Samantha Sweet, Executiva do Lar
Oito
Assim que saio da sala subo a escada correndo, vou pelo corredor até o quarto e verifico o celular. Mas só está carregado pela metade e não faço idéia de onde vou encontrar um sinal. Se Trish conseguiu, devo conseguir também. Qual será a operadora dela?
- Samantha?
A voz de Trish emerge do térreo.
- Samantha? - Ela parece irritada. Agora posso ouvir seus passos subindo a escada.
- Senhora? - Vou depressa pelo corredor.
- Aí está você! - Ela franze a testa ligeiramente. - Faça a gentileza de não desaparecer para o seu quarto enquanto está de serviço. Não quero ter de ficar gritando por você desse jeito.
- É...sim, Sra. Geiger-digo. Quando chegamos ao corredor meu estômago dá uma cambalhota. Atrás de Trish vejo o The Times sobre a mesa. Está aberto na página de economia e uma manchete diz GLAZERBROOKS CHAMA CREDORES.
Meus olhos percorrem o texto enquanto Trish começa a remexer numa gigantesca bolsa Chanel branca -
mas não vejo qualquer menção à Carter Spink. Graças a Deus. O departamento de RP deve ter conseguido esconder a história.
- Onde estão minhas chaves? - Trish parece aflita. - Onde estão? - Ela remexe mais um pouco e mais violentamente dentro da bolsa Chanel. Um batom dourado sai voando pelo ar e cai aos meus pés. - Por que as coisas desaparecem?
Pego o batom e entrego a ela.
- Lembra-se de onde as perdeu, Sra. Geiger?
- Eu não perdi. - Ela inala profundamente. - Foram roubadas. É óbvio. Teremos de trocar todas as fechaduras. Nossas identidades serão tomadas. – Ela segura a cabeça. - É isso que esses fraudadores fazem, você sabe. Saiu um artigo enorme sobre isso no Mail...
- São essas? - De repente notei um chaveiro Tiffany brilhando no parapeito da janela. Pego o molho de chaves e estendo.
- É! - Trish está absolutamente pasma. - É, são elas! Samantha, você é maravilhosa. Como encontrou?
- Não foi problema. - Dou de ombros com modéstia.
- Bem! Estou muito impressionada! - Ela me dá uma olhadela significativa.- Contarei ao Sr. Geiger.
- Sim, senhora - digo tentando injetar na voz o tom exato de gratidão avassaladora. - Obrigada.
- O Sr. Geiger e eu vamos sair num minuto – continua ela, pegando um spray de perfume e se borrifando. - Por favor, prepare um sanduíche leve para almoçarmos à uma hora, e faça a limpeza do andar de baixo. Mais tarde falaremos sobre o jantar. - Ela gira. - Devo dizer que ficamos os dois muito impressionados com seu menu de foie gras tostado.
- Ah ... é... que bom!
Tudo bem. Na hora do jantar já terei ido embora.
- Agora. - Trish dá uma última batidinha no cabelo. - Venha um momentinho à sala de estar, Samantha.
Acompanho-a à sala e vamos até a lareira.
- Antes de eu sair e você começar a limpar o pó aqui - diz Trish -, queria lhe mostrar o arranjo dos ornamentos. - Ela indica uma fileira de bibelôs de louça no aparador. - Isso pode ser difícil de lembrar. Por algum motivo, o pessoal da limpeza nunca entende. De modo que, por gentileza, preste atenção.
Obedientemente viro-me para o aparador da lareira.
- É muito importante, Samantha, que esses cachorrinhos de louça estejam virados um para o outro. –Trish aponta para um par de King Charles spaniels. – Está vendo? Eles não ficam virados para fora. Ficam virados um para o outro.
- Um para o outro - ecôo assentindo. - Sim. Sei.
- E os pastores estão virados ligeiramente para fora. Está vendo. Eles estão virados para fora.
Ela fala devagar e com clareza, como se eu tivesse o QI de uma criança de 3 anos burrinha.
- Para fora - repito obedientemente.
- Entendeu isso? - Trish me olha com atenção. - Vejamos. Para que lado os cachorrinhos de louça ficam virados?- Ela ergue um braço para bloquear minha visão do aparador.
Não acredito. Trish está me testando.
- Os cachorros de louça - insiste ela. - Para que lado?
Ah, meu Deus, não resisto.
- É... - pondero intensamente por alguns instantes. - Ficam virados ... para fora?
- Um para o outro! - grita Trish exasperada. - Ficam virados um para o outro!
- Ah, certo - digo em tom de desculpas. - É. Dcsculpe. Agora entendi.
Trish fechou os olhos e está encostando dois dedos na testa, como se o estresse de empregados estúpidos fosse demais para suportar.
- Não faz mal - diz finalmente. - Vamos tentar de novo amanhã.
- Vou levar a bandeja de café - sugiro humildemente.
Ao pegá-la olho de novo meu relógio. Dez e doze. Será que já começaram a reunião?
Esta manhã vai ser insuportável.
Às onze e meia estou em frangalhos de nervosismo. Meu celular foi carregado e finalmente encontrei um sinal na cozinha, mas não tocou. E não há recados. Verifiquei a cada minuto.
Enchi a lavadora de pratos e, depois de umas cinqüenta tentativas, consegui ligar. E tirei o pó dos cães de louça com um lenço de papel. Afora isso, o que fiz foi praticamente apenas andar de um lado para o outro na cozinha.
Desisti quase imediatamente dos "sanduíches leves para o almoço". Demorei horas serrando dois pães –e acabei com dez enormes fatias bambas, cada qual mais torta que a outra, pousadas num mar de migalhas.
Sabe Deus o que fiz de errado. Deve haver algo estranho com a faca.
Tudo o que posso dizer é: graças a Deus pelas Páginas amarelas e os serviços de entrega. E ao American Express. Só vai me custar 45 libras e 50 centavos dar a Trish e Eddie um "almoço de sanduíches finos" da Catswold Caterers. Eu teria pagado o dobro. Para ser honesta, provavelmente pagaria dez vezes mais.
Agora só estou sentada numa cadeira, e aperto com força o celular no bolso.
Mentalizando desesperadamente para ele tocar.
Ao mesmo tempo absolutamente aterrorizada com a idéia de que ele pode tocar.
De repente não suporto mais a tensão. Preciso de algo para aliviá-la. Qualquer coisa. Abro a porta da enorme geladeira dos Geigers e tiro uma garrafa de vinho branco. Sirvo uma taça e tomo um gole enorme, desesperado. Já vou tomar outra quando sinto uma pinicada na nuca.
Como se... estivesse sendo observada.
Giro e quase salto fora da pele. Há um homem à porta da cozinha.
É alto, forte e profundamente bronzeado, com olhos azuis intensos. Seu cabelo ondulado é de um castanho alourado com pontas descoradas. Está usando jeans velhos, camiseta amarrotada e as botas mais enlameadas que já vi.
Seus olhos passam em dúvida sobre as dez fatias tortas e molengas de pão e depois vão até minha taça de vinho.
- Oi - diz finalmente. - Você é a nova cozinheira cordon bleu?
- Ah ... sou! Sem dúvida! -Aliso meu uniforme. Sou a nova empregada, Samantha. Olá.
- Eu sou Nathaniel. - Ele estende a mão e, depois de uma pausa, aperto-a. Sua pele é tão dura e áspera que pareço estar apertando um pedaço de casca de árvore. - Cuido dos jardins e da horta dos Geigers. Você vai querer conversar comigo sobre verduras.
Olho-o incerta. Por que eu iria querer falar com ele sobre verduras?
Enquanto ele se encosta no portal e cruza os braços, não consigo deixar de ver como seus antebraços são enormes e fortes. Nunca vi um homem com braços assim. Não na vida real.
- Posso fornecer praticamente qualquer coisa - continua ele. - De acordo com a estação, claro. É só avisar o que você quer.- Ah, verduras - digo percebendo subitamente o que ele quer dizer. - Para cozinhar. Ah... sim. Vou querer algumas. Com certeza.
- Eles disseram que você estudou com um chefe que tem estrelas no Michelin, não é? - Nathaniel franze ligeiramente a testa. – Bao sei que tipo de coisa chique você usa, mas farei o máximo que puder. - Ele pega um pequeno caderno manchado de lama e um lápis. – Que tipo de brássica você gosta de usar?
Brássica?
O que é brássica?
Deve ser algum tipo de verdura. Reviro a mente num frenesi mas só consigo ver imagens de braços balançando numa coreografia insana.
- Preciso consultar meus menus - digo finalmente com um gesto profissional de cabeça. - Mais tarde falo com você sobre isso.
- Mas, em termos gerais. - Ele ergue os olhos. - Qual você usa mais? Para eu saber o que plantar.
Ah, meu Deus. Não me arrisco a dizer o nome de um única verdura para o caso de entender totalmente errado.
- Eu uso ... de todo tipo, realmente. - Dou-lhe um sorriso aéreo. - Você saber como é, com as brássicas.
Algumas vezes a gente está no clima para uma... algumas vezes para outra!
Realmente não sei até que ponto isso pareceu convincente. Nathaniel parece pasmo.
- Estou para encomendar sementes de alho-poró - diz lentamente. - Que variedade você prefere?
Albinstar ou Bleu de Solaise?
Encaro-o de volta com o rosto pinicando. Não captei nada disso.- A ... é... a primeira - digo finalmente. – Tem qualidades muito ... saborosas.
Nathaniel guarda seu caderno e me examina por um momento. Sua atenção vai de novo até o copo de vinho. Não sei se gosto de sua expressão.
Eu já ia colocar este vinho num molho – digo rapidamente. Com ar casual, pego uma panela pendurada, coloco no fogão e derramo o vinho dentro. Jogo um pouco de sal, depois pego uma colher de pau e mexo.
Então lanço um olhar para Nathaniel. Ele só está me olhando com algo próximo da incredulidade.
- Onde você disse que estudou? - pergunta.
Sinto uma pontada de alarme. Esse cara não é idiota.
- Na... escola cordon bleu. - Minhas bochechas estão ficando bem quentes. Jogo mais sal no vinho e mexo rapidamente.
- Você não acendeu o fogo - observa Nathaniel.
- É um molho frio - respondo sem levantar a cabeça. Continuo mexendo por um minuto e depois largo a colher de pau. - Pronto. Agora vou deixar isso para...marinar.
Por fim levanto os olhos. Nathaniel continua encostado no portal, me observando calmamente. Há em seus olhos azuis uma expressão que faz minha garganta apertar.
Ele sabe.
Ele sabe que sou uma fraude.
Por favor, não conte aos Geigers, transmito em silêncio para ele. Por favor. Eu vou embora logo.
- Samantha? - A cabeça de Trish aparece na porta e levo um susto, nervosa.- Ah, você conheceu o Nathaniel! Ele lhe contou sobre a horta?- Ah... sim. - Não consigo olhar para ele. Contou.
- Ma ravilhoso! - ela dá uma tragada no cigarro. _ Bem, o Sr. Geiger e eu já voltamos e vamos querer os sanduíches em vinte minutos.
Sinto um choque. Vinte minutos. Mas não passa de meio-dia e dez. O pessoal da entrega só chega à uma hora.
Gostariam de uma bebida antes? - sugiro desesperadamente.
- Não, obrigada! - diz ela. - Só os sanduíches. Na verdade estamos bem famintos, de modo que, se você puder se apressar com eles...
- Certo. - Engulo em seco. – Sem problema!
Automaticamente faço uma reverência enquanto Trish desaparece e escuto uma espécie de som fungado, vindo de Nathaniel.
- Você faz reverência - disse ele.
- É, faço reverência - digo em tom desafiador. - Alguma coisa errada com isso?
Os olhos de Nathaniel pousam de novo nas fatias destrambelhadas de pão sobre a tábua.
- Isso é o almoço? - pergunta ele.
- Não, não é o almoço! - reajo ruborizada. - E, por favor, poderia sair da minha cozinha? Preciso de espaço livre para trabalhar.
Ele ergue as sobrancelhas.
- Vejo você por aí, então. Boa sorte com o molho. - Ele assente na direção da panela com vinho.
Enquanto Nathaniel fecha a porta da cozinha pego o celular e ligo para o serviço de bufê. Mas sou atendida pela secretária eletrônica.- Oi - digo ofegante, depois do bip. - Eu pedi uns sanduíches antes. Bom, preciso deles agora. Assim que vocês puderem. Obrigada.
No momento em que pouso o telefone percebo que é inútil.O pessoal da entrega nunca vai chegar a tempo. Os Geigers estão esperando.
A determinação cresce por dentro de mim.
Certo. Consigo fazer isso. Consigo fazer uns sanduíches.
Rapidamente pego as duas fatias menos tortas do pão. Pego a faca de pão e começo a cortar as crostas até quem restem quadrados de uns três centímetros, mas apresentáveis. Há um prato com manteiga na bancada e eu pego um pouco com uma faca. Enquanto a espalho sobre a primeira fatia o pão se parte em dois pedaços.
Merda.
Vou emendar. Ninguém notará.
Abro a porta de um armário e freneticamente procuro em meio a potes de mostarda... molho de hortelã...
geléia de morango. Sanduíches de geléia, é isso. Um clássico inglês. Rapidamente cubro um pedaço de pão com geléia, espalho mais um pouco de manteiga no outro e junto os dois. Então recuo e olho.
É um desastre total. A geléia está escorrendo pelas rachaduras. Ainda não está completamente quadrado.
Nunca vi um sanduíche mais repugnante na vida.
Não posso servir isso aos Geigers.
Lentamente pouso a faca, derrotada. Então é isso. Hora de me demitir. Olho aquela bagunça melada e sinto um estranho desapontamento comigo mesma. Era de pensar que eu duraria ao menos uma manhã.
Uma batida me tira do devaneio. Giro e vejo uma garota com uma faixa de veludo azul no cabelo, olhando pela janela da cozinha.
- Oi - grita ela. - Você pediu sanduíches para vinte pessoas?
Tudo acontece depressa demais. Num minuto estou parada olhando aquela meleca de geléia e migalhas. No outro, duas garotas com aventais verdes entram na cozinha com prato depois de prato cheios de sanduíches feitos profissionalmente.
Sanduíches impecáveis, de pão branco e preto, empilhados em belas pirâmides, enfeitados com maços de ervas e fatias de limão. Têm até bandeirinhas escritas à mão descrevendo os recheios.
Atum, hortelã e pepino. Salmão defumado, queijo cremoso e caviar. Frango tailandês com mostarda brava.
- Desculpe a confusão de números - diz a garota com faixa no cabelo enquanto eu assino o recibo. Nós não costumamos receber pedidos de sanduíches para apenas duas pessoas...
- Tudo bem! - digo indo em direção à porta. - Verdade. Está ótimo. Simplesmente ponham no meu cartão.
A porta finalmente se fecha e olho a cozinha ao redor, totalmente atordoada. Nunca vi tantos sanduíches.
Há pratos em toda parte. Em cada superfície. Tive até de colocar uns no fogão.
- Samantha? - ouço Trish se aproximando.
- Ah ... espere aí! - Vou correndo até a porta, tentando bloquear sua visão.
- Já passa de uma e cinco - ouço-a dizendo um tanto incisivamente. - E eu pedi claramente...
A voz de Trish vai sumindo quando ela chega à porta da cozinha e todo o seu rosto se afrouxa, atônito.
Viro-me e
acompanho seu olhar enquanto ela examina os intermináveis pratos de sanduíches.
- Meu Deus! - Por fim Trish encontra a voz. - Isto é... isto é muito impressionante!
- Eu não sabia direito que recheios vocês preferiam digo. - Obviamente da próxima vez não farei tantos ...
- Bem! - Trish parece totalmente perdida. Pega uma das bandeirinhas e lê em voz alta. - Carne mal passada, alface e rábano picante. - Ela ergue os olhos, atônita. Não compro carne há semanas! Onde você encontrou?
- Ah ... no freezer?
Olhei no freezer antes. A quantidade de comida atulhada nele provavelmente daria para alimentar um pequeno país africano por uma semana.
- Claro! - Trish estala a língua. - Você é mesmo esperta!
- Vou colocar uma seleção deles num prato para vocês - sugiro. - E levar para a estufa.
- Ma ravilhoso. Nathaniel! - Trish bate na janela da cozinha. - Venha comer um sanduíche!
Paro imediatamente. Não. Ele de novo, não.
- Não queremos desperdiçá-los, afinal. - Ela arqueia as sobrancelhas. - Se tenho alguma crítica, Samantha, é que você foi um pouco pródiga demais. Não que sejamos pobres - acrescenta subitamente. -
Não é isso.
- É... não, senhora.
- Não gosto de falar de dinheiro, Samantha – Trish baixa a voz um pouco. -É muito vulgar. No entanto...
- Sra. Geiger?
Nathaniel apareceu de novo à porta da cozinha, segurando uma pá enlameada.
- Coma um dos deliciosos sanduíches de Samantha! - exclama Trish, indicando a cozinha ao redor. –Olhe só! Ela não é esperta?
Há um silêncio total enquanto Nathaniel examina os montes intermináveis de sanduíches. Não consigo me obrigar a encará-lo. Meu rosto está formigando. Acho que posso perder o contato com a sanidade.
Estou numa cozinha no meio de lugar nenhum. Com uniforme de náilon azul. Bancando uma empregada doméstica que pode fazer sanduíches magicamente, a partir do nada.
- Extraordinário - diz Nathaniel depois de um tempo.
Por fim me arrisco a levantar os olhos. Ele está me olhando, a testa profundamente franzida como se realmente não me entendesse.
Você não demorou muito - comenta com uma pergunta na voz.
Sou bem rápida quando quero. - Dou-lhe um sorriso afável.
- Samantha é maravilhosa! - diz Trish mordendo cobiçosamente um sanduíche. -E que trabalhadora limpa! - Olhe esta cozinha imaculada!
- Curso de cordon bleu - digo com modéstia.
- Ah! - Trish enfiou outro sanduíche na boca e está quase desmaiando. -Esse frango tailandês é divino.
Disfarçadamente pego um na pilha e mordo.
Diabo, como isso é bom! Mesmo sendo eu que diga.
Às duas e meia a cozinha está vazia. Trish e Eddie devoraram mais de metade dos sanduíches e agora saíram. Nathaniel voltou à horta. Estou andando de um lado para o outro, segurando uma colher, olhando o relógio a cada trinta segundos.
Arnold vai ligar logo. Já faz horas.
Não consigo pensar em mais nada. Minha mente se estreitou até virar um túnel de pista única e só me importo com o que há no fim.
Olho pela janela, para um pequeno pássaro marrom bicando no chão, depois me viro e afundo numa cadeira olhando a mesa, passando a unha do polegar obsessivamente pelo veio fino da madeira polida.
Cometi um erro. Um. As pessoas têm direito de cometer um erro na vida. Está nas regras.
Ou talvez não. Simplesmente não sei.
De repente sinto o celular vibrando e todo o meu peito explode num medo doloroso. Pego o telefone no bolso do uniforme com a mão subitamente trêmula.
O identificador de chamadas diz que é o Guy. Respiro fundo e aperto o OK.
- Oi, Guy? - Tento falar com confiança, mas minha voz parece minúscula e apavorada aos meus próprios ouvidos.
- Samantha? É você? - A voz de Guy sai numa torrente ansiosa. - Onde, diabos, você está? Por que não está aqui? Não recebeu meus e-mails?
- Não trouxe meu BlackBerry - digo consternada. - Por que você não ligou?
- Eu tentei! Você não atendia. Então estive em reuniões, mas mandei e-mails a manhã inteira...
Samantha, onde, diabos, você está? Deveria estar aqui no escritório! E não se escondendo, pelo amor de Deus!
Um choque enorme reverbera no meu corpo. Escondendo?
- Mas ... mas Arnold disse para eu não ir! Disse que seria melhor! Disse para eu ficar longe e que ele faria o possível...
- Você tem alguma idéia de como isso parece?- Guy me interrompe. -Primeiro você pira, depois some.
As pessoas estão dizendo que você está descontrolada, que teve um colapso... há um boato de que você saiu do país ...
Quando a verdade me acerta, sinto um pânico quente e sufocante. Não acredito em como agi errado nessa situação. Não acredito em como fui estúpida. O que ainda estou fazendo nesta cozinha, a quilômetros de Londres?
- Diga que estou indo agora mesmo - gaguejo. - Diga a Kelterman que estarei aí imediatamente ... vou pegar um trem
- Pode ser tarde demais - Ouy parece pesado e relutante.- Samantha, todo tipo de histórias está circulando
- Histórias? - Meu coração martela com tanta força que mal consigo dizer a palavra. - Que ... que histórias?
Não consigo absorver tudo isso. Sinto como se meu carro tivesse saído subitamente da estrada e eu não conseguisse controlá-lo. Achava que vinha fazendo a coisa certa ficando aqui, deixando Arnold atuar em minha defesa.
- Aparentemente disseram que você não é digna de confiança - diz Guy finalmente. - Que esta não é a primeira vez. Que você cometeu erros antes.
- Erros? - Salto de pé, a voz aguda como se eu tivesse sido escaldada. -Quem está dizendo isso? Nunca cometi erro nenhum! O que eles estão falando?
- Não sei. Não estive na reunião. Samantha, pense com cuidado. Você cometeu algum outro erro?
Pensar cuidadosamente?
Olho o celular chocada e incrédula. Ele não acredita em mim?
- Nunca cometi nenhum erro - digo tentando e não conseguindo manter a voz no tom normal. - Nenhum.
Nunca! Sou uma boa advogada. Sou uma boa advogada. - Para minha consternação percebo que tenho lágrimas escorrendo pelas bochechas. - Sou firme! Você sabe disso, Guy.
Há um silenciozinho tenso.
O não-dito está ali entre nós. Como uma convicção. Cometi um erro.
- Guy, não sei como não vi a documentação da Glazerbrooks. - Minhas palavras rolam cada vez mais rápidas. - Não sei como isso aconteceu. Não faz nenhum sentido. Sei que minha mesa é desarrumada mas tenho meus métodos, pelo amor de Deus. Não deixo passar coisas assim. Simplesmente não...
- Samantha, calma.
- Como posso me acalmar? - quase grito. – Esta é a minha vida. A minha vida. Não tenho nada além!
Enxugo as lágrimas das bochechas. - Não vou perder isso. Estou indo. Agora.
Desligo o telefone e fico de pé, borbulhando de pânico. Deveria ter voltado. Deveria ter voltado imediatamente, e não perdido tempo aqui. Não sei a que horas os trens saem mas não me importo. Preciso sair daqui.
Pego um pedaço de papel e um lápis e rabisco.
Cara Sra. Geiger.
Infelizmente preciso me demitir do cargo de empregada doméstica. Ainda que, durante esse tempo, eu tenha gostado...
Qual é. Não tenho tempo para escrever mais, preciso ir agora. Pouso o papel na mesa e vou para a porta.
Então paro.
Não posso deixar a carta inacabada no meio de uma frase. Isso vai me incomodar pelo resto do dia.
Ainda que, durante esse tempo, eu tenha gostado de estar com vocês, sinto que preciso de um novo desafio. Muito obrigada pela gentileza.
Siceramente,
Samantha Sweet
Pouso o lápis e empurro a cadeira para trás com ruído. Quando chego à porta o celular vibra de novo.
Guy, penso instantaneamente. Pego-o e já estou abrindo quando vejo o identificador de chamadas. Não é o Guy.
É Ketterman.
Algo frio parece agarrar minha coluna. Enquanto olho o nome dele sinto um medo verdadeiro, como nunca senti antes.Um medo infantil, de pesadelo. Cada instinto do meu corpo está dizendo para não atender.
Mas é tarde demais. O telefone já está aberto. Lentamente levo-o ao ouvido.
-Alô.
- Samantha. Aqui é John Ketterman.
- Certo. - Minha voz está áspera de nervosismo. -Olá.
Há uma longa pausa. Sei que este é meu momento de falar. Mas estou paralisada de terror; minha garganta parece cheia de algodão. Nenhuma palavra parece adequada.
Todo mundo sabe o quanto Ketterman despreza pedidos de desculpas e explicações.
- Samantha, estou ligando para dizer que seu contrato com a Carler Spink foi encerrado.
Sinto todo o sangue sumir do rosto.
- Uma carta está a caminho, dando os motivos. Seu tom é distante e formal.- Negligência grosseira agravada por seu comportamento pouco profissional subseqüente. Seu informe de rendimentos lhe será enviado. Seu passe foi anulado. Espero não vê-la de novo no escritório da Carter Spink.
Ele está indo depressa demais. Isso tudo está acontecendo depressa demais.
- Por favor, não... - Minha voz sai num jorro de desespero. - Por favor, me dê outra chance. Eu cometi um erro. Um.
- Os advogados da Carter Spink não cometem erros, Samantha. Nem fogem de seus erros.
- Eu sei que foi errado fugir. Sei. - Estou tremendo toda. - Mas foi um tremendo choque. Eu não estava pensando direito ...- Você manchou a reputação da firma e a sua. – A voz de Ketterman fica aguda como se ele também estivesse achando isso difícil. - Você perdeu cinqüenta milhões de libras de um cliente devido à sua negligência. E depois se evadiu sem explicação. Samantha, certamente você não poderia esperar outro resultado.
Há um longo silêncio. Minha testa está apoiada com força na mão. Tento ficar concentrada em respirar.
A cozinha está girando ao redor e luto para recuperar o fôlego. Inspirar e expirar.
- Não - eu suspiro, por fim.
Ketterman começa um discurso preparado sobre consultar o deparlamento de recursos humanos, mas eu não escuto. O cômodo está girando em tomo de mim e eu luto para respirar.
Acabou. Toda a minha carreira. Tudo pelo que trabalhei desde que tinha 12 anos. Tudo se foi. Tudo está arruinado. Em 24 horas.
Por fim percebo que Ketterman desapareceu da linha. Levanto-me e cambaleio até a geladeira brilhante.
Estou de um cinza esverdeado no reflexo. Meus olhos são enormes buracos ardentes.
Não sei o que fazer. Não sei onde começar.
Por longo tempo só fico parada, olhando meu rosto até que ele não já faz mais sentido, até que as feições ficam turvas e se movem.
Fui demitida. A expressão ecoa na minha mente. Fui demitida. Poderia ir para o auxílio desemprego. A idéia lança uma fungada dolorosa pelo nariz. Imagino-me com os homens do filme Ou tudo ou nada. Na fila do desemprego, movendo os quadris para trás e para a frente ao som de "Hot Stuff".
De repente ouço o som de uma chave na porta da frente. Meus olhos entram em foco e me afasto da geladeira.
Não posso ser encontrada assim. Não posso encarar nenhuma sondagem; nem simpatia. Caso contrário, acho que simplesmente vou desmoronar em soluços e nunca mais parar.
Distraidamente pego um pano e começo a passá-lo em círculos sem sentido sobre a mesa. Então vejo o bilhete que escrevi para Trish, ainda ali. Pego-o, amasso e jogo no lixo. Mais tarde. Faço isso mais tarde. Sinto que mal consigo falar neste momento, quanto mais fazer um discurso de demissão convincente.
- Aí está você! - Trish entra na cozinha tropeçando em seus tamancos de salto alto, segurando três enormes sacos de compras. - Samantha! - Ela pára ao me ver. - Você está bem? A dor de cabeça voltou?
- Eu ... estou bem. - Minha voz treme um pouco. – Obrigada.
- Você está pavorosa. Minha nossa! Tome mais uns comprimidos!
- Verdade...
- Ande! Também vou tomar uns, por que não? - acrescenta alegre. - Agora sente-se, vou preparar uma xícara de chá para você!
Ela deixa os sacos de compras, acende o fogo para a chaleira e depois procura os analgésicos verdes.
- É desses que você gosta, não é?
- Ah, eu preferiria uma aspirina - digo depressa. - Se não tiver problema.
- Tem certeza? - Ela me serve um copo d'água e me entrega duas aspirinas. -Agora fique aí sentada.
Relaxe. Nem pense em fazer mais nada! Até a hora do jantar - acrescenta como uma idéia de última hora.
- A senhora é muito gentil - consigo dizer.
Enquanto pronuncio as palavras tenho a leve percepção de que são verdadeiras. A gentileza de Trish pode ser silenciosa, mas é real.
Aí está. - Trish pousa uma xícara de chá e me examina por alguns instantes.- Você está com saudade de casa? - Ela parece triunfante, como se tivesse resolvido o mistério. - Nossa empregada filipina ficava bem triste de tempos em tempos, mas eu Costumava lhe dizer: Anime-se, Manuela! -Trish faz uma pausa, pensativa. - Então descobri que o nome dela era Paula. Extraordinário.
- Não estou com saudade de casa - digo, tomando o chá.
Minha mente bate como asas de borboleta. O que vou fazer?
Ir para casa.
Mas a idéia de voltar àquele apartamento, com Ketterman morando dois andares acima, me deixa enjoada. Não posso
encará-lo. Não posso fazer isso.
Ligar para o Guy. Ele vai me receber como hóspede. Eles têm aquela casa enorme em Islington com um monte de quartos livres. Já passei uma noite lá. Depois vou... vender meu apartamento. Encontrar um emprego.
Que emprego?
- Isso vai animar você. -A voz de Trish interrompe meus pensamentos. Ela dá um tapinha nos sacos de compras, com uma alegria contida. - Depois de seu desempenho espantoso no almoço ... Andei fazendo compras. E tenho uma surpresa! Isto vai fazer valer o seu dia!
- Uma surpresa? - Levanto os olhos, perplexa. Trish começa a tirar pacotes de dentro da sacola.
- Foie gras... grão-de-bico... quarto de cordeiro... - Ela põe com dificuldade um pedaço de carne sobre a mesa e me olha cheia de expectativa. Então estala a língua diante de minha expressão perplexa. - São ingredientes! Para o seu menu de festa! Vamos comer às oito, está bem?