Questões da saúde reprodutiva

Karen Giffin · Capítulo 17 de 26

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Questões da saúde reprodutiva

15 - AIDS e saúde reprodutiva: novos desafios

15 - AIDS e saúde reprodutiva: novos

desafios

 

Regina Helena Simões Barbosa

Às vezes eu tenho que transar pra satisfazer a ele porque…

tendo mulher dentro de casa… se eu nâo procurar satisfazer

ele, ele vai procurar mulher na rua e a coisa que eu tenho o

maior medo é dessa doença, da Arns.

 

Não, quando eu toco [no assunto AIDS], ele desconversa. Diz:

‘mulher boba, essa mulher só pensa em morrer, só pensa em

doença’…

 

Esse problema que eu tô de infecção na urina é dele e ele

passa pra mim. É por isso que eu às vezes/alo pra ele: usa

camisinha. Mas ele não aceita.

 

Eu não converso [eom o marido sobre sexo]. Às vezes eu

procuro conversar mas ele…’ah, vou sair um pouquinho…’

sempre fugindo. Erttão, agora, desisti.

 

Sem camisinha, não tem. Hoje em dia eu jamais teria qualquer

relação com qualquer outra pessoa sem camisinha. […] E agora

a AIDS, que não tem cura? E eu sempre pensei muito: eu tenho

meu filho, eu amo meu filho e eu amo a mim. Então, eu não vou

morrer por causa de amor…

Essa falas são de mulheres pobres, casadas, com filhos, moradoras de uma comunidade favelada da zona urbana do Rio de Janeiro (Simões Barbosa, 1993a). Elas expressam a angústia, a perplexidade, o medo e a impotência, mas também sua garra e coragem no enfrentamento de um duro cotidiano de vida em que as dificuldades de sobrevivência são muitas; as realizações pessoais, poucas. A AIDS entra em suas vidas como mais uma preocupação, como mais um ‘risco’ que se acrescenta a tantos outros, alguns mais imediatos e ameaçadores. Estes depoimentos revelam desde o conformismo com um destino que parece previamente traçado para as mulheres, suas contradições e conflitos ao buscarem caminhos para lidar com temas tão complexos quanto o amor, a dependência, a auto-estima, a fidelidade e o companheirismo - tão arraigadas na cultura de gênero - até uma consciente (e conquistada!) auto-estima, que não abre espaço para riscos que podem ser evitados, como é o caso do último.

Fica claro que não se pode discutir a AIDS e seu cnfrentamento sem compreender os papéis de gênero e todas as implicações que esses têm nas relações entre homens e mulheres. A adoção de medidas preventivas, como é o caso do preservativo, esbarra em assuntos profundamente arraigados e sobre os quais ainda é difícil dialogar, romper barreiras (especialmente as emocionais), vencer medos, enfim, enfrentar abertamente uma ameaça real à vida de milhares, senão milhões, de homens, mulheres e crianças em todo o mundo. Porém, é importante ter clareza que a vulnerabilidade - tanto individual quanto coletiva - ao vírus HIV é variável e depende de inúmeros determinantes sociais, econômicos, biológicos e culturais. Desta forma, a vulnerabilidade feminina ao HIV necessariamente remete às formas como homens e mulheres se relacionam em nossa sociedade, a dinâmica de poder que perpassa tais relações e o imaginário coletivo em relação aos papéis de gênero - que, certamente, constituem importantes variáveis na conformação do atual perfil da epidemia (Pitanguy, 1995).

As abordagens teóricas da AIDS e o dilema

biológico X social

No campo das ciências da saúde, a AIDS tem se mostrado um campo fértil para o (re)desvelamento das complexas relações entre o biológico e o social.

Para além das interações reconhecidamente produtivas e legitimadas entre as ciências sociais e a medicina, coloca-se, mais do que nunca, a necessidade de se compreender a doença também a partir de seu referencial social, cultural e político.

O enfrentamento da pandemia de AIDS e os conseqüentes enfoques teórico-metodológicos devem considerar que a distribuição de poder nas relações entre homens e mulheres na maioria das sociedades e, particularmente, os aspectos vinculados às decisões sobre os encontros sexuais entre uns e outras - além da aparente maior suscetibilidade das mulheres para adquirir a infecção heterossexualmente - constituem uma dimensão complexa que provavelmente continuará tendo efeitos decisivos na evolução da epidemia em todas as nações e grupos sociais (Cáceres, 1995).

Neste campo, destaca-se a contribuição que a análise de ‘gênero’ trouxe para a discussão da sexualidade nas últimas décadas, causando, segundo alguns(as) autores(as), um impacto revolucionário, por meio da discussão e da crítica ao determinismo biológico e às conexões históricas entre a dominação masculina, a ideologia científica e o desenvolvimento ocidental da ciência e, em particular, da medicina (Vance, 1991).

Historicamente, a identidade feminina e a condição social da mulher estiveram referidas a fatores biológicos, caracterizando, com a ajuda da ciência, a chamada “inferioridade biológica da mulher” (Giffin, 1991). Com o surgimento da análise feminista, posteriormente incorporada à discussão teórica e acadêmica pelo conceito de ‘gênero, a hegemonia das explicações biológicas foram sendo substituídas pela ênfase na ‘construção social da identidade feminina’. Dentro desta discussão, é explicitado o papel ideológico da ciência que, via de regra, relegou a questão da mulher à esfera do natural. Como bem sintetiza Giffin (1991),

a tese ‘mulher é uma categoria biológica’ foi substituída pela

antítese ‘mulher é uma construção social’ e, finalmente, pela

síntese Os fatos biológicos foram processados no nível do

social, que inclui as atividades científicas que, por sua vez,

reforçaram os estereótipos tradicionais que enfatizam os fatores

biológicos’.

As tentativas de se historicizar a sexualidade produziram um corpo de trabalho inovador para historiadores, antropólogos, sociólogos e psicólogos, que passaram a desenvolver conversações interdisciplinares incomuns até então. O pressuposto de que a realidade é uma construção social parte do princípio de que atos físicos podem ter diferentes significados sociais e subjetivos, dependendo de como são definidos e compreendidos em diferentes culturas e períodos históricos. Assim, as construções sociais não só influenciam a subjetividade individual como organizam e conferem sentido à experiência sexual coletiva por meio do impacto das identidades sexuais, ideologias e regulações (Vance, 1991).

Com o surgimento da epidemia de AIDS, antigos dicotomias/dualismos ressurgem e, com eles, as tentativas de se. retomarem análises reducionistas, biologicistas e/ou comportamentalistas. Muito do conhecimento produzido sobre a AIDS compreende a sexualidade como uma função fisiológica derivada de um corpo supostamente universal, ignorando seus aspectos culturais, políticos e históricos. Resultam desta abordagem pesquisas mais preocupadas em quantificar comportamentos do que em explorar significados, confundindo ato sexual com identidade sexual e tratando categorias como ‘heterossexualidade’ como não-problemáticas. Além do perigo de se repatologizar o sexo, como no século XIX e início do XX, quando a discussão pública do sexo era motivada e circunscrita pelos discursos das doenças venéreas, da prostituição e masturbação, o que abriu as portas para uma crescente intervenção governamental a partir da medicina e dos serviços de saúde (Vance, 1991).

Apesar dessas tendências, o cenário da AIDS permanece complexo e contraditório: muitas investigações esbarram na discrepância entre as ideologias sobre a sexualidade e as experiências concretas, o que obriga os cientistas a reverem seus modelos.

Muito embora o movimento organizado das mulheres, no Brasil, tenha resistido a incorporar a temática da AIDS à sua agenda (Barbosa, 1996), mais recentemente a categoria ‘gênero’ vem sendo gradativamente reconhecida e incorporada nos estudos sobre AIDS, o que (re)abre novas e promissoras abordagens teórico-metodológicas (Simões Barbosa, 1995).

As ciências sociais, por intermédio das suas categorias explicativas da complexidade do social, aliadas ao conceito de gênero, têm-e continuarão tendo - um papel fundamental na explicitação de todas as questões apontadas, cruciais para determos essa epidemia que coloca em risco gerações inteiras de vidas humanas jovens.

 

As representações de gênero no contexto da

epidemia de AIDS: ’a doença deles é nossa!!!’

Nos últimos anos, os meios de comunicação vêm anunciando, de forma alarmista, a crescente infecção de mulheres pelo vírus HIV Mais precisamente em 1992, durante a VIII Conferência Internacional de AIDS, realizada em Amsterdam, o mundo tomou conhecimento do risco que as mulheres corriam: “mulheres estão em risco para a AIDS!, alertam cientistas” (Jornal do Brasil, 19/07/92). De lá para cá, a situação se agravou.

Recentemente, o último relatório do Programa das Nações Unidas para a AIDS novamente alertou para o explosivo agravamento da infecção em mulheres e crianças, especialmente na América Latina e Caribe. Em São Paulo, entre 1993 e 1994, o número de casos se estabilizou entre homens e se multiplicou por cinco entre as mulheres (Jornal do Brasil, 29/11/96). Mais recentemente, as autoridades de saúde brasileiras fizeram um novo alerta: “Ministério alerta mulheres sobre AIDS”, chamando a atenção para o fato de que crescem os casos de mulheres infectadas nas relações heterossexuais (Jornal do Brasil, 8/3/97).

Pesquisas recentes mostram que, ao contrário do que preconceituosamente se supunha, são principalmente as mulheres casadas ou com um único parceiro as que mais estão sendo atingidas pela AIDS. Esse perfil feminino da síndrome revela claramente que as questões de gênero estão presentes desde o início na determinação e na representação da epidemia, mas somente agora se tornam explícitas.

O que houve com uma epidemia que, desde o aparecimento dos primeiros casos, no início dos anos 80, foi associada a homens homossexuais e chamada de ‘peste gay’? A construção social e científica da AIDS, fortemente marcada por representações de classe, raça e gênero, deu margem a interpretações preconceituosas e equivocadas, que muito dificultaram-e dificultam -as estratégias de enfrentamento. Inclusive, e principalmente, a falsa sensação de que, desta vez, as mulheres estavam excluídas. Como afirma Ramos (1992),

preconceitos, estigmas e discriminações podem aumentar

quando massacres lingüísticos do tipo ‘a Aids não discrimina

sexo, raça ou cor’ são acionados ali onde negros, hispânicos e

mulheres estão sendo massacrados pelo vírus.

Ao se refletir sobre o impacto e a gravidade do vírus HIV para a população feminina, deve-se, necessariamente, consideraros determinantes sociais, econômicos, culturais e de saúde que

agravam a Vulnerabilidade’1 das mulheres, especialmente no atual contexto mundial, em que as desigualdades econômicas e sociais se aprofundam. Nos países pobres, porém, a situação é mais grave, na medida em que a insuficiência, ou mesmo ausência de políticas sociais compensatórias, agravam a situação de vida das parcelas da população que já vivem no limiar da pobreza. Nesse contexto, a situação da população feminina é desvantajosa. Alguns dados ajudam a compor um quadro dessa situação.

Nos Estados Unidos, um dos países mais prósperos do mundo, dois em cada três adultos que viviam abaixo do nível de pobreza em 1983 eram mulheres. Esse fenômeno -chamado de ‘feminização da pobreza’ -ocorre tanto nos países ricos quanto nos pobres, especialmente na última década, quando o desemprego aumentou consideravelmente em quase todo o mundo (Panos, 1993). No cenário da AIDS, assiste-se não só à ‘pauperização’ da epidemia, como à sua feminização’, pois o vírus HIV, como se sabe, se dissemina mais rapidamente entre os setores sociais de menor poder na sociedade.

Com relação à questão reprodutiva, os dados são dramáticos e revelam uma situação preocupante para as mulheres. No Brasil, a idade média das mulheres esterilizadas caiu de 34 para 29 anos (pesquisa realizada pelo IPEA/BENFAM, publicada parcialmente no Jornal do Brasil, 29/11/96). Entre as mulheres casadas, 40% estão esterilizadas; entre todas as mulheres que usam métodos anticonceptivos, apenas 4,4% adotam o preservativo, o que mostra a pouca tradição de seu uso na cultura brasileira. A opção pela esterilização, especialmente em idade tão precoce, pode ser um indicador das dificuldades que as mulheres têm na negociação de métodos anticonceptivos que pressupõem uma maior participação masculina (Goldstein, 1992). Além disso, 51% das jovens entre 15 e 19 anos que não freqüentam a escola já têm filhos. Esse alarmante índice revela a ausência de educação sexual para os jovens e a falta de acesso de significativas parcelas da população às informações contraceptivas e serviços de planejamento familiar.

Á vida reprodutiva das mulheres retrata a história de sua opressão. As pílulas de vinte anos atrás foram, inicialmente, libertadoras da sexualidade feminina. Alguns anos depois, tornaram-se problemáticas: além das conseqüências adversas para a saúde das mulheres, os homens afastaram-se definitivamente da responsabilidade pela anticoncepção. Hoje, alguns anos depois das primeiras laqueaduras, já circula uma fala que desmonta a magia deste método radical e irreversível: o arrependimento, a melancolia pela gestação que não pode mais ocorrer, queixas vagas que retornam aos consultórios e estudos que revelam novos dados sobre efeitos colaterais.

Com o passar do tempo, as mulheres constatam que os ‘novos’ métodos não alteram seu status como cidadãs e trabalhadoras e trazem complicações para sua saúde. Além disso, o preservativo, o coito interrompido e a tabela - métodos que pressupõem a participação masculina-foram isolados. Com o surgimento da Aros, as conseqüências são visíveis: os homens distantes das decisões anticonceptivas; as mulheres, ‘convencidas’ sobre os benefícios dos novos métodos.

Apesar de o preservativo feminino já estar sendo testado em vários países do mundo e geralmente com boa aceitação pelas mulheres e seus parceiros, sabe-se que seu (alto) custo será problemático para os países pobres. Além disso, pesquisas recentes revelam que, mesmo não interferindo no prazer sexual das mulheres, a maioria dos motivos que estas apontaram para gostar do preservativo feminino foram centrados na perspectiva masculina (Ray et al., 1995).

Atualmente, a alarmante opção das mulheres, especialmente as pobres, pela laqueadura e outros métodos irreversíveis parece indicar que estas, num contexto de opções limitadas, conforme Xavier et al., 1989: “pagam o preço das decisões tomadas no terreno da realidade objetiva: as precárias condições de vida, a oferta limitada de métodos reversíveis, a falta de assistência adequada c a ausência de solidariedade dos companheiros.”

Os questionamentos que hoje são apresentados - e que representam um desafio urgente não só para os ‘especialistas’, mas para toda a sociedade são: como reintroduzir o preservativo na vida sexual de homens e mulheres? Como superar e mudar uma história que, como se viu, tenta impor às mulheres um discurso e um conhecimento que não levam em conta suas reais necessidades, tanto biológicas quanto afetivas e sociais? Como trazer os homens para essa discussão de forma que estes assumam uma participação responsável e solidária no campo das decisões sexuais?

 

A epidemiologia da AIDS e as mulheres

As estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS) indicam que dos 10 a 14 milhões de pessoas infectadas pelo HIV no mundo um terço é de mulheres (OPS, 1990) que contraíram o vírus em relações sexuais. A OMS prevê que, até o ano 2000, 75 a 80% das infecções pelo HIV terão ocorrido pela via das relações heterossexuais e que 13 milhões de mulheres estarão infectadas. Destas, 4 milhões deverão estar mortas (Panos, 1993).

No Brasil, a relação homem/mulher vem mudando drasticamente nos últimos anos. Em 1985, era de 35:1; em 92,4:1; e, em 96,3:1 (MS, 1996). A transmissão heterossexual vem assumindo importância cada vez maior para a população feminina, sendo responsável, no período 1993/1994, por 54,2% dos casos notificados (Barbosa et al, 1996).

A AIDS já é a principal causa de morte entre mulheres de 20 a 34 anos em São Paulo. Segundo estimativas, existiam, em 1994, aproximadamente 420 mil pessoas infectadas pelo Hiy sendo 60 mil mulheres (Barbosa et al., 1996). Se levarmos em conta que o índice de subnotificações no Brasil é elevado, é possível que o quadro seja mais grave do que se pensa e conhece.

Em São Paulo, 45% das infectadas têm um único parceiro. O perfil ocupacional das mulheres infectadas, tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro, revela que são as donas de casa e as empregadas domésticas as que mais vêm sendo atingidas pelo vírus HIV (Barbosa et al., 1996; Matida, 1994). Além disso, registra-se uma acentuada queda no número de casos entre mulheres com nível superior de escolaridade e, inversamente, ascensão dos casos entre as de baixa. Longe de ser uma doença de mulheres ‘promíscuas’, ou das trabalhadoras sexuais, a AIDS, hoje, se configura como um problema da população feminina em geral e, particularmente, das mulheres mais pobres, com menor acesso às informações e serviços e menor poder para tomar decisões, especialmente as relacionadas ao sexo.

Mesmo com as evidências acumuladas de que a transmissão do HIV podia ser heterossexual- sempre foi esse o padrão de transmissão no continente africano - os discursos científico e social continuaram, até o final da década de 80, a representaras mulheres como excluídas da epidemia. Quando as evidências da AIDS em mulheres aumentaram (ironicamente, ‘descobriu-se’ o grande contingente de mulheres notificadas na rubrica Outros’), as especulações as associaram às prostitutas, usuárias de drogas injetáveis e mulheres do Terceiro Mundo. As prostitutas seriam os ‘reservatórios de HIV que ameaçariam a sociedade e, paradoxalmente, as mulheres com um único parceiro, monogâmicas e em idade reprodutiva, foram excluídas do risco. Com a constatação-tardia - de que este contingente de mulheres estava sendo crescentemente atingido, passaram a representar uma ameaça para as crianças, que poderiam nascer infectadas. Como aponta Carovano (1991),

Tanto ‘mães’ como ‘putas’ são definições baseadas em seus

relacionamentos com outros, o que reflete as necessidades de

homens e crianças, deixando margem para que as mulheres

sejam tratadas ou como uma ‘preocupação’ ou como uma

‘ameaça’ para os outros.

A construção científica de um modelo de epidemia que ignorou desde o princípio seus determinantes sociais e culturais teve e tem sérias conseqüências nas estratégias de enfrentamento. Até hoje, pouca atenção e recursos têm sido destinados à prevenção, pesquisa e tratamentos voltados para as mulheres. Os cientistas constatam que elas estão morrendo cada vez mais, apesar dos avanços no tratamento da doença. O tempo de sobrevivência das mulheres com AIDS é menor do que o dos homens; nelas, a doença é mais letal. Uma das hipóteses trazidas à tona é a demora na procura de serviços médicos (Jornal do Brasil, 8/5/97). A situação das mulheres, especialmente no Terceiro Mundo, é grave, pois, como afirma Panos (1993).

ainda hoje, no início dos anos 90, as opções das mulheres -

sobretudo aquelas relacionadas às posturas sexuais - estão

sujeitas a coerções poderosas e profundamente enraizadas. A

consciência do perigo que o vírus representa para a sociedade

como um todo leva agora o foco das atenções para as

limitações sofridas pelas mulheres no espaço de suas relações

sociais.

 

A vulnerabilidade feminina diante do HIV

A vulnerabilidade feminina ao HIV/AIDS envolve fatores biológicos -que adquirem especificidades no corpo feminino - e relações sociais, que determinam, em última instância, o poder das mulheres não só para se proteger da infecção como para influir nas decisões políticas que envolvem a destinação de recursos para pesquisas relacionadas a sintomas, tratamentos e vacinas. Como bem apontam Galvão & Parker (1996):

A vulnerabilidade das mulheres frente ao HIV/ Aids e o impacto

da epidemia nas suas vidas têm sido colocados como uma

questão secundária - cercada, quase sempre, pelo silêncio e

descaso tradicionalmente associados com a sexualidade e a

saúde femininas.

Biologicamente, as mulheres estão sujeitas a doenças específicas de órgãos genitais, como doença pélvica, endometriose, tumor uterino, câncer cervical; outras, a uma incidência maior de algumas doenças (infecção do trato urinário, câncer de mama e infecção por papilomavírus) e o sofrimento de sérias conseqüências decorrentes de problemas comuns, como gonorréia e clamydia, por exemplo. As mulheres, de uma forma geral, morrem muito de complicações associadas à gravidez e doenças dos órgãos reprodutivos. Se, no campo das Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST), sabe-se que existem especificidades entre homens e mulheres, inclusive na apresentação de sintomas, verifica-se, ainda, que as informações sobre a infeccção pelo HIV nas mulheres não são suficientes. Pode-se supor também que o aborto, prática criminalizada e clandestina e que é um indicador de insegurança no controle da fecundidade, aumenta as chances de infecção pelo HIV das mulheres, tendo em vista as condições precárias em que são realizados nos países latino-americanos.

Além disso, as queixas freqüentemente relacionadas ao HIV-como cansaço, perda de peso, apetite e outras - são interpretadas, pelos médicos e pelas próprias mulheres, como de origem psicossomática e/ou relacionadas ao stress, e não ao HIV (Denenberg, 1990).

Os poucos estudos realizados com mulheres apontam que o risco de se infectarem em relações sexuais desprotegidas é maior que do que o dos homens, provavelmente em função da conformação anatômica de seu aparelho genital (Panos, 1993).

No campo das pesquisas relacionadas a tratamentos e drogas, as mulheres têm sido discriminadas. Em 1989, o Laboratório Burrougs-Wellcome admitiu que o AZT causava câncer nos órgãos genitais de ratas (Banzhaf et al., 1990). Além disso, as mulheres foram mantidas à parte de muitas pesquisas com drogas terapêuticas, devido aos elevados custos financeiros envolvidos no potencial risco fetal de muitas drogas. Isto impede melhores estudos - não só os relacionados com os cânceres ginecológicos próprios da infecção pelo HIV como das funções endocrinológicas, do ciclo menstrual, dos métodos anticonceptivos e outros.

Portanto, a rápida disseminação da epidemia de HIV/AIDS entre as mulheres brasileiras não pode ser dissociada da falta de responsabilidade que perpassa o desenvolvimento de programas integrados de atenção à saúde da mulher no Brasil.

A luta empreendida pelas mulheres organizadas, nas últimas décadas, para a implantação de serviços de saúde integrados e que abranjam a integralidade de sua saúde, especialmente as questões relacionadas à saúde reprodutiva (de maneira a atender de forma mais efetiva os problemas associados à desigualdade social e econômica e à generalizada negação dos direitos reprodutivos e sexuais), resultou, em 1983, na criação do PAISM. Porém, como atesta Costa (1992), a qualidade dos serviços de saúde disponíveis para as mulheres no Brasil, no sistema de saúde pública, vem decaindo com o passar dos anos -como ocorre com a qualidade dos serviços de saúde pública em geral. Além disso, uma necessária integração entre as atividades de prevenção da AIDS e os serviços de saúde da mulher tem sido permanentemente sacrificada, na medida em que os programas de saúde da mulher que de fato existem vêm deixando de incorporar a AIDS como ponto significante, ao passo que os programas de prevenção de AIDS continuam a se voltar predominantemente para a sexualidade masculina ou para as prostitutas.

Enfim, toda a discussão que envolve a ‘Vulnerabilidade’ das mulheres à infecção pelo HIV implica na compreensão das relações de poder entre os sexos, que levam as mulheres a aceitarem, nem sempre passivamente, o destino para elas traçado.

 

A prevenção e o sexo seguro para as mulheres:

seguro?

O que podem fazer as mulheres para se proteger da infecção pelo HIV se nossa cultura confere aos homens o poder - quase absoluto -sobre as decisões sexuais? Podem as mulheres impor aos homens o uso do preservativo? Será realista esperar que os homens venham a assumir suas reponsabilidades e se disponham a experimentar práticas que lhes pareçam contrárias ao seu prazer e à sua própria ‘natureza’, como é o sexo não-penetrativo? Poderá a fidelidade conjugal deixar de ser um preceito religioso e jurídico em culturas em que a representação da masculinidade pressupõe inúmeras parcerias?

Quanto menos poder de barganha tem a mulher, mais difícil é, para ela, evitar os riscos. Ao insistir no uso da camisinha, ou apenas pedir aos seus parceiros que a usem, muitas receiam estarem colocando em risco sua relação - o que pode significar não só a perda de status e segurança emocional, mas, principalmente, o suporte econômico necessário à sua sobrevivência. Muitas mulheres com filhos dependentes estão em situação ainda mais vulnerável. Como afirma Panos (1995),

o comportamento humano está enraizado nos fatores sociais e

econômicos da vida de um indivíduo. Ainda hoje, no início dos

anos 90, as opções das mulheres - sobretudo aquelas

relacionadas a posturas sexuais - estão sujeitas a coerções

poderosas e profundamente enraizadas.

A maior parte dos homens, em diversas culturas ocidentais, considera o sexo com preservativo desagradável e desnecessário, c tenta, de todas as maneiras, evitá-lo. Para muitas mulheres, o medo da infecção pelo HIV é menor do que o medo de sugerirem aos seus parceiros o uso de preservativos (Pearl, 1990). Além disso, “as mulheres que tentam introduziro condom na relação são, freqüentemente, percebidas como ‘preparadas demais’ para o sexo, desconfiadas da infidelidade do parceiro, infiéis ou mesmo infectadas pelo HIV” (Carovano, 1991).

A maioria dos programas preventivos destinados às mulheres são dirigidos às trabalhadoras sexuais, vistas, conforme referido anteriormente, como “reservatórios de HIV que ameaçam a humanidade”. Mais recentemente, novos programas têm sido criados para as mulheres grávidas, o que reflete a preocupação com o crescente número de crianças infectadas.

As mulheres em idade reprodutiva são as mais negligenciadas: apesar de serem relativamente mais bem informadas sobre sexualidade e planejamento familiar, e talvez mais capazes de fazer escolhas mais maduras sobre seus comportamentos sexuais, estão em risco crescente para a AIDS. Este é o grupo que menos tem recebido atenção: são as ‘boas moças’, representadas como assexuadas e que, só quando grávidas, são defrontadas com os riscos potenciais de estarem infectadas.

Ironicamente, apesar de serem mulheres em idade reprodutiva, o único conselho dado a elas é que, ao se perceberem em risco, usem métodos que evitam a concepção, o que expõe a contradição entre a prevenção da doença e o papel reprodutivo da mulher. Assim, as medidas de prevenção que negam o papel reprodutivo da mulher vão ter um impacto limitado, bem como os métodos que contradigam as normas de fertilidade das sociedades. De acordo com Panos (1993):

O processo de tomada de decisões sobre o uso do preservativo

(e outros contraceptivos) está relacionado a um conjunto de

influências sociais, econômicas e culturais que, além de muito

complexo, é sempre voltado para um reforço do perfil materno

das mulheres.

Os programas de prevenção à AIDS dirigidos às mulheres devem ser desenvolvidos em um contexto de compreensão das barreiras sociais e econômicas que resultam na falta de poder que caracteriza as mulheres afetadas pela AIDS. Além disso, devem contar com a participação das mulheres-alvo na definição de todos os estágios das políticas e programas que estão sendo desenvolvidos pois, como adverte Berer (Panos, 1993),

as escolhas e prioridades das mulheres precisam encontrar eco

junto aos responsáveis pelas políticas públicas. Se as mulheres

não falam nem agem no sentido de se fortalecerem(…) nossos

interesses serão esquecidos ou serão submetidos aos

interesses do homens.

Por fim, resta questionar e re-pensar o modelo de ‘sexo seguro’, surgido dos grupos homossexuais americanos e que tem sido amplamente utilizado nas campanhas educativas em AIDS, com forte apelo à proteção do corpo e à responsabilidade mútua, além da tentativa de erotizá-lo. Porém, serão essa estratégia e esse discurso adequados para as mulheres? O que é ‘sexo seguro’ para elas? A história da sexualidade feminina sempre remeteu para o ‘sexo inseguro’: o medo da gravidez indesejada, do aborto, do estupro, do parto inseguro e em precárias condições etc. Além disso, a temática das DST nunca esteve presente como uma preocupação, a não ser com as prostitutas. Os homens, nos seus papéis sociais de ‘protetores’ da família e da prole, não se admitem como ‘trasmissores de doenças’ para a esposa/mãe.

Como, então, se coloca a discussão do sexo seguro -que pressupõe diálogo e confiança mútuos -em uma cultura que não discute sexualidade, afeto e prazer; e em que o sexo é circunscrito ao mundo privado? Será, além disso, que o leitmotiv do sexo seguro -uso do preservativo em todos os encontros sexuais, independentemente do número de parcerias (e que supõe um acordo tácito e silencioso sobre as inúmeras parcerias) - é o que desejam as mulheres nas suas relações afetivas/sexuais? Cremos que não. Em nossa pesquisa com mulheres de baixa renda (Simões Barbosa, 1993a), constatamos que as entrevistadas, embora associem em sua maioria o sexo seguro à prevenção de doenças, especialmente a AIDS, O atribuem à fidelidade do companheiro. Porém, quase nenhuma confia nessa fidelidade: “homem é assim, impulsivo, não se controla”. Roucas conseguem discutir com o companheiro. A saída, para algumas mais temerosas, é aconselharo parceiro a usara camisinha com as ‘Outras’. Porém, isso tem um custo emocional alto para as mulheres, como ilustra o seguinte depoimento acerca da infidelidade do marido: “Eu preteria não saber Eu não quero, porque a verdade dói e eu tenho medo, então. Eu não tenho estrutura suficiente pra suportar certas coisas.”

Será, então, que devemos insistir no sexo seguro tal como está colocado? Não seria esse o momento de se investir em uma transformação mais profunda das relações entre os sexos? Devemos optar por uma linha mais ‘pragmática’ de ação, ou investir nossos esforços em transformações e utopias? O discurso feminino aponta, nos parece, para o segundo caminho. As mulheres continuam a desejar o amor-companheirismo, a despeito de todas as transformações ocorridas em seu mundo produtivo-reprodutivo. Todas essas indagações nos apresentam o desafio de re-pensar não só as estratégias preventivas, mas também a produção de conhecimentos sobre o mundo reprodutivo-amoroso das mulheres que lhes proporcione maior visibilidade social.

Mais recentemente, vem-se colocando a necessidade - urgente e inadiável - de inclusão dos homens heterossexuais nas agendas de pesquisa e programas preventivos. Como aponta uma pesquisadora (Panos, 1993),

Para as mulheres, as mensagens atingem apenas uma metade

do casal. Qualquer proposta com o objetivo de prevenir a

transmissão heterossexual do HIV deve dirigir-se aos homens e

às mulheres. Mas, na maioria das vezes, os homens

heterossexuais não têm sido considerados público-alvo. Eles

podem estar sendo contemplados por tabela, pelo fato de

serem parte de um casal, ou, quem sabe, porque transam com

prostitutas, mas são poucas as iniciativas que tentam atingir os

homens de uma forma mais geral (…).

Constata-se, hoje, uma crescente preocupação de pesquisadores e profissionais da saúde que atuam no campo da saúde reprodutiva com essa temática. E, também, uma demanda aos serviços de saúde - ainda incipiente e desorganizada - de homens interessados em discutir assuntos referentes a saúde e papéis sexuais. Alguns autores apontam para uma ‘crise da masculinidade’ (Nolasco, 1993). É possível supor que sim, na medida em que o próprio processo de transformações econômicas e produtivas em curso está gerando profunda insegurança, especialmente no que se refere à vinculação ao emprego. Isto, certamente, está tendo - e terá - repercussões rio histórico papel masculino do ‘provedor familiar’ (Giffin, 1994). Cabe, portanto, um investimento em pesquisas e programas que potencializem e transformem essas questões na direção dc mudanças qualitativas nas relações entre os sexos.

 

As mulheres e a luta pelos direitos reprodutivos

no contexto da epidemia de AIDS

A epidemia de AIDS recoloca em pauta a longa e histórica luta das mulheres por seus direitos reprodutivos. Afinal, quanto mais mulheres em idade reprodutiva ficarem infectadas e mais crianças desenvolverem AIDS, a procriação pode ficar sob um controle estatal ainda maior. Se todos praticarem o ‘sexo seguro’, não nascerão mais bebês. Então, as mulheres podem ser o próximo -mas não o primeiro - grupo testado compulsoriamente para o HIV com a presumível separação entre as infectadas e não-infectadas (Simões Barbosa, 1993b).

No Brasil, como em outros países, a maioria das mulheres está sendo diagnosticada-muitas vezes compulsoriamente - para o HIV quando grávidas, ao procurarem assistência pré-natal. Como o teste anti-HIV vem sendo introduzido como rotina de pré-natal em grande parte dos serviços públicos de saúde, ao menos nos grandes centros urbanos, a maioria recebe a notícia no meio de uma gravidez. Segundo pesquisa realizada em duas maternidades públicas do Rio de Janeiro, o número de gestantes que não sabiam que estavam contaminadas cresceu 200% em três anos (entre 1992 e 1995). Além disso, o percentual de gestantes infectadas passou de 0,9% para 2,7% no mesmo período (Jornal do Brasil, 06/10/96). A maior parte dessas gestantes confirma o atual perfil de mulheres infectadas: são mulheres casadas, monogâmicas e sem noção de seu risco e de como se contaminaram.

No País, já se Ouviram’ falas neste sentido. Em 1993, o Ministério da Saúde anunciou campanha para a ‘prevenção’ da gravidez em mulheres infectadas. Posteriormente, um renomado médico obstetra carioca, professor universitário, se posicionou publicamente favorável ao aborto obrigatório para mulheres soropositivas. Posições como essas, que podem parecer isoladas ou pessoais, expressam a visão de importantes segmentos sociais, inclusive de formuladores dc políticas públicas.

Em relação ao sexo seguro, é fundamental lembrar que gravidez e esterilização não protegem as mulheres de nenhum tipo de infecção: esses eventos importantes na vida das mulheres sinalizam mudanças que requerem diferentes tipos de proteção e novas maneiras de se pensar a segurança no sexo. A gravidez é um momento especialmente vulnerável para as mulheres: há um futuro bebê a proteger, assim como a própria mulher. A amamentação, por sua vez, tanto para as mulheres soropositivas como para as que suspeitam ter o vírus (especialmente quando a mortalidade infantil é elevada), torna-se questão extremamente problemática (Berer et al., 1995).

Muitas mulheres não se incluem na categoria das que procuram um serviço de planejamento familiar ou matemo-infantil: são as esterilizadas; as que já passaram a menopausa; ou as que não têm filhos. Os serviços de prevenção de câncer uterino poderiam ser o espaço para se abordar essas mulheres, mas são insuficientes na maioria dos países pobres, sem falar nas dificuldades de acesso aos serviços, mesmo nos grandes centros urbanos.

Estas teses, relativamente pouco discutidas, somente emergirão se as DST o HIV e a AIDS forem inseridos na discussão da gravidez e da anticoncepção: para as mulheres - mas não somente para elas -o conceito de segurança em relação às DSTe à Aros, que significa a prevenção de doenças que ameaçam a vida, é também relevante para a gravidez e a anticoncepção.

Somente quando todas essas questões estiverem juntas será possível começara compreender o significado de suas interconexões e o que deveria ser uma ‘abordagem integrada da sexualidade e da saúde e os direitos reprodutivos’. Desta maneira, crescentemente, as definições de sexo seguro se associam aos direitos, o que significa colocar o debate no campo das lutas jurídica e política.

Mas não só. Praticar o sexo seguro, não por um mês ou um ano, mas por toda a vida, é muito mais difícil do que muita gente julga querer ou poder. Aí reside a complexidade da questão que nos coloca o desafio de compreender como essas teses se configuram no âmbito das subjetividades e das culturas. Há que se ressaltar que homens e mulheres, ao longo de sua trajetória histórica, sempre aceitaram conviver com riscos, conscientemente ou não. Entre as mulheres na luta pelos direitos reprodutivos, houve um entendimento, nas últimas décadas, de que, quando elas controlarem sua fertilidade, terão mais poder e direitos nos seus relacionamentos afetivos e sexuais. Hoje, constatamos que o “buraco é mais embaixo”. O uso de conhecimentos sobre a anticoncepção certamente permite maior controle sobre a fertilidade, mas isso não significa, necessariamente, que as mulheres tenham controle sobre sua fertilidade ou sobre os outros aspectos de suas relações (Berer et al., 1995). Porém, é indiscutível que, quando o controle da fertilidade é reduzido a informações técnicas e uso de métodos, sem se discutirem a sexualidade e as relações de gênero, as mudanças são mais limitadas, e o poder é menos ameaçado ou, até, nãoameaçado. Falar sobre sexo é ameaçador Educaros jovens para o sexo é visto como ameaçador. Mudaras práticas sexuais c torná-las mais seguras é percebido como ameaçador. É ameaçador para a autoridade masculina, parental, religiosa, enfim, para todos aqueles que decidiram o que é certo e o que é errado para a sociedade como um todo.

Ainda há muito que avançar. Tem havido sucessos, sem dúvida, mas ainda há muitos problemas e dificuldades. Quinze anos de epidemia é um tempo curto e valores e crenças são muito profundos. Afinal,

Essas doenças (sexualmente transmissíveis) sempre foram

vistas como resultado de uma sexualidade socialmente

inaceitável, de uma falência moral do controle do indivíduo

sobre seus impulsos e como uma punição pela transgressão de

normas societais. (Gostin et al., 1995)

Enfim, a epidemia de AIDS toca em aspectos essenciais da vida humana: a sexualidade, a moral, as relações de gênero, as relações de poder, as relações com a vida e com a morte. Sem que se trabalhem todas essas temáticas será impossível sensibilizar para as mudanças que o controle da epidemia exige.

Se nós, mulheres, fomos capazes de enfrentar e criar alternativas para a prevenção do câncer, para a contracepção, para a gravidez e o aborto, também podemos e devemos nos tornar conhecedoras dos problemas que a AIDS está - e estará cada vez mais - trazendo. Somente assim se poderá enfrentá-la e criar as respostas necessárias à nossa auto-proteção. Esse é mais um desafio que temos de enfrentar. Possivelmente não o último. Certamente, um dos mais graves à nossa saúde e nossas vidas.

 

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1 Vulnerabilidade é aqui compreendida como um conceito que avalia o risco de infecção para o HIV, levando em conta o contexto socioeconômico e cultural dos indivíduos e suas coletividades (MANN et al., 1993). Tal conceito é muito mais abrangente do que os anteriores - grupo de risco e, posteriormente, comportamento de risco - pois considera que o risco que uma pessoa tem de se expor ao HIV é, além de individual, coletivo e, além de biológico ou comportamental, cultural e político.