Questões da saúde reprodutiva

Karen Giffin · Capítulo 26 de 26

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Questões da saúde reprodutiva

24 - Homens, saúde reprodutiva e gênero: o desafio da inclusão

24 - Homens, saúde reprodutiva e

gênero: o desafio da inclusão*

 

Margaren Arilha

A preocupação com a população masculina vem crescendo no Brasil, especialmente entre os formuladores de políticas que dedicam-se nacional e internacionalmente ao campo da saúde reprodutiva. Isso tem ocorrido em conseqüência da constatação da insuficiência dos resultados obtidos em torno da saúde reprodutiva das mulheres e da identificação do ‘homem’ como sujeito de necessidades específicas nesse campo. Esse contexto tem sido crescentemente reforçado pela produção de conhecimentos teóricos e de metodologias de intervenção, que vem sendo desenvolvido por Organizações Não-Govemamentais (ONGs) e em trabalhos acadêmicos no campo da sexualidade, da saúde reprodutiva, dos direitos sexuais e dos direitos reprodutivos.

Este capítulo tem como objetivo apontar idéias que surgem a partir do desenvolvimento de uma pesquisa: “O papel da reprodução na construção da masculinidade”, situando-o como conseqüência desse processo histórico que caracteriza-se por produzir um olhar mais focalizado para a problemática masculina.

 

Introdução

As conferências internacionais da década de 90, realizadas pela Organização das Nações Unidas (ONU) - especialmente a Conferência Internacional de População e Desenvolvimento do Cairo (CIPD), de 1994 - contribuíram para o florescimento da perspectiva de inclusão explícita das palavras ‘homens/masculino’ em textos que estariam tratando de temas associados tradicionalmente às problemáticas ‘femininas’. Isso pode ser observado, especialmente, nos capítulos 7 e 8 do documento final da CIPD, relacionados ao campo da saúde reprodutiva e direitos reprodutivos. Isso ocorreu como conseqüência do processo de discussão preliminar à Conferência, quando ficou patente que a transformação nos indicadores de saúde das mulheres só poderia ser concretizada na medida em que a população masculina - jovem e adulta - também modificasse seus padrões de comportamento, por exemplo, em relação à transmissão das doenças sexualmente transmissíveis - em especial a AIDS - e ao uso de contraceptivos.

Paralelamente ao processo desenvolvido por meio da CIPD - que foi movido especialmente pela organização e mobilização internacional feminista; pela participação do establishment que opera sobre as questões populacionais; governos; e agências de cooperação internacional do sistema ONU-, crescia, sobretudo na Europa, Canadá e Estados Unidos, a organização de grupos de homens reunidos para pensar suas vidas diante das mudanças que as mulheres têm provocado no interior de suas relações afetivas e sexuais. Ao mesmo tempo, crescia o número de núcleos de estudos sobre ‘masculinidades’ nas universidades americanas, canadenses e européias e o movimento gay- indicando a urgência de produzir conhecimento sobre o universo dos homens homossexuais, sobretudo diante da problemática da AIDS.

Houve, portanto, uma convergência de situações. Ao mesmo tempo em que cresciam as áreas de estudo sobre masculinidades (Kimmell, 1992), desenvolvia-se uma reflexão internacional sobre o papel dos homens na busca da melhoria dos indicadores de saúde para as mulheres, incrementada pela construção de um cenário em que eles também começam a servistes como cidadãos com necessidades e direitos na esfera da vida sexual e reprodutiva.

Esse processo acabou tendo alguns reflexos no Brasil, como o

surgimento de terapeutas especializados no trabalho com homens1, e a crescente tendência em desenvolver estudos com o público masculino, ainda que muitos deles tenham se concretizado no

contexto de trabalho com AIDS 2. Esse cenário indica transformações. Deve-se lembrar que, na década de 80, ocorreram poucas e isoladas iniciativas de inclusão de homens - tanto como objeto de produção teórica, quanto objeto de projetos de assistência ou intervenção. Desse período, destaca-se um seminário realizado pelo Conselho Estadual da Condição Feminina (CECF) de São Paulo, em 1984, montado a partir de grupos de discussão desenvolvidos com homens reconhecidamente ‘cúmplices’ em relação a chamada ‘questão das mulheres’ e ‘sensíveis’ a ela. Muitos eram parceiros de feministas. No caso do atendimento à população masculina em serviços, existiram relacionados ao planejamento familiar, em grandes empresas e voltados especialmente para a realização de vasectomias (CECF, 1986). Foram reduzidos os trabalhos de intervenção em sexualidade e saúde reprodutiva dirigidos a homens adultos jovens, quadro que se

modifica na década de 903.

No caso da produção acadêmica -além de poucos-, os estudos realizados na década de 80 e início dos anos 90 apontaram muito mais para o campo da sexualidade do que para o campo da reprodução (Leal et al., 1995). Para conhecer um pouco mais a vinculação Homem/Reprodução, a pesquisa descrita a seguir foi proposta.

 

Homens e a reprodução

A ONG Ecos (Estudos e Comunicação em Sexualidade e Reprodução Humana) desenvolve uma pesquisa que investiga o papel da reprodução na construção da(s) masculinidade(s). Tendo o construcionismo social como perspectiva epistemológica, e operando no campo da Psicologia Social, parte-se das seguintes questões:

• até que ponto os homens consideram o seu corpo como um corpo reprodutivo?

• quais são, atualmente, as atitudes e os comportamentos sexuais e reprodutivos que homens adultos possuem e praticam por meio do seu corpo (sexual/reprodutivo) antes e depois do casamento?

• quais as implicações desses resultados para a vivência da paternidade?

No caso específico da saúde reprodutiva, torna-se relevante pensar se e como o campo da reprodução está presente no imaginário masculino. Qual seria o conjunto de repertórios produzido sobre o tema ‘homens e reprodução’? Que impacto têm esses repertórios sobre a imagem de necessidades de saúde que esse grupo populacional formula para si? Se a reprodução é aprendida e apreendida pela maior parte das pessoas como um processo biológico que se concretiza essencialmente em um corpo do sexo feminino, como provocar novas linguagens no universo das mentalidades de mulheres e de homens acerca da reprodução? Seria possível valorizar menos a gestação e mais a concepção, apontando para uma posição compartilhada, em termos de significados, de mulheres e homens diante da reprodução biológica da vida? Como lidar com o fato de que é o corpo feminino que desenvolve o trabalho da reprodução? Afinal, de quem é o papel mais relevante no processo da reprodução biológica?

Apesar de serem geneticamente igualmente participantes, homens e mulheres não têm igualdade de participação no processo reprodutivo em termos do volume de trabalho corporal que a reprodução acarreta para cada um dos sexos. Não obstante, uma representação gráfica do processo reprodutivo, circulante no século XVII (Demarest & Sciarra, s/d), mostra como, naquele período, considerava-se o homem como agente produtor do feto - introduzido no corpo feminino já praticamente formado, apenas esperando para ser desenvolvido. Essa concepção indica um estágio do conhecimento científico que deixa marcas no imaginário social até os dias atuais: é bastante comum ouvir-se, ainda hoje, histórias em que os homens são descritos como ‘agricultores que espalham a semente na terra’. Concomitantemente, de maneira curiosa, a reprodução é vista como ‘algo’ do universo feminino.

Figueroa Perea (1996) busca ampliar o conceito de reprodução, trabalhando-o na perspectiva de relação. Considera como muito relevante a distinção entre aparelho, comportamento e processos reprodutivos. Observa que, se considerado o equilíbrio da participação entre mulheres e homens na reprodução em função do grau em que a biologia de cada um é solicitada a participar, seria razoável seguir trabalhando, sobretudo, com as mulheres. Ao mesmo tempo, afirma que se a reprodução for pensada em um espaço de relação -e é esta a sua perspectiva-, o comportamento e o processo reprodutivo estarão referenciados a uma visão dinâmica de encontros e desencontros, através da qual será mais fácil fazer referência às dimensões psicológicas e sociais da reprodução.

As transformações conceituais em torno do universo da reprodução estão aconte-cendoàluzdo que Frykman (1996) indica no texto The Tramformation of Masculinity in the 20th Century Culture. Esse autor reforçou o argumento da existência da diversidade daquilo que hoje se pode chamar de ‘masculinidade’ - construída, segundo ele, sobretudo em tomo do que se convencionou considerar como home. Chama de home, ou ‘lar’, a ‘arena’ na qual novas definições do que é feminino e masculino estariam em construção. Nesses momentos de transição, como pensar o significado da reprodução, dos processos reprodutivos, para determinados grupos de homens?

Um dos possíveis caminhos é identificar, conhecer e analisar os comportamentos sexuais e reprodutivos masculinos, e entender a relação que as pessoas do sexo masculino - sobretudo com comportamentos predominantemente heterossexuais - estabelecem com sua perspectiva diante da reprodução. Até que ponto o corpo masculino está representado para homens e mulheres como um corpo que tem significados semelhantes no âmbito da reprodução? Teria a fertilidade um sentido diferente para cada um dos sexos?

É nesse universo conceituai que a pesquisa vem sendo realizada. Os elementos aqui destacados são preliminares, tendo sido construídos a partir de falas de homens que participaram de grupos focais e de respostas a um questionário aplicado a trabalhadores da indústria metalúrgica. O grupo focal é uma técnica de pesquisa qualitativa que permite captar elementos da cultura, valores, atitudes e comportamentos das pessoas cujo perfil se pretende analisar. Por meio desta técnica, podem-se obter idéias e concepções compartilhadas sobre temas previamente determinados e introduzidos na discussão, por intermédio de roteiro específico. Quanto mais homogêneo o perfil dos componentes dos grupos, maior a confiabilidade dos dados obtidos. O trabalho ainda prevê a realização de entrevistas individuais com homens adultos jovens, escolhidos dentre os participantes dos grupos focais, para maior aprofundamento.

A pesquisa iniciou-se com pré-testes e survey, realizado em empresa metalúrgica da cidade de São Paulo. Foram abordados 84 funcionários. Destes, 18 faziam parte do setor administrativo -caracterizados como sendo dos estratos B-C -e 66 da produção. Mais do que um instrumento de pesquisa, o survey tinha por objetivo identificar necessidades dos funcionários no campo da informação em educação para a sexualidade e orientação para a saúde reprodutiva. Alguns dos assuntos escolhidos para o levantamento foram: grau de conhecimento dos funcionários da empresa sobre fertilidade feminina e masculina; mecanismos femininos e masculinos de reprodução; conhecimento e uso de métodos anticoncepcionais; doenças sexualmente transmissíveis/Aids; violência sexual e experiências em torno do aborto.

Para os funcionários da produção, dada a impossibilidade de auto-aplicação do questionário, o ato de preenchimento dos mesmos por pesquisadores (do sexo feminino e masculino) acabou se transformando em um processo de interação em que estabeleceram-se ricos diálogos sobre os temas propostos pelas questões, não havendo distinção entre as impressões obtidas pelo pesquisador e pela pesquisadora. Considerando a totalidade dos funcionários que responderam o questionário, aproximadamente 14% tinham até 20 anos; 17%, entre 20 e 24; 26%, de 25 a 34; 29% de 35 a 44; e 14% mais do que 45 anos. Dentre os funcionários da produção, 35% eram casados; 62%, solteiros (a maioria situada na faixa etária de 2 5 a 44 anos).

No geral, os entrevistados da produção demonstraram muito interesse em ter mais informações, considerando não ser suficiente o que já sabem no campo da sexualidade e saúde reprodutiva. A maioria deles tem possui 1o grau incompleto e demonstram ter poucos conhecimentos sobre métodos contraceptivos. Dentre os que são casados, a maior parte usa a pílula anticoncepcional ou são vasectomizados. Os solteiros usam a camisinha (ou nenhum método anticoncepcional). Chama a atenção a relevância do coito interrompido como alternativa anticoncepcional, sobretudo entre os homens casados. Observou-se entre este grupo, também, a preocupação com o impacto da contracepção e do parto/cesariana sobre a saúde da mulher. As respostas sobre contracepção evidenciaram um discurso comum a todos: preferia-se a vasectomia a outras medidas contraceptivas, por diminuir os problemas de saúde para as mulheres.

Como já citamos anteriormente, além do questionário foram realizados grupos focais. Dentre os 11 grupos realizados, três foram feitos entre funcionários do setor administrativo da empresa e outros oito organizados por intermédio de empresa de recrutamento. Todos os grupos foram constituídos com homens dos estratos B-C, sendo focalizadas, basicamente, três faixas etárias: 20 a 24; 25 a 34; e 35 a 44 anos. Todos os grupos das faixas etárias foram compostos por homens solteiros e casados, com filhos e sem filhos. Foram obedecidos alguns critérios: todos os homens casados deveriam estar envolvidos em primeiros casamentos, e suas esposas deveriam trabalhar fora de casa.

Com relação aos dados colhidos entre os grupos focais, é possível apreender algumas questões bastante relevantes. Uma delas foi o fato de não existir definição homogênea sobre o que significa ser homem, indicando diversidade de padrões de masculinidades que estão sendo vivenciados. Trata-se de um padrão em transformação, que coloca dificuldades para os homens precisarem seu próprio papel de gênero. Também chama atenção o fato de que mesmo quando a responsabilidade pelo cotidiano é compartilhada - divisão de tarefas domésticas e financeira dos gastos que o casal/família possui - o homem ainda se sente responsável pela manutenção da autoridade moral familiar, de acordo com o que afirma Sarty (1996) para a população dos estratos mais baixos da sociedade. Os homens entrevistados conseguem flexibilizar a relevância dos recursos financeiros que obtêm com seu trabalho - até porque as dificuldades impostas pelo mercado exigem que compartilhem a renda familiar com as parceiras - porém, precisam reafirmar que é sua a ‘responsabilidade’ pelas decisões de condução da família. Algumas citações dos homens nos grupos retratam essa perspectiva:

Estamos dividindo as despesas, os sentimentos, tudo isso, sem

dúvida, mas sempre o homem vai ser o chefe da casa. Ele

acaba sempre dando (…) não as decisões (…) pois essas

cabem aos dois de comum acordo. Mas ele tem sempre um

conceito de estar, assim, se i lá (…) comandando a casa,

entendei …Eu já fui sustentado por ela durante 3 ou 4 meses, e

ela entrava com a parte financeira, só que as decisões a tomara

gente sempre discutia juntos… Acho que a própria mulher

acaba colocando ele ah afrente. A decisão final ou algo assim

tipo em que ficou em dúvida, ela fala: Tá, resolve você!’ (D., 21

anos., casado, c/ filho)

Tem muitas coisas que, às vezes, a mulher não tem a coragem

de chegar e se impor, ou seja, o homem já sabe que quando ele

chegar ele vai ter um pouco mais de cabeça de assumir as

coisas que têm que ser feitas, certo? (C, 24 anos, casado, s/

filhos)

Os dados preliminares obtidos na investigação indicam que para os homens dos estratos B-C a preocupação com a reprodução -relevante para a construção de uma identidade moral masculina -se constrói no contexto social, e não na relação com seu próprio corpo. A vida reprodutiva de um homem não diz respeito, portanto, à relação direta que estabelece com sua saúde reprodutiva. De maneira completamente diversa do que ocorre com as mulheres, a reprodução, para os homens, não diz respeito a um processo de intimidade e de interação com seu próprio corpo. Não haveria uma espécie de consciência reprodutiva, representada como uma experiência corporal que cria e desenvolve marcas no imaginário masculino no decorrer de sua adolescência e início da vida adulta.

Rosane Souza (1994), em sua tese de doutorado Paternidade em Transformação, mostra que a paternidade não é tão óbvia quanto a maternidade. O adolescente não perde sangue todos os meses, de modo a, mesmo que de modo fugaz, saber-se potencialmente genitor. Ainda que ejacule, associa-o ao prazer, e não a um potencial criativo. O trabalho salienta que as meninas podem se perceber como potenciais geradoras de bebês, ao passo que os meninos poucas evidências têm de si mesmos como potenciais geradores de bebês, isto é, ‘pais’. Souza cita Neubauer (1989) que, ao trabalhar o texto O Pequeno Hans, de Freud, comenta criticamente que ele não foi informado de seu potencial criativo, assim como os meninos e os adolescentes não têm esta informação na sua perspectiva desenvolvimentista. O mesmo autor afirma que há um grande contraste entre os rituais de passagem estruturados pela sociedade para os adolescentes do sexo masculino e do sexo feminino; e levanta como hipótese que a obviedade e a repetitividade da menstruação já atestariam o poder gerador das mulheres. Em contraposição, as ejaculações aconteceriam no universo privado masculino, e de forma alguma permitiriam antever a possibilidade procriativa nele contida.

No entanto, é possível encontrar nos dados de nossa pesquisa uma condensação de significados feita entre potência, fertilidade e sexualidade, que indica pistas relevantes para um longo caminho de ensino e intervenção entre os grupos populacionais masculinos.

Essa concepção da sexualidade masculina, cujo sentido (tanto para homens quanto para as mulheres) estaria voltado para a conquista, para as relações sem limite e para o prazer quase selvagem -como tão bem mostram os estudos de Vilela & Barbosa (1996) - de certa forma traria implicações para o tipo de interesse cognitivo que rapazes e garotas têm apresentado quando inseridos em contexto de educação para a sexualidade e saúde reprodutiva. Paiva (1996) encontrou nos rapazes um grande interesse pelo ‘corpo sexual do/a outro/a’; nas garotas, um interesse pelo corpo reprodutivo, mais do que no corpo sexual/erótico.

Esses dados são reforçados pelo material obtido por Costa (1996) na pesquisa A Face Masculina do Planejamento Familiar, realizada entre operários da construção civil do Ceará. O projeto foi desenvolvido com 250 trabalhadores, em sua maioria de origem rural e de baixa escolaridade. Aproximadamente 42% dos homens entrevistados tinham de 20 a 29 anos; e 38%, entre 30 e 39. Da totalidade dos entrevistados, 66% tinham lo grau incompleto; e 16% nunca haviam estudado. Cerca de 86% dos entrevistados eram casados. Chama atenção o fato de 52% não saberem como a mulher engravida; 5 7% não sabem quando o corpo do homem é capaz de engravidar uma mulher - porém, 55% sabem dizer quando a mulher é capaz de engravidar.

De certa forma, tais resultados confirmam os dados encontrados em pesquisa de opinião pública realizada pela Comissão de Cidadania

e Reprodução 4 (CCR), por meio do Instituto Data-Folha (1995). Foram entrevistadas 1.964 pessoas, maiores de 16 anos, de ambos os sexos, em São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife. Foram surpreendentes os resultados à pergunta: “Todos os meses a mulher tem um período fértil e pode engravidar. Pelo que você sabe, durante quantos dias por mês o homem é fértil?” Erraram 66% das mulheres e 52% dos homens. Acertaram a resposta 32% do total dos entrevistados. Cinqüenta e nove por cento disseram que não sabiam responder, e 9% erraram. Entre os homens, o índice de acerto foi de 38%, contra 26% das mulheres. Os mais jovens tiveram uma freqüência maior de erros e, dentre estes, foi o grupo de mulheres entre 16 e 2 5 anos o que mais surpreendeu: 76% erraram ou disseram não saber a resposta. De maneira geral, quanto maior a escolaridade, maior o índice de acertos. Mesmo assim, apenas 30% das mulheres com segundo grau completo e 62% com grau superior acertaram, ao passo que entre os homens os índices encontrados foram 47% e 75%, respectivamente. É interessante observar que 23% dos homens com curso superior não souberam responder. Entre as mulheres, o índice chega a 34%.

A vida sexual dos homens e, portanto, também sua saúde sexual é apresentada entre os participantes como algo muito simples, cuja centralidade reside no funcionamento do pênis, isto é, em sua ereção. Os homens consideram que, diferentemente do que ocorre com as mulheres, não haveria tanto o que aprender sobre o funcionamento de seus corpos. Estão voltados para o mecanismo da ereção, caracterizado por um funcionamento externo. Movidos por esse tipo de lógica, os entrevistados encontram uma facilidade muito maior para discorrer sobre o funcionamento do corpo feminino- voltados que estão para a conquista sexual e amorosa -e, também, por estarem dirigidos para a saúde das mulheres na perspectiva da solidariedade. No discurso dos homens participantes da pesquisa é possível identificar uma noção não tão claramente explicitada, mas evidente, de que as mulheres merecem atenção e cuidado, porque são ‘complexas’ e devem ser conquistadas. Assim, corpo e psiquismo femininos são representados em oposição aos masculinos (’simples’) e dos quais, por prudência, devem se afastar. Fica presente, sempre, o fantasma de ser identificado como homossexual.

0 homem, nesse aspecto, já é meio relaxado, né? Acho que

pelo nosso órgão genital não ser, assim, tão complexo, tão

minucioso como o da mulher, geralmente, o homem só vai

conhecer uma doença sexual quando ele pega uma gononéia,

etc. Aí ele vai atrás! (C., 24 anos, casado, s/ filhos)

Ah! Acho que eu cabulei essa aula (…). Porque, veja bem, você

chegar numa aula de ciências onde o professor vai explicar o

órgão reprodutor masculino… é dose, né? (N., 21 anos, casado,

s/ filhos)

Essas questões e as que serão apresentadas a seguir têm implicações para iniciar um processo de reflexão sobre como poderiam ser desenvolvidas as políticas públicas no campo da educação para a saúde reprodutiva e sexualidade.

No campo das decisões sobre a vida reprodutiva, os homens entrevistados indicaram que as mulheres são aquelas que efetivamente “coordenam os processos reprodutivos”. Acreditam serem elas que agenciam os processos que efetivamente acontecem basicamente em seus corpos. Os homens sentem que, muitas vezes, acabam sendo obrigados a modificar o rumo de suas vidas porque aceitaram a liderança feminina no processo reprodutivo -e esta, com freqüência, acaba desembocando em algo que não desejavam: ser pai. Mas, diante da realidade, vêem-se obrigados a reafirmar um aspecto que parece imutável, mesmo quando se pensa em diferentes masculinidades: ‘assumir responsabilidades’. Este processo de assumir responsabilidades é que determinará o ‘grau de seriedade de um homem’. Assumir um filho pode determinar a passagem de uma vida de “zoeira e irresponsabilidade, aprendizagem, molecagem” para uma de compromissos, perda de amizades, perda ou limitação da vivência da sexualidade como uma sexualidade do prazer, sem limites. O casamento apareceria, para os homens, como ‘instância reguladora’

do comportamento sexual e reprodutivo.5 A idéia/ intenção de ser pai, diferentemente do que julgam acontecer com as mulheres, viria com a maturidade, com o casamento. Se o filho aparece antes do casamento, parece ser claro que ele vem antes da Vontade de ser pai’. Os homens que participaram da pesquisa indicam que quando são Vitimados’ por esse processo de liderança reprodutiva das mulheres, que lhes acarreta paternidade prematura, vão se tornando, a postriori, mais eficientes no controle da fertilidade. Isso poderá determinar maior preocupação com o uso de contraceptivos, em especial do condom.

Minha mulher dizia que não gostava de criança e tale não

queria ter, e eu que sempre insistia, falava que um dia iríamos De qualquer maneira, parece haver diferenças entre homens e mulheres sobre o que é mais interessante em relação aos processos reprodutivos. Mulheres desejam o filho; homens desejam a família. A idéia/desejo/vontade/aspiração de ser pai viria com a maturidade e com o casamento e não determina o filho, ao contrário do que parece ocorrer com as mulheres. Para muitas delas, a legitimidade de sua feminilidade ainda se dá pelo filho, ao passo que a legitimidade da masculinidade se fundamenta na família. Segundo Nolasco (1993), muitos homens têm filhos como se estivessem cumprindo mais uma etapa de suas vidas, reafirmando sua virilidade ou esclarecendo dúvidas sobre sua identidade sexual. Ter sucesso financeiro e ter a intenção de ser bom pai e um bom marido seriam elementos básicos, que definiriam para um homem o caminho rumo à paternidade, condição esta que raramente se definiria a partir de necessidades internas.

terete. Até que um dia ela resolveu pôr na cabeça e faz um filho

sem me consultar (…). (F., 23 anos, casado, c/ filhos)

Tentando desnudar um pouco mais este universo das relações entre mulheres e homens e seus processos reprodutivos, Villa (1996) realizou um estudo com homens de baixa renda na cidade de Buenos Aires. Nele, é possível perceber a complexidade da dinâmica de construção das representações masculinas sobre fecundidade e contracepção. São explorados os significados que a fecundidade adquire para os homens na constituição e organização da família, bem como se constituem as representações sobre a contracepção no espaço doméstico. Geralmente contraditórios e conflituosos, os significados são bastante diversos quando se trata de pensar a sexualidade no universo da família ou fora dela. Segundo os resultados do autor, o desejo de fecundidade da mulher toma-se, ao mesmo tempo, um desafio e uma ameaça. Desafio, porque é a fecundidade feminina que torna a sexualidade masculina socialmente aceita e personifica sua vivência sexual; ameaça, porque o afasta do mundo de seus pares, que lhe confere a identidade de gênero, relacionada a uma sexualidade impessoal, inserida na cultura masculina compartilhada. Tal sexualidade teria como produto ‘os filhos por ai”, inerentes a ‘qualquer homem’. Os homens viveriam, então, um dilema entre a busca de uma identidade pessoal e a necessidade de se submeter a uma cultura masculina impessoal, aceita por outros homens. De um lado, estariam o mundo masculino e uma sexualidade exercida de forma marginal, compartilhada pelos homens, mas não socialmente aceita. De outro, a sexualidade exercida dentro do espaço doméstico, de certa forma submissa ao ‘desejo de fecundidade das mulheres’, que teria como produto os filhos. A mulher teria dentro do casamento, portanto, um papel moralizador da sexualidade masculina. Ao mesmo tempo que eles ‘roubam sua sexualidade’, elas a tornam socialmente aceita, e a singularizam. Neste contexto, a contracepção dentro da família torna-se uma contradição: são os filhos que dão visibilidade à ‘sexualidade personificada e moralizada’.

Desse ponto de vista, é bastante curiosa a posição masculina sobre o aborto. Mesmo considerando que são as mulheres que, em última instância, definem o que irá ocorrer em seus corpos, os homens entrevistados parecem considerar que suas palavras têm muito poder e podem direcionar a atitude das mulheres, inclusive em relação à decisão de abortar. No entanto, entre os participantes da pesquisa, há uma explicitação de que o homem que incentiva a mulher a abortar poderia estar se eximindo da responsabilidade reprodutiva e, portanto, eximindo-se da sua obrigação de se comportar como ‘homem’. Conforme Victora (1982), os meninos são socializados para buscarem na rua o sustento para a casa. Esse menino que, para tomar-se um homem, deverá tomar-se pai e provedor, precisa pois, ter um filho e assumi-lo, para ver consagrada sua posição de homem adulto. Jardim (1995) afirma que a masculinidade é algo que deve ser comprovado continuamente por meio de diferentes estratégias e os filhos apareceriam como um dos elementos que ‘provam’ que o homem foi ativo na vida. ‘Fazer filhos’ seria uma capacidade de todo homem, mas sustentar e prover de respeito seria um passo importante na obtenção de status mais elevado entre os pares. Surge, então, o conflito. Incentivar o aborto seria uma manifestação possível, quando o homem ainda não se identifica como ‘homem pleno de responsabilidades’. Essa percepção explica os dados encontrados na pesquisa de opinião pública em que os homens declaram que devem tentar influir sobre a decisão das mulheres de abortar. (CCR, 1995). Nos grupos focais, essas idéias são explicitadas:

Ai que nós voltamos ali para o início da nossa conversa, ‘o que

é ser homem’, ceño? Acho que o cara que foge de uma

realidade dessas, prá mim, não é homem! Acho que hoje em

dia você tem que ser homem para assumir o que você faz! (L.,

33 anos, casado, c/ filhos)

É mais fácil ele induzir ela fazê-lo. É dificil o cara chegar e dizer:

Ah, vai ser bonitinho, que legal e tal. (A., 25 anos, casado, s/

filhos)

E outra coisa, por in crivel que pareça. Mas quando pinta o

negócio do aborto, é sempre o cara que vai atrás, é o cara que

leva a mulher, é o cara que está do lado, é companheiro. Duas

horas depois, ele põe no ônibus e diz: Vai com Deus, filha! A

maioria das vezes é assim. (R., 32 anos, casado, s/filhos)

 

Considerações finais

Os dados obtidos nessa pesquisa indicam que, no campo da sexualidade e da saúde reprodutiva, não será possível a permanência da focalização nas mulheres como objeto exclusivo do debate teórico e político. Não se trata, com isso, de esquecer que a análise das relações subjetivas e intersubjetivas deve consideraras hierarquias de gênero, mas, sim, de tentar promover uma compreensão relacional mais substantiva. No caso do Brasil, mudanças nas políticas macroeconômicas, que têm provocado alterações no mercado de trabalho com conseqüências importantes para os homens, como baixos salários (ou até mesmo desemprego), são fatores adicionais que reforçam a indicação de que há necessidade de maior compreensão dos possíveis novos significados das relações entre homens e mulheres (Giffin, 1994). A inclusão dos homens não deve ser feita apenas como ponto de apoio para a promoção do bem-estar das mulheres.

Continuar insistindo no discurso de que os homens não estão preenchendo adequadamente seus papéis e nem desempenhando tudo o que deles se espera não permitirá aproximar mulheres e homens para um processo de reconstrução de processos sociais e mentalidades (Barker et al, 1996).

O quadro apresentado aqui nos coloca em posição que exigirá certa ousadia. No caso do Brasil, trazer os homens para a cena da saúde e dos direitos reprodutivos de maneira mais substantiva supõe desafios no campo da conceituação e ação política e, também, na esfera da formulação, desenvolvimento e avaliação de políticas públicas.

Alguns profissionais da saúde, que operam junto aos serviços de saúde pública, têm alertado para o fato de que seria mais fácil continuar a estimular os homens a serem colaboradores dos processos de saúde das parceiras. Será isso o desejável? Homens, de todas as faixas etárias, não deveriam também se tomar sujeitos de direitos no campo dos direitos sexuais e reprodutivos? O que isto significaria concretamente? Que mudanças na formulação das políticas deveriam ser desenvolvidas? É necessário que estes temas e debates sejam enfrentados, até porque, a partir dos dados obtidos nesta pesquisa, percebe-se que a reprodução-e sua ligação com a saúde - parece ser um universo bastante distante dos homens, cujo reflexo nas demandas no campo da saúde reprodutiva deverá ser diretamente estimulado.

Uma lição já foi claramente aprendida a partir desta pesquisa: os dados remetem para a necessidade de se pensarem estratégias informativas diferenciadas para cada um dos sexos, uma vez que as motivações sexuais - o sentido que mulheres e homens parecem darão corpo sexual e reprodutivo são diferenciados. Há, portanto, um campo enorme de intervenção diferenciada em educação para a sexualidade e saúde reprodutiva para homens e para mulheres. Pode-se afirmar, também, a necessidade premente de desmistificar, entre os homens, a concepção de que o corpo masculino é simples, mecânico e que, por isso, não precisa ser conhecido ou estudado. Também é relevante reverter a lógica de que se deva conhecer o funcionamento corporal apenas para conquistas amorosas. Deve-se conhecê-lo para poder cuidar, tratar, e viver com mais qualidade e dignidade.

Outro aspecto bastante relevante (e que é um estímulo para a ação) é o fato de que homens condensam, simbolicamente, o sentido de fertilidade, potência/ereção do penis e sexualidade. Desfazer esse emaranhado torna-se necessário e urgente para que novos processos cognitivos, comportamentais e afetivo-sexuais possam se desenvolver.

Esse processo de produção contínua de conhecimento teórico e de metodologias de intervenção deverá ser desenvolvido pelo conjunto de ONGs que hoje já operam no campo da sexualidade e saúde reprodutiva, sendo que o papel das universidades será extremamente significativo.

 

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* Agradeço a Silvani Arruda e Rosana Gregori pelas leituras críticas e sugestões feitas a este texto, bem como pelo entusiasmo cotidiano com que têm abraçado, ao lado de José Roberto Simonetti, a pesquisa que originou este artigo.

1 Destaque-se aqui o papel de terapeutas como Sócrates Nolasco no Rio de Janeiro e Luiz Cushnir em São Paulo.

2 Deve-se destacar o Núcleo de Estudos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, coordenado pela Dra. Ondina Fachel Leal, muito provavelmente um dos primeiros a pensar “masculinidades” no Brasil, o Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, desenvolveu também importantes trabalhos de pesquisa sobre sexualidade e gênero, estimulados sobretudo pelo Dr. Richard Parker.

3 Destaca-se o trabalho desenvolvido por Ecos, GTPOS e NEPAIDS que sempre incorporaram adolescentes de ambos os sexos em seus trabalhos de educação sexual.

4 A Comissão de Cidadania e Reprodução é uma organização da sociedade civil, de caráter nacional e que reúne pessoas e instituições que defendem direitos sexuais e direitos reprodutivos da população brasileira.

5 Esta passagem parece coincidir com o casamento, embora não seja necessariamente associada a ele. Pode estar vinculada a uma relação em que de alguma forma esteja definido um certo compromisso afetivo e sexual. Agradeço a Regina Maria Barbosa por este comentário.

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Karen Giffin

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