Redes regionalizadas de atenção à saúde
APS como coordenadora do cuidado nas redes de atenção à saúde no Brasil
Tais argumentos conclamam por uma análise acerca da estratégia
de gestão do cuidado em redes de atenção à saúde no Brasil. No
cenário nacional, discutir gestão de redes de atenção à saúde
requer refletir o modelo de proteção social que se deseja e que se está disposto a construir. (CAMPOS, 2007) Sendo assim, há um
componente ideológico para além dos componentes técnico-
metodológicos, ou seja, reconhecem-se os elementos estruturantes
para existência da rede, mas questionam-se os desdobramentos a
partir dos sujeitos concretos que a materializam na prática social.
APS como coordenadora do cuidado
nas redes de atenção à saúde no
Brasil
A APS, no Brasil, é denominada correntemente, na literatura e
nos documentos oficiais, como Atenção Básica à Saúde (ABS). A justificativa para a adaptação do termo deveu-se à tentativa de
afastamento das práticas em APS seletivas apoiadas por agências
internacionais e disseminadas nos países em desenvolvimento ou
com enfoque centrado em procedimentos médicos (comuns à
Europa). (GIOVANELLA, 2008; GIOVANELLA; ESCOREL;
MENDONÇA, 2009) No primeiro momento, a ABS,
[…] além de referir apenas o primeiro nível sem apontar a integração ao sistema de saúde, não implicava em um modelo assistencial diferenciado, [mantendo-se a atenção calcada, muitas vezes, apenas] na resposta ao pronto-atendimento da demanda espontânea ou baseada nos tradicionais programas de saúde pública dos centros de saúde. (GIOVANELLA; ESCOREL; MENDONÇA, 2009, p. II)
Nesse sentido, a distinção semântica não logrou mudanças das
práticas, sobretudo na primeira década de implementação do SUS,
período que foi marcado por forte tensão das políticas sociais
restritivas de caráter neoliberal. Tais questões deflagraram disputas
acirradas entre um projeto de construção da universalidade tendo a saúde como direito de cidadania e, de outro lado, o princípio da
contenção de gastos e da racionalidade econômica. (MENDES;
MARQUES, 2009)
Destarte, sob o manto do Programa Saúde da Família (PSF), criado em 1994, o Ministério da Saúde sustenta a retórica de
reversão de um modelo de atenção fragmentado, ineficiente e
reprodutor de iniquidades. Mas, na prática, convive-se lado a lado
com uma Atenção Básica que se apresenta como política focalizada
e seletiva, para demandas de grupos específicos, e universalista,
enquanto direito de todo cidadão (VIANA; FAUSTO, 2005),
cumprindo parcialmente sua agenda. (SOUSA; HAMANN, 2009)
Por outro lado, em 2006, a Política Nacional de Atenção Básica (PNAB) renova o discurso e reitera a Saúde da Família como
estratégia prioritária para consolidação da Atenção Básica em todo
país. A PNAB, atualizada pela Portaria nº 2.488, de 21 de outubro
de 2011 (BRASIL, 2012a), abarca as características da ABS,
consolidando seu aspecto abrangente e prioritário, afastando-se
“completamente” de qualquer sombra de seletividade ou cesta de
serviços para grupos específicos, além de explicitar o papel
desejado da Atenção Básica nas redes de atenção à saúde. Por essa óptica, o documento ressalta que a Atenção Básica
utiliza tecnologias de cuidado complexas e variadas que devem auxiliar no
manejo das demandas e necessidades de saúde de maior frequência e
relevância em seu território, observando critérios de risco, vulnerabilidade,
resiliência e o imperativo ético de que toda demanda, necessidade de saúde
ou sofrimento devem ser acolhidos. (BRASIL, 2012a, p. 19)
Tais elementos fertilizam diferentes posicionamentos, mesmo no
interior da Saúde Coletiva, e evidenciam os desafios da Atenção
Básica e a estratégia de implementação por meio da ESF. Nessa
seara, Campos (2008) e Cohn (2008), em debate com um artigo de
Conill (2008), assinalam que o “vazio programático para a questão
assistencial no SUS” (CONILL, 2008, p. 11) expõe o esmaecimento do debate político em torno dessa questão, colocando-a como um
consenso, como um debate definido, cabendo apenas colocar em
prática e avaliar tudo que está previsto nas normas ministeriais.
Para Campos (2008), o governo federal não encara os grandes
problemas que minam o avanço do PSF – financiamento, formação
de pessoal e gestão do trabalho, por exemplo –, circundando esses
problemas com propostas paliativas, uma vez que
não há evidências de que o Ministério da Saúde esteja disposto a assumir a articulação dessa multiplicidade de experiências e de entidades federadas para construir um sistema – rede interdependente, apesar da autonomia dos municípios – que combine singularidade local com diretrizes que assegurem unidade ao SUS. (CAMPOS, 2008, p. 19)
Por sua vez, Cohn (2008) acirra essa discussão colocando que,
sem renovação do debate acadêmico e outras perspectivas na
agenda política, incorre-se no perigo de que
[…] ao se assumir o PSF como uma estratégia de mudança do modelo assistencial brasileiro, esvazia-se, paradoxalmente, a dimensão da política e tende a tomar seu lugar a dimensão técnica na busca de avaliação, monitoramento e aperfeiçoamento desse modelo. (COHN, 2008, p. 24)
A própria autora retoma essa discussão e demarca que há poucos
estudos críticos que questionam o já estabelecido, pois
qualquer passo desmedido no sentido da crítica do já instituído, ou do que vem sendo instituído, é interpretado quase que imediatamente como oposição ao SUS e, portanto, como algo condenável, política e moralmente. (COHN, 2009, p. 9)
Não obstante, independente da vertente, constata-se que a ESF
expandiu-se por todo país, sob fomento do Ministério da Saúde,
tornando-se a principal política de saúde com enfoque nos cuidados
de primeiro nível. Apresenta, em estudos empíricos, além dos
desafios, possibilidades animadoras a sua assunção. (ASSIS et al.,
2010; CAMARGO JR. et al., 2008; ELIAS et al., 2006; FACCHINI et
al., 2006; GIOVANELLA et al., 2009; IBAÑEZ et al., 2006)
A pertinência da exposição de dissonâncias e convergências em
torno da ESF aponta para necessidade de trilhar por caminhos que
questionem a potência da APS brasileira, porquanto “a rede de
saúde da família vem sendo criada de maneira desarticulada com o restante do sistema, havendo pouca relação entre atenção primária
e especialidades ou hospitais”. (CAMPOS, 2007, p. 304)
No contexto de uma rede regionalizada, as dimensões para a
gestão do cuidado reclamam por uma análise para dentro do município e para além das suas fronteiras, numa perspectiva de
rede integrada, em uma conformação cooperada e solidária, para
garantir maior organicidade e racionalidade ao sistema de saúde, de
modo a efetivar o papel dos profissionais da APS como
coordenadores do cuidado.
Por outra via, as características da APS no Brasil suscitam
questões, somadas às apontadas em estudos sobre os sistemas de
saúde internacionais, que tensionam a gestão do cuidado em rede:
1. A equipe de atenção primária no Brasil, compreendida como
ESF, é formada por diferentes trabalhadores – nível superior e
médio – que devem exercer o cuidado à saúde em equipes
multiprofissionais e práticas interdisciplinares (CAMPOS, 2003; SOUSA; HAMANN, 2009);
2. A porta de entrada é difusa, notadamente onde a APS tem
baixa cobertura, geralmente nos grandes centros urbanos –
onde vivem a maioria dos brasileiros –, resultando em baixa
coordenação e competição com os estabelecimentos de pronto-
atendimento e os hospitais públicos e privados (BRASIL, 2005;
CAMPOS, 2008; VIANA et al., 2008);
3. A inscrição dos usuários no serviço de APS está atrelada ao
local de residência e é compulsória (GIOVANELLA, 2006), com
adscrição média de 3 mil pessoas por equipe (BRASIL, 2012a);
4. Os profissionais da APS devem atender a todos os grupos e a
um amplo espectro de problemas, executando ações
promocionais, preventivas, curativas e reabilitadoras (BRASIL,
2012a; CAMPOS, 2003);
5. A provisão e o financiamento dos serviços de APS são públicos
e de acesso universal (GIOVANELLA; MENDONÇA, 2012);
6. A forma de pagamento dos trabalhadores é o assalariamento,
com uma diversidade de modalidade de vínculo e complexos
problemas na política de gestão do trabalho (ASSIS et al., 2008;
MENDONÇA et al., 2010);
7. A APS é de responsabilidade do ente municipal (MENDES,
2002), mas os demais serviços da rede – média e alta
densidade tecnológica – podem ter distintos provedores e
diferentes naturezas jurídicas (NORONHA; LIMA; MACHADO, 2008);
8. A cobertura da APS é insuficiente e limitada a determinados
dias e horários, restringindo seu papel de porta de entrada
preferencial (CECÍLIO, 1997; MATTOS, 2009b);
9. Muitos profissionais não têm formação adequada para trabalhar
na APS e o especialista é socialmente mais valorizado que o
profissional generalista, situação que se reproduz entre os
gestores (CAMPOS et al., 2008; MENDES, 2002);
10. Persistem problemas na infraestrutura das unidades de saúde e
deficiência no aporte de medicamentos essenciais, apoio
diagnóstico e consultas complementares (MENDES, 2002);
11. A maioria dos municípios brasileiros – cerca de 90% – tem
menos de 50 mil habitantes e sua rede de serviços resume-se,
muitas vezes, à APS (NORONHA; LIMA; MACHADO, 2008);
12. A coordenação do cuidado na rede a partir da APS – quando
existe – limita-se ao município, tendo que submeter a demanda por cuidados “especializados” às regras de oferta pactuadas
entre os gestores municipais e estaduais, quando se necessita
de ações de outros níveis não contempladas no próprio
município, com preocupantes problemas na regulação dos
fluxos entre os serviços. (MAGALHÃES JÚNIOR; OLIVEIRA,
2006)
Assim, buscando propostas que orientem a construção de
sistemas de serviços integrados e cuidados coordenados por
equipes de APS, tomando como cenário o SUS, Silva (2008)
propõe, ainda que genericamente, o aperfeiçoamento das redes
regionalizadas de atenção à saúde mediante fortalecimento da APS,
organização da rede via APS, fortalecimento da regulação e da gestão regional:
1. Fortalecimento da APS – reafirmar o conceito abrangente,
adequar a oferta e a formação dos profissionais, organizar o