Redes regionalizadas de atenção à saúde
Integração assistencial e coordenação do cuidado: contribuições para pensar a gestão em redes regionalizadas de atenção à saúde
processo de trabalho no espaço do território, ampliação do
escopo e apoio matricial;
2. Organização da rede de atenção via APS – análise da situação
de saúde e da rede existente na região, desenho da rede mais adequada à região, identificação dos problemas e análise de
cenários, elaboração de plano de ação para aperfeiçoar a rede
regional;
3. Fortalecimento da regulação – identificação dos usuários e
cadastramento dos estabelecimentos e profissionais da região,
avaliação e readequação dos instrumentos que regulam a
oferta assistencial na região, legitimação ou criação de
protocolos técnico-assistenciais, criação ou adequação do suporte logístico;
4. Fortalecimento da gestão regional – fortalecer a
governabilidade e ampliar a governança.
Integração assistencial e
coordenação do cuidado:
contribuições para pensar a gestão
em redes regionalizadas de atenção à
saúde
Os conceitos de integração e coordenação em saúde
representam abstrações teóricas para designar a natureza de
modos de organização dos sistemas, serviços e dos cuidados em
saúde. Contudo, a definição acerca da integração e coordenação permanece difusa na literatura, ora sobrepondo-se com o mesmo
sentido, ora apresentando-se como conceitos complementares e,
em algumas situações, enquanto termos que podem existir
independentes um do outro. Por esse prisma, percebe-se que tanto
“integração” quanto “coordenação” podem denotar situações
diversas, a depender do contexto e dos sujeitos que as empregam.
O debate em torno da integração e da coordenação não é novo
(MUR-VEEMAN; VAN RAAK; PAULUS, 2008), porém reacende sua
importância ante os problemas não superados – iniquidades e
ineficiência – nos sistemas de saúde latino-americanos (CONILL; FAUSTO; GIOVANELLA, 2010; VÁZQUEZ et al., 2009) e novos
desafios como o impacto da crise financeira e as medidas de
austeridade que incidem nos sistemas de saúde europeus.
(MLADOVSKY et al., 2012; WHO, 2009) Por conseguinte, trata-se
de um tema que recebe ampla atenção nos países da Organização
para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), na Opas,
no Observatório Europeu em Sistemas e Políticas de Saúde e, mais
recentemente, ganha espaço na agenda das pesquisas realizadas no Brasil.
Entre os argumentos em defesa da integração e coordenação
para organizações dos sistemas de serviços de saúde, destacam-se
as necessidades de reduzir a segmentação e fragmentação da
atenção, de garantir a equidade no acesso, de aumentar a eficiência
e a qualidade dos serviços de saúde (CONILL; FAUSTO;
GIOVANELLA, 2010; VÁZQUEZ et al., 2009), de evitar a
sobreposição desnecessária, onerosa e iatrogênica em intervenções médicas, de direcionar os serviços e de distribuir os profissionais
adequadamente entre os diferentes níveis. (SALTMAN; RICO;
BOERMA, 2006) Não obstante, destacam-se também: possibilitar a
gestão clínica e a continuidade do cuidado das condições crônicas,
reduzindo a hospitalização desnecessária, buscando uma atenção
balanceada, com adequação da oferta de serviço e organização dos
fluxos entre serviços especializados de média e alta densidade
tecnológica e a atenção de primeiro nível (GIOVANELLA, 2011; GREß et al., 2009), controlar os custos (LEATT; PINK; GUERRIERE,
2000), além de favorecer o fluxo comunicacional, atenção ao longo
do tempo e a continuidade do cuidado. (HAGGERTY et al., 2003)
Ressalta-se, também, que os termos “coordenação”,
“continuidade” e “integração assistencial” são utilizados, muitas
vezes, indistintamente para referir-se a uma mesma ideia.
Entretanto, para Opas, há matizes importantes que diferenciam tais
conceitos. Assim, a continuidade retrataria melhor a relação entre usuário e provedor, que, por sua vez, para existir, necessitaria de coordenação na atenção e, finalmente, a integração corresponderia
a um nível avançado de coordenação. (OPS, 2008)
Em diversos países da América Latina – entre eles, Colômbia,
Chile e Brasil –, a integração dos serviços de saúde (integrated health care networks, integrated health care delivery systems ou
health systems integration), mesmo com trajetórias e opções
políticas distintas, tem sido um meio para as reformas em curso no
setor, sendo uma estratégia para melhorar a eficiência e o acesso
aos cuidados em saúde. (VÁZQUEZ et al., 2009) Esses autores
apresentam cinco características principais das redes integradas de
serviços de saúde:
1. A diversidade de problemas de saúde deve encontrar respostas
e estes devem ser resolvidos dentro da rede de serviços;
2. O sistema deve evitar sobreposição entre os níveis;
3. O primeiro nível de atenção deve atuar como entrada
preferencial para toda a rede (gatekeeping);
4. Disponibilidade de informação clínica do usuário deve estar
acessível em todos os pontos da rede (referência e
contrarreferência ou prontuários eletrônicos compartilhados); e
5. As várias tecnologias devem ser distribuídas (centralizadas ou
descentralizadas) apropriadamente entre os distintos pontos e
níveis da rede, atentando para efetividade e eficiência.
Também no âmbito de sistemas de saúde latino-americanos,
Conill e Fausto (2007), em análise comparada para analisar a
problemática da integração, concluem que, embora haja inúmeras
diferenças na implementação dos sistemas de serviços de saúde
entre os países estudados, há uma política continental – proposta e
defendida pela Opas – para a renovação e fortalecimento da APS, visando a integração e coordenação entre os níveis. Os resultados
identificaram três modalidades de integração:
1. Atenção primária seletiva (Bolívia, Nicarágua e El Salvador) no
interior de programas materno-infantis (coordenação restrita e integração focalizada);
2. Experiências municipais em sistemas baseados em seguros
(iniciativas isoladas, na Colômbia); e
3. APS como porta de entrada (Brasil, Costa Rica, Chile e
Venezuela) e eixo estruturante de um sistema público (política de reorganização do modelo assistencial).
A terceira modalidade, comum a sistemas universais, apresentou
uma série de estratégias importantes para fortalecimento de redes
integradas de saúde: territorialização com adscrição de clientela, equipes multidisciplinares, informatização de prontuários, centrais
de marcação de consultas, equipes especializadas de apoio,
consórcios para atenção especializada, comitês de integração de
serviços, criação de redes e estímulo à gestão regional. (CONILL;
FAUSTO; GIOVANELLA, 2010) Contudo, segundo tais autoras,
mesmo nos países com sistemas universais, havia persistência de
segmentação com fragmentação dos serviços, forjando integração e
coordenação frágeis entre os níveis de atenção. Essa conclusão também é evidenciada em pesquisa que compara a política de
atenção integrada (integrated care policy) em seis países europeus.
(MUR-VEEMAN; VAN RAAK; PAULUS, 2008)
A integração dos serviços de saúde é a contraposição aos
modelos fragmentados, ou seja, é a busca por consubstanciar uma
organicidade aos sistemas de saúde que se sustenta em três eixos:
a oferta de serviço, de forma contínua, por meio de vários pontos de atenção à saúde; a integração desses pontos de atenção à saúde, por meio de um sistema de gestão da clínica, e a existência de uma população adscrita, cuja saúde é de responsabilidade inequívoca do sistema. (MENDES, 2001, p. 72)
Percebe-se que, na concepção do autor, os pontos centrais da
integração do sistema de saúde modelam uma rede de atenção à
saúde.
Em extensa revisão sistemática de literatura sobre integração de
sistemas de saúde (health systems integration), Armitage e colaboradores (2009) afirmam que, apesar do grande número de
artigos que discutem a integração, persiste uma insuficiência de
estudos empíricos de alta qualidade que forneçam evidências para
tomada de decisão. Os autores percebem, ainda, a ausência de um conceito ou definição universal para a integração e apontam a falta
de ferramentas validadas e padronizadas para avaliação dos
resultados, o que torna a tarefa de medir e comparar o impacto da
integração no nível das práticas, serviços e sistema de saúde um grande desafio para gestores e pesquisadores.
Mesmo considerando que não seja possível um modelo como
“receita única para qualquer contexto” (one-size-fits-all) para
integração, Suter e colaboradores (2009) identificam um conjunto de
dez princípios universais na literatura revisada, que são essenciais e
presentes em sistemas de saúde integrados bem-sucedidos. Trata-
se de princípios genéricos, mas que permitem, segundo esses
autores, uma avaliação dos esforços realizados para integração em sistemas de saúde, pois definem áreas essenciais e permitem
flexibilidade e adaptação aos diferentes contextos:
1. serviços integrais e atenção contínua (comprehensive services
across the continuum of care);
2. serviços centrados no usuário (patient focus);
3. cobertura e adscrição populacional (geographic coverage and
rostering);
4. padronização dos cuidados entre as equipes de saúde nos
diferentes níveis (standardized care delivery through
interprofessional teams);
5. gestão por desempenho (performance management);
6. sistemas de informação (information systems);
7. liderança e cultura organizacional (organizational culture and
leardship);
8. integração entre os médico de diferentes níveis do sistema
(physician integration);
9. estrutura de governança (governance structure); e
10. gestão financeira (financial management).
Com efeito, a necessidade de integração tem desafiado as
reformas dos sistemas de saúde em todo o mundo. Na Europa,
muitos países introduziram mecanismos para melhorar a integração
do sistema hospitalar, porém utilizando-se de abordagens com
diferentes termos como: shared care, transmural care, intermediate care, seamless care, disease management, case management,
continuous care, integrated care pathways and integrated delivery
networks. (GRÖNE; GARCIA-BARBERO, 2001) Para esses autores,
embora tenham o objetivo comum de melhorar a integração e coordenação dos serviços, tais abordagens têm abrangência e
metas bastante diferentes: alguns focando, sobretudo, na redução
de custos e outros que procuram melhorar a qualidade, o acesso e a
satisfação dos usuários. Por sua vez, sustentam a definição de
atenção integrada (integrated care), adotada pela OMS europeia
(WHO European Office for Integrated Health Care Services), como
um conceito que junta insumos, gestão e organização dos serviços relacionados ao diagnóstico, ao tratamento, ao cuidado, à reabilitação e à promoção da saúde. A atenção integrada é um meio para melhorar os serviços em relação ao acesso, qualidade, satisfação do usuário e eficiência. (GRÖNE; GARCIABARBERO, 2001, p. 7, tradução nossa)
Tais borramentos teóricos foram investigados pela OMS, que, entendendo a dispersão dos conceitos, sintetizou os “serviços
integrados de saúde” (integrated health services) em seis
modalidades mais correntes:
1. como um amplo conjunto de intervenções preventivas e
curativas para um determinado grupo populacional;
2. como pontos de distribuição de serviços multiuso;
3. enquanto continuidade da atenção ao longo do tempo;
4. como integração vertical de diferentes níveis de serviço;
5. como vinculação entre a formulação de políticas e gestão dos
serviços;
6. na qualidade de trabalho intersetorial.
Por fim, cunha uma definição preliminar sobre integração,
admitindo tratar-se “da gestão e distribuição de serviços de saúde
de forma que as pessoas recebam um conjunto de serviços
preventivos e curativos, de acordo com suas necessidades ao longo
do tempo e por meio de diferentes níveis do sistema de saúde”. (WHO, 2008a, p. 4, tradução nossa)
Ao sintetizar características de uma atenção integrada (integrated
healthcare) de saúde no sistema canadense, Leatt, Pink e Guerriere
(2000) listam alguns critérios que os serviços devem ter/ser para o
usuário: o usuário não precisa repetir sua história a cada atendimento; não precisa se submeter a repetições de exames a
cada nova consulta; o usuário não é a única fonte de informação
para que o médico ou outro profissional conheça a sua história de
utilização de serviços, procedimentos e medicamentos; o usuário
não se submete a um nível de atenção inadequado por
incapacidade de atendimento em outro nível; dispõe de 24 horas de
acesso a um estabelecimento ligado à atenção primária; recebe
informação clara e precisa sobre a qualidade da assistência e resultados esperados das opções terapêuticas, permitindo-lhe fazer
escolhas esclarecidas; pode marcar uma consulta ou receber um
resultado por telefone; tem opções de escolha para consultas na
APS e os profissionais devem dispor de tempo suficiente nas
consultas de primeiro nível; é rotineiramente contatado para prevenir
complicações de problemas crônicos; recebe informações sobre sua
doença, apoio domiciliar e em autocuidado que maximize a sua
autonomia.
Ainda no campo conceitual, uma distinção importante é feita por
Rosen e colaboradores (2011) entre “integração” (integration) e
“atenção integrada” (integrated care). Segundo esses
pesquisadores, integração é um conjunto de métodos, processos e
ferramentas de suporte para coordenação de serviços de atenção à
saúde. Por sua vez, atenção integrada refere-se ao produto final da
integração em termos de serviços – centrado no usuário – para
cumprir requisitos de alta qualidade, custo-eficiência e altos níveis de satisfações dos usuários. Ou seja, a atenção integrada pode ser
caracterizada pela coerência e coordenação na prestação de
serviços de saúde para as pessoas, por meio de uma ampla gama
de organizações de atenção à saúde, diferentes profissionais e
cuidadores informais.
Entretanto, o cotejamento entre sistemas de serviços europeus –
Áustria, Espanha, Finlândia, Holanda, Inglaterra e Suécia – revelou
que, mesmo com sistemas consolidados, apresentam diferentes graus de fragmentação, sendo que as políticas de atenção integrada são engendradas para atender a determinados agravos crônicos ou
grupos específicos – idosos, deficientesm – e com relativa
insuficiência na coordenação pelos médicos de APS. (MUR-
VEEMAN; VAN RAAK; PAULUS, 2008) É importante sublinhar que os autores se referem a modelos de cuidados médicos, típicos de
países que fazem uma distinção entre serviços clínicos e serviços
de saúde pública, com papel periférico de outros profissionais –
inclusive enfermeiros –, restringindo a integração aos cuidados
individuais, pois outras políticas sociais – educação, saneamento
básico, transporte, habitação etc. – já estão consolidadas e
universalizadas.
Ainda na perspectiva internacional sobre as origens e matrizes dos sistemas integrados, há inúmeras experiências, com distintas
abordagens, oriundas do setor público ou privado, sendo o
movimento universal de desospitalização, a viragem ambulatorial
canadense, a substituição europeia e a atenção gerenciada
americana as mais significativas. (MENDES, 2001)
Uma leitura atenta dos diversos livros e textos produzidos por
Mendes (1999, 2001, 2002, 2007, 2008, 2010, 2011) revela que o
autor, após inúmeras revisões de literatura e incursões teóricas e práticas, parte da concepção inicial de sistemas integrados de
saúde para uma de redes de atenção à saúde. Ao analisar as redes
nos últimos anos, a integração passa a ser um atributo interno à sua
materialização. Para esse autor, a integração pode ser horizontal –
por semelhança ou coincidência na função – ou vertical – por
diferenças de funções e necessidade de complementaridade –, mas
deve superar a ideia hierarquizada e piramidal, atribuindo à APS o
status de coordenadora dos cuidados. E, nessa órbita, “a coordenação, a articulação de diferentes partes em relações
apropriadas para assegurar a efetividade, é diferente da integração,
a combinação das partes formando um todo”. (MENDES, 2007, p.
16)
A integração dos serviços de saúde tende a atuar de maneira
equilibrada sobre as condições agudas e crônicas, desde que
estejam organizados por um conjunto coordenado de pontos de
atenção à saúde em formato de redes de atenção à saúde. (MENDES, 2011) Na via contrária, a fragmentação causa baixo desempenho aos sistemas de saúde, por conta da dificuldade de
acesso aos serviços, perda da continuidade dos processos
assistenciais, incoerência entre necessidade e oferta de serviços,
uso inadequado e ineficiente dos recursos disponíveis, incremento desnecessário dos gastos e baixa satisfação dos usuários. Por
consequência, evidenciam-se demanda reprimida e atrasos na
oferta de serviços, repetições desnecessárias e perda de histórias
clínicas, duplicações de provas diagnósticas, ações voltadas para
condições agudas ou eventos agudos das condições crônicas,
médico especialista assumindo definitivamente o cuidado do
usuário, ao invés de assumir a condição de interlocutor com a APS.
(MENDES, 2011; OPS, 2008) Em síntese, a fragmentação manifesta-se, fundamentalmente,
como falta de coordenação e intercomunicação entre os distintos pontos de
atenção, duplicação de serviços e infraestrutura, capacidade instalada ociosa
em alguns casos ou utilização excessiva em outros, cuidado de saúde
fornecido em lugar menos apropriado, particularmente em hospitais, e
distribuição inadequada dos pontos de serviços de saúde. (OPS, 2008, p. 12,
tradução nossa)
Para superar a fragmentação em sistemas de saúde, a interface
entre integração e coordenação é indissociável e indispensável. Por esse prisma, Vázquez e colaboradores (2009) apresentam um
quadro conceitual para análise do desempenho dos sistemas
integrados de saúde, tomando como alicerce uma extensa revisão
sistemática. De acordo com esses autores, os resultados de
sistemas integrados de saúde consolidados apresentam um nível
intermediário, correspondendo à coordenação, continuidade do
cuidado e acesso. Por sua vez, satisfeito esse nível, o resultado final
seria maior equidade no acesso e melhor eficiência na rede de serviços.
Em síntese, a integração pode ser considerada o mais alto grau
de coordenação (VÁZQUEZ et al., 2009), assim como a
coordenação é entendida como uma conexão harmoniosa de
diferentes serviços, necessários para prover cuidado continuado das
pessoas, articulados, numa rede integrada, para resolver as
necessidades dos usuários. Em contrapartida, a continuidade relaciona-se ao modo como os usuários percebem e vivenciam a
coordenação e a integração nos serviços.
No debate atual, nos sistemas europeus, os estudos de Greß e
colaboradores (2009), Gérvas e Rico (2005), Saltman, Rico e Boerma (2006), além de Wadmann, Strandberg-Larsen e Vrangbek
(2009), defendem que os sistemas integrados de saúde devem
apoiar-se na APS como coordenadora dos cuidados – reformas pró-
coordenação – para atingir alguns objetivos básicos, como o
cuidado continuado, a longitudinalidade, a resolubilidade dos
problemas no nível mais adequado, melhora progressiva dos
resultados, equidade e uso adequado dos recursos.
Nada obstante, Giovanella (2006) adverte que o movimento de reformas pró-coordenação nos sistemas de saúde europeus ocorre
num contexto de restrição de gastos, buscando um melhor
desempenho custo-efetivo, aumento da qualidade e eficiência, mas
que, ainda assim, respondeu a mudanças do perfil epidemiológico –
envelhecimento e doenças crônicas –, novos métodos terapêuticos
e de diagnóstico e necessidade de cooperação interorganizacional
entre os níveis de atenção. Para tanto, as reformas seguiram dois
caminhos: 1) aumento do poder e controle da APS sobre os prestadores de outros níveis, fortalecendo a coordenação; e/ou 2)
expansão da oferta de serviços e funções da APS, privilegiando a
provisão. O principal mecanismo para aumentar o poder da APS foi
adotá-la como porta de entrada obrigatória (gatekeeping), sobretudo
nos países com sistema nacionais de saúde. Por sua vez, o
principal dispositivo utilizado para aumentar o escopo da APS foi
ampliar as funções dos médicos generalistas seguindo diretrizes
clínicas ou criando novos arranjos de trabalho para a APS, como:
contratação de especialistas em tempo parcial para trabalho em centros de saúde junto com generalistas, integração com serviços de enfermagem e de saúde mental, cooperativas de generalistas para prestar pronto-atendimento fora do horário comercial, e realização de procedimentos especializados pelos próprios generalistas que se tornam referência interna para determinado grupo de generalistas. (GIOVANELLA, 2006, p. 959)
A viabilidade e pertinência de sistemas coordenados e
direcionados pela APS, na Europa, não são uma resposta inequívoca, devido à diversidade de sistemas de saúde e às
características na sua condução nos distintos países da União
Europeia. (BOERMA, 2006) Apesar disso, temas comuns – como o
envelhecimento populacional, a crescente necessidade de enfrentamento das condições crônicas, as comorbidades, as novas
modalidades de diagnóstico e terapia, a crescente especialização e
subespecialização dos profissionais, a demanda por cuidados
continuados e os custos na área da saúde – têm exposto a
ineficiência dos sistemas fragmentados e descoordenados para lidar
com tais questões. (BOERMA, 2006; CALNAN; HUTTEN; TILJAK,
2006; MUR-VEEMAN; VAN RAAK; PAULUS, 2008)
Nesse sentido, Greß e colaboradores (2009) realizaram estudos de caso comparando oito países europeus e, como resultados,
perceberam que nações com um sistema de APS forte – Espanha,
Finlândia, Holanda, Inglaterra e País de Gales – tendiam a
desenvolver melhor integração entre os níveis, potencializando a
gestão e coordenação das condições crônicas, em contraste com
países com APS fraca – Áustria, Bélgica e Alemanha –, cujo sistema
mostrou-se desarticulado e com dificuldades na coordenação.
As principais dificuldades para coordenação de serviços de saúde ocorrem pela “assimetria da informação”. Além disso, as decisões
médicas são difíceis de serem julgadas e os resultados sanitários
não são fáceis de medir, pois nem sempre são imediatos e não
estão atrelados unicamente aos serviços de saúde. Além do mais, a
coordenação em países europeus tem logrado maior sucesso entre
os que estabeleceram a APS como porta de entrada e o médico
generalista como filtro – países com sistemas nacionais de saúde –
(GÉRVAS, RICO, 2005), mas os mecanismos pró-coordenação têm variado, notadamente, por meio de incentivos financeiros.
(GIOVANELLA, 2011; WADMANN; STRANDBERG-LARSEN;
VRANGBEK, 2009) Ademais, o sucesso na coordenação via APS
depende, também, do prestígio e credibilidade de que médicos
generalistas desfrutam entre o coletivo de médicos especialistas e
com a sociedade. (GÉRVAS et al., 2007; SALTMAN, 2006)
Nesse contexto, Gérvas e Rico (2005) advogam, a partir de
experiências europeias, que os profissionais de primeiro contato, particularmente os médicos generalistas (general practitioners), devem agir como filtros (gatekeeper) para a atenção especializada,
por meio do fortalecimento de suas ações na rede, bem como
ampliação do leque de oferta de serviços. Em Portugal, por
exemplo, todo médico da APS é um especialista em medicina geral e familiar, ou seja, tem uma formação compatível com outras
especialidades médicas, permitindo o reconhecimento entre os
pares de distintos níveis assistenciais, melhorando a resolubilidade
das ações clínicas e facilitando a coordenação entre os níveis.
(ROCHA; SÁ, 2011; SANTOS et al., 2015)
A argumentação a favor da coordenação sustenta-se, ainda, em
ampla revisão realizada por Núñez, Lorenzo e Navarrete (2006), que
sintetizam que os problemas de falta de coordenação entre os níveis assistenciais repercutem na ineficiência da gestão de recursos com
duplicidade diagnóstica, encaminhamentos inadequados, má
utilização das urgências hospitalares, perda de continuidade nos
processos assistenciais e diminuição na qualidade da atenção
prestada.
A coordenação é um atributo da APS e funciona como um
amálgama, pois potencializa e viabiliza os cuidados continuados,
articula os diferentes pontos no sistema para a integralidade e desburocratiza a função de primeiro contato. (STARFIELD, 2002) A
coordenação parte do reconhecimento de que as diferentes
necessidades das pessoas e as possibilidades de resolução não
podem ser alcançadas apenas pela equipe de APS. Nesse caso,
caberia aos profissionais da APS receber e reconhecer as
necessidades dos usuários, responsabilizando-se pelo
encaminhamento interno ou para outro serviço mais adequado, bem
como estar em contato direto com outros profissionais (especialistas) para complementar as informações e aumentar a
resolubilidade, a fim de prosseguir com o acompanhamento
continuado. Nessa mesma direção, Mendes (2002) sintetiza que a
coordenação implica, para a equipe de saúde da APS, reconhecer e
ordenar os problemas que requerem cuidados compartilhados por
profissionais de outros segmentos e, ao mesmo tempo, garantir a
continuidade da atenção. Sendo assim, “a coordenação assistencial
seria um atributo organizacional dos serviços de saúde que se traduz na percepção de continuidade dos cuidados na perspectiva
do usuário”. (ALMEIDA et al., 2010, p. 287)
Outrossim, há necessidade de uma rede integrada, ou seja,
necessita-se de um sistema que oferte diferentes serviços com graus variados de densidade tecnológica, com profissionais de
diferentes formações adequadamente distribuídos e que
reconheçam o papel coordenador da equipe da APS, além de
usuários que busquem a APS como primeiro contato e estabeleçam
vínculos com esses profissionais. Nesse quesito, abre-se uma
distinção acerca da integração e coordenação, pois
a integração se expressa na organização do sistema de saúde [e] a
coordenação se realiza no nível do cuidado individual [exercida] pelos
profissionais de saúde no processo de atenção e se expressa em atenção
contínua, centrada no paciente, adequada às suas necessidades de saúde, e
oportuna – ofertada no tempo adequado. (GIOVANELLA; ESCOREL;
MENDONÇA, 2009, p. 11)
A efetivação da integração dos serviços e da coordenação dos
cuidados implica alguma forma de longitudinalidade por um mesmo
profissional ou equipe e continuidade dos cuidados com a
responsabilização pelos fluxos e contrafluxos em qualquer ponto da
rede. (CONILL; FAUSTO, 2007) Tais distinções entre longitudinalidade, “presença e o uso de uma fonte habitual de
atenção no decorrer do tempo”, e de continuidade, “sequência de
consultas nas quais há mecanismo de transferência de informação”,
estão bem discutidas e delimitadas por Starfield (1980, 2002).
Dessa forma, os sistemas públicos de serviços de saúde com
forte integração têm a coordenação e a continuidade do cuidado
como elementos sinérgicos, bem como sistemas com coordenação
e continuidade do cuidado entre os diferentes pontos da rede resultam e/ou requerem uma adequada integração. As variações,
portanto, de integração sem coordenação ou vice-versa são comuns
em estratégias parciais, ou seja, sistemas públicos de saúde nos
quais a universalidade e a integralidade pertencem apenas ao
campo formal, pois não estão consolidadas.
Trata-se, por conseguinte, de um grande desafio, posto que a
integração da rede e a coordenação dos cuidados em saúde pressupõem uma relação de interdependência entre atores sociais e
organizações distintas, cada qual possuindo parcelas de recursos
necessários à resolução de problemas que são comuns a toda a
rede, envolvendo conflitos de interesses e disputa de poder. (ALMEIDA et al., 2010; HARTZ; CONTANDRIOPOULOS, 2004)
Esses argumentos distinguem a “coordenação dos cuidados”
(coordination) de procedimentos burocráticos, como o “manejo de
caso” (case management) ou o “manejo da doença” (disease-
management programmes), que atendem a uma racionalidade
instrumental, mais afeita ao controle dos custos – centrados nos
gestores ou mercado – e/ou fragmentação dos cuidados – centrados
nos profissionais ou mercado –, muitas vezes em detrimento das reais necessidades do usuário, ao fracionar a continuidade da
atenção. Programas de manejo de doença têm forte ideologia do
sistema de seguros privados de saúde norte-americano; portanto,
tendem a negligenciar as comorbidades, serem direcionados para
indivíduos que já desenvolveram doença crônica e, por isso, são
ineficientes na prevenção de doenças. (GREß et al., 2009) Do
mesmo modo, o campo da saúde suplementar utiliza a integração e
a coordenação, acima de tudo, como artifício para contingenciar a utilização dos serviços pelos segurados ou evitar que médicos
solicitem determinados procedimentos que venham onerar as
seguradoras. Esses procedimentos, que ficaram conhecidos como
managed care (atenção gerenciada) e são utilizados em
organizações de managed care por operadoras de planos de saúde
privados dos Estados Unidos, foram difundidos como instrumento de
organização da atenção para diversos países.
Esmiuçando essa discussão, Merhy (2002) e Merhy, Iriart e Waitzkin (1996) abordam o processo de trabalho em saúde e
destrincham um panorama latino-americano da atenção gerenciada
e seus desdobramentos na gestão dos serviços de saúde no Brasil,
alertando acerca dos riscos de sua migração indiscriminada para o
setor público. Na mesma direção, Campos e Onocko-Campos
(2009, p. 233) polemizam tal situação:
[a] atenção gerenciada […] imagina diminuir custos e aumentar a eficácia do trabalho em saúde, retirando dos profissionais, particularmente dos médicos, a capacidade de decisão sobre o próprio trabalho clínico. Esse poder é
passado aos gerentes, que por meio de minuciosos protocolos –
padronização de consultas diagnósticas e terapêuticas – controlam e
determinam o que fazer no cotidiano dos trabalhadores.
Os diferentes argumentos para definir a melhor forma de prover
os serviços de saúde – extensão do financiamento, regulação
estatal, propriedade dos estabelecimentos, os meios de produção,
papel do Estado como empregador, extensão da cobertura e escopo
dos serviços etc. – desenvolvem-se num contexto histórico e cultural de cada país, sendo elementos de disputas, consensos e alianças
entre uma constelação de atores – sindicatos, associações
profissionais, igreja, policy makers, usuários, mercado. (IMMERGUT,
1992; MUR-VEEMAN; VAN RAAK; PAULUS, 2008) Dessas
conjunturas, emergem os sistemas de saúde e os distintos modelos
de atenção à saúde, que, guiados por um conjunto de crenças,
circunscrevem uma
[…] espécie de lógica que orienta a ação e organiza os meios de trabalho
(saberes e instrumentos) utilizados nas práticas de saúde. Indicam um
determinado modo de dispor os meios técnicocientíficos existentes para
intervir sobre risco e danos à saúde. (PAIM, 2008, p. 554)
Assim sendo, o processo de fragmentação-integração nos
serviços de saúde é fruto dessas lógicas, bem como suas variadas
modelagens: piramidal ou em rede, hierárquica ou em círculo,
centrada no procedimento ou na produção do cuidado, competitiva ou colaborativa, fracionada ou coordenada. Oliveira, Carvalho e
Travassos (2004), por exemplo, admitem a existência de uma rede,
mesmo em sistemas fragmentados, pois há sempre pontos de
contato e interfaces entre os serviços, bem como há permanente
deslocamento das pessoas em busca de atendimento (fluxo
assistenciais). Entretanto, as distinguem na forma de organização
dos serviços, em “redes em árvore” ou “redes em malha”. Para
essas autoras,
redes em árvore, também conhecidas como redes hierárquicas (ou
piramidais), caracterizam-se pela limitação das conexões entre seus diversos
ramos. Predominam os fluxos hierárquicos, de um centro menor para o seu
superior e, não havendo caminhos alternativos, podem ocorrer pontos de
estrangulamento, impedindo o acesso da população aos níveis superiores da hierarquia. Já as redes organizadas em malha – em que cada nó se liga a vários outros – permitem percorrer caminhos variados entre os pontos, de modo que os diversos ramos da rede estão interconectados. (OLIVEIRA; CARVALHO; TRAVASSOS, 2004, p. 387)
No Brasil, os mecanismos de integração dos serviços e
coordenação do cuidado respondem por princípios gerais –
descentralização, regionalização e integralidade – e inúmeras
estratégias de gestão – regiões de saúde, redes temáticas, linhas do
cuidado, consórcio de saúde, entre outras.
Todavia, o ponto concordante deve ser a implicação na produção
da saúde, convertendo, de fato, o modelo fragmentado, de baixo
impacto e custos elevados, em um modelo que conceba, mediado
pelo ethos social, o “cuidado como um valor” (PINHEIRO, 2009); e
atenda a critérios basilares para gestão do cuidado. Os critérios
imprescindíveis seriam: a busca por maior eficácia e eficiência,
aumento da capacidade dos gestores e das equipes para
estabelecer compromissos e contratos, produzir o menor dano possível – físico, mental e/ou social) –, busca de intervenções
terapêuticas pedagógicas que aumentem a autonomia e o
autocuidado das pessoas (efeito Paideia), por meio da gestão dos
processos de trabalho. (CAMPOS, 2003)
A coordenação do cuidado via equipes de APS e a integração dos
serviços em rede regionalizada de saúde são dispositivos para
gestão do cuidado que, no SUS, devem ter como horizonte a
garantia da integralidade. Para tanto, requerem alguns pressupostos: gestão do sistema de saúde orientada para o trabalho
em rede; modelo assistencial orientado para responsabilização e
vínculo entre profissionais de saúde e usuários; disponibilidade de
recursos necessários à continuidade e complementação do cuidado
nos pontos de distintas densidades tecnológicas; sistema de
informação que dê conta da complexidade e da atualidade de um
conjunto de informações. (MAGALHÃES JÚNIOR; OLIVEIRA, 2006)
Pesquisas realizadas por Dias (2012), em Belo Horizonte; Almeida e colaboradores (2010) e Giovanella e colaboradores
(2009), em Aracaju, Belo Horizonte, Florianópolis e Vitória,
avaliaram as estratégias de coordenação entre a APS e a atenção especializada, na perspectiva da integração entre os níveis
assistenciais. As principais evidências – de forma diferenciada entre
os municípios – indicam táticas que favorecem a coordenação e a
integração e corroboram os pressupostos anteriormente apresentados:
1. a indução à organização e à integração da rede foi
potencializada pela expansão da ESF;
2. a implantação de centros de especialidades médicas melhorou
a oferta de consultas e exames, além da redução dos tempos
de espera;
3. a opção pelo Sistema Nacional de Regulação (Sisreg)
possibilitou conhecer o tamanho real das filas de espera,
monitorá-las, planejar a oferta de atenção especializada em
função da demanda, definir prioridades clínicas, monitorar o
índice de abstenção a consultas e exames e garantiu maior
imparcialidade no controle das agendas;
4. a implementação de comissão de regulação local e distrital, ou
seja, incorporação da regulação à rotina dos profissionais da
saúde da família;
5. a informatização dos prontuários eletrônicos melhorou a
continuidade do cuidado, favoreceu a comunicação entre níveis
assistenciais, permitiu o acesso rápido às informações e uma
visão integral do usuário. As principais desvantagens do
prontuário eletrônico foram a lentidão do sistema, segmentação dos programas, formato rígido e desatualizado e perda de
informações. Além disso, é necessário integrá-lo à rede e a
distintos prestadores (privados e estaduais);
6. o desenvolvimento e a aplicação de protocolos gerenciais e de
protocolos clínicos, orientando o fluxo de encaminhamentos à
atenção especializada;
7. as iniciativas recentes de comunicação e apoio matricial entre
profissionais das Equipes de Saúde da Família (EqSF) e atenção especializada; e
8. a contratação de serviços da rede privada, de forma
complementar, para suprir deficiências na oferta da rede
especializada.
O debate na literatura internacional sustenta a importância da
integração dos sistemas e coordenação do cuidado. Não obstante,
mesmo apresentando diretrizes gerais, a partir de revisões de
literatura ou de cotejamentos entre os países, ressaltaram a necessidade de adaptação aos diferentes contextos, tendo como
norte a universalização do acesso com qualidade na atenção à
saúde. As pesquisas realizadas no Brasil seguem o mesmo
argumento e buscam captar evidências nas experiências de gestões
municipais e, assim, divulgar possibilidades de mudanças e
obstáculos a serem superados para consolidação do SUS.
Nessa perspectiva, a gestão do cuidado integral em rede
regionalizada é uma forma de organização do trabalho para produção do cuidado em saúde, ou seja, a operacionalização de um
dado modelo de atenção à saúde. É uma ação política, porquanto
se refere ao ato de governar pessoas, organizações e instituições,
ou seja, confunde-se com o exercício do poder. É uma ação técnica,
pois incorpora e opera tecnologias para organizar os serviços de
saúde e lidar com situações concretas do processo saúde-doença.
É uma ação ética, uma vez que a prática em saúde se dá no
encontro entre sujeitos, requerendo uma tomada de posição em ato, mediada pela intersubjetividade no encontro entre trabalhador de
saúde e usuário do serviço.
Sendo assim, a gestão do cuidado integral resulta de
responsabilidades compartilhadas nas dimensões sistêmica,
organizacional e profissional, propostas por Cecílio (2009) e
retraduzidas neste livro nos níveis político-institucional,
organizacional e das práticas, ou seja, catalisa a integração dos
serviços e a coordenação dos cuidados. A gestão do cuidado, por conseguinte, consubstancia-se nas ações dos sujeitos – gestores,
trabalhadores da saúde e usuários – em serviços de saúde
integrados, formando uma rede colaborativa, ou seja, coordenada
para garantir o cuidado continuado aos usuários em local apropriado
e mais oportuno.
Nessa lógica, mas de forma ideal, para gestão do cuidado integral
em redes regionalizadas, os profissionais da APS devem funcionar
como principal porta de entrada (gatekeeper), pois: acolhem a demanda dos usuários e os acompanham em distintas necessidades, em diferentes fases da vida, de maneira regular e ao
longo do tempo (longitudinalidade), os encaminham para o serviço
mais apropriado quando necessário, sem perda de contato e
ordenando-os por diferentes fluxos na rede de serviços (coordenação e continuidade). Para tanto, as equipes de APS
requerem fluxos comunicacionais (cadastro único do usuário,
protocolos clínicos, prontuários eletrônicos compartilhados, guia de
referência e contrarreferência, telessaúde e outros) entre os
profissionais dos distintos serviços (continuidade e integração),
situados dentro e fora do território de residência (integração e
regionalização), conforme a necessidade e a pertinência (eficiência).
Porém, considerando que a integração dos serviços, a coordenação e a continuidade do cuidado são problemas presentes
no SUS real, entende-se que os profissionais de saúde, ao
desempenharem a gestão do cuidado nos seus diferentes níveis,
deverão apresentar plasticidade no processo de trabalho, de modo a
viabilizar o acesso dos usuários ao serviço necessário e em tempo
oportuno. Nesse sentido, os profissionais da APS serão
coordenadores do cuidado para as populações com cobertura da
ESF ou que tenham, pelo menos, uma unidade básica tradicional a que possam acessar. As pessoas desprovidas de cobertura da APS
ou que não conseguem acessá-las, as pessoas que buscam
hospitais, serviços de pronto-atendimento ou serviços
especializados precisarão ter sua demanda avaliada e ser
adequadamente encaminhadas (quando possível) ou atendidas
quando for necessário ou oportuno. Admite-se, assim, uma
coordenação compartilhada (gestão do cuidado no nível
organizacional e profissional – ação técnica e ética).
Desse modo, o status da APS como coordenadora e a integração
da rede de cuidados regionalizados devem ser pensados de modo a
superar os tradicionais modelos de atenção de desenho piramidal
de recorte apenas burocrático. Essa perspectiva coloca todos os
equipamentos de atendimento à saúde como potenciais portas de
entrada do sistema, ou seja, admite-se que o mais importante é que
o usuário, ao procurar um serviço, encontre resposta adequada a
seu problema de saúde e seja adequadamente acolhido e encaminhado, quando necessário, ao serviço que dará seguimento e o manterá vinculado, a partir da lógica da continuidade do cuidado
– nesse caso, uma unidade de saúde de APS. (CECÍLIO, 1997;
MATTOS, 2009b)
A polêmica levantada não nega a APS como porta de entrada preferencial, nem tampouco deslegitima o seu papel coordenador –
ainda que casual – aos demais níveis de atenção. Pelo contrário,
Cecílio (1997) e Mattos (2009b) analisam os itinerários concretos
dos usuários no SUS e advogam que a principal porta de entrada é
o próprio trabalhador de saúde, ou seja, é na dimensão
profissional/nível das práticas da gestão do cuidado, em qualquer
ponta da rede. Desse modo, ao acolher e utilizar a tecnologia mais
adequada ao problema demandado pelo usuário, o trabalhador deverá responsabilizar-se em mantê-lo – caso seja na APS – ou
encaminhá-lo à APS – caso seja outro nível –, que, a partir de
então, será o ponto da rede responsável pela continuidade de seus
cuidados.
A suposta flexibilidade não é uma contradição à coordenação
realizada pelos profissionais da APS, mas uma perspectiva crítica
aos modelos que apostam na mudança top-down ou centralizam o
debate na transformação da estrutura e das ferramentas de gestão e dão pouca ênfase à mudança do processo de trabalho e à
micropolítica no interior das instituições. Para Franco (2009, p. 160),
a questão do acesso só será enfrentada de forma definitiva se se conseguir operar alterações estruturais no modo de produção do cuidado. Isso significa radicalizar o conceito de mudança na saúde, direcionando-a para a ruptura com o atual padrão tecnológico de produção do cuidado, que prioriza as tecnologias duras, em detrimento dos processos mais relacionais, o que tem sido a causa da sua baixa resolutividade. Esse modelo tecnológico de produção do cuidado cria a restrição ao acesso, pois é um modelo que opera centrado no ato prescritivo, nas tecnologias duras e terapêuticas medicamentosas, se caracterizando como serviços extremamente custosos, pois criam uma cadeia de consumo a partir de cada consulta médica, uma vez que o processo produtivo é centrado em insumos de maquinaria e instrumental.
Em síntese, Cecílio (1997) e Mattos (2009b) estão admitindo que a APS constitui-se como nível fundamental do cuidado ao longo da
vida (longitudinalidade), mas não é o único ponto inicial de contato no momento da busca por cuidados (fluxos reais) – mormente na
realidade brasileira, na qual os equipamentos de saúde na APS são
insuficientes, irregularmente distribuídos, enfrentam acúmulo de
demandas, há restrição no número de profissionais adequados a esse nível de atenção e, ainda, há necessidade de valorização e
legitimidade dos cuidados primários pela população e pelos
profissionais.
Tais questões abordadas partem da perspectiva dos fluxos reais
das pessoas em seus territórios e sustentam-se na linha dos
serviços de saúde centrados no usuário (usuário-centrado).
Transformar a APS em porta de entrada principal é uma meta a ser
construída ao longo do tempo (WHO, 2008b), mas, no transcorrer do processo de vinculação das pessoas a esses serviços, há
necessidade de uma rede atenta, responsável e acolhedora para
“captar” os usuários que não fazem uso dos serviços primários e
transformam, no cotidiano, os hospitais e outros equipamentos de
referência em serviços de primeiro contato. Acerca dessa questão,
Cecílio (1997, p. 473) indaga:
em geral, afirmamos que ‘a população está entrando pela porta errada’, ou
não seria mais correto afirmarmos, […], que as pessoas, diante de suas
necessidades, acabam acessando o sistema por onde é possível,
contrariando qualquer delírio racionalista que os técnicos do setor saúde
continuam a defender sob a forma de uma pirâmide de serviços?
O relatório da OMS, em 2008, demarca e defende que as reformas de prestação de serviços a partir do movimento pela APS
têm por finalidade colocar as pessoas no centro dos cuidados e, por
isso, têm maiores chances de estabelecer as condições para a
orientação para as pessoas, integralidade, continuidade e, assim,
garantir melhores resultados em saúde, por meio de serviços que
estabeleçam uma relação estável, pessoal e duradora
(longitudinalidade) “entre a população e os profissionais que são o
seu ponto de entrada para o sistema de saúde”. (WHO, 2008b, p. 55, tradução nossa) O documento citado apresenta, ainda, uma
série de evidências em diferentes países para sustentar a defesa
pela APS enquanto estratégia adequada para organização dos
sistemas de saúde.
Em razão disso, o argumento para a reestruturação modelar do
sistema de serviços de saúde de desenho piramidal e hierárquico
por outro que fomente a cooperação e interdependência entre os
diferentes sujeitos de diferentes pontos sustenta-se na premissa de que aquele interdita possibilidades de integração de serviços e
coordenação do cuidado entre os profissionais de níveis distintos,
pois engendra uma distribuição de serviços de saúde baseados na
suposta superioridade daqueles que estão no topo, gerando uma
visão distorcida de complexidade que leva,
[…] consciente ou inconscientemente, os políticos, os gestores, os profissionais de saúde e a população, a uma sobrevalorização, seja material, seja simbólica, das práticas que são realizadas nos níveis secundários e terciários de atenção à saúde e, por consequência, a uma banalização da APS. (MENDES, 2011, p. 83)
Do ponto de vista histórico, a pirâmide de serviços de saúde foi
concebida apoiada em estudos sobre a complexidade dos problemas de saúde e sua prevalência. Trata-se, portanto, de uma
tradição que se tornou parâmetro para os sistemas de saúde em
distintos países, especialmente por retratar uma hierarquização
entre os serviços e os sujeitos, ajustar-se a diferentes interesses e a
uma racionalidade epidemiológica, muitas vezes, assumida
acriticamente. Em certa medida,
o que a pirâmide quereria afinal representar seria a possibilidade de uma racionalização do atendimento, de forma que haveria um fluxo ordenado de pacientes tanto de baixo para cima como de cima para baixo, realizado através dos mecanismos de referência e [contrarreferência], de forma que as necessidades de assistência das pessoas fossem trabalhadas nos espaços tecnológicos adequados. (CECÍLIO, 1997, p. 470)
Contudo, Mendes (2011) adverte, ainda, que a mudança no perfil
epidemiológico não comporta mais essa compreensão. Além disso,
a noção de complexidade assumida entre os níveis desloca para o
topo a acepção de “maior” complexidade, pois confunde complexidade com a incorporação de tecnologias materiais e atribui
a esse nível o status de maior importância, impactando o imaginário
coletivo e o modelo de formação dos profissionais de saúde. Ademais, é aderente a interesses mercadológicos, uma vez que
requer altos investimentos e a incorporação permanente de
equipamentos, novas técnicas e novos medicamentos.
Tais limites conceituais imprimem, ao processo formativo dos profissionais, uma valorização da técnica em detrimento do cuidado
e, às práticas gestoras, uma valorização da produtividade em
detrimento dos resultados. Além disso, parece fortalecer a noção de
APS (primeiro nível) simplificada ou APS seletiva, justificando os
altos investimentos priorizados nos demais níveis (em direção
ascendente), melhores salários para os profissionais “mais”
especializados em técnicas cada vez mais específicas – não
necessariamente as que produzem melhores resultados sociais –, por tornar a técnica e o equipamento “um fim em si mesmos”,
descolados, muitas vezes, das necessidades sociais, produtores de
demandas e que, por fim, acabam por modelar um sistema de
saúde fragmentado.
Ainda sobre os modelos piramidais, Amaral e Campos (2011)
afirmam que tais desenhos nas organizações públicas de saúde no
Brasil implicam funções gerenciais mais voltadas para o controle da
execução de atividades especializadas do que para a avaliação de resultados, alcance de objetivos e metas. Como consequência, a
centralização das decisões, com restrito envolvimento dos
trabalhadores de saúde e usuários, acarreta num baixo nível de
adesão ou mesmo resiliência às tentativas de padronização e
controle dos atos em saúde. Nesse sentido, a possibilidade de
coordenação e comunicação entre os níveis fica impossibilitada,
acarretando prejuízos, sobretudo para as pessoas que precisam de
cuidados contínuos – doenças crônicas, comorbidades etc. – entre profissionais de diferentes serviços de saúde. (CALNAN; HUTTEN;
TILJAK, 2006)
Com essa discussão sobre a posição da APS e a disposição dos
demais pontos nos sistemas de serviços de saúde, aposta-se na
disposição em rede (MENDES, 2011) do tipo malha (OLIVEIRA;
CARVALHO; TRAVASSOS, 2004) ou círculo (CECÍLIO, 1997) para
efetivação da integração dos serviços – interdependência – e
coordenação dos cuidados – comunicação e continuidade. Nessa direção, Longest Jr. e Young (2006) ressaltam que as organizações de saúde têm alta interdependência, sendo, portanto, a
coordenação e a comunicação tarefas críticas para os gestores. A
coordenação é uma maneira de lidar com a interdependência, pois,
por meio dela, torna-se possível unir diferentes partes de uma mesma organização ou diferentes organizações que tenham uma
meta em comum. Por essa razão, tem sido vista como uma das
mais importantes funções dos gestores.
Além disso, quando se discute o papel da APS na rede de
cuidados, deve-se considerar as heterogeneidades entre os
municípios brasileiros para compreender os grandes desafios dos
formuladores de políticas (policy maker) e dos profissionais para
viabilizar ou exercer o papel de coordenador do cuidado na rede. A coordenação do cuidado supõe que as equipes de APS não podem
responder por todas as demandas da população, pois têm limites no
campo técnico e tecnológico; mas devem organizar as linhas de
cuidado na rede e, ao mesmo tempo, assegurar que o vínculo e o
cuidado aos usuários sejam permanentes à APS. (FRANCO;
MAGALHÃES JÚNIOR, 2003) Portanto,
a função de coordenação da entrada e da circulação no sistema de saúde envolve efetivamente a transformação da pirâmide dos cuidados primários numa rede, onde as relações entre a equipe de atenção primária e as outras instituições e os serviços não são baseadas somente na hierarquia topo-base e na referência de baixo para cima, mas na cooperação e na comunicação. (WHO, 2008b, p. 59, tradução nossa)
Assim, a depender dos equipamentos de cada município, a
coordenação precisará extrapolar o espaço do município, pois o
cuidado dar-se-á para além dos territórios de moradia do usuário.
Nessa órbita, a gestão do cuidado constituída em um determinado
município precisará articular-se com a gestão do cuidado desenvolvida em outros municípios, num movimento de gestão do
cuidado em redes regionalizadas. A regionalização é o princípio que
contempla tal perspectiva, e os níveis da gestão do cuidado
materializam-se em cenários complexos, na intersecção dos
territórios e dos sujeitos. Contudo, Mattos (2009b, p. 382) alerta que
a proposta de rede regionalizada e hierarquizada só é boa na medida em
que facilite o atendimento integral das necessidades das pessoas.
Exatamente por isso, não faz sentido dificultar o acesso das pessoas na
tentativa de construir a rede regionalizada e hierarquizada.
Retomando-se a questão da coordenação das redes regionalizadas por equipes de APS, há características específicas
que as tornam desafiadoras no Brasil. Enquanto em alguns países –
Inglaterra, Portugal, Espanha, Itália e Dinamarca – com sistemas
nacionais de saúde, a APS tem a função de porta de entrada
obrigatória (GIOVANELLA, 2006), no Brasil, ainda não é possível do
ponto de vista real. Primeiro, porque não há cobertura suficiente da
ESF; segundo, porque os serviços especializados e hospitalares,
além do subsistema privado, “funcionam” paralelos à coordenação da APS ou simplesmente integram-se competitivamente à rede,
resilientes aos mecanismos de regulação. (FARIAS et al., 2011;
PIRES et al., 2010; SERRA; RODRIGUES, 2010; VENANCIO et al.,
2011)
Soma-se, também, que os profissionais da ESF não desfrutam do
mesmo nível de reconhecimento profissional que os especialistas.
(SISSON et al., 2011) Há distribuição inadequada dos profissionais,
notadamente de médicos em municípios de pequeno porte no interior do país, o que compromete a expansão das equipes de
APS. (DEMOGRAFIA…, 2013; MEDEIROS et al., 2010) Há
insuficiência na oferta de algumas especialidades nas cidades de
referência regionais e concentração nos grandes centros urbanos,
implicando distribuição insatisfatória de determinadas consultas e
procedimentos (DEMOGRAFIA…, 2013), o que impossibilita o
cuidado continuado na rede e contraria as tentativas de
coordenação e integração. (FARIAS et al., 2011; LOPES, 2010; PIRES et al., 2010)
Entretanto, com a expansão do número de EqSF e sua
capilaridade nos diferentes territórios do país, há possibilidades
concretas de que a EqSF passe a funcionar como primeiro contato
(gatekeeping) e contato regular ao longo do tempo
(longitudinalidade), ainda que com limitações ou com falhas na
“filtragem” dos usuários para outros pontos da rede.
Além dos limites atribuídos à cobertura da Saúde da Família, há
questões tensionadas pela rotatividade de médico e enfermeiros na
ESF por conta de vínculos trabalhistas precários que comprometem
o estabelecimento de vínculo com os usuários (MEDEIROS et al., 2010; SOUZA, 2011), profissionais guiados pela oferta – insuficiente
e indiscriminada – de serviços especializados e de apoio
diagnóstico. (PIRES et al., 2010; SERRA; RODRIGUES, 2010)
Destacam-se, ainda, gestores que perseguem metas ou
concentração de serviços para seu município em detrimento da
equidade e dos pactos intermunicipais (LOPES, 2010; VENANCIO
et al., 2011), rateio de parcas vagas, por especialidades, para as
Unidades de Saúde da Família (USF) – sem levantamento de demandas –, contribuindo para a formação de filas virtuais e longos
períodos de espera para exames e procedimentos. (CONILL;
GIOVANELLA; ALMEIDA, 2011; SISSON et al., 2011) Nesses casos,
as EqSF não exercem a função gatekeeper; ao contrário, tornam-se
produtoras de demandas, ou seja, exercem o papel inverso,
congestionando a capacidade de oferta – já deficiente – de
consultas para especialidades e procedimentos de apoio e
diagnóstico.
Em suma, a gestão do cuidado integral em redes regionalizadas
de saúde volta-se para o enfrentamento desses desafios cotidianos.
Nesse sentido, analisar a conformação da gestão do cuidado – nos
níveis político-institucional, organizacional e das práticas de saúde –
permite compreender e identificar os dispositivos facilitadores e
limitantes para integração da rede de serviços de saúde e
coordenação dos cuidados por equipes de APS no contexto da
regionalização, a posição da ESF no processo de conformação da rede regionalizada e permite também descrever os fluxos e
contrafluxos (formais e reais) configurados nos serviços de saúde.