Redes regionalizadas de atenção à saúde
Parte IV – Linha de chegada e algumas considerações
Parte IV: Linha de chegada e
algumas considerações
Nesse percurso, o maior desafio talvez tenha sido encontrar o
caminho teórico-metodológico que permitisse investigar uma rede regionalizada em três níveis de análise – política, organizacional e
práticas – para compreensão da gestão do cuidado integral. A
literatura disponível combina uma série de abordagens, nem sempre
convergentes, sobre os diferentes níveis, além de existir certa
arbitrariedade no modo de fazer a separação entre eles, gerando
superposições e confusões acerca dos seus limites.
Destacam-se como pontos fortes da pesquisa o desenvolvimento
de um estudo de caso que investiga a APS num contexto de região de saúde, destacando a sua posição nas políticas de integração de
serviços entre distintos municípios, e a análise da integração de
uma rede regionalizada de saúde e os desafios que isso produz.
Sobressai, ainda, na investigação, a utilização de diferentes técnicas
para captação dos dados e a participação de distintos sujeitos,
permitindo perspectivas diversificadas acerca do tema e a
triangulação entre os três níveis de análise. Ao lado disso, as
observações, particularmente nas reuniões da CIR, possibilitaram o acúmulo de informações estratégicas para compreensão das
políticas e apreensão das priorizações, num contexto real da
dinâmica de negociações e posicionamentos de secretários de
saúde que representam os 19 municípios da região de saúde.
Ressalta-se, ainda, que os estudos acerca da coordenação do
cuidado no Brasil, de maneira geral, abordam a relação entre
profissionais das equipes de APS e profissionais de outros serviços
de especialidades e hospitalares em cenários locais e municipais. Nesse ínterim, investigar os limites e possibilidades advindas de
contextos de redes regionalizadas traz importantes indicativos para
formulação ou readequação de políticas de saúde. Ao lado disso, a
pesquisa abarcou também municípios de pequeno porte e zonas
rurais, evidenciando as peculiaridades para atração e fixação de profissionais nessas localidades, sobretudo médicos. Nesse sentido,
explicitou a necessidade de políticas específicas para esses
territórios que admitam outros arranjos no número e na composição
das EqSF, valorizando e ampliando, quando possível e pertinente, a atuação do enfermeiro, de equipes do Nasf, dos técnicos e dos
ACS.
A título de consideração final, busca-se retomar algumas
questões apontadas, mas com a clareza do inacabamento que
permeia qualquer análise. O estudo mostrou que os desafios para
constituição de uma rede regionalizada com cuidados coordenados
por equipes de APS requerem a defesa de políticas universais e a
organização dos serviços de saúde cada vez mais com caráter público. Nas palavras de Campos (2000, p. 181),
seria necessário pensar outros modos de fazer política social, outras maneiras para organizar a saúde, educação etc. O velho modo já mostrou seus limites: a corrupção, o clientelismo, a ineficiência, as iniquidades multiplicadas, tudo por ser refeito. Repensar o papel, a função e o funcionamento das Organizações Públicas, um desafio.
Ao interrogar-se acerca da conformação da rede de atenção à
saúde num contexto regional, as evidências mostram fragilidades e
potencialidades. Assim, as estratégias político-institucionais para
modelagem de uma rede regional revelam que a definição do
território sanitário nos documentos institucionais e a política estadual
de planejamento para alocação dos serviços têm como parâmetro o PDR, ou seja, forjam, oficialmente, uma rede integrada de serviços
de saúde de cunho regionalizado. Outrossim, há fluxos
estabelecidos entre estado, instâncias regionais e municípios que
preveem o planejamento ascendente e o compartilhamento da
gestão do cuidado nos territórios. Todavia, tais mecanismos,
presentes na estratégia institucional da política estadual, ainda são
incipientes no planejamento locorregional e insuficientes nas ações
de todos os entes nacionais. Dessa forma, as assimetrias técnico-financeiras entre os entes subnacionais, as disputas político-
partidárias por investimentos, a aplicação de recursos atrelados ao
voto e, sobretudo, os interesses privados de formuladores de
políticas, gestores e trabalhadores da saúde em detrimento ao fortalecimento de um sistema público e universal comprometem a
coesão necessária para constituir uma rede solidária de caráter
regional.
A CIR apresentou-se como uma ferramenta estratégica e potente para fortalecimento da governança regional, por reunir, numa arena
comum, distintos sujeitos responsáveis legais pela tomada de
decisão nos territórios sanitários, que precisam negociar a alocação
de recursos e distribuição dos estabelecimentos de uso comum na
região de saúde, ainda que induzidos por pautas ministeriais e
estaduais. Dessa forma, necessita incorporar à rotina de gestão
dispositivos mais democráticos que logrem se articular com
instituições de ensino/pesquisa e sejam permeáveis as demandas sociais para definição das políticas de saúde. É premente, portanto,
que a CIR não se limite a ser um espaço burocrático, ritualístico e
estéril, ou seja, necessita torna-se lócus criativo, pedagógico e
produtor de políticas que reforcem o caráter público e universal do
SUS.
Por esse prisma, a rotatividade dos secretários de saúde, a baixa
autonomia dos mesmos em relação ao Executivo local, a
qualificação técnica insuficiente para exercício da função e o atravessamento das políticas-partidárias na tomada de decisão em
detrimento do consenso solidário obstruem a permeabilidade da CIR
às demandas sociais. Em contraposição, a publicização da gestão e
o envolvimento de representantes da sociedade civil organizada que
defenda o SUS nas plenárias poderiam reduzir o campo do
interesse privado nas decisões públicas.
Por outro lado, quando investigamos a posição da ESF no
processo de conformação da rede e a possibilidade de coordenação do cuidado na região de saúde por meio de equipes de APS, nos
deparamos com complexos problemas organizacionais e na prática
das equipes. Por conta da capilaridade da ESF, notadamente, nos
menores municípios, a porta de entrada principal é a USF.
Contraditoriamente, nesses mesmos municípios, a ausência de
médicos em todos os turnos e dias nas unidades de saúde e a
simplificação na estrutura e no aporte de equipamentos e insumos
nos estabelecimentos sanitários comprometem o cuidado oportuno e regular, bem como a resolubilidade de problemas relacionados ao âmbito da APS. Apesar disso, o percurso mais comum do usuário
para acessar os serviços de especialidades e apoio diagnóstico e
terapêutico, no SUS, é por meio das unidades de APS, pois os
profissionais, sobretudo médicos, são responsáveis pelas referências para outros pontos de atenção na rede regional, por
meio de formulários específicos, mediados por centrais reguladoras.
Nos municípios da região de saúde, as EqSF tinham dificuldades
na retaguarda assistencial, limitando a continuidade do cuidado e a
resolubilidade dos casos que precisavam de suporte especializado,
com consequente prolongamento e até agravamento dos
problemas. Além disso, os fluxos comunicacionais incipientes entre
os diferentes pontos da rede não viabilizavam a coordenação do cuidado por profissionais da APS. Sendo assim, a participação das
equipes de atenção primária na regulação do acesso aos serviços
especializados era coadjuvante, posto que a priorização era fruto de
uma contingência na oferta que, aliada à incipiência de instrumentos
para continuidade informacional, não contemplava a coordenação
entre níveis.
Por sua vez, nos pequenos municípios, a integração dos serviços
era bastante frágil, porquanto, na maior parte das vezes, havia apenas o financiador via PPI, ficando as funções de prestador e
regulador nas mãos dos municípios de referência. As centrais de
regulação e marcação de consultas de âmbito regional e local
restringiam a oferta aos tetos financeiros pré-acordados por cada
município, ou seja, não correspondiam às necessidades dos
usuários nos territórios. Além disso, as CMC nos pequenos
municípios da região eram frágeis, transferindo ao técnico-marcador
– sem formação específica em saúde – os agendamentos conforme descrição médica nas guias de solicitação e, paralelamente,
assumindo importante papel discricionário na priorização de vagas.
Nessa seara, a incipiência ou ausência de instrumentos
comunicacionais entre os níveis de atenção, bem como a fragilidade
na organização do trabalho dos profissionais na APS, sobretudo de
médicos, comprometia o atributo da coordenação e, nesse sentido,
favorecia a inadequação de diagnósticos e tratamentos com
desdobramentos graves à segurança dos usuários. Com efeito, a ausência de prontuários eletrônicos nas unidades de atenção primária e de especialidades, a falta de conectividade entre os
diversos pontos da rede e o uso limitado de protocolos clínicos
restringiam o contato entre médicos generalistas e especialistas às
referências formais ou contatos informais. Constatou-se, também, que não havia contrarreferência entre os serviços especializados e
as unidades de atenção primária, sendo o usuário o principal
portador das informações entre os diferentes profissionais.
Toda essa problemática depõe contra a coordenação e expõe
uma gestão do cuidado inadequada. Entretanto, não se trata de um
jogo perdido. Os casos exemplares ficam diluídos no emaranhado
de problemas e tornam os sujeitos e suas práticas que estão
comprometidos com a gestão do cuidado invisíveis, porém eles existiam e estavam produzindo linhas de fuga e modelando, nos
interstícios da rede, novas tessituras.
Assim, ao dar centralidade aos desafios à integração assistencial
e à coordenação do cuidado em redes regionalizadas, busca-se,
com este livro, disparar novas reflexões e abrir o debate, por meio
das evidências apresentadas, acerca dos modos de produzir saúde
nas políticas, nos processos organizativos e nas práticas cotidianas
nas regiões de saúde.