Questões da saúde reprodutiva

Karen Giffin · Capítulo 25 de 26

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Questões da saúde reprodutiva

23 - O drama da mulher no mundo do trabalho: o ser e o estar

23 - O drama da mulher no mundo do

trabalho: o ser e o estar

 

Eleonora Menicucci de Oliveira

 

Introdução

Este trabalho é parte de uma reflexão elaborada a partir de duas pesquisas realizadas em São Paulo (Brasil) e em Milão (Itália) com trabalhadoras assalariadas, nos anos de 1992, 1994e 1995. Os estudos tiveram por objetivo-a partir da perspectiva internacional comparada - apontar as convergências e diferenças entre as realidades dos dois países, no que diz respeito aos impactos das condições e da organização social e sexual do trabalho (Dejours,

1988)1 na vida sexual e reprodutiva das trabalhadoras.

No Brasil, foram entrevistadas 66 mulheres, de diferentes categorias

profissionais. Na Italia, 102, de cinco categorias2.

 

A vida reprodutiva e o trabalho

Existem amplas bibliografias nacional e internacional (com as quais concordo) que consideram o trabalho doméstico não pago como um trabalho-apesar de não produzir bens e serviços vendáveis no mercado. No entanto, deve ser analisado como um conjunto de processos de trabalho combinados que se articulam com o processo de produção e o subsidiam.

É esclarecedor da discriminação de gênero apontar o trabalho doméstico sem remuneração como trabalho, mesmo porque sabe-se que o impacto sobre a saúde provoca morbidades semelhantes entre as trabalhadoras que estão no mercado de trabalho e as que não estão.

Se considerarmos trabalho como característica capaz de transformar permanentemente o meio ambiente e a si mesmo, percebemos que a sua divisão e dos poderes sociais e políticos vividos por homens e mulheres, ao longo do desenvolvimento das sociedades, dentro e fora da casa, foram e são invenções culturais.

De maneira recorrente e variada, as formas de divisão social do trabalho excluem e discriminam a mulher, tendo por base seus atributos biológicos, como os relacionados ao ciclo vital: menstruação, gestação, parto e puerpério, amamentação, climatério e menopausa. No caso específico da gestação, parto e amamentação, consideramos tais eventos como trabalho-ampliando, assim, o significado desta categoria sempre associada a uma força que tem valor de troca, sendo vendida no mercado de trabalho.

Dentro desta ótica, trata-se de um trabalho que despende energia, exige uma especialização, comporta a transformação do corpo e das condições sociais, exige a cooperação e a atividade de uma mulher para levar a termo.

Pensar a mulher como trabalhadora é pensá-la na sua integralidade, como sujeito da produção e da reprodução. A assimetria necessária e relativa aos direitos e às condições de trabalho dos homens e mulheres não pode ser considerada neutra. As mais diversas formas concretas de existência (muitas vezes consideradas invisíveis) e das representações de trabalho e saúde incluem formas de adoecer e morrer que só podem ser compreendidas se levadas em consideração as relações de gênero, sempre suscetíveis às transformações culturais.

As palavras das trabalhadoras que participaram dos nossos dois estudos indicam que a escolha da maternidade é um fator “obstaculizante” para a carreira; e que não é suficiente estar garantida por leis - já que nos dois países existem legislações que “protegem e tutelam” os direitos da mulher-mãe no local do

trabalho.3 A lei italiana Tuteia delia maternità nei luoghi di lavoro e os serviços sanitários asseguram os exames diagnósticos para assistência à gravidez e ao parto gratuito. Segundo Pizzini (1996), esta lei parece ser uma das melhores do continente europeu, tanto que, há não muito tempo, discutiu-se sobre a necessidade de algumas limitações em seu conteúdo, para adequá-la ao protocolo da Comunidade Européia. No entanto, uma forte mobilização de

protesto das mulheres italianas barrou a tentativa4. A legislação brasileira referente à mulher-mãe no local do trabalho encontra-se ameaçada pelas reformas neoliberais que objetivam o ajuste fiscal, mas o que queremos apontar como discussão é a semelhança dos pressupostos que sustentam as duas leis: a noção de tutelagem e proteção. Isto nos remete ao uso do conceito “proteger e tutelar”, que pressupõe uma relação assimétrica, em que o ‘Outro ou a Outra’ é considerado/a incapaz de decidir pela sua própria vida.

Como afirma Todorov (1993), é uma relação não de alteridade, mas de dominação e opressão, em que as singularidades das identidades construídas subjetiva e objetivamente não têm lugar. Ambas as leis não garantem direitos de cidadania; ao contrário, reforçam a linguagem patriarcal e biologicista da gravidez como doença e da mulher como cidadã voltada para a maternidade. Aqui o uso da linguagem de gênero pode explicitar a diferença entre tutelar/proteger e garantir direitos. Algumas das narrativas são exemplares sobre este aspecto.

As mulheres não fazem carreira porque existe um estereótipo

masculino segunda o qual as mulheres antes ou depois de

entrarem no mercado de trabalho engravidam. (Trabalhadora da

área da saúde de Milão).

Assim, a linguagem de gênero reforça a cultura de que a maternidade estrutura negativamente o acesso das mulheres à carreira no mercado de trabalho e é estruturante na discriminação diferenciada entre as mulheres que têm e as que não têm filhos - “os patrões não confiam nas que têm filhos” (trabalhadora brasileira do setor metalúrgico).

Como apontaram Hirata (1988,1993) e Kergoat (1988,1993) em um diálogo com Dejours (1988,1993), a construção da masculinidade e feminilidade no trabalho está diretamente ligada à divisão social de sexo, que dá às atividades desempenhadas pelos homens a representação do perigo e às desempenhadas pelas mulheres, a da fragilidade (unicamente por causa de sua capacidade reprodutiva).

A abordagem de gênero provoca, em primeiro lugar, uma ruptura radical com as explicações que recolocam a questão da saúde apenas nos determinantes biológicos e sociais; em segundo lugar, aponta para a afirmação de que a dimensão sexual das relações trabalho e saúde são construções culturais e sociais; e, em terceiro lugar, indica o reconhecimento de que estas relações repousam sobre uma hierarquia e sobre uma forma dc poder entre os sexos, fundadas na divisão sexual do trabalho, que constituem um dos pilares das relações sociais de sexo (Kergoat, 1992).

A formação da subjetividade feminina que se configura a partir de um aprendizado de “menor valor” -e que nega esta condição como uma estratégia defensiva -é considerada por diversos estudos como um obstáculo às ações políticas mais organizadas entre mulheres no sentido da atenuação da feminilidade como campo de conquista de novos direitos no interior do mundo do trabalho.

Nesse caminho, reforçamos a idéia de Dejours (1988) referente à sobrecarga psíquica das mulheres, como a primeira diferença decorrente da responsabilidade do trabalho doméstico, porque interpela de maneira diferente os homens e as mulheres e cria uma discriminação entre as mulheres que têm filhos e as que não os têm.

 

A vergonha de estar grávida, sentimento de

ambivalência e de indignidade

A vivência das mulheres em relação à maternidade e à sexualidade tem sido marcada pelo signo da negatividade, construído na tríade vergonha, medo e culpa.

Em nossas pesquisas, dos 49% de mulheres milanesas que responderam negativamente sobre a relação da vida reprodutiva com o trabalho, a grande maioria não tem filhos ou eles já são maiores e independentes. No entanto, as diversas maneiras usadas para relatar que a maternidade interfere no trabalho reforçam nossa tese da clivagem de gênero no mundo do trabalho - sobretudo, porque a categorização de gênero continua sendo desconhecida pela maioria dos estudos e as mulheres desconsideradas como sujeito estruturante das relações sociais de produção e da organização social do trabalho. Das 53 (52,6%) trabalhadoras italianas com filhos, 48 (90,5%) têm um ou dois filhos; e somente cinco (9,5%) têm até três. Para nós, isto significa a confirmação da baixa taxa dc natalidade naquele país: 0,4%. Os filhos, na maioria, têm mais de 10 anos.

Das 66 sindicalistas brasileiras, 40% têm mais de 3 filhos; 60% não têm. O alto índice de mulheres sem filhos em nosso país pode ser explicado pelo fato de as sindicalistas serem, em sua maioria, jovens e terem a militância política sindical como prioritária à maternidade.

Um dado que aponta para uma diferenciação entre os dois países do ponto de vista cultural e social em relação à maternidade refere-se ao tipo de parto: do total de 102 milanesas, 52,% tiveram filhos (64,2%fizeram parto normale 35,8%, cesariana). Entre as 66 brasileiras, das 48,6% que tiveram filhos, 44,4% fizeram cesárea e 55,6% tiveram parto normal. O que nos chama atenção é o fato de que entre as mulheres que fizeram cesárea, 68,8% consideraram o fato normal.

Das sindicalistas que participaram da pesquisa no Brasil e que fazem uso de algum contraceptivo, 41 (55,5% do total) repetem o comportamento contraceptivo da maioria das mulheres brasileiras: 21%, pílula; 19%, esterilização; 7,5%, abstinência sexual; 3,5%, método billings e camisinha; 3,0% têm maridos e/ou companheiros vasectomizados e 1,5%, optou pelo método injetável. As mulheres que fizeram a esterilização alegaram como motivo o medo de engravidar, o alto número de filhos, o fato de trabalharem fora de casa, a falta de escolha contraceptiva e problemas financeiros.

No Brasil, 40,1 % das mulheres estão esterilizadas, segundo dados da Pesquisa Nacional sobre Demografia e Saúde da Sociedade do Bem Estar Familiar (BEMFAM) em 800 municípios {Folha de S. Paulo, out./1996). No entanto, é importante ressaltar que, embora os serviços de Atenção Integral à Saúde da Mulher estejam involuindo em todo o País, as mulheres adquiriram a consciência da sobrecarga da maternidade - em uma sociedade onde as relações de gênero estruturam as práticas sociais. Dessa maneira, pode-se concluir que o perfil contraceptivo não apresentou diferenças significativas no País em relação aos dados de 1986, quando 22% das mulheres utilizavam pílula e 29% estavam esterilizadas.

Entre as trabalhadoras milanesas que fazem uso de algum contraceptivo (77, ou 75,5% do total) observamos o seguinte comportamento quanto à prática contraceptiva: 30% usam a pílula; 25%, o método billings ou tabelinha; 12%, o coito interrompido; 13%, o DIU; 8%, camisinha; 4% optaram pela esterilização.

O fato de 35,1% das mulheres milanesas que participaram da pesquisa estarem na faixa entre dois a três anos de uso do método contraceptivo, seguidas por 19,3% na faixa entre quatro a cinco anos, demonstra que elas, além de mudarem de método contraceptivo em períodos mais curtos, não utilizam métodos invasivos ao corpo. Este quadro representa a realidade da contracepção entre as mulheres italianas, confirmada por Pizzini (1996):

nos anos 90 nasceram na região da Lombardia, norte da Itália,

74.705 crianças e foram realizados 24.682 interrupções

voluntárias da gravidez. A taxa de natalidade nesta região é

0,5% entre mulheres em idade reprodutiva, sendo a mais baixa

do país e inclusive entre outros países europeus. A diminuição

da natalidade se acentua entre as jovens de 20 a 29 anos e

estacionou entre as mulheres na faixa de 30 a 39 anos.

Segundo a autora, muitos são os fatores que influenciam neste comportamento, destacando-se o aumento da escolaridade das mulheres e sua entrada maciça no mercado de trabalho.

No que se refere à contracepção, salta aos olhos uma diferenciação na cultura contraceptiva. Os dados mostram que no Brasil ela é medicalizada e invasiva, ao contrário da Itália. Cremos que estas diferenças podem ser compreendidas por diversos ângulos, como a clandestinidade do aborto e a involução das ações de saúde da mulher, decorrente do descaso com que os governos têm lidado com as políticas públicas de saúde.

A legalização do aborto na Itália na década 70 mudou qualitativamente o quadro da saúde da mulher naquele país, provocando uma mudança no perfil epidemiológico da morbi-mortalidade feminina, embora no que se refira à mentalidade dos profissionais da saúde esta ainda continue bastante conservadora. Sob forte pressão da Igreja Católica, as forças progressistas - entre elas as organizações de mulheres - vêm enfrentando situações que podem ameaçar as conquistas de 20 anos atrás, uma vez que, no sul da Itália, onde a população é mais carente, os serviços de saúde não têm oferecido assistência de qualidade às mulheres, principalmente nos casos de abortamento, quando os médicos alegam objeção de consciência e se recusam a fazê-lo.

Do total das trabalhadoras milanesas, 71,7% responderam que são submetidas a controle (grifo nosso) de saúde durante o período da gravidez; 28,3% responderam negativamente.

O cuidar do corpo, para a maioria das trabalhadoras dos dois países (60%), significa apenas a prevenção do câncer do colo uterino. Essas mulheres declararam ter ido ao ginecologista em um período que variou de dois meses a um ano, somente para realizar o exame de Papanicolau. Entre as milanesas que disseram não fazer esse teste com regularidade, a maior freqüência foi encontrada entre as profissionais da saúde (17%). Este resultado é preocupante: mostrou-nos uma tendência destas mulheres a negligenciar a prevenção da saúde e o cuidado com o corpo. Este comportamento pode estar relacionado com o fato de estarem envolvidas, cotidianamente, com a saúde-doença do/a outro/a e, muitas vezes, viverem em condições de completa insalubridade no local de trabalho.

É na relação entre maternidade e trabalho que as relações de gênero se evidenciam, uma vez que são estruturantes da participação da mulher no mundo do trabalho assalariado. Se as mulheres, na década de 70, entraram em massa para o mercado de trabalho, é certo que a grande maioria delas não conseguiu ocupar postos de chefia, ascender na carreira e receber salários iguais aos dos homens - mesmo quando mais qualificadas e ocupam funções semelhantes. Dados da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados/ SP -SEADE-1996) indicam que as mulheres recebem 60% a menos do que os homens.

A nova organização social do trabalho nas sociedades ditas ‘modernas e globalizadas’ renomeia a divisão sexual, a partir de dispositivos estratégicos (que controlam por meio da ‘naturalização’ da maternidade a circulação das mulheres na hierarquia dos postos de trabalho). É o que nos diz uma trabalhadora sindicalista de Milão:

o stress devido ao trabalho diante do video terminal e também a

dupla jornada de trabalho incidem na minha via reprodutiva e na

diminuição do desejo sexual. Ultimamente, muitas mulheres

têm soliatado o part-time. No futuro, penso que teremos uma

redução do horàrio para melhorara qualidade de vida.

A discussão do part-time tem assumido proporções significativas com o avanço das políticas neoliberais. Ressaltamos que estes projetos políticos se baseiam na lógica do mercado, em detrimento das políticas sociais que garantem a qualidade de vida das pessoas e, sobretudo, das mulheres, que são as mais penalizadas, por arcarem com a dupla jornada de trabalho (Hirata, 1996).

É na subjetividade feminina que está enraizado o sentimento construído social e culturalmente de que a responsabilidade pela maternidade, além de ser compartilhada na maioria dos casos só com as avós, ‘incapacita’ as mulheres para o desempenho das tarefas fora de casa. Sentem-se humilhadas e sem nenhum esquema individual ou coletivo de suporte que as ajudem a decidir entre a maternidade e o trabalho, quando são colocadas diante de situações de conflito que se assemelham ao drama da “escolha de Sofia”.

Se usamos a técnica de complementação de frases ditas por elas, confirmamos nossa análise:

tenho um filho e amamenta poro meses quando já trabalhava.

Vivi muito mal o retomo ao trabalho, pois me senti colocada em

uma posição menos qualificada que aquela ocupada antes da

gravida. Deixava a filha com a avó (…).

Quando a opção por não ter filhos é influenciada pelo trabalho: “trabalho no setor agro-alimentar, sou muito ocupada, por isso não tenho filhos. Hoje gostaria de tê-los, mas é muito difícil ter filhos e trabalhar (…)”; uma das trabalhadoras metalúrgicas nos conta, analisando sua decisão: “eu não tenho filho, porque quem tem filho tem mais dificuldades de trabalhar por causa dos turnos e deve por força deixar os filhos com qualquerum (…)”.

Dois relatos nos trazem de volta o drama vivido pelas mulheres na relação entre a maternidade e o trabalho, isto é, o drama de não conseguirem resolver a fronteira entre o espaço público do mundo do trabalho e o espaço privado do mundo doméstico (ressalte-se que socialmente, para as mulheres, não existe separação entre eles, uma vez que elas estão submetidas a dispositivos de controle que operam na esfera da subjetividade e obstaculizam o exercício de sua autodeterminação):” (…) As mulheres que trabalham e querem ter filhos não são compreendidas; não se percebem as exigências de uma mulher que quer trabalhar e ter filhos (…)”, nos conta uma trabalhadora metalúrgica de Milão.

“É um problema de tempo”, afirma a trabalhadora da saúde, pois ela acredita que “conseguindo maior flexibilidade no horário a fim de permitir a mulher poder estar com os filhos quando necessário”, a discriminação sexual pode diminuir.

Esta afirmação, se indica uma vontade de potência das mulheres em transformar as relações hierárquicas de poder entre os sexos, buscando a eqüidade de direitos, também demonstra, a nosso ver, que a flexibilidade de horário pode servir como álibi para um maior desemprego das mulheres ou à sujeição à salários mais baixos e funções mais desqualificadas. Este álibi é sustentado no discurso discriminatório de que a maternidade impede a produtividade das mulheres. Neste caso, é salutar lembrar a importância que as mudanças de mentalidades exerce nas transformações das relações de classe, gênero e raça.

Exemplar da discriminação que sofrem as mulheres-mães é o relato de uma trabalhadora da saúde italiana:

não tenho filhos porque não posso tê-los, mas não é uma

escolha minha. Era consciente de que se tivesse filhos seria

reduzido o meu empenho no trabalho, por causa dos diversos

problemas que têm as mulheres mães. Para quem retoma ao

trabalho é dificil manter o duplo papel de mãe e trabalhadora,

precisa, por força, sacrificar um ou outro e isto também porque

as mulheres tendem a dar sempre mais importância ao privado,

a família e estão sempre dispostas a sacrificar o trabado pela

serenidade da família (…).

A maioria dos relatos nos remete a três considerações: a escolha entre trabalho e maternidade se coloca entre o que Dejours (1988) chamou de ‘riscos residuais’, porque são quase sempre as mulheres que têm de buscar soluções para dar conta da sobrecarga de trabalho imposta pelas diferentes jornadas; esta escolha, também se situa entre os ‘riscos supostos’, isto é, supõe que a mulher-mãe deve ter garantidos seus direitos como trabalhadora pelas Leis de Tutela e de Proteção, mas, na verdade, em nenhum dos casos, este risco é controlado e assumido pelas empresas ou pelo Estado; e finalmente, recuperamos o conceito de autodeterminação como ideário da autonomia e do exercício da plena cidadania: qualidade de vida implica em educação, moradia, saneamento, emprego, salário, saúde, bem estar social, sexualidade sem restrições, lazer, ética e dignidade na vida e na morte.

A representação da maternidade para essas trabalhadoras é marcada pelo conflito entre o desejo de ser mãe e o sentimento de que estão cometendo um crime, pelo qual são penalizadas. Elas sabem que não existe neutralidade na relação empresa e maternidade (do ponto de vista da ‘eficácia da produção’).

A afirmação de uma trabalhadora milanesa expressa o significado desta indignação: “somente se forem fortes as mulheres conseguem se fazer ouvir, enquanto os homens, mesmos sendo medíocres, são ouvidos (…)”.

Outra, com expressões de revolta contra a representação social da mulher-mãe no mercado de trabalho como improdutiva, nos conta: “as mulheres não fazem carreira porque existe um estereótipo masculino segundo o qual elas, antes ou depois de entrarem no mercado de trabalho, têm filhos, por isto não se pode confiar nelas (…)”.

Estas falas nos remetem à clivagem da divisão sexual como uma ineqüidade de gênero - e lembramos aqui a definição de Scott (1988) para ‘gênero’: “que as conseqüências da hierarquia de poder vão para além do espaço doméstico, como no mundo do trabalho (…).” As narrativas também nos indicam a dimensão cultural e social dos processos destrutivos que formam as vivencias depressivas das mulheres - que muitas vezes não conseguem romper com as primeiras experiências de submissão que acontecem na infância, como analisaram Hirata (1988) e Kergoat (1993).

A ‘consciência’ da discriminação sexual pode levar ao estado de liminaridade, isto é, a mulher sabe da discriminação, limitando-se a constatá-la, como nos disse uma das italianas entrevistadas: “a situação não muda, obstante a solicitação de eliminá-la (…)”. Esta construção cultural do significado da submissão da mulher nos remete às construções diferenciadas dos medos, prazeres, culpa e vergonha. O medo da perda do emprego, para a mulher, está relacionado à sobrevivência, à perda do único espaço de liberdade e de socialização fora do ambiente familiar. O emprego, para muitas mulheres, assume o significado de estratégias defensivas contra a cotidianiedade da opressão doméstica e sexual.

 

Trabalho, corpo e sexualidade: uma mediação a

ser feita

Se procurarmos resgataras respostas, verificamos que a percepção que as trabalhadoras têm do corpo está relacionada a um modelo binário do corpo produtivo e estético. Este modelo se contrapõe a uma imagem que revela as representações sociais da saúde ao corpo reprodutivo/doente: 85% das trabalhadoras brasileiras e 83% das milanesas responderam que gostam do corpo; as respostas negativas atingiram, respectivamente 8% e 17%. Não responderam à questão 9% das brasileiras.

Para as mulheres ligadas à área de serviços, como as bancárias, cuidar do corpo faz parte de uma preocupação com a estética e o psicológico: “me cuido superficialmente, sou gorda, bebo e fumo demais”; outra fala desloca o cuidado do corpo para a dimensão do “cuidar-se psicologicamente para agüentar o tranco”, como um dos processos protetores contra o desencadeamento de sintomas relacionados com o sofrimento patogênico, isto é, a transformação de vivências depressivas em doença.

Entre as trabalhadoras rurais, apenas uma respondeu que não gosta de seu corpo. A concepção do corpo como produtivo fica evidente quando uma delas afirma: “meu corpo é minha ferramenta e sobrevivência”. Outras trabalhadoras rurais completam a relação: “meu corpo me dá prazer, mas clandestinamente”; “não gosto de meu corpo, sou desajeitada”. O corpo, como ferramenta, é o instrumento de trabalho mais precioso e produtivo que essas mulheres possuem. A relação com o trabalho, para algumas, é uma relação de prazer, na medida em que é no mundo do trabalho que elas se percebem como sujeito com auto-estima, em uma relação circular de poder entre diferentes atores sociais.

A dimensão do corpo essencialmente ligada à capacidade reprodutiva apareceu junto da maioria das trabalhadoras milanesas. Entre as brasileiras, junto às metalúrgicas (uma delas afirmou que “gosto de meu corpo não pela estética, mas pela biologia que possibilita a maternidade e me dá um prazer de ser mãe”).

A ótica das relações de gênero permite pensar na questão da igualdade e diferença entre os sexos, apontando para eqüidade de direitos entre mulheres e homens, uma vez que as mulheres têm especificidades que as diferenciam dos homens. Trata-se, assim, de preservar a diferença entre os sexos, introduzindo uma outra cultura de trabalho a partir das mulheres.

Sabemos que a incorporação da noção da diferença como um direito individual e coletivo pode transformar as desigualdades existentes nas relações sociais de sexo no trabalho, rompendo com a argumentação tradicional e essencialista que explica a diferença de carreira masculina e feminina pela maternidade, e que repousa no ‘privilégio dos valores domésticos’ para a mulher.

A construção do tempo, para elas, relaciona-se à dupla jornada de trabalho, ou melhor, à jornada extensiva de trabalho - que começa em casa, passa pelo mundo do trabalho e vai terminar novamente em casa. É uma construção que inexoravelmente passa pela sexualidade, isto é, o tempo da sexualidade corre simultaneamente ao tempo da rigidez das tarefas.

Algumas falas comuns entre as trabalhadoras dos dois países indicam e reforçam essa interpretação: “bem, eu não tenho tempo nem para sonhar” (rural brasileira); “a sexualidade fica em segundo plano pela militância e pela dupla jornada de trabalho” (dirigente sindical brasileira); “a falta de tempo, o cansaço interferem tanto na militância como no trabalho e o companheiro não entende” (dirigente sindical italiana).

As mulheres rurais brasileiras foram unânimes em afirmar que vivem a sexualidade de forma escondida e clandestina e que esta é uma vivência muito complexa. Algumas falas exprimem uma tensão na vivência da sexualidade “vivo bem, normal c clandestina”. Isto reafirma a dimensão da sexualidade como um ponto nodal de tensão na vida das mulheres, que vivenciam esses conflitos de maneira bastante solitária - porém, como um espaço de liberdade. Dessa maneira, é possível compreender o processo de construção social do corpo feminino, como um corpo silenciado e marcado.

A vivência da sexualidade “como um momento liberatório, com muitos problemas cotidianos” basicamente se referia a carga da dupla jornada de trabalho e aos ritmos das tarefas que desenvolve e “ao mesmo tempo a confirmação de uma forte e intensa ligação com o companheiro sem necessidade de muita conversa”.

Entre os 71% de trabalhadoras milanesas que responderam à questão, 31% afirmaram que o trabalho influencia na vida sexual e 40%, que não influencia. Faremos um exercício de interpretação a partir das falas, buscando reconhecer no sentido desconstrucionista de Bachelard (1996) e no âmbito do gênero como uma relação de poder que transcende as relações da esfera doméstica e estruturam as múltiplas redes de relações sociais, em dois sentidos. Um, quando o trabalho funciona como suporte para melhorar a qualidade de vida sexual; o outro, quando atua como processo destrutivo da vida sexual. Entre as mulheres que afirmaram ter problemas, 34% alegaram ausência de desejo sexual e menor freqüência de relações sexuais; 8% disseram que, por causa do trabalho, as relações sexuais são extremamente breves.

Na busca de qualificar nossas informações, usamos trechos das narrativas que nos contam sobre a vivência sexual. Entre as sindicalistas milanesas o que sobressai são referências aos processos destrutivos do trabalho sobre a vida sexual:”… o trabalho incide sobre a menstruação, quando estou tensa sofro mais, quando estou de férias não tenho as dores na coluna, pernas e abdome durante a menstruação No trecho a seguir, a relação com o lazer evidencia os processos estressantes que as condições de trabalho provocam:

o trabalho repetitivo e o stress de quem trabalha no Hospital

repercute na vida sexual quando retomo à casa a noite, estou

cansada e ainda devo fazer comida, passaras roupas, por isto,

depois tenho sono e não tenho vontade de fazer amor. Tenho

dores de coluna porque estou sempre sentada e também o ar

condicionada me faz mal. Quando fico nervosa por causa do

trabalho, a menstruação fica muito irregular.

Nesta vivência, a trabalhadora já interpreta e indica que a dupla jornada de trabalho é a carga penosa que as mulheres sofrem durante toda a vida; mostra que a sexualidade não é um apêndice na vida das pessoas, ou um botão, como em uma máquina, que basta ser acionado para que o desejo emerja: “falta sempre tempo para o sexo, infelizmente apagada, neste período vivo mal”; “satisfatória, quando não estou muito cansada e estressada”, nos disse uma trabalhadora da indústria alimentícia.

Alguns processos atuam como protetores nas situações de sofrimento mental. Dentre eles, destacamos a desconstrução da identidade feminina, marcada pela violência da exclusão e do silêncio imposto, em identidade autodeterminada. Esta transformação de identidade representa para as mulheres a recuperação do saber e do controle sobre o corpo, permitindo-lhes assumir atitudes que podem ser caracterizadas como transformadoras das práticas sociais e do exercício de cidadania - o que pode ser ilustrado por estas narrativas:

“penso que se alguém vive o trabalho como restrição ou um

peso, é lógico que ele toma muito estressante a vida (…)”; “se é

para o prazer estou sempre disposta, memo que sobrem só as

noites e o final da semana (…)”.

Indica, também, uma abertura psicológica ao prazer e ao encontro com o outro: “tento viver de forma mais honesta, me reconhecendo e transformando”. Estes depoimentos reforçam nosso pressuposto de que o conhecimento do corpo é a base para a construção da autodeterminação das mulheres: “depende do momento, seja mentalmente ou fisicamente, ora tranqüilamente, mas no passado tive problemas porque não conhecia meu corpo”. Continuando na mesma linha, “ainda estou a descobri-la”, nos disse outra trabalhadora.

O trabalho influencia na vida sexual. As narrativas indicam que desencadeia um aumento da tensão pré-menstrual e irregularidades no ciclo menstrual, sobretudo pelo excesso de trabalho, por pressão da chefia e da própria organização da produção. Cansaço, ansiedade, tensão, ritmo das tarefas e pressão da chefia também foram apontados como desencadeantes das vivências de sofrimento mental no trabalho:

às vezes não lenho desejo sexual por causa do cansaço, mas

procuro não deixar que o trabalho me estresse tanto. Os riscos

maiores no meu trabalho como operária de produção

metalúrgica estão relacionados com os ritmos da produção que

descontrolam meu ritmo biológico da menstruação (…).

Outra operária nos conta que o problema da menopausa pode ser acentuado pelas condições de trabalho,

mas se busca não dramatizá-lo entre as companheiras de

trabalho com as quais eu converso muito. Seguramente a

pressão do trabalho é mais forte, principalmente porque na

minha seção as mulheres às vezes são hadas a ficarem sempre

de pé sem conversar com ninguém (…).

Este depoimento, ao ser interpretado, aponta para questões no âmbito da construção de estratégias de resistência - conversar entre as colegas sobre os problemas que as afligem (e que são considerados menos importantes para o mundo masculino), permitem romper com o silêncio imposto às mulheres pelas relações de poder entre os gêneros. É o que Molyneux (1985) chamou de interesses práticos das mulheres, ao construírem em espaços moleculares e localizados, resistências singulares de sobrevivência. Outro ponto é a denúncia das condições de trabalho das mulheres -ficar de pé sem conversar com ninguém, constituindo a representação da ‘solidão da fábrica’. Se falar sobre a menstruação já é uma coisa bastante complicada e eivada de preconceitos, o que dirá falar sobre a menopausa? Significa quebrar o mito da juventude e o tabu do envelhecimento, em um mundo onde a população está envelhecendo e a taxa de mulheres velhas chefes de família se aproxima dos 79,9%, ao passo que a dos homens gira em torno de 72,8% (Folha de S. Paulo, 10/7/1996).

Entre as trabalhadoras milanesas da área da saúde, encontramos referência explícita à relação do trabalho com a vida sexual “a minha vida sexual é menos ativa quando trabalho, porque retorno à casa cansada, porque é um trabalho pesado para as mulheres”. Surpreende, nesta narrativa, a avaliação do trabalho como uma sobrecarga para as mulheres. Isto nos permite inferir que elas próprias consideram que devam fazer trabalhos mais leves -levando-nos, assim, a concordar, em parte, com Dejours (1988), quando faz a análise da representação social do trabalho masculino, afirmando que, quanto mais perigoso, mais viril e mais prazeroso.

Um aspecto interessante a ressaltar nas falas das dirigentes sindicais brasileiras é a relação com a militância, que passa a ter um significado de sofrimento e dever, quando deparada com a sexualidade:”… a sexualidade fica em segundo plano por causa da militância e da dupla jornada de trabalho É como se, entre as duas atividades, não existisse possibilidade de conciliação: “só o sindicato interfere na minha vida procriativa”; “sim, a falta de tempo interfere na vida sexual”. A militância como um dos inúmeros dispositivos de controle e de normatização - “por causa das atividades de militância, tenho dificuldade de sentir prazer” - exercido mesmo que subliminarmente na sexualidade das sindicalistas: “o trabalho e a militância interferem na minha vida sexual”; ou, ainda, as viagens em função da militância “interferem na vida sexual, porque viajo muito pela política”.

Uma narrativa de uma dirigente sindical milanesa nos chamou atenção pelo significado de poder que expressa em relação à divisão sexual enraizada, também, na militância: “interfere, tanto a militância quanto o trabalho, e o companheiro não entende, exige”.

O significado da sexualidade dependente do parceiro foi expressa com mais freqüência entre as milanesas, “de modo satisfatório, mais em relação a capacidade intuitiva do parceiro”; “bem, porque vivo uma relação fixa (…).” A vivência da sexualidade com pouca fantasia, por sua vez, expressou-se como uma das dificuldades para articulação da militância e da vida sexual: “com pouca fantasia, porque os companheiros de sindicato são difíceis (…)”.

É interessante notar que as condições de trabalho no sindicato desencadeiam sintomas de sofrimento que interferem na renúncia do exercício da sexualidade, como nos conta uma trabalhadora:”… na minha sexualidade, porque vivo sempre ansiosa e tensa pela pressão do trabalho sindical Em contrapartida, se está relaxada, ou em férias, “com disponibilidade para a fantasia e romantismo (…)”, a sexualidade lhe traz prazer. Ou, ainda, quando é transferida de função, mesmo no sindicato, “com serenidade, se depois tiver mudado de funções no ofício, o desejo diminui (…)”.

 

Algumas reflexões finais

A abordagem comparativa neste estudo não tratou de realidades iguais, pois as pesquisas foram realizadas em épocas diferentes e com populações de trabalhadoras de distintas categorias profissionais em diferentes países. Essa postura metodológica responde à problemática relacional dos fenômenos com os quais trabalhamos, nos possibilitando abordar, em um mesmo plano de análise, dois níveis de realidades: na esfera internacional, a lógica da divisão sexual no trabalho permitiu compreender como as relações sociais de trabalho redesenham os lugares dos homens e das mulheres na vivência da sociedade global. Desta maneira ressaltamos as convergências entre as duas realidades estudadas:

• as precariedades das Leis de Tutela e Proteção à mulher-mãe no local de trabalho, que não garantem o pleno exercício do direito ao trabalho das mulheres que optam por ter filhos e por amamentar;

• a dupla jornada de trabalho das mulheres, que torna precárias as condições de vida, de realização do prazer e da sexualidade;

• a ausência de informação sobre os fatores de risco e sobre as pesquisas desenvolvidas nas diferentes áreas;

• a precarização do trabalho das mulheres, agravada com a internacionalização-que impõe reduções da jornada de trabalho como o part-time e a flexibilização do emprego, entre outros.

E na esfera local, em relação com a dimensão globalizante, ressaltamos aquilo que o estudo apontou como diferenças: a contracepção. Na Itália, onde a taxa de natalidade é de 0,5%, as mulheres já conquistaram direitos que lhes possibilitaram o uso de métodos menos invasivos à saúde e ao corpo.

Ao discutir as condições e a organização social e sexual do trabalho sob a ótica das relações de gênero na perspectiva internacional comparada, este estudo:

• apontou a urgência de uma reflexão sobre a dimensão da ética vivida no cotidianodas trabalhadoras (Oliveira, 1996), como princípio que informa o respeito aos direitos ao trabalho, às condições de vida e saúde, à informação sobre os riscos e o conhecimento cientifico nas negociações individuais e coletivas e na construção da solidariedade individual e coletiva;

• redefine e amplia o leque de necessidades consideradas básicas para a melhoria da qualidade de vida da mulheres no trabalho e fora dele, introduzindo a dimensão da subjetividade, do prazer e da sexualidade.

No que se refere à solidariedade coletiva, observamos que, quando uma trabalhadora apresenta sintomas de doença, nenhuma delas se interessa -ao contrário, se afastam, por uma imposição quase que oculta das chefias, expressa em diferentes formas de controle. As trabalhadoras se afastam daquela que apresenta algum sintoma de doença, em uma demonstração clara de medo de contágio -que, no imaginário coletivo, representa a possibilidade da perda do emprego.

Neste sentido, a vivência com as/os trabalhadoras/es nos permite apontar outras formas de apoio e solidariedade por eles buscadas, na medida em que expressam um cansaço e uma total desesperança em relação ao Estado, às empresas e, alguns casos, até em relação aos sindicatos. É por isto que os grupos de discussão no local de trabalho funcionam como estratégias criativas de defesas individuais e coletivas.

Finalmente, salientamos quatro relações, com base nesta pesquisa e vivência com o universo dos trabalhadores e trabalhadoras: a primeira é a da dignidade da vida no mundo do trabalho e no mundo da casa, restabelecendo, assim, os direitos reprodutivos e sexuais como direitos de cidadania - portanto, um exercício de qualificação de todas as atividades invisíveis que as mulheres desenvolvem. Asegunda (que deve estar em conexão direta com a primeira) é a inclusão das mulheres no mundo dos direitos como sujeitos com autonomia para decidirem sobre seus próprios caminhos, sabendo que ‘decidir’ implica em informações para poder escolher. A terceira é a ruptura no mundo do trabalho e em casa com o estado de heteronomia em que as mulheres têm sido colocadas; e, finalmente, a quarta é a qualificação do trabalho doméstico como trabalho que vai interferir positiva ou negativamente na relação das mulheres com o conteúdo das tarefas desenvolvidas e, fundamentalmente, na insatisfação que elas têm com o trabalho fora de casa.

Como escreve Dejours (1988), “é do contato forçado com uma tarefa desinteressante que nasce uma imagem de indignidade”. Caminhando junto com a reflexão de Hirata (1988) e Kergoat (1993), essas tarefas são sexualmente construídas e distribuídas, produzindo imagens de indignidade marcadas e clivadas pelas relações de poder entre os gêneros.

 

Referências bibliográficas

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KERGOAT, D. La psychopathologie du travail dans son approche de la souffrance et du plaisir au travail, peut-elle faire l’économie des rapports sociaux de sexe? Quelques exemples précis. In: DEJOURS, C. (dir). Plaisir et souffrance dans le travail. Tomme 2. Paris: Edition de l’AOCIP, 1988/1993. p. 145 e 161.

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1 Segundo Dejours, “as condições de trabalho, influenciam o corpo dos trabalhadores, enquanto a organização social do trabalho, faz recair o peso sobre a saúde ou funcionamento mental”.

2 O que discutimos aqui sobre a relação do trabalho com a vida sexual e reprodutiva das trabalhadoras e assalariadas faz parte da tese de Livre Docência apresentada ao Departamento de Práticas em Saúde Pública da Faculdade de Saúde Pública da USP em novembro de 1996.

3 A lei italiana 1.204, de 30 de dezembro de 1971, sobre a “tutela della lavorabrice madre”, inclui trabalhadoras do serviço público e privado, agrícolas e em algumas normativas as trabalhadoras a domicílio e aos serviços familiares. Uniformizou a licença à maternidade (parto, puerpério e aleitamento) e depois do parto, por doença da criança. Durante seis meses a mulher tem garantido o salário integral, que vai gradativamente diminuindo, até completar um ano de licença. A lei brasileira 8.213/91 da Previdência Social está contida no Art. o 7 da Constituição Federal de 1988: - licença à gestante sem prejuízo do emprego e do salário, com a duração de 120 dias; Art. 120 - os planos de Previdência; além de incorporar a reivindicação do movimento feminista da Licença à Paternidade no Art.7o- inciso XIX - com as seguintes disposições transitórias : Art. 10, § 1o o - até que a lei venha disciplinar o disposto no Art. 7 inciso XIX, o prazo de licença-paternidade é de cinco dias.

4 Os princípios fundamentais desta Lei: 1) proibição desde o início da gravidez e por 7 meses depois do parto de efetuar trabalhos considerados perigosos, fatigosos ou insalubres (elencados na lei, ou solicitados pela gestante) - a trabalhadora pode solicitar a ausência do trabalho noturno por este período; 2) a ausência obrigatória do trabalho pode ser antecipada se a mulher apresentar alguma morbidade ou periculosidade para a gravidez e é retribuída com 80% do salário; 3) a licença obrigatória do trabalho é prevista por 2 meses antes e 3 meses depois do parto, com 80% do salário -previsto também para trabalhadoras sem contrato fixo de trabalho; 4) no fim da licença obrigatória, a trabalhadora pode ainda pedir para se ausentar do trabalho por seis meses, até o primeiro ano do filho, com 30% do salário. Também existe o direito de redução do horário de trabalho por duas horas ao dia sobre as 40 horas semanais até o primeiro ano da criança para a amamentação; no fim do terceiro ano de idade da criança. A mãe tem o direito de se licenciar do trabalho quando o filho adoecer, apresentando um atestado médico; 5) é prevista a proibição de demissão da trabalhadora desde o início da gravidez até a criança completar um ano, exceto nos casos de térmico da empresa ou de culpa grave da trabalhadora. Outra lei, no 903, de 9-12-77, prevê a ausência facultativa do pai ao trabalho ou a redução do horário para que possa também cuidar da criança.