Redes regionalizadas de atenção à saúde
Prefácio
Uma Atenção Primária à Saúde (APS) integral, robusta, que
efetiva seus atributos de acesso oportuno, longitudinalidade, integralidade, coordenação, enfoque familiar, intercultural e
comunitário, é crucial para a constituição de sistemas públicos
universais de saúde como o nosso Sistema Único de Saúde (SUS).
Uma APS robusta é a resposta mais adequada às mudanças no
perfil demográfico e epidemiológico com envelhecimento
populacional e prevalência de enfermidades crônicas que
necessitam cuidado integral, coordenado e longitudinal. A
ordenação dos sistemas de saúde com base na APS busca superar a fragmentação dos sistemas de saúde, fonte de descontinuidades
do cuidado e ineficiências, com prejuízos para a qualidade
assistencial, e garantir a integralidade da atenção à saúde.
Este livro, ao iluminar a conformação de uma rede regional e a
posição da Estratégia Saúde da Família (ESF) na organização do
sistema de saúde e escrutinar os desafios à integração assistencial
e à coordenação do cuidado, alinha-se a essa perspectiva de
construção de um sistema único de saúde público e universal de qualidade, fundado na atenção primária integral. É com muita
alegria que recebi o convite para escrever o prefácio deste livro, que
contribui a desvendar caminhos para avançar na construção do
SUS.
Mas de que APS estamos falando? Na experiência internacional,
são observadas diferentes concepções de APS, que estão sempre
em tensão e subentendidas no nosso debate nacional. Predominam
dubiedades, imprecisões conceituais e abordagens em disputa. Essa imprecisão conceitual e sua permanência ao longo do tempo,
que permite, sob o termo “APS”, abarcar iniciativas com propósitos
muito distintos, levou o professor Jairnilson Paim a destacar que a
APS poderia ser considerada quase uma “receita para todas as
estações”.
Desde a conferência mundial de Alma Ata em 1978, que
consagrou uma abordagem de atenção primária integral como estratégia para organizar os sistemas de atenção à saúde e para a
sociedade promover a saúde e o acesso universal em base às
necessidades de saúde, as iniciativas de implementação da APS
tomaram diferentes rumos. A abordagem parte de um sistema integrado de saúde, inseparável do desenvolvimento econômico e
social com enfrentamento dos determinantes sociais e que promove
a participação social.
Em países em desenvolvimento, a APS foi, em geral,
implementada em uma abordagem que foi denominada de seletiva.
A APS seletiva se caracteriza por programa com cesta restrita de
intervenções “custo-efetivas”, limitado à atenção materno-infantil e
doenças infecciosas, focalizado em populações em pobreza extrema e de resolutividade restrita. Nos anos 1990, essa
abordagem foi enfatizada. Acompanhando programas de ajuste
macroeconômico, agências internacionais, como o Banco Mundial,
prescreveram programas focalizados e seletivos em saúde com
responsabilização governamental apenas por cesta restrita de baixo
custo, um modelo de Estado mínimo e intervenção governamental
em saúde residual, ignorando e negando o direito universal à saúde.
Em países com sistemas universais de saúde – em sua maior parte, europeus –, a APS está centrada em médicos generalistas ou
com especialidade em medicina de família e comunidade e
corresponde ao primeiro nível de atenção, os serviços de primeiro
contato do paciente com o sistema de saúde articulados a um
sistema universal com base a financiamento solidário. Estes estão
direcionados a cobrir as afecções e condições mais comuns e
resolver a maioria dos problemas de saúde de uma população,
incluindo amplo espectro de serviços clínicos, ações preventivas individuais e, por vezes, ações de saúde pública. Ser o serviço de
primeiro contato e porta de entrada preferencial que garante
atenção oportuna e resolutiva com longitudinalidade, integralidade,
coordenação e foco na família são atributos imprescindíveis da APS
integral. Todavia, o enfoque populacional com abordagem
comunitária e o trabalho em equipe multiprofissional são pouco
desenvolvidos.
No Brasil, o modelo assistencial preconizado na ESF segue os preceitos de uma atenção primária integral, robusta, que associa e busca um adequado balanço entre uma abordagem do cuidado
individual e coletivo, da saúde de indivíduos e da população,
abarcando a promoção, a prevenção e o cuidado contínuo, o
atendimento oportuno de demandas espontâneas e as ações programáticas. Realiza-se por uma equipe multiprofissional na qual
o Agente Comunitário de Saúde (ACS) tem uma função primordial
na mobilização social, na mediação para enfrentamento dos
determinantes sociais e na participação em ações estratégicas
frente a problemas de saúde populacionais no território.
No debate internacional, atualmente, a APS tem sido reiterada
como estratégia para alcance de “cobertura universal”. Permanece,
contudo, dubiedade quanto ao significado da universalidade almejada e do escopo da estratégia de APS a ser implementada. No
contexto internacional, a disputa está entre expandir cobertura com
cuidados básicos restritos e seguros focalizados (públicos ou
privados), cristalizando iniquidades, ou garantir acesso universal
com equidade conforme necessidades, independente da renda dos
cidadãos, em sistemas públicos universais de saúde, como o SUS.
Ou seja, a disputa está entre implementar uma APS seletiva e
universalismo básico e a construção de um sistema público universal (SUS) que garante atenção integral, orientado por APS
robusta. Essa tem sido uma tensão contínua no processo de
consolidação do SUS, com dubiedade na política nacional que,
paralelamente à constituição do SUS, incentiva planos privados de
saúde com renúncia fiscal. Com a crise política e institucional a
partir de 2016, essa disputa se acirra. A proposta ministerial de
incentivar com subsídios fiscais “planos populares” de saúde, a
revogação da prioridade da ESF base da construção de redes regionalizadas e a agudização do subfinanciamento crônico do SUS
com a Emenda Constitucional nº 95 – que definiu a redução
progressiva dos recursos federais destinados ao SUS por 20 anos –
põem em sério risco a consolidação do SUS.
Não obstante, esta obra de Adriano Maia dos Santos insere-se
nesse embate em defesa de um SUS público universal de
qualidade. Debruçando-se sobre a experiência de organização da
rede assistencial do SUS em uma região de saúde do estado da Bahia, o livro analisa as estratégias político-institucionais para a conformação de redes regionais no estado, discute a posição da
ESF no processo de conformação da rede regionalizada e descreve
trajetórias assistenciais de usuários na busca por cuidados com
suas barreiras e estratégias de acesso. Trata-se de uma análise que informa a identificação de fatores limitantes e facilitadores para
integração da rede assistencial e coordenação dos cuidados por
equipes de saúde da família.
Resultado do processo de doutoramento do autor no Programa de
Pós-Graduação em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde
Pública Sergio Arouca / Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/Fiocruz), o
livro traz resultados de pesquisa com base em extenso trabalho de
campo e desenho metodológico primoroso, que permitiu análise rigorosa dos achados empíricos, contrastados com a literatura e
com elementos teórico-conceituais predefinidos. Para o desenho
metodológico da pesquisa, foi construída uma matriz de análise para
gestão do cuidado em rede regionalizada de saúde, composta por
três níveis da gestão do cuidado identificados na literatura: os níveis
político-institucional, organizacional e das práticas de saúde. Em
cada nível, foram consideradas, para análise, as dimensões
constitutivas de uma rede regionalizada e seus componentes:
território e população: desenho da rede regionalizada e
identificação da população, uso de informações sobre
condições de saúde da população para o planejamento;
governança regional: mecanismos de governança regional, financiamento regional¸ relações público-privadas, participação
social;
centralidade da APS na rede: acesso e porta de entrada
preferencial, expansão da oferta de serviços, função de filtro
(gatekeeper), coordenação, longitudinalidade e continuidade do
cuidado, modelo usuário-centrado/acolhimento, orientação para
a comunidade, centralidade na família, resolutividade;
rede de estabelecimento extensa e diversificada: suficiência da oferta pública de serviços da atenção especializada e
hospitalar, principal propriedade dos prestadores de serviços de
saúde para atenção especializada e hospitalar;
dispositivos de regulação assistencial regional: sistema de
regulação e marcação de consultas e exames especializados,
sistema de regulação e controle de leitos e internações,
instrumentos para continuidade do cuidado entre os níveis de atenção, fluxos para atenção especializada, hospitalar e de
urgência e emergência;
sistemas de apoio à atenção: sistemas de informação
integrados, sistema de assistência farmacêutica, sistema de
serviço de apoio diagnóstico e terapêutico, sistema de
tecnologias de comunicação;
sistema logístico: sistema de transporte sanitário, identificação
de usuários e cadastramento dos estabelecimentos e profissionais da região;
gestão do trabalho e processos educacionais em saúde para
profissionais da ESF: vínculo empregatício dos trabalhadores
da ESF, estratégias para atração e fixação dos profissionais de
saúde nas equipes na região de saúde e iniciativas de
educação permanente.
Essa “matriz de análise para gestão do cuidado em rede
regionalizada de saúde”, validada por especialistas com o apoio dos
professores integrantes da banca de doutorado, orientou as análises
aqui apresentadas sobre a gestão do cuidado na região de saúde de
Vitória da Conquista (Bahia) em seus aspectos político-
institucionais, organizacionais e das práticas em saúde. Ressalto, aqui, essa contribuição metodológica da tese de doutoramento, que
pode subsidiar outros estudos que pretendam analisar a posição da
APS e escrutinar os desafios para constituição de redes
regionalizadas com cuidados coordenados pela atenção primária à
saúde.
Parabenizo Adriano Maia dos Santos pelo excelente trabalho
apresentado neste livro, com análises acuradas e ótima escrita, e
expresso a minha alegria em acompanhar sua trajetória como doutorando, docente e, agora, pesquisador qualificado.
Não poderia deixar de agradecer as excelentes contribuições dos
integrantes da banca de doutorado, que, já na qualificação do
projeto, contribuíram para o aprimoramento do desenho da pesquisa com seus aportes analíticos e metodológicos: Ligia Maria Vieira da
Silva, do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da
Bahia (UFBA); Marluce Maria Araújo Assis, da Universidade
Estadual de Feira de Santana (UEFS); Aluísio Gomes da Silva Junior, do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal
Fluminense (UFF); e Luciana Dias de Lima, da ENSP/Fiocruz.
Importa agradecer também o apoio da bolsa de doutorado-
sanduíche da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de
Nível Superior (Capes), que possibilitou ampliar horizontes do
doutorando e o contraponto da experiência brasileira com a de um
serviço nacional de saúde público e universal, com atenção primária
de qualidade.
No exercício contínuo da esperança crítica para a construção de
um SUS público universal de qualidade que garanta o direito à
saúde de todos os cidadãos brasileiros e residentes no país, sem
qualquer discriminação, desejo a Adriano uma excelente trajetória
de pesquisador e docente e a todos uma excelente leitura!
Ligia Giovanella
Rio de Janeiro, agosto de 2017.