Samantha Sweet, Executiva do Lar
Quatro
Acordo com o coração martelando, meio de pé, tateando, atrás de uma caneta e dizendo em voz alta: - O quê? O quê?
E é praticamente assim que sempre acordo. Acho que é coisa de família, ou algo do tipo. Todos temos sono nervoso. No Natal passado, na casa de mamãe, me esgueirei à cozinha mais ou menos às três da madrugada para tomar água - e encontrei mamãe de roupão lendo um relatório do tribunal e Daniel engolindo um Xanás enquanto verificava o Hang Seng na TV.
Entro no banheiro e olho meu reflexo pálido. É isso. Todo o trabalho, todos os estudos, todas as noites em claro... Foi tudo para este dia.
Sócia. Ou não sócia.
Ah, meu Deus, pára com isso. Não pense nisso. Vou à cozinha e abro a geladeira. Droga. Estou sem leite.
E café.
Preciso arranjar uma empresa de entrega de comida. E um leiteiro. Pego uma esferográfica e rabisco “47, entrega de comida/leiteiro?” no fim da minha lista de "COISAS A FAZER".
Minha lista de “COISAS A FAZER" está escrita num pedaço de papel pregado à parede e é útil para lembrar de coisas que pretendo fazer.Agora está ficando um pouco amarelada – e a tinta no topo da lista ficou tão fraca que eu mal consigo ler. Mas é um bom modo de me manter organizada.
Realmente deverias riscar algumas anotações do inicio, ocorre-me. Quero dizer, a lista original data de quando me mudei para o apartamento, há três anos. Já devo ter feito alguma dessas coisas. Pego uma caneta e espio algumas anotações desbotadas.
1. Arranjar leiteiro
2. Entrega de comida - organizar?
3. Como se liga o fomo?
Ah, certo.
Bem, realmente vou organizar esse negócio de entrega de comida. No fim de semana. E vou entender o forno. Vou ver o manual e tudo.
Olho rapidamente as anotações mais novas, com cerca de dois anos.
16. Arranjar leiteiro
17. Convidar amigos?
18. Arranjar um hobby?
O negócio é que pretendo convidar uns amigos. E arranjar um hobby. Quando o trabalho estiver menos atolado.
Olho anotações menos antigas ainda – talvez com um ano - onde a tinta continua azul.
41. Sair de férias?
42. Dar jantar?
43. LEITEIRO??
Olho a lista com ligeira frustração. Como posso não ter feito nada da minha lista? Irritada largo a caneta e acendo o fogo da chaleira, resistindo à tentação de picar a lista.
A chaleira ferve e eu faço uma xícara de um estranho chá de ervas que um cliente me deu. Pego uma maçã na tigela de frutas e descubro que está mofada. Com um tremor, jogo todo o lote no lixo e mordisco uns salgadinhos de pacote.
A verdade é que não estou preocupada com a lista. Só há uma coisa que me preocupa.
Quando chego ao escritório estou decidida a não admitir que este é um dia especial. Só vou ficar de cabeça baixa e fazer meu trabalho.
Mas enquanto subo pelo elevador três pessoas murmuram "Boa sorte". Depois vou pelo corredor – e um cara do departamento de impostos me segura pelo ombro.
- Toda a sorte, Samantha.
Como ele sabe meu nome?
Vou rapidamente para a minha sala e fecho a porta, tentando ignorar o fato de que através da parte de vidro possa ver pessoas conversando no corredor e olhando para mim.
Realmente não deveria ter vindo hoje. Deveria ter fingido uma doença com risco de vida.
De qualquer modo, está tudo bem. Vou começar a trabalhar, como em qualquer outro dia. Abro a pasta, encontro o lugar onde parei e começo a ler uns documentos sobre uma transferência de ações feita há cinco anos.
- Samantha?
Levanto a cabeça.Guy está junto à porta segurando dois cafés. Coloca um na minha mesa.
- Oi – diz ele. – Como vai?
- Ótima – respondo virando uma página com gesto profissional. - Estou ótima. Só... normal. Na verdade, não sei porque toda essa agitação.
A expressão divertida de Guy está me irritando ligeiramente. Viro outra página para provar meu argumento e de algum modo derrubo toda a pilha no chão.
Graças a Deus pelos clipes de papel.
Com o rosto vermelho, recupero a pasta do chão, enfio todos os papeis de volta e tomo um gole de café.
- Ahã – Guy assente com seriedade. - Bom, que bom que você não está nervosa, sobressaltada nem nada.
- É – digo recusando-me a ficar de pé. – Não é?
- Vejo você mais tarde. – Ele ergue o copo de café como se estivesse fazendo um brinde, depois sai.
Olho o relógio.
Só oito e cinquenta e três. Não sei se consigo suportar isso.
*
De algum modo, agüento a parte da manhã. Acabo com a pasta do Ketterman e começo meu relatório.
Estou na metade do terceiro parágrafo quando Guy aparece à porta de novo.- Oi – digo sem levantar a cabeça. – Estou bem, certo? E não soube de nada.
Guy não responde.
Por fim levanto a cabeça. Ele está bem na frente da mesa, só me olhando, com a expressão mais estranha que já vi. É como uma mistura de afeto, orgulho e empolgação, tudo espremido junto sob uma cara de jogador de pôquer.
- Eu não deveria fazer isso – murmura ele. Em seguida se inclina mais perto. – Você conseguiu, Samantha. É sócia. Vai saber oficialmente dentro de uma hora.
Um calor incandescente e ofuscante atravessa meu peito. Por um instante não consigo respirar.
Consegui. Consegui.
- Você não soube por mim, OK?- O rosto de Guy se franze brevemente num sorriso. - Muito bem.
- Obrigada ... - consigo dizer.
- Vejo você mais tarde. Para dar os parabéns direito. - Ele se vira e vai andando, e sou deixada olhando para o computador, sem enxergar.
Sou sócia.
Ah, meu Deus. Ah, meu Deus. Ah, meu DEUS!
Pego um espelho de mão e olho meu reflexo empolgado. As bochechas estão de um rosa luminoso. Sinto uma ânsia terrível de saltar de pé e gritar "ISSO!”. Quero dançar e gritar. Como vou sobreviver uma hora?
Como posso ficar aqui sentada calmamente? Não posso me concentrar no relatório para o Ketterman.
Levanto-me e vou até meu arquivo, só para fazer alguma coisa. Abro umas gavetas ao acaso e fecho de novo. Então, quando giro, noto a mesa atulhada de papéis e pastas, com uma pilha de livros se equilibrando precária no terminal de computador.
Ketterman está certo. É uma desgraça. Não parece mesa de sócia.
Vou arrumar. É um modo perfeito de passar uma hora. 12h06 as 13h06:Administração do escritório. Até temos um código para isso na planilha de computador.
Tinha esquecido como desprezo e odeio arrumar.
Todo tipo de coisa está aparecendo enquanto reviso a bagunça na mesa. Cartas de empresas... contratos que precisam ser preenchidos... convites antigos... memorandos... um panfleto sobre Pilates... um CD que comprei há 3 meses e pensei que tinha perdido... o cartão de Natal do Arnold, do ano passado, mostrando-o numa fantasia de rena peluda... sorrio ao ver aquilo e coloco na pilha de "coisas que precisam de um lugar”.
Há placas, também - as peças de acrílico gravadas e montadas que recebemos no fim de um grande negócio ... ah meu Deus, meia barra de chocolate que obviamente não acabei de comer em algum momento. Jogo no lixo e me viro suspirando para outra pilha de papéis.
Eles não deveriam nos dar mesas tão grandes. Não acredito na quantidade de coisas que há aqui.
Sócia! , dispara em minha mente como fogos de artifício brilhantes. SÓCIA!
Pára com isso, ordeno séria. Concentre-se na tarefa atual. Enquanto pego um velho exemplar de O
Advogado e me pergunto por quê, diabos, estava guardando e alguns documentos presos com clipe caem no chão. Estendo tendo a mão para eles e passo os olhos pela primeira página, já estendendo a mão para a próxima coisa. É um memorando. Do Arnold.
Ref. Third Union Bank.
Por favor encontre debênture anexa para a Glazerbrooks Ltd. Por favor, levar para registro na Companies House.
Olho sem grande interesse. O Third Union Bank é cliente do Arnold e só lidei com eles uma vez. O
negócio é um empréstimo de 50 milhões de libras para a Glazerbrooks e só preciso registrá-lo dentro de 21
dias na Companies House. É só outro dos trabalhos mundanos que os sócios vivem jogando na minha mesa. Bom, chega disso, penso com um jorro de determinação Acho que vou delegar isso a outra pessoa, agora mesmo. Olho automaticamente a data.
E olho de novo. Está datada de 26 de maio.
Há cinco semanas? Não pode estar certo.
Perplexa, folheio rapidamente os papéis para ver se é um erro de digitação. Tem de ser um erro de digitação. Mas a data é consistente em todo o documento. 26 de maio.
26 de maio?
Sento-me congelada, olhando o documento. Isso está na minha mesa há cinco semanas?
Mas... não pode. Quero dizer... não podia. Isso significa...
Significa que perdi o prazo.
Engulo em seco. Devo estar lendo errado, ou sei lá o que. Não posso ter cometido um erro tão básico.
Não posso ter deixado de registrar um empréstimo antes do prazo. Sempre os registro antes do prazo.
Fecho os olhos tentando me acalmar. Devo estar entendendo mal. É a empolgação de ser sócia. Deu tilt no meu cérebro. Certo. Vamos olhar de novo, com cuidado.
Abro os olhos e espio o memorando – mas diz exatamente a mesma coisa. Comparecer ao registro.
Datado de 26 de maio, em preto no branco. O que significa que expus nosso cliente a um empréstimo sem seguro. O que significa que cometi praticamente o erro mais elementar que um advogado pode cometer.
Minha alegria se foi. Sinto uma espécie de gelo na coluna. Estou tentando desesperadamente lembrar se Arnold me disse alguma coisa sobre o negócio. Nem lembro de ele tê-lo mencionado.Mas ... por que mencionaria. É um simples contrato de empréstimo. O tipo de coisa que fazemos dormindo. Ele deve ter presumido que cumpri suas instruções. Deve ter confiado em mim.
Ah, Meu Deus.
Folheio as páginas de novo, mais depressa, procurando desesperadamente alguma saída. Alguma cláusula que me faça exclamar "Ah, claro!", aliviada. Mas não existe. Enquanto seguro o documento fico tonta. Como isso pode ter acontecido? Será que ao menos notei isso? Será que empurrei de lado, pretendendo fazer mais tarde? Não lembro. Não consigo lembrar, droga.
O que vou fazer? Uma onda de pânico me acerta enquanto penso nas conseqüências.
O Third Union Bank emprestou 50 milhões de libras a Glazerbrooks. Sem que o contrato seja registrado, esse empréstimo... esse empréstimo multimilionário - não tem seguro. Se a Glazerbrooks falisse amanhã o Third Union Bank iria para o final da fila de credores. E provavelmente acabaria sem nada.
- Samantha! - diz Maggie junto à porta e pulo um quilômetro de altura. Instintivamente planto a mão sobre o memorando, mesmo que ela não esteja olhando mesmo que não perceba o significado, de qualquer modo.
- Acabei de saber! - diz ela num sussurro teatral - Guy deixou escapar! Parabéns!
- Ah... obrigada! – De algum modo, forço os lábios num sorriso.
- Estou indo pegar uma xícara de chá. Quer uma?
- Seria... ótimo. Obrigada.
Maggie desaparece e eu enterro a cabeça nas mãos. Estou tentando manter a calma, mas por dentro há um grande poço de terror. Preciso encarar isso. Cometi um erro.
Cometi um erro.
O que eu vou fazer? Todo o meu corpo está retesado de medo, não consigo pensar direito...
E de repente, as palavras que Guy disse ontem me vêem a cabeça, e sinto um jorro de alívio. Um erro não é um erro a não ser que não possa ser consertado.
É. O importante é que posso consertar. Ainda posso registrar um empréstimo.
Será torurante.
Terei de dizer ao banco o que fiz – e à Glazerbrooks – e ao Arnold – e ao Ketterman. Terei de preparar novos documentos. E, o pior de tudo, terei de viver com todo mundo sabendo que cometi o tipo de erro mais idiota, insensato que um estagiário pode fazer.
Isso pode significar o fim da participação como sócia, penso, e por um instante fico enjoada.
Mas não há outra opção. Preciso consertar a coisa.
Rapidamente entro no site da Companies House e faço uma busca sobre a Glazerbrooks. Desde que nenhum outro empréstimo tenha sido registrado nesse meio tempo, tudo dará no mesmo...
Olho a pagina incrédula.
Não.
Não pode ser.
Um empréstimo de 50 milhões de libras foi registrado na semana passada por uma companhia chamada BLLC Holdings. Nosso cliente foi jogado para a fila de credores.
Minha mente está entrando em confusão total. Isso não é bom. Preciso falar com alguém rapidamente.
Preciso fazer algo a respeito disso agora, antes que outras cobranças sejam feitas. Tenho de... contar ao Arnold.
Mas a simples idéia me paralisa de horror.
Não posso. Não posso simplesmente sair e anunciar que cometi o erro mais básico e elementar e que coloquei em risco 50 milhões de libras do nosso cliente. O que vou fazer é... começar a resolver a bagunça antes, antes de contar a alguém. Pôr em ação a limitação de danos É. VOU ligar primeiro para o banco.
Quanto mais cedo eles souberem, melhor.
- Samantha?
- O quê? - praticamente pulo fora da cadeira.
- Você está nervosa hoje! – Maggie ri e me entrega uma xícara de chá. – Sentindo-se no topo do mundo?
– E pisca para mim.
Por um instante honestamente não faço idéia do que ela está falando. Meu mundo se reduziu a mim, meu erro e o que farei a respeito.
- Ah! Certo! É! - tento rir de volta e disfarçadamente enxugo as mãos úmidas num lenço de papel.
- Aposto que você ainda não saiu do barato!- Ela se encosta no arquivo. -Tenho champanha na geladeira, tudo preparado.
- É... fantástico! Na verdade, Maggie, preciso mesmo continuar...
- Ah. – Ela parece magoada. – Bem, tudo certo. Vou deixar você.
Quando ela sai, posso ver a indignação na postura de seus ombros. Provavelmente me considera uma vaca. Mas cada minuto é mais um minuto de risco. Preciso ligar para o banco imediatamente.
Examino a ficha de contrato anexa e encontro o nome e o numero do cara do Third Union. Charles Conway.
É para ele que preciso ligar. Este é o homem cujo dia terei de perturbar admitindo que fiz um estrago total. Com mãos trêmulas pego o telefone. Sinto como se estivesse me preparando para mergulhar num pântano nauseabundo cheio de sanguessugas.
Por alguns instantes fico parada, olhando o teclado.
Obrigando-me a fazer a ligação. Finalmente estendo a mão e digito o numero. Quando o telefone toca, meu coração começa a martelar.
- Charles Conway.
- Oi! – digo tentando manter a voz firme. -É Samantha Sweet, da Carter Spink. Acho que não nos conhecemos.
- Oi, Samantha – Ele parece bastante amigável. – Em que posso ajudar?- Eu estava ligando para falar de... uma questão técnica. É sobre... - Mal consigo dizer. – A Glazerbrooks.
- Ah, você ficou sabendo. – diz Charles Conway. – As notícias correm depressa.
A sala parece encolher. Seguro o fone com mais força.
- Fiquei sabendo... o quê? – Minha voz está mais aguda do que eu gostaria. – Não soube de nada.
- Ah! Presumi que era por isso que você estava ligando. - Ele faz uma pausa e posso ouvi-lo ordenando que alguém procure a porcaria no Google. - É, ligaram para a cobrança hoje. Aquela última tentativa de se salvarem obviamente não deu certo ...
Ele ainda está falando, mas não consigo escutar. Estou tonta. Manchas pretas dançam na frente dos meu olhos.
A Glazerbrooks vai falir.Agora nunca vão fazer a nova documentação. Nem em um milhão de anos.
Não poderei registrar o empréstimo.
Não posso consertar.
Perdi cinqüenta milhões de libras do Third Union Bank.
Parece que estou alucinando. Quero murmurar qualquer coisa, em pânico. Quero largar o telefone e correr. Bem depressa.
A voz de Charles Conway subitamente acerta minha consciência.
- Por acaso foi bom você ter telefonado.- Posso ouvi-lo digitando num teclado ao fundo, totalmente despreocupado. - Talvez seja bom verificar novamente o seguro do empréstimo.
Por alguns instantes não consigo falar.
- Sim - digo finalmente, com a voz rouca. Desligo o telefone, tremendo. Acho que vou vomitar.
Fodi tudo.
Fodi a tal ponto que não posso...
Nem posso...
Mal sabendo o que faço, empurro a cadeira para trás. Tenho de sair. Para longe.