Redes regionalizadas de atenção à saúde
Apresentação
Quando um livro nasce?
Penso que interrogar tal acontecimento pode ser útil a quem deseja ou precisa escrever livros, teses, dissertações, enfim…
Em dezembro de 2009, em Parati, no Rio de Janeiro, entre ruelas
da cidade histórica, já no final do primeiro ano de doutorado,
procurava, inquietamente, um objeto de pesquisa para tese.
Naquele espaço geográfico, imerso em belezas culturais e naturais,
meus sentidos estiveram mais aguçados e, daí, entre os artistas de
rua, deparei-me com um que demonstrava suas criações na forma
de mandalas. Lembrei-me imediatamente da infância – sempre quis uma mandala, pois gostava do movimento, das transformações, das
formas múltiplas que seus fios entrelaçados vão tecendo.
Fiquei hipnotizado e, além de adquirir uma das mandalas, desejei
um objeto de pesquisa que permitisse alguma fluidez na escrita e
que me desafiasse a querer desvendá-lo. É certo que, mesmo não
falando de mandalas, a metáfora do encontro e a fusão com outras
referências que estavam em mim foram catalisadoras para a
escolha das redes de atenção à saúde como enredo para minha tese de doutorado e, por conseguinte, para este livro.
Mas como chegar a Parati e encontrar a mandala?
Em março de 2009, fui aprovado no Programa de Pós-Graduação
em Saúde Pública (PPGSP) da Escola Nacional de Saúde Pública
Sergio Arouca / Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/Fiocruz) e
debrucei-me mais detalhadamente sobre Atenção Primária à Saúde
(APS) e a Estratégia Saúde da Família (ESF), em disciplinas
cursadas no PPGSP, notadamente Análise comparada de sistemas de saúde na perspectiva da atenção primária; em grupo de estudos
no Núcleo de Estudos Político-Sociais em Saúde (Nupes); e na
análise de dados da pesquisa intitulada “Estudo de caso sobre
implementação da Estratégia Saúde da Família em quatro grandes
centros urbanos”.
O ano de 2009 foi emblemático: residi em novo território,
interagindo com novos sujeitos, conhecendo pessoalmente muitas das minhas “referências teóricas” e deslumbrando uma gama de
novos conhecimentos, transitando entre experiências acadêmicas e
culturais. Pensando bem, morar no Rio de Janeiro e fazer uma tese
não é trivial, pois há tanto a descobrir e, simultaneamente, é tão inspirador.
Paralelamente, precisava concentrar-me, pois teria que cumprir
todos os créditos do PPGSP, visto que o tempo de afastamento do
trabalho – sou professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA)
– foi restrito àquele ano. Desse modo, o elemento cronológico foi o
maior desafio enfrentado, mas foi pragmaticamente aproveitado e,
assim, consegui concluir os créditos teóricos solicitados ao
doutoramento.
Nesse ínterim, encontrar a mandala era uma condição
imprescindível para meu retorno à Bahia, mas reconhecê-la foi
graças à sinergia de acúmulos teóricos e práticos da minha
trajetória, burilados no processo de estudos com minha orientadora.
Portanto, até chegar a Parati, tive que transitar por outras
estações…
Este livro não é uma ficção. Ou seria?
As referências teóricas apresentadas na Parte I – “Elementos teóricos para compreensão das redes de atenção à saúde” levaram-
me a sinalizar que temas comuns – como envelhecimento
populacional, crescente necessidade de enfrentamento das
condições crônicas, comorbidades, novas modalidades de
diagnóstico e terapia, excessiva especialização e subespecialização
dos profissionais, demanda por cuidados continuados e elevados
custos na área da saúde – têm exposto a ineficiência dos sistemas
fragmentados e descoordenados. Em contraposição, a gestão do cuidado integral potencializa a conformação de redes regionalizadas
com serviços integrados e cuidados coordenados por equipes de
APS.
Revolvendo esse terreno, entendo, inspirado na literatura, que a
gestão do cuidado se processa nos níveis político-institucional,
organizacional e das práticas, que articulados podem superar a
fragmentação e garantir a integralidade e continuidade da atenção à
saúde. Com foco numa rede de atenção regionalizada, este livro analisa as estratégias político-institucionais para a conformação de uma rede regional, discute a posição da ESF no processo de
conformação da rede regionalizada, descreve os fluxos e
contrafluxos (formais e reais) de usuários; discute e identifica os
dispositivos facilitadores e limitantes para integração da rede de serviços de saúde e coordenação dos cuidados por equipes de
saúde da família.
Na Parte II – “Regionalização da saúde na Bahia: aspectos
político-institucionais e modelagem dos territórios sanitários”,
recuperei, ainda que brevemente, elementos históricos da
organização das regiões administrativas e sanitárias, na busca de
esclarecer e identificar os fios que vão tecendo as redes de atenção
à saúde e desembocam no que temos atualmente no estado.
Por se tratar de um livro, as descrições e detalhamentos
metodológicos foram suprimidos para garantir maior fluidez, mas
podem ser resgatados na própria tese ou nos artigos que se
desdobraram da investigação. Ainda assim, cabe aqui anunciar que
as fontes de informação foram entrevistas semiestruturadas com 17
gestores (aproximadamente 22 horas de entrevistas), quatro grupos
focais com trabalhadores da saúde (aproximadamente seis horas de
gravação), quatro grupos focais com usuários (aproximadamente cinco horas de registro de áudio), um grupo focal com apoiadores
institucionais (uma hora e meia de registro), documentos, além de
observações nos serviços de saúde em quatro municípios e nas
reuniões da Comissão Intergestores Regional (CIR) (sete
encontros).
A construção dos dados verteu numa confluência de narrativas
que descrevem as experiências vivenciadas pelos sujeitos. Por esse
delta de evidências, a Parte III – “Gestão, organização e práticas em redes de atenção à saúde” é apresentada em três capítulos.
Exatamente nessa parte do livro, optei por trazer estratos dos
discursos, selecionados entre tantos, para ilustrar os enredos e a
mandala que se expressa com diferentes modelagens nas redes
regionalizadas de atenção à saúde. Os trechos das falas não têm a
intenção de verdade, nem falam por si, pois há necessidade de
interpretação, confronto teórico e rigor metodológico para superar a
descrição. Neste livro, contudo, dei ênfase na exposição das narrativas, pois quis vocalizar as sutilizas dos sujeitos, entendendo-
as como falas fortes, ilustrativas e desveladoras deste território.
Por isso, convido os leitores a uma paragem nos fragmentos e
que, assim, façam novas interpretações, dialoguem com os sujeitos e inquietem-se com os desvelamentos. Os discursos são reais? Os
estratos de fala são abstrações dos entrevistados? Trata-se de uma
ficção? Qual meu lugar nessa rede? Qual movimento e forma eu
imprimo nessa mandala? Finalmente, qual minha responsabilidade
nisso tudo?
Nesta perspectiva, a miríade de dados empíricos indicou que o
principal instrumento de governança regional era a CIR, mas que a
baixa autonomia dos secretários de saúde em relação ao Executivo municipal representava uma barreira às decisões colegiadas. Além
disso, a permeabilidade aos interesses privados e as interferências
político-partidárias nas práticas profissionais, no comportamento de
algumas instituições e nos fluxos assistenciais contrariavam a
possibilidade de construção de redes solidárias, com integração dos
serviços e coordenação do cuidado. Isso porque desconsideravam
os fluxos pactuados formalmente e criavam circuitos paralelos,
transformando o direito à saúde em mercadoria e troca de favores. A APS não ocupava centralidade na rede, evidenciando-se desafios
à prestação de serviço de primeiro contato e limites ao acesso
regular dos usuários, decorrentes de processos de trabalho
centrado no médico e serviços “sem médico”. Ao lado disso, a
gestão do cuidado na rede era prejudicada pela insuficiência na
oferta de serviços especializados e pela integração comunicacional
incipiente entre os níveis assistenciais.
Além disso, a Programação Pactuada e Integrada (PPI) mostrava-se com limites decorrentes da defasagem do financiamento e não
lograva reverter os vazios assistenciais, expondo as equipes de
APS a dificuldades na retaguarda assistencial, limitando a
continuidade do cuidado e a resolubilidade dos casos. A ausência
de prontuários eletrônicos nas unidades de APS e de
especialidades, a falta de conectividade entre os diversos pontos da
rede e o uso limitado de protocolos clínicos restringiam o contato
entre profissionais, sendo o usuário o principal portador das informações entre os diferentes serviços.
Por fim, na Parte IV – “Linha de chegada e algumas
considerações”, estabeleço uma parada provisória, pois esse
mosaico de problemas parece partilhar, entre outras gêneses, da
indefinição de um modelo de atenção coerente para gestão do cuidado integral nos níveis político-institucional, organizacional e
das práticas de saúde. Por isso, toda essa problemática depõe
contra a coordenação e expõe uma gestão do cuidado inadequada.
No entanto, não se trata de um jogo perdido. Os casos exemplares
ficam diluídos no emaranhado de problemas e tornam invisíveis os
sujeitos (e suas práticas) que estão comprometidos com a gestão do
cuidado; porém, eles existem e estão produzindo linhas de fuga e
modelando, nos interstícios da rede, novas tessituras.
Adriano Maia dos Santos
Vitória da Conquista, maio de 2018.