas inflamados de indignação, e suas mãos se fecharam. — Eu o odeio! Não consigo entender como fui me apaixonar por ele!
Abby ficou feliz em encorajá-la, no estado em que estava. Fanny soltou a raiva por vários minutos, mas esse humor não perdurou.
De repente, se jogou de volta aos braços de Abby em um novo acesso apaixonado, sofrido, lamentando-se:
— O que vou fazer? Ah, Abby, estou tão infeliz! O que vou fazer?
— Bem, acho que o melhor a fazer é seguir o conselho do Dr. Rowton — replicou Abby.
— Ir embora? Ah, não! Não quero ir! Não posso! Não vou!
— Para ser franca, na primeira vez que ele me falou que você devia ir para uma região à beira-mar, para se restabelecer, admito que tive dúvidas, pois, na minha opinião, não existe nada mais melancólico do que o mar em novembro. Mas quando ele sugeriu Exmouth, me lembrei de como os Trevisian ficaram encantados com o lugar; como sabe, estiveram lá em dezembro. Hospedaram-se no Globe, e Lady Trevisian quase convenceu sua tia a ir para lá, quando esteve tão mal no inverno passado, pois disse que se sentiam tão confortáveis ali quanto em casa. O clima é excelente, também, e há vários passeios encantadores, além de inúmeras expedições interessantes a fazer. Eu me perguntei se, caso decidíssemos ir, a Sra. Grayshott permitiria Lavinia de nos acompanhar. Acha que permitiria?
A isca não foi mordida. Fanny foi veemente em suas súplicas para não sair de Bath.
— Todo mundo vai achar que é porque fui rejeitada!
— Bem, quando penso que o pobre Mitton está exausto de ter de ir até a porta da frente para receber flores, frutas e livros de seu exército de admiradores, meu amor, acho muito mais provável que pensem que foi você que o rejeitou!
Não insistiu no assunto, mas sentiu um certo conforto por acreditar que o orgulho de Fanny havia sofrido um golpe quase tão forte quanto o seu coração.
Fanny quis ser agradável, não se mostrar rabugenta nem deixar verem que estava sofrendo, mas apesar de todo esforço de parecer animada, permaneceu deprimida e, como sua tia mais velha, não se abstinha de discutir seu estado com Abby. Torcendo para que ela vencesse logo esse desespero, Abby escutava pacientemente, distraindo sua mente sempre que tinha uma oportunidade, mas nunca deixando de ser solidária.
Selina, por outro lado, não fazia nenhuma tentativa de parecer animada, ficou de cama por três dias após a visita desastrosa do irmão, e quando se levantou, queixava-se das mais diversas dores e incômodos. Talvez somente Fardle e a Sra. Grimston atribuíssem seu estado lacrimoso a nada além de um dos distúrbios que a atacavam com tanta frequência. Passava quase o tempo todo no sofá, sobressaltando-se com uma porta batida a distância ou com a buzina do carteiro na rua; enfurecendo a cozinheira ao dizer, pela manhã, que queria um determinado prato, e comendo três colheradas com esforço quando era servido no jantar; e usando de todos os meios que conhecia para manter Abby ao seu lado.
— Deixe-me usufruir de sua companhia enquanto ainda posso! — dizia ela, com lágrimas nos olhos.
Entre a irmã e a sobrinha, a posição de Abby não era nada invejável, e poderia ter-lhe provocado um distúrbio emocional se não fosse o Sr. Oliver Grayshott, que ia visitar Fanny, com Lavinia, quase todos os dias, para diverti-la com jogos de salão caso o tempo estivesse inclemente, e, quando o clima estava ameno, acompanhá-la em passeios de carruagem, ou levá-la para caminhar nos Sydney Gardens. Era evidente que ela parecia sempre mais animada depois dessas visitas, e se Abby passou a temer cada vez mais as duas palavras "Oliver disse", também se confortava ao saber que o que Oliver dizia distinguia-se pelo bom senso. Foi um pouco irritante perceber que Fanny aceitava um conselho de Oliver em vez do seu — particularmente quando o conselho era exatamente o mesmo que dera à sobrinha —, mas reprimiu tais sentimentos ignóbeis.
Pensava em qual seria o desfecho de uma amizade tão íntima. Fanny não estava apaixonada por Oliver. Continuava a enxergá-lo como irmão, e quase certamente recorria a ele em busca de orientação; mas Abby não conseguia deixar de achar que ele era um homem muito sossegado para atraí-la. Ainda assim, nunca se sabia.
Talvez em um ou dois anos, sua confiança e simpatia se transformassem em amor. Havia tantos casos de mulheres enérgicas que encontravam a felicidade com um marido muito mais sóbrio do que elas. Não havia dúvida de que Oliver amava Fanny, embora a tratasse da mesma maneira que tratava Lavinia. Somente quando olhava para ela traía-se inconscientemente. Era sempre possível perceber, pensou Abby, e logo tentou definir quando havia sido a primeira vez que percebera nos olhos tão diferentes de Miles Calverleigh aquele mesmo brilho interior.