Questões da saúde reprodutiva

Karen Giffin · Capítulo 3 de 26

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Questões da saúde reprodutiva

Parte I - História, política, conceitos

 

1 - O movimento nacional e

internacional de saúde e direitos

reprodutivos

 

Jacqueline Pitanguy

 

Contexto

A visibilidade da mulher na esfera pública do cenário internacional constitui um dos principais fenômenos políticos da segunda metade deste século. Isto deve-se tanto a um significativo aumento da presença feminina em partidos, parlamentos e cargos executivos, quanto à sua participação em diversas entidades da sociedade civil -movimentos sociais, Organizações Não-Governamentais (ONGs), associações de classe, sindicatos etc.

Sobre a participação feminina nos parlamentos europeus, chama atenção a posição de destaque que detém nos países nórdicos, especialmente na Noruega, onde, desde a década de 80, as mulheres ocupam mais de 30% das cadeiras do Legislativo. As recentes eleições da Inglaterra e da França fortaleceram sua presença neste espaço político. Na Inglaterra, a participação feminina na Câmara dos Comuns dobrou; na França, as mulheres preencheram 23% das vagas para candidatos e aumentaram significativamente sua presença no parlamento e em cargos de primeiro escalão do Executivo.

Esta crescente presença das mulheres nos canais institucionais do poder não se restringe nem à Europa, nem ao ocidente. Nos Estados Unidos, apesar de ainda não ultrapassarem 12% da representação no Congresso, entre os anos 80 e 90, elas mais do que dobraram sua presença no Legislativo Federal. Em diversos países da América Latina vem ocorrendo fenômeno semelhante, inclusive no Brasil, onde, apesar de ostentarem ainda uma taxa muito baixa, alcançaram, na década de 90, sua maior participação no Congresso Nacional - cerca de 8%.

Com exceção dos países árabes, onde a cultura afasta as mulheres da esfera pública, em diversos países da Asia e da África houve, nesta década, significativo aumento de sua presença no Legislativo. Cabe assinalar que, nos que integravam o antigo bloco socialista europeu, a participação da mulher nos parlamentos vem decaindo nos últimos anos.

Se esta tendência - a maior presença das mulheres nos legislativos- não conduz, necessariamente, a plataformas comuns, uma vez que as agendas políticas tecem-se sobretudo a partir de princípios e conjunturas partidárias, é indicativa de um fenômeno talvez ainda mais importante - o de uma profunda mudança na percepção social do papel da mulher na sociedade. Atribuímos aos movimentos de mulheres, e particularmente ao feminismo, a responsabilidade principal por esta mudança.

A reivindicação, por estes movimentos, de um espaço próprio na dinâmica do poder suscita a necessidade de uma redefinição do conceito de atuação política. A análise dos significados e alcances desses movimentos deve incorporar novos instrumentos e indicadores, na medida em que se pretende interpretar um tipo de ação política cuja base organizacional se fundamenta, sobretudo, na solidariedade advinda da projeção política de uma identidade coletiva.

Calcados basicamente no estabelecimento de agendas e plataformas comuns de luta sem maiores entraves originados da dinâmica político partidária local, tais movimentos vêm construindo alianças e tecendo estratégias nacionais e internacionais com surpreendente agilidade. Não pretendemos questionar a importância do sistema partidário, mas tão-somente indicar que o próprio conteúdo de sua agenda política implica possibilidades e limites diversos. No entanto, salientamos o caráter imprescindível e insubstituível dos partidos políticos em qualquer projeto democrático; e ressaltamos o perigo em sobrevalorizar a capacidade das ONGs, especialmente na prestação de serviços, pois estas organizações não podem - nem devem - substituir o Estado.

Assistimos, especialmente nos anos 90, a uma crescente globalização dos movimentos sociais, interligados pelos meios de comunicação e com idéias em constante circulação por meio de redes, grupos e organizações nacionais e internacionais. Discutem-se propostas, reflexões, estratégias em inúmeros seminários, conferências. Fóruns e associações diversos são instituídos para canalizar e sistematizar este fluxo constante de troca.

 

A América Latina e o Brasil

O continente latino-americano tem compartilhado experiências econômicas e políticas semelhantes. Nos anos 60, realizaram-se eleições presidenciais em diversos países -Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Peru, Uruguai, Colômbia - além do México e alguns países da América Central. A estas eleições sucederam-se golpes militares responsáveis pela instalação de regimes autoritários que perduraram ao longo das décadas seguintes.

Estes são também anos de resistencia e exilio e coincidem com o amadurecimento do feminismo na Europa e Estados Unidos, onde despontou como movimento de grande visibilidade e impacto no final dos anos 60.

Na década de 80, diversos países da América Latina viveram profunda crise econômica, refletida na taxa média negativa de crescimento (8,3%) observada na região entre 1981 e 1989.

As trajetórias, no continente, voltam a convergir na década de 80 e início dos anos 90, com a democratização das instituições políticas, a hegemonia do modelo neoliberal, a reforma do Estado, o avanço da globalização. Alguns países lograram controlaras elevadas taxas de inflação que caracterizaram os anos anteriores. Poucos, como o Chile, conseguiram manter elevados índices de crescimento do Produto Interno Bruto.

Adinámica do movimento de mulheres no continente também apresenta convergências e semelhanças, na medida em que os parâmetros básicos de sua atuação se inserem na lógica dos processos políticos e econômicos mais amplos.

No final dos anos 70 e início dos 80, com o surgimento de movimentos sociais na esfera pública dos diversos países, a arena política latino-americana incorpora novos atores e amplia sua agenda. Estas novas formas de organização política cresceram, se afirmaram fora dos marcos tradicionais dos partidos ou dos sindicatos e trouxeram para o debate público temas referentes a saúde e direitos reprodutivos, que, até então, não eram considerados ‘próprios’ desse espaço.

Em praticamente todos os países latino-americanos, as relações de gênero têm demarcado espaços normativos, existenciais e simbólicos, calcados na exclusão, na hierarquia e na desigualdade do feminino frente ao masculino. Para as mulheres organizadas em movimentos, grupos e ONGs, a democracia não se refere apenas ao exercício da cidadania na esfera pública, mas também às relações na vida cotidiana, no trabalho, na família, na saúde, na educação. O slogan Democria en la plaza y en la casa, das feministas chilenas, exemplifica bem esta proposta de requalificação do conceito de democracia.

Em um período de repressão e violência do Estado contra o Legislativo, a imprensa, as organizações civis e os sindicatos, o movimento de mulheres latino-americano traz a questão de gênero para a esfera pública, alargando as discussões sobre poder, cidadania e desigualdade, que caracterizavam a agenda oposicionista.

No Brasil, durante seus primeiros anos de atuação política, o feminismo buscou construir uma base organizacional apoiada em grupos autônomos e, ao mesmo tempo, expandir seu alcance levando suas propostas a organizações de classe, sindicatos, universidades. Neste período, o movimento enfrentava dois grandes desafios: alcançar visibilidade como um novo ator político, e dar legitimidade à sua plataforma de maneira que esta fosse encampada por outros atores, como os partidos e setores do Executivo. O movimento feminista brasileiro destacou-se por sua visibilidade e impacto, tendo sido um dos primeiros a conquistar

espaços governamentais 1.

Durante os processos de democratização, que se estendem ao longo da década de 80 e início dos anos 90, ocorrem as primeiras experiências de elaboração de políticas públicas com perspectiva de gênero, bem como o crescimento da presença da mulher no Legislativo e em cargos do Executivo. No Brasil, a primeira deputada federal foi eleita em 1933. Até 1990, apenas 82 mulheres tiveram assento no Legislativo federal, ao passo que 5.062 homens se elegeram. Mais da metade das mulheres (52) foi eleita entre o final da década de 80 e início dos anos 90, coincidindo com a visibilidade das questões de gênero trazidas para o cenário político do País pelo feminismo. É interessante recordar que, no Brasil, o grande salto em termos de participação da mulher no Congresso Nacional ocorreu nas eleições de 1986. O movimento de mulheres mostrava-se sumamente vigoroso e o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e conselhos estaduais lançaram a campanha

‘Constituinte para valer tem que ter palavra de mulher2.

A interlocução do movimento de mulheres com outros atores políticos, como os partidos, outros movimentos sociais, os sindicatos, a Igreja Católica e entidades diversas da sociedade civil -inclusive as voltadas para a defesa dos direitos humanos -, obedece, via de regra, a duas coordenadas básicas: o contexto político mais amplo e a temática específica colocada pela agenda feminista.

No Brasil, durante os anos 70, independentemente da pauta em questão, era praticamente inexistente a interlocução com o Executivo, tanto em âmbito federal quanto estadual. De fato, o govermo mantinha com o movimento de mulheres a mesma atitude que caracterizava sua relação com a sociedade civil em geral: via com desconfiança e considerava potencial ameaça à ordem.

Neste período, entretanto, o movimento busca outros parceiros e alianças. Estabelece articulações importantes com a universidade -onde futuramente despontariam diversos núcleos de estudos da mulher - e procura sensibilizar a imprensa para que divulgue de forma menos preconceituosa e simplista a agenda feminista.

Com relação ao Legislativo, o movimento de mulheres tenta estabelecer uma ponte, enviando, em 1976, projeto de reformulação do Código Civil no capítulo da família, para abolir a figura do homem como chefe da sociedade conjugal. Ao mesmo tempo, estabelece articulações com a oposição, visando a incluir alguns temas de sua agenda na sua plataforma eleitoral para as eleições parlamentares de 1978, cujo resultado marca o processo de abertura no Legislativo.

As tentativas de estabelecer conexões e alianças com a oposição -organizada na frente partidária do MDB, em partidos clandestinos, ou no sistema pluripartidário pós-1978 - seguiam a dinâmica derivada das duas coordenadas básicas anteriormente indicadas: a conjuntural e a temática. Do ponto de vista da conjuntura, a maioria dos partidos de oposição via o feminismo com certa desconfiança, particularmente porque o movimento poderia representar uma ameaça à ‘união das esquerdas’, desviando-as do inimigo principal, representado pelo Estado ditatorial. Do ponto de vista temático, algumas reivindicações eram incorporadas, outras rejeitadas, sobretudo em função de seus efeitos nas alianças estratégicas dos partidos com alguns setores, dentre os quais destacava-se a Igreja. Deste modo, utilizando uma terminologia religiosa, diríamos que alguns temas -como a violência doméstica - “chegaram antes ao céu”, sendo incorporados ao discurso político de ampla gama de setores. Outros ficaram em uma espécie de “limbo político”, onde costumam permanecer assuntos sem legitimidade suficiente para serem ouvidos, como os relativos à contracepção; outros, como o aborto e a sexualidade, permaneceram no “inferno”, abrigo de temas tabus e malditos da sociedade.

Estas diferenças na incorporação social da agenda das mulheres não se circunscrevem ao Brasil. Na maior parte da América Latina, a introdução no discurso político mais amplo de questões temáticas abordadas pelas feministas obedeceu, e ainda obedece, a ritmos e alcances diversos. Pbde-se analisar sob esse ponto de vista o tema do aborto, por exemplo. Em Cuba, o abortamento voluntário é legal; em diversos países do continente, a resistência ao debate público sobre o abortamento tem sido ainda mais profunda do que no Brasil. Na Argentina e no Chile, onde realizaram-se importantes avanços no combate à violência doméstica, a interrupção voluntária da gravidez é, ainda hoje, proibida em qualquer circunstância, mesmo em situações de risco de vida da mulher.

Nos anos 80, cresce a influência de feministas em partidos da oposição brasileira, notadamente o PMDB e o PT. Com a realização de eleições para governadores, em 82, e a vitória da oposição em estados como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, são criados os primeiros espaços governamentais, denominados conselhos, com o objetivo de propor e implementar políticas públicas com perspectiva de gênero. São implantadas, também, as primeiras Delegacias Especializadas no Atendimento às Mulheres Vítimas de Violência (DEAMS).

Com a redemocratização dos países do Cone Sul, observa-se fenômeno semelhante. Estabelece-se o Servicio Nacional de la Mujer (SERNAM) no Chile, e Institutos de la Mujer na Argentina e no Uruguai. Recentemente, no Paraguai e na Bolívia também foram instituídos órgãos semelhantes.

Cabe ressaltar que, ao instituir tais espaços, os governos latino-americanos atendem não só a demandas dos movimentos de mulheres, mas também a recomendações das Nações Unidas. De fato, de 1975, Ano Internacional da Mulher, a 1985, ocasião da Conferência da Mulher em Nairóbi, sucedem-se os apelos da Organização das Nações Unidas (ONU) para a criação de state machineries que viabilizassem o desenvolvimento de políticas públicas para a promoção da mulher.

 

A trajetória brasileira3

No Brasil, o percurso de mulheres feministas para o interior do Estado não se fez sem debates, desafios e temores. Tratava-se de “ocupar” espaços ainda marcados pela herança de décadas de autoritarismo, durante as quais os aparelhos de Estado foram colocados a serviço de governos militares. Tal debate foi particularmente intenso quando um grupo de feministas articulou, em 1985, com o candidato da oposição à presidencia, Tancredo Neves, a criação, na esfera federal, do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM).

Podem-se distinguir três tendências básicas no movimento de mulheres a este respeito. Uma é integrada por aquelas que apóiam a criação do Conselho e se propõem a ter um envolvimento direto na sua formulação e gestão. Outra - parcela significativa -, apesar de apoiar a idéia do estabelecimento deste c de outros conselhos, não se propõe a participar diretamente dos mesmos. Finalmente, um grupo de feministas se coloca contra a instituição destes órgãos, pelo perigo da cooptação e eventuais ameaças à autonomia do movimento.

De qualquer forma, é possível sugerir que especialmente a segunda metade dos anos 80 marca um período fundamental de formulação e implantação de políticas públicas com perspectiva de gênero no Brasil.

Particularmente marcante foi a atuação, em parceria com o CNDM, de conselhos estaduais e municipais e do movimento de mulheres durante o processo constitucional. A significativa maioria de propostas das mulheres foi incluída na Constituição de 1988.

A desarticulação do CNDM, em 1989, seguiram-se as eleições presidenciais (no mesmo ano), e a concomitante desestruturação de setores importantes do aparelho estatal, especialmente os ligados a educação c saúde.

A agenda feminista foi sustentada, até 1995, na esfera governamental, basicamente pela atuação do Fórum de Conselhos Estaduais da Mulher, que agiu como instância principal de coordenação nacional. A partir de então, o CNDM vem sendo reestruturado, apesar de ainda não contar com dotação orçamentária nem quadro técnico-administrativo próprio. Outras instâncias federais, como o Conselho de População e Desenvolvimento, foram instituídas.

A sociedade civil dos anos 90 tem se caracterizado pela presença de ONGs, atuando profissionalmente no desenvolvimento de programas ligados às agendas dos movimentos sociais. Articulando-se cada vez mais em redes nacionais, regionais e internacionais, tais organizações têm tido presença marcante no cenário internacional, particularmente em questões ligadas a meio ambiente, paz, saúde, e direitos humanos, sexuais e reprodutivos.

Com relação às articulações internacionais dos movimentos sociais e das ONGs, acreditamos ser possível distinguir alguns momentos básicos, a partir do contexto político mais amplo. Entre os anos 60 e início dos 70, a América Latina, e particularmente os países do Cone Sul, se aproxima pela vivência comum de governos ditatoriais militares. A perseguição política e a supressão de liberdades civis fundamentais dão início à migração de intelectuais, políticos e opositores do regime autoritário-que se deslocam, principalmente, do Brasil para o Chile e para a Argentina - até que os golpes militares ocorridos posteriormente nestes países estabelecem um novo fluxo migratório em direção à Europa e a outros continentes. Envolvidos basicamente em projetos de oposição aos regimes militares, estabelecem-se redes informais importantes de comunicação entre militantes políticos da América Latina. Para muitos deles, o exílio na Europa coincide com a sua sensibilização para questões ligadas aos direitos das mulheres e ao meio ambiente- então de grande relevância no cenário político daqueles países. No Brasil, a anistia de 1979 deu novo impulso aos temas que os movimentos sociais já vinham abordando, especialmente os relacionados à ecologia e ao feminismo.

Durante os anos 80, a circulação regional e internacional do movimento de mulheres tende a ser menos intensa, sobretudo porque, tanto no Brasil como em outros países do continente, enfrentava-se o desafio de conquistar e consolidar espaços no interior do Estado, desenvolvendo políticas públicas em meio a uma das mais graves crises econômicas já vivenciadas.

Já os anos 90 coincidem com uma crescente internacionalização dos movimentos sociais e das ONGs, pelo uso intensivo dos novos meios de comunicação e da proliferação de redes, fóruns e articulações estratégicas regionais e internacionais. Essa capacidade de articulação e pressão responde pelo surgimento de novos atores internacionais que, agindo na arena das Nações Unidas, alcançam expressiva visibilidade e conseguem levar suas propostas para as conferências internacionais da ONU organizadas nesta década.

 

Movimento de mulheres e saúde reprodutiva no

Brasil

Foge ao alcance deste texto recuperar o debate sobre população no Brasil. Entretanto, deve-se ressaltar que a história do movimento feminista está profundamente ligada ao debate sobre controle de população c planejamento familiar. Trazendo para o cenário político temas ligados à saúde da mulher, reafirmando o direito de opção sobre a vida reprodutiva e sexual como valores centrais da cidadania feminina, e reivindicando uma atitude do Estado coerente com estes princípios, as feministas criticavam as tendências pró ou antinatalistas calcadas em preceitos religiosos, econômicos ou geopolíticos, ou em metas demográficas.

Entre as militantes brasileiras, já em meados da década de 70, havia acordo quanto ao fato de que questões relativas à sexualidade e aos direitos reprodutivos - entre os quais o de interromper voluntariamente a gravidez - eram não só centrais, mas estruturantes da própria ética feminista. A ordem de prioridade destes temas, no entanto, não era consenso. Alguns grupos consideravam fundamental manter a aliança com a Igreja e com setores da oposição avessos a tais temáticas, ao passo que outros não se propunham a abrir mão desses temas, que consideravam centrais na construção da identidade política do feminismo. Como ilustração, pode-se lembrar que, ao se propor a realizar pesquisa sobre sexualidade feminina, em 1977, o CERES, grupo feminista do Rio de Janeiro, vivenciou uma série de debates com outras integrantes do movimento sobre a propriedade de se tratar a temática naquele momento. Posteriormente, a pesquisa deu teve como resultado o livro Espelhode Vêus, publicado pela editora Brasiliense em 1981.

Tais tensões tendem a diminuir á medida que o processo de democratização avança; o campo de interlocutores aumenta; a Igreja perde importância; propostas do feminismo são incorporadas a plataformas de partidos e estabelecem-se parcerias com alguns setores do Executivo.

Particularmente relevante foi a articulação entre a universidade, algumas feministas e o Ministério da Saúde que veio a resultar no Programa de Assistência Integral a Saúde da Mulher (PAISM). Inspirado em princípios gerais da luta maior pela democratização do País e respeito às liberdades individuais e civis, o PAISM foi, também, influenciado pelos movimentos sanitaristas e de saúde pública, especialmente na adoção de uma perspectiva integral de saúde. Divulgado em 1983, representava um exemplo raro de colaboração entre Estado e sociedade civil, constituindo-se em uma das primeiras iniciativas governamentais de incorporação de princípios feministas em políticas públicas de saúde. No entanto, apesar de trazer uma perspectiva integral e compreensiva, c colocar o planejamento familiar na ótica da saúde, o PAISM não trata do abortamento, nem mesmo para fazer cumprir a legislação vigente.

Entre 1983 e 1987-quando o PAISMÓ finalmente regulamentado pelo antigo INAMPS-, cresce a participação do movimento de mulheres no espaço público, e os vários conselhos da mulher incorporam a saúde reprodutiva em seus programas de ação.

A luta do movimento de mulheres pela inclusão desses princípios no discurso governamental e em amplos setores da sociedade se dá em meio a profundas transformações demográficas, resultantes tanto da queda das taxas de mortalidade - característica das décadas de 50 e 60 - quanto do acentuado declínio das taxas de fecundidade verificado a partir dos anos 70. As taxas de crescimento populacional decresceram de mais de 3% ao ano, entre 1950 e 1960, para 2,9% na década seguinte e 1,8% entre 1985 e 1990.

Nesta transição, refletiu-se mais o impacto das políticas populacionais vigentes de facto no País do que os princípios feministas já incorporados em leis, normas e programas governamentais. Chama-se atenção para o descompasso entre discurso e realidade que parece acompanhar a história política e social do País. Exemplo claro é a distância entre o discurso oficial sobre a regulação da fecundidade e as práticas vigentes neste campo. Durante os anos 60 e início dos 70, a posição oficial do Brasil tendia ao natalismo. Influenciado pela Igreja Católica, amparado nas elevadas taxas de crescimento do PIB verificadas durante o ‘milagre econômico’, e em preocupações militares geopolíticas de ocupação territorial, o governo descartava as posições neomalthusianas prevalentes em países do hemisfério norte, ao mesmo tempo em que fazia “vista grossa” às entidades de planejamento familiar que operavam no País.

De fato, já desde meados dos anos 60 essas organizações vinham atuando no Brasil para controlar o crescimento populacional. A medida que o modelo econômico demonstrava sinais de enfraquecimento, diminuía o apoio governamental a posições pró-natalistas, ao mesmo tempo em que as entidades privadas ampliavam seus programas, multiplicados com o auxílio de convênios municipais e estaduais. Entretanto, só em 1977 o governo apresenta um programa na área de saúde reprodutiva, o Programa de Prevenção de Gravidez de Alto Risco (PPGAR), seguido do Programa Nacional de Serviços Básicos de Saúde (PREVSAÚDE), de 1980, que praticamente não ‘saíram do papel’.

O movimento feminista, reconhecendo o direito das mulheres de vivenciarem a maternidade como opção - com acesso à informação, à contracepção segura e ao tratamento da infertilidade, ao pré-natal e ao parto em condições adequadas, bem como à interrupção voluntária da gravidez, ao tratamento às seqüelas do abortamento provocado, à prevenção do câncer mamário e cérvico-uterino - luta para que o Estado desenvolva ações propositivas em saúde reprodutiva.

Parcela significativa deste movimento está consciente de que a resposta do governo à situação vigente no País não poderia consistir apenas em ações de orientação demográfica. À ótica intervencionista e parcial das entidades privadas, seccionando o útero como objeto de controle, caberia oferecer uma alternativa às mulheres que desejassem regular sua fecundidade.

Diversos fatores respondem pelo significativo aumento da demanda por contracepção no País. A acelerada urbanização, responsável pelo deslocamento da população aos centros urbanos, intensifica-se nos anos 70. Paralelamente, a mídia representa papel cada vez mais relevante na difusão dos chamados valores da ‘modernidade’, em que a família nuclear de dois filhos corresponde ao tipo ideal de organização.

É também neste período que cresce significativamente a participação da mulher no mercado de trabalho, ao mesmo tempo em que não há investimentos públicos em uma infra-estrutura de equipamentos sociais necessários para maior socialização do cuidado das crianças. É importante ressaltar que o movimento feminista sempre levantou as ‘bandeiras’ da creche e da pré-escola como pontos centrais em sua plataforma política. Na década de 80, tanto o CNDM como os conselhos estaduais instituem comissões específicas para atuar nesta área. Além de produzir material educativo sobre creches e pressionar diretamente os órgãos da administração federal a implementarem a lei de creches, o CNDM realizou acordo com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) que previa que, na avaliação de empréstimos solicitados por empresas, essas deveriam comprovar o cumprimento da legislação referente a creches para os filhos dos seus funcionários, além dos requisitos de praxe. O acordo é considerado uma iniciativa pioneira em políticas públicas com perspectiva de gênero.

Elaborado desde 1983, o PAISM corria o risco de ‘ficar no papel’, seguindo o destino dos programas anteriores. Sua regulamentação transforma-se, então, em um dos principais objetivos do CNDM, agindo em consonância com o movimento de mulheres. Dentre as ações conjuntas desenvolvidas destaca-se a elaboração da “Carta das Mulheres Brasileiras aos Constituintes” - redigida em reunião de mulheres no Congresso Nacional em 1986, e distribuída em todo o país e entregue ao deputado Ulysses Guimarães em março de 1987. Neste documento, endossavam-se duas premissas básicas: a de que a saúde era um direito de todos e dever do Estado, e de que a mulher tinha direito à atenção a sua saúde, independentemente de seu papel de mãe. Lutava-se pela reafirmação dos princípios de atenção integral em uma perspectiva compreensiva da saúde da mulher. E enfatizava-se, ainda, sua oposição à coerção de entidades públicas ou privadas, nacionais ou internacionais, impondo ou negando o acesso aos meios de regulação da fecundidade.

No documento já estão contidos princípios básicos que sustentariam a luta feminista na década de 90 e seriam assegurados na Conferência Internacional de População e Desenvolvimento (CIPD) do Cairo em 1994: a afirmação de que a mulher tem o direito de exercer uma autoridade sobre seu corpo, tomando decisões sobre sua vida sexual e reprodutiva, e de que o Estado tem o dever de fornecer os meios para que esta autoridade seja, de fato, exercida, ampliando, portanto, sua ação no campo da saúde.

A trajetória da regulamentação do PAISM e de sua implementação (ainda em curso) é indicativa do peso relativo das questões referentes a saúde e direitos reprodutivos na agenda política do governo e no discurso da sociedade. A Igreja Católica sempre acompanhou pari passu os desdobramentos do PAISM, interferindo, inclusive, em iniciativas do próprio CNDM junto aos ministerios da Saúde e da Previdencia Social. Como exemplo, recorda-se o episódio da publicação de 5 milhões de exemplares de uma cartilha sobre contracepção elaborada no âmbito do PAISM. O CNDM havia negociado esta edição e sua distribuição com o Ministerio da Previdencia, quando, por interferencia direta da Igreja - que alegava que a cartilha mencionava o DIU, dispositivo considerado abortivo -o Ministerio recuou de seu compromisso. Finalmente, depois de intensas pressões do movimento de mulheres e do CNDM, foi publicado um número significativamente menor do livreto.

O episódio é revelador do campo de forças em se que se movem as ações governamentais na área da saúde reprodutiva. Pode-se interpretá-lo de duas maneiras: como um fracasso da força política das mulheres diante da Igreja, e como um incidente revelador da expressão que a agenda feminista já alcançara-já que, mesmo diante da pressão da Igreja, não foi possível ao governo recuar totalmente, ignorando as demandas deste outro ator político no campo da saúde e direitos reprodutivos.

Outros temas de saúde reprodutiva que mobilizaram o movimento feminista na década de 80 seriam a supervisão da produção de métodos hormonais de contracepção, e a proibição da comercialização de produtos em fase de testes. O Norplant foi objeto de debates e embates entre uma parcela do movimento feminista e profissionais da saúde ligados ao Population Council que desenvolviam um projeto de experimentação com este contraceptivo hormonal na Universidade de Campinas (UNICAMP). Tanto o CNDM quanto o movimento de mulheres atuaram exigindo maior controle na experimentação destas drogas, levando o Ministério da Saúde a cancelar a permissão para sua testagem.

Se este episódio demonstrou visibilidade e impacto sobre políticas públicas abordadas por feministas, tornou evidente a necessidade do estabelecimento de mais canais de comunicação com os profissionais da saúde, especialmente os médicos ginecologistas e obstetras. Este tipo de interlocução viria a ser desenvolvido na década de 90 por diversas ONGs de mulheres. A Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação, Ação (CEPIA), por exemplo, tem atuado junto aos médicos, em iniciativas que envolvem a Associação dos Médicos Residentes (AMERERJ) e o Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (CREMERJ). Além disso, desenvolve um curso sobre medicina e cidadania na Faculdade de Medicina da UFRJ, dentre outras atividades desenvolvidas por outras organizações e redes.

Ao longo do processo de democratização do País, cresce a movimentação das organizações de saúde no sentido de traçar caminhos para a saúde pública. Em outubro de 1986, realiza-se, em Brasília, a Conferência Nacional de Saúde, que teria influência decisiva na formulação da saúde como um direito do cidadão e um dever do Estado, posteriormente incorporado à Constituição de 1988. Outro marco importante do encontro: pela primeira vez, a saúde da mulher mereceu destaque em mesa especial.

Em 1987, o CNDM, com a estreita colaboração de movimentos de mulheres de todo o País, organiza, juntamente com o Ministério da Saúde, a I Conferência Nacional de Saúde da Mulher. O encontro reuniu aproximadamente 3 mil participantes em Brasília e reafirmou os princípios da “Carta das Mulheres Brasileiras aos Constituintes” e as diretrizes do PAISM. Merecem destaque outros dois pontos colocados em discussão na Conferência. O primeiro, avaliado como avanço considerável, foi a proposta de descriminalização do abortamento, um problema de saúde pública que não havia sido tratado pelo PAISM. O segundo referia-se ao abuso das esterilizações, que já respondiam por percentuais muito elevados (48%) dentre os recursos contraceptivos utilizados pelas mulheres casadas ou unidas entre 15 e 49 anos de idade. O debate sobre a esterilização ocupará espaço importante da agenda feminista nos anos 90, respondendo por tensões internas no movimento e levando ao estabelecimento de articulações diversas com setores do Legislativo.

Com relação ao abortamento - tema ainda tabu e oculto -, cabe ressaltar que os anos 80 correspondem a um momento de visibilização do tema. A partir de episódios de flagrantes policiais em clínicas clandestinas e da abertura de processos penais contra mulheres e médicos ocorridos no início da década no Rio de Janeiro, o movimento feminista traz à luz a questão, ainda relegada aos porões do debate público. Escrevendo para jornais, organizando mesas-redondas, visitando as mulheres que respondiam a processos penais, as feministas conseguem incluir o abortamento voluntário nas temáticas que integravam a agenda política do País nos anos 80.

Ao mesmo tempo, o CNDM pressionava os ministérios da Saúde e da Previdência para fazer cumprir a lei, de forma a que atendessem às mulheres que solicitassem o abortamento nos casos de estupro e risco de vida. Em âmbito estadual, mulheres organizadas em grupos autônomos articulavam-se com parlamentares e conselhos estaduais, apresentando projetos de regulamentação do atendimento ao aborto legal. No Rio de Janeiro, por exemplo, a deputada Lúcia Arruda, do PT, apresentou proposta inicialmente aprovada pela Assembléia Legislativa e posteriormente revogada pelo governador do Estado por influência direta da Igreja. A regulamentação seria aprovada em 1987.

A articulação entre o movimento de mulheres, o CNDM, conselhos estaduais e o Congresso Nacional alcançou seu auge durante o Congresso Constituinte. Em 1985, o CNDM lança a campanha “Constituinte Pra Valer tem que ter Direitos da Mulher”, que percorre os estados colhendo reivindicações e propostas que seriam incorporadas à “Carta das Mulheres Brasileiras aos Constituintes”.

Ao longo do processo constituinte, o CNDM enviou mais de 120 propostas e emendas substitutivas ao Congresso Nacional. Na área da saúde reprodutiva, cabem dois destaques com relação à atuação das mulheres. Um diz respeito ao artigo 226, parágrafo 7° da Constituição Federal, que situa o acesso ao planejamento familiar na esfera de direitos, com a concomitante criação de deveres por parte do Estado. O outro se refere à ausência, no texto constitucional, de uma proposição apresentada pela Igreja Católica e por setores evangélicos relativa à defesa da vida desde a concepção. A possibilidade da inclusão desta proposição e o terrível retrocesso que representaria propiciaram uma articulação estratégica entre o CNDM e os movimentos de mulheres, que colheram as assinaturas necessárias para apresentar uma emenda popular de descriminalização do abortamento. A emenda seria contraposta à posição da Igreja, fortalecendo indiretamente a posição do CNDM - que argumentava não ser o aborto matéria constitucional - posição triunfante após longos embates, confrontos e discussões com setores conservadores.

A Constituição também incluiu, na ótica da descentralização, um novo projeto organizacional de atendimento à saúde, o Serviço Único de Saúde (SUS), que, em princípio, viabilizaria a implementação do PAISM, atendendo às peculiaridades e necessidades locais. Hoje, sente-se a necessidade de realizar estudos mais detalhados e pontuais, recuperando a história do PAISM nos diversos estados, com especial atenção aos princípios de integralidade que o orientaram.

Em 1989, o CNDM lança a campanha nacional “Maternidade, Direito e Opção” para avançar a implementação do PAISM e a discussão sobre abortamento, e organiza reunião no Congresso Nacional em que, pela primeira vez, o movimento de mulheres, parlamentares, médicos, profissionais da saúde, acadêmicos e executores de políticas públicas discutem temáticas cruciais da saúde da mulher, com ênfase especial à questão do aborto.

O contexto geral da política brasileira era, no entanto, cada vez mais conservador. No âmbito do Executivo federal, o Ministério da Reforma Agrária havia sido desestruturado, crescia a oposição parlamentare popular ao governo Sarney, a crise econômica e inflacionária continuava a aprofundar-se - apesar dos sucessivos planos de estabilização. As relações entre movimentos sociais e governo, ainda frágeis após tantos anos de divórcio entre Estado e sociedade civil, se viam ameaçadas ou rompidas.

O CNDM, que mantinha laços com o movimento de mulheres rurais e trabalhara com o Ministério da Reforma Agrária na edição de um livro documentando a violência contra mulheres e crianças no campo, sente o poder dos setores conservadores, recebendo pressões do Ministério da Justiça para que tal publicação não fosse divulgada. Com o apoio do ministro Marcos Freire, que viria a falecer pouco depois, o projeto é, entretanto, levado adiante.

Outro momento de confronto entre o CNDM e o Ministério da Justiça aconteceu durante a comemoração oficial dos 100 anos de abolição da escravidão. Na ocasião, o CNDM foi diretamente admoestado pelo ministro da Justiça pelo lançamento da campanha “Mulher Negra, 100 Anos de Discriminação, 100 Anos de Afirmação” e pela organização do “Tribunal Winnie Maneia” - que, apesar das pressões contrárias de diversos setores do Executivo, realizou-se em novembro de 1988.

Estes episódios, dentre outros, ilustram o quadro conjuntural que agudizou as pressões contra o CNDM, por estar, também, levando adiante o debate público sobre o aborto, outra temática - se não mais maldita, ainda incômoda - a ser relegada ao limbo político. Apesar das pressões, o CNDM organiza, em julho de 1989, um debate televisivo com os candidatos à presidência da república, que respondem a perguntas específicas enviadas por representantes de movimentos de mulheres e de conselhos estaduais e municipais. Dentre as várias perguntas, uma foi apresentada pelo CNDM e endereçada a todos os candidatos, e pedia seu posicionamento diante do tema aborto.

Foge aos propósitos deste artigo analisar a resposta de cada candidato. Ressalta-se que aquele momento representou uma vitória das mulheres que, na sociedade civil ou no governo, lutaram para trazer o tema a debate público. Também vale lembrar que a temática do aborto esteve praticamente ausente da discussão da sociedade nas eleições presidenciais de 1994.

 

Os anos 90 e a internacionalização do

movimento de mulheres

No Brasil, a experiência de elaboração de políticas públicas com perspectiva de gênero em articulação com o movimento de mulheres se vê profundamente afetada com a desestruturação do CNDM. Os conselhos estaduais, por meio do Fórum de Conselhos, mantêm uma articulação nacional, mas o desenvolvimento de projetos na esfera federal é praticamente interrompido durante os anos Collor, o governo Itamar e os primeiros anos do mandato de Fernando Henrique Cardoso.

Na sociedade civil, cresce o número de ONGs e proliferam as redes que procuram articular demandas e estratégias de ação em torno de agendas comuns que, muitas vezes, ultrapassam as fronteiras nacionais.

No campo da saúde reprodutiva, a principal rede atuante no Brasil é a Rede Nacional Feminista de Saúde e Sexualidade e, no âmbito da América Latina e do Caribe, a Rede de Saúde das Mulheres Latino-Americanas e do Caribe. Destacam-se ainda espaços multidisciplinares como a Comissão de Cidadania e Reprodução, sediada no Brasil; o CEDES, na Argentina; o Isis, no Chile; e grupos com representação em diversos países das Américas, como o das Católicas pelo Direito de Decidir, entre outros.

Desde as décadas anteriores, já crescia no País o número de mulheres negras organizadas em movimentos e ONGs voltadas para a questão da saúde. Com relação às indígenas, a visibilidade e impacto de suas organizações é mais significativa em países andinos e na América Central do que no cone sul, inclusive no Brasil.

Destacam-se, ainda, inúmeras redes e grupos internacionais, sediados principalmente nos Estados Unidos e na Europa, mas também na África e Ásia e interconectados com diversas ONGs e movimentos dos diversos continentes.

Uma das principais características das atuais relações entre movimentos de mulheres e políticas de saúde é que, nesta década, passam por uma espécie de triangulação. Os princípios norteadores de políticas nacionais são também propostos, discutidos e acordados em âmbito global, a partir da interlocução de grupos de mulheres organizados internacionalmente com agências das Nações Unidas, instituições de apoio multi e bilateral, organismos transnacionais e governos nacionais, entre outros.

Recupera-se, aqui, de maneira breve, o papel desempenhado pelas mulheres no âmbito das Nações Unidas, por seus efeitos multiplicadores tanto na conceituação de princípios internacionais de direitos humanos quanto no delineamento de políticas públicas. É possível distinguir duas direções que se entrecruzam e reforçam mutuamente: a participação em conferências específicas, e a presença de mulheres em conferências temáticas diversas.

A Conferência Internacional da Mulher, realizada na China, em 1995, insere-se em um processo que se estende ao longo das últimas décadas, traçando um caminho iniciado no México, em 1975, ocasião da I Conferência Internacional da Mulher. Neste percurso seguiram-se as conferências de Copenhagen, em 1980, e a de Nairóbi, em 85.

Nessas conferências, mulheres de todo o mundo, trabalhando dentro de delegações oficiais ou em fóruns não-governamentais, levaram para o cenário da ONU questionamentos fundamentais da condição e da cidadania feminina. Dois documentos são conseqüência particularmente importante deste percurso: a “Convenção para a Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher”, de 1979; e o “Plano de Ação de Nairóbi”, de 1985 (Nairobi Forward Looking Strategies).

Nos anos 90, a ONU realizou cinco reuniões temáticas internacionais em que as questões relativas a gênero, eqüidade e direitos humanos foram reafirmadas e reforçadas mutuamente. Nas Conferências de Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92), Direitos Humanos (Viena-95), População e Desenvolvimento (Cairo-94), e nas reuniões da Cúpula Social (Copenhagen-95) e do Habitat (Istambul-96), as mulheres foram protagonistas no processo de alargamento da definição tradicional de direitos humanos enunciado nas declarações e planos de ação resultantes desses encontros.

A Conferência Internacional de Meio Ambiente e Desenvolvimento aconteceu no Rio de Janeiro em 1992 e constitui um marco. Pela primeira vez, ampliou-se o espaço de participação - como observadores - das ONGs nas discussões governamentais e alargou-se o espectro das credenciadas para assistirem a tal evento. Apesar de as Nações Unidas ainda colocarem barreiras à participação não-govemamental, abriu-se importante espaço, alargado nas reuniões posteriores.

Cabe destacar o papel relevante desempenhado pelas ONGs específicas de meio ambiente ao longo do processo preparatório da Rio-92. Organizadas em fóruns nacionais, regionais e internacionais, foram protagonistas na Conferência.

Também o movimento de mulheres organizou-se, nacional e internacionalmente, para desempenhar papel destacado na Conferência, promovendo reuniões preparatórias e inúmeros debates e eventos na “tenda planeta fêmea”. Participaram mulheres de diversos países e evidenciaram-se algumas divergências internas do movimento, particularmente com relação a formas de abordagem ao binômio mulher-natureza, visto por algumas a partir de uma perspectiva mais histórica do que por outras, identificadas com o ecofeminismo.

A Rio-92 inaugurou uma aproximação maior entre sociedade civil e governos, e na Agenda 21, daí resultante, incorporaram-se contribuições importantes das ONGs.

Em 1993, realizou-se, em Viena, a Conferência Internacional de Direitos Humanos. A dificuldade em discutir o tema no cenário das Nações Unidas ficou evidenciada pelo fato de que 25 anos separavam esta da última conferência organizada pela ONU sobre Direitos Humanos, realizada em Teerã, em 1968. É importante lembrar que a linguagem internacional de direitos humanos é forjada na arena política da ONU, onde a soberania, legislação e cultura nacionais, religiões e desigualdades sociais desempenham papel fundamental na definição das fronteiras e possibilidades do alcance desta linguagem. A permanente tensão entre universal e particular-que permeia o cenário da ONU - é particularmente aguda neste âmbito.

Foi ampla, coordenada e exitosa a mobilização feminina durante a preparação da reunião de Viena. Sob o lema “os direitos das mulheres são direitos humanos”, lançou-se vigorosa campanha internacional, colhendo milhares de assinaturas para que as violações contra os direitos das mulheres passassem a ser tratadas como violações aos direitos humanos. Durante a Conferência, organizou-se um tribunal simbólico. Mulheres de todo o mundo narraram as violências de que tinham sido vítimas e que, apesar de representarem flagrante desrespeito à sua cidadania e integridade pessoal, não eram consideradas atentatórias aos direitos humanos nos tratados e convenções da ONU. Dentre as principais conquistas das mulheres, destaca-se o reconhecimento da violência doméstica como uma questão de direitos humanos.

Para efeito dos temas discutidos aqui, destaca-se como um exemplo histórico do poder de pressão das mulheres, e de sua capacidade de organização, a Conferência Internacional de População e Desenvolvimento (CIPD), realizada em 1994 no Cairo.

A reunião estabelece um novo paradigma, deslocando as temáticas de população da esfera demográfica para a esfera de direitos, discutindo, de forma central, teses relativas a saúde e direitos reprodutivos e colocando o empowerment da mulher como um valor em si mesmo e como variável estratégica.

Mais do que em qualquer das conferências anteriores, o Vaticano colocou-se como adversário das propostas da agenda feminista desde os encontros preparatórios até a realização da reunião. Diretamente apoiado por países como Argentina, Nicarágua e Honduras; timidamente contestado por outros, como Chile, Bolívia e Equador; e mais explicitamente distanciadò de países como Brasil e México, foi eficaz em impedir que a América Latina atuasse em bloco na discussão.

Desde a conferência anterior de população, realizada em 1984, no México, o grupo G-77 - dos países subdesenvolvidos - já não encontrava consenso em questões relativas a temáticas de saúde reprodutiva, planejamento familiar, políticas populacionais… A impossibilidade de agir como um bloco nestas questões, também verificada no Cairo, evidencia a dificuldade de estabelecer uma matriz de atuação conjunta que englobasse esses assuntos.

Durante o período de organização para a Conferência do Cairo, estabeleceu-se no Brasil uma articulação bastante produtiva entre movimentos de mulheres e o governo, representado pelo ltamaraty. Assim como a Rio-92 representou um momento importante de abertura à presença das ONGs como observadoras, Cairo avançou no sentido de que inúmeros países - inclusive o Brasil -incorporassem representantes de ONGs a suas delegações, permitindo participação de forma mais direta nas discussões e decisões tomadas no âmbito oficial. Dentre as organizações internacionais de mulheres ativas na preparação de conferências internacionais cabe destacar o papel da Women Environment Development Organization (WEDO), na Rio/92, e da International Women’s Health Coalition - Coligação Internacional pela Saúde da Mulher (IWHC), para o Cairo.

Cairo: a importância do Brasil

A delegação brasileira no Cairo atuou de forma bastante ágil, eficiente e coordenada, desempenhando papel reconhecidamente importante para fazer avançar questões de saúde e cidadania que já havíamos incorporado em propostas constitucionais, legislações e programas vigentes no Brasil. Com relação a esta conferência, cabe ainda destacar sua importância como momentum para a realização de dois importantes eventos no País que destacaram-se por sua magnitude e impacto.

O primeiro foi o Encontro Nacional Mulher e População, Nossos Direitos para Cai-ro’94. Realizado em setembro de 1993, no Congresso Nacional, em Brasília, foi organizado por uma comissão formada por sete organizações nacionais, tendo o Centro Feminista de Estudos e Assessoria (CFEMEA) como secretaria executiva local

e a CEPIA como secretaria nacional 4. O evento propiciou a oportunidade de dar maior visibilidade a questões de população, pois, ao longo de sua preparação, foram divulgados inúmeros documentos e declarações relativos a saúde reprodutiva, gênero e população.

O encontro reuniu aproximadamente 550 participantes de todo o País. Além de debates e discussões temáticas, redigiu-se e aprovou-se em plenário a “Carta de Brasília”, contendo princípios norteadores e reivindicações das mulheres brasileiras. Depois de encaminhado a autoridades, o documento foi distribuído e divulgado entre as diversas organizações do País.

O segundo evento realizou-se no Rio de Janeiro, em janeiro de 94. Com o nome Saúde Reprodutiva e Justiça: Conferência Internacional de Saúde da Mulher, reuniu aproximadamente 250 mulheres de 89 países. Depois de cinco dias de discussão em plenárias e grupos de trabalhos, redigiu-se uma declaração contendo princípios e propostas básicas consensuais ao movimento internacional de mulheres e saúde reprodutiva. A reunião foi organizada por um comitê internacional e teve como secretarias a CEPIA e a IWCH.

O encontro teve repercussões positivas. Considerado a principal conferência internacional preparatória feminista, fortaleceu as redes já existentes, agilizou canais de interlocução, permitiu que o movimento internacional listasse suas principais posições e propostas nesta área e, sobretudo, demonstrou aos demais interlocutores o poder de mobilização das mulheres.

A Conferência de Beijing, em 1995, também ofereceu oportunidade importante para que, em diversas partes do mundo, as mulheres se organizassem em redes e articulações, participando em debates nacionais e internacionais, elaborando documentos e estabelecendo interações com governos.

Durante as Conferências do Cairo e de Beijing, diversas articulações internacionais de mulheres trabalharam junto às delegações oficiais, procurando introduzir princípios consensuais do Movimento, nos planos de ação e declarações dali resultantes. Dentre estas, cabe destacar a atuação do Health, Empowerment, Rights and Accountability (HERA) e do WEDO.

No Brasil, durante o processo preparatório de Beijing, estabeleceu-se uma articulação nacional de mulheres que organizou diversos encontros, debates e documentos. Retomou-se a interlocução do movimento de mulheres com o Itamaraty na preparação do documento oficial e representantes de ONGs fizeram parte da delegação oficial do País. Com mais de 80 integrantes, a delegação brasileira era a maior da América Latina e uma das maiores entre todos os países. No entanto, bastante heterogênea, com pessoas pouco familiarizadas com os temas debatidos, não agiu com a mesma rapidez do que no Cairo - o que não impediu que o Brasil se alinhasse, mais uma vez, com os pontos básicos da agenda feminista.

Muito relevante foi a presença das brasileiras em Huariou, no fórum paralelo das ONGs, organizando mesas, participando de debates e tendo presença marcante nos eventos latino-americanos e internacionais.

A Conferência de Beijing não só reforçou conquistas anteriores, como avançou cm relação à saúde reprodutiva. Um exemplo: sobre o abortamento, o Plano de Ação incorporou o parágrafo 8.25 da Conferência do Cairo-que situa o aborto como questão de saúde pública e conclama os governos a atenderem às mulheres que solicitem a interrupção da gravidez nas circunstâncias previstas em lei e a todas as mulheres com conseqüências de abortamento. Avançou, ainda, ao solicitar que os governos revejam as punições sobre mulheres que se submetem ao abortamento voluntário.

Sem pretender entrar em análises detalhadas dos resultados destas conferências, gostaríamos de salientar seu impacto em termos de ampliar o marco internacional de direitos humanos e fornecer instrumentos que permitam legitimare apoiar o trabalho desenvolvido pelos movimentos e organizações de mulheres no plano nacional.

De uma concepção ligada às liberdades e direitos civis tradicionais, característicos da ‘primeira geração’ de direitos humanos - calcada em uma conceituação de humanidade apoiada na figura abstrata do homem - avançamos para a inclusão dos direitos sociais, habilitantes do exercício de outros direitos e para os chamados direitos de segunda e terceira geração.

Tal avanço vem sendo feito a partir de dois movimentos aparentemente opostos, mas, de fato, complementares: a especificação da esfera de direitos e a universalização de sua aplicação. Por especificação deve-se entender o distanciamento cada vez maior da figura abstrata do homem e a redefinição do conceito de humanidade a partir da acentuação de diferenças por critérios de sexo, raça, etnia etc. que, ao longo dos séculos, vêm

demarcando espaços de maior ou menor cidadania5.

Ao mesmo tempo em que se especificam os sujeitos de direitos, também incluem-se novas temáticas na esfera destes direitos, como a saúde e a saúde reprodutiva.

Na virada do século, as mulheres enfrentam desafios resultantes de seu próprio avanço. No Brasil, coloca-se o desafio fundamental de fazer valer as leis já existentes em matéria de saúde e diretos reprodutivos - várias organizações têm trabalhado para isto, com especial ênfase ao cumprimento da legislação relativa ao abortamento legal. Abrem-se, também, outros campos de atuação e reflexão, em que ainda é tímida a presença das mulheres, como em relação ao HIV/Aros.

Paralelamente, as mulheres continuam a influenciar as políticas públicas, ocupando cargos em comissões e órgãos governamentais, trabalhando em conselhos e entidades ligadas a profissionais da saúde, levando as discussões de Cairo e Beijing para espaços acadêmicos e hospitalares e tentando influir na formação médica.

Ainda há muito por fazer neste percurso. Parafraseando um trecho de Alice no País das Maravilhas, “às vezes corremos para ficar no mesmo lugar”. Recentes desdobramentos no Congresso Nacional relativos ao abortamento e o veto já derrubado do Presidente da República a parágrafos fundamentais relativos à regulamentação da esterilização corroboram esta imagem de um enorme esforço para ‘permanecer’. Entretanto, em uma perspectiva histórica, deve-se reconhecer o imenso avanço do movimento de mulheres e seu desenvolvimento em termos da ampliação da cidadania da mulher e, mais especificamente, dos seus direitos na área da reprodução.

Como dizia o poeta, “caminhante, não há caminho, caminho se faz ao andar…”.

 

Referências bibliográficas

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FLASCO & CEPIA. Mujer en Cifrasen America Latina. Santiago do Chile: Flacso, 1993.

JELIN, E. & HERSHBERG, E. (Eds.) Constructing Democracy-human rights, citizenship and society in Latin America. Boulder: Westview Press, 1996.

PITANGUY, J. Políticas Públicas y Ciudadania. Isis International Ediciones de Mujeres, n° 13.

PITANGUY, J. On the Road to Cairo. Development n° 1. Journal of Society for International Development, 1994.

PITANGUY, J. Feminist politics and reproductive rights: the case of Brazil. In: SEN, G. & SNOW, R. Power and Decision: the social control of Reproduction. Boston: Harvard University Press, 1995.

PITANGUY, J. Movimiento de Mujeres y Políticas Publicas en Brasil. ln: VARGAS, G. (Ed.). Triángulo del Poder. Bogotá: Ed. Tercer Mundo, 1996.

REVISTA ESTUDOS FEMINISTAS, v. 2 (2), 1994. Rio dc Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 

1 Para uma análise do movimento de mulheres no Brasil, recomendo a leitura de ALVAREZ, S. Engedering Democracy in Brazil, Princeton, New Jersey University Press, 1990. Para uma análise mais específica, sobre mulheres e saúde, ver PITANGUY, J. Feminist Politics and Reproductive Rights, the case of Brazil, In: SEN, G. & Snow, R. Power and Decision: the social control of Reproduction, Boston: Harvard University Press, 1994.

2 Ver PITANGUY, J. Movimientos de Mujeres y Políticas en Brasil. In: NJHOLT, G.; VARGAS, V. & WIERINGA, S. Triángulo de Poder. Bogotá, Ed. Tercer Mundo, 1996, e FLACSO/CEPIA. Mujeres Latino Americanas en Cifras: Brasil. Santiago, Ed. Flacso, 1993.

3 Gostaria de salientar que minha análise sobre movimento de mulheres e políticas públicas no Brasil necessita da objetividade resultante dc um distanciamento imparcial. Trata-se dc narrar um processo do qual fui e sou protagonista - como militante do feminismo, na década de 70; presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, entre 86-89; e diretora de uma ONG, desde o início dos anos 90. Consciente deste fato, esforço-me, entretanto, para situar a lógica dos acontecimentos além de biografias.

4 A Comissão organizadora deste encontro era formada pela Comissão de Cidadania e Reprodução, Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, SOS Corpo, Associação Brasileira de Estudos Populacionais e Geledés, além da CEPIA e do CFEMEA.

5 Para uma análise sobre novas formulações de direitos humanos, ver Bobbio, N. A Era dos Direitos, Rio de Janeiro: Ed. Campus, 1992. Com relação ao papel das mulheres nesta reconceituação, vide PITANGUY, J. From Mexico to Beijing, A New Paradigm, in Health and Human Rights, Harvard School of Public Health, v.1, n.4, p. 19.