Samantha Sweet, Executiva do Lar

Sophie Kinsella · Capítulo 21 de 25

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Samantha Sweet, Executiva do Lar

Vinte e um

Certo. o único obstáculo possível é a senha de Arnold. Se eu não puder adivinhá-la não poderei acessar seus arquivos de computador e não descobrirei nada. Além disso, se a porta da sala dele estiver fechada, pode ser meio problemático.

De modo que tenho dois obstáculos possíveis.

Além disso preciso entrar no prédio, claro. E não ser reconhecida por ninguém.

E não ser descoberta por um dos faxineiros enquanto digito no computador do Arnold.

Ah, merda. Que diabo estou fazendo?

Tomo um grande gole de café, tentando ficar calma. Mas não é fácil.

Até mesmo estar de volta em Londres me deixou abalada. A cidade não é como eu lembro. Não acredito em como é suja. Como é agitada. Quando cheguei à estação de Paddington esta tarde me senti quase assustada com a multidão movendo-se como enxames de formigas no saguão. Sentia o cheiro de fumaça.

Via o lixo. Coisas que nunca notei antes. Será que simplesmente as filtrava? Será que estava tão acostumada que elas se perdiam no fundo?

Mas, ao mesmo tempo, no minuto em que meus pés bateram no chão senti a agitação. Quando cheguei à estação do metrô já havia pegado meu ritmo: ajustando o passo ao de todo mundo; colocando o bilhete na máquina exatamente no ângulo certo; tirando-o sem um segundo a perder.

E agora estou no Starbucks, na esquina da Carter Spink sentada junto ao balcão perto da janela, olhando pessoas com ternos do centro financeiro passando, conversando, gesticulando e falando ao telefone. A adrenalina tá pegando. Meu coração já bate mais depressa – e ainda nem entrei no prédio.

Ao pensar nisso meu estômago revira ao avesso. Agora vi por que os criminosos operam em quadrilhas quando fazem roubos. Neste momento realmente gostaria de ter os Onze Homens e Um Segredo para me darem um pouco de apoio moral.

Olho o relógio de novo. Está quase na hora. A última coisa que quero é chegar cedo. Quanto menos tempo passar lá, melhor.

Enquanto termino de beber o café com leite, meu telefone solta um bip, mas ignoro. Deve ser outra mensagem de Trish. Ela ficou lívida quando contei que precisava passar uns dois dias fora; na verdade tentou me impedir. Por isso eu disse que tinha um problema no pé, que precisava de atenção urgente do meu especialista em Londres.

Pensando bem, foi um erro enorme, já que ela quis saber cada detalhe gosmento. Até exigiu que eu tirasse o sapato para mostrar. Tive de passar dez minutos improvisando sobre "desalinhamento ósseo" enquanto ela olhava meu pé e dizia que "para mim parece perfeitamente normal", num tom de grande suspeita.

Ficou me olhando desconfiada pelo resto do dia. Depois deixou um exemplar da Marie Claire aberta casualmente no anúncio que dizia "Está grávida? Precisa de aconselhamento confidencial?" Honestamente, vou ter de cortar isso pela raiz, caso contrário todo o povoado vai ficar sabendo e Iris vai começar a tricotar sapatinhos.

Olho de novo o relógio e sinto um jorro de nervosismo. Hora de ir. Vou para o banheiro feminino, olho o espelho e verifico minha aparência. Cabelo louro não familiar: certo. Óculos escuros: certo. Batom magenta: certo. Não me pareço nem um pouco com meu eu antigo.

Afora o rosto, obviamente. Se você olhar bem de perto.

Mas o fato é que ninguém vai me olhar de perto. Pelo menos é com isso que estou contando.

- Oi - digo em voz grave e gutural. - Prazer em conhecê-lo.

Parece voz de travesti. Mas não faz mal. Pelo menos não estou falando como uma advogada.

Mantendo a cabeça baixa, saio da Starbucks e vou pela rua, até que viro a esquina e vejo os característicos degraus de granito e as portas de vidro da Carter Spink.

Olho a fachada familiar e alguma coisa parece apertar no meu peito. Sinto-me irreal, voltando aqui. A última vez em que vi essas portas estava saindo por elas, balbuciando em pânico; convencida de que tinha arruinado minha carreira; convencida de que minha vida tinha acabado.

A raiva começa a borbulhar de novo e fecho os olhos brevemente, tentando manter as emoções sob controle.Ainda não tenho nenhuma prova. Preciso ficar concentrada no que estou fazendo. Ora. Consigo fazer isso.

Atravesso a rua e subo resolutamente os degraus da entrada. Quase posso me ver naquele dia, uma figura fantasmagórica, descendo num estado de choque aparalhado. Tudo parece ter acontecido há séculos. Não pareço apenas uma pessoa diferente, eu me sinto uma pessoa diferente. Como se tivesse sido reconstruída.

Respirando fundo, puxo a capa impermeável em volta do corpo e empurro a porta de vidro. Quando entro no saguão sinto uma súbita onda de incredulidade. Estou realmente fazendo isso? Estou realmente tentando invadir, incógnita, os escritórios da Carter Spink?

É. Estou. Minhas pernas bambeiam e as mãos estão úmidas, mas ando firme pelo chão de mármore brilhante, de olhos baixos. Vou para a nova recepcionista, Melanie, que só começou a trabalhar umas duas semanas antes de eu sair.

- Oi - digo com minha voz de travesti.

- Em que posso ajudá-la? - Melanie dá um sorriso. Não há sequer um vislumbre de reconhecimento em seu rosto. Não acredito que seja tão fácil. Na verdade me sinto um pouco insultada. Será que antes eu era tão comum?

- Estou aqui para a festa - murmuro de cabeça baixa. - Sou garçonete. Bufês Berlram –acrescento para garantir.

- Ah, sim. Tudo está acontecendo no décimo quarto andar. - Ela digita no computador. Qual é o seu nome?

- É ... Trish - digo. - Trish Geiger. – Melanie olha a tela do computador, franzindo a testa e batendo com a caneta nos dentes.

- Você não está na minha lista - diz finalmente.

- Bem, deveria estar. - Mantenho a cabeça baixa. - Deve haver algum engano.

- Deixe-me ligar... - Melanie batuca no telefone e tem uma conversa rápida com alguém chamada Jan, depois levanta os olhos.

- Ela vai descer para vê-la-Em seguida indica os sofás de couro com um sorriso. - Por favor, sente-se.

Vou para a área de estar - depois faço uma curva fechada ao ver David Spellman, da seção de Corporativo, sentado num dos sofás com um cliente. Não que ele pareça ter me reconhecido. Vou até uma bancada com folhetos brilhantes sobre a filosofia da Carter Spink e enterro a cabeça em Solução de Contendas.

Nunca antes li nenhuma brochura da Carter Spink. Meu Deus, é um monte de besteira sem sentido.

- Trish?

- Ah ... sim? - giro e vejo uma mulher de smoking, com rosto avermelhado. Está segurando algumas folhas datilografadas e me olha com a testa franzida.

- Jan Marlin, chefe do pessoal de serviço para a festa. Você não está na minha lista. Já trabalhou para nós antes?

- Sou nova - digo mantendo a voz baixa. – Mas já trabalhei na Ebury Catering. Em Glucestershire.

-Não conheço. - Ela consulta o papel de novo o passa para a segunda página, a testa franzida com impaciência. - Querida, você não está na lista. Não sei o que veio fazer aqui.

- Eu falei com um cara - afirmo sem me abalar. - Ele disse que você estaria precisando de gente extra.

- Um cara? - Ela parece perplexa.- Quem? Tony?

- Não lembro o nome dele. Mas ele me mandou vir aqui.

- Ele não poderia ter dito...

- Aqui é a Carter Spink, não é? - Olho ao redor. – Cheapside n° 95? Uma grande festa de aposentadoria?

- É. - Vejo o início de uma dúvida no rosto da mulher.

- Bem, me disseram para vir. - Permito apenas uma levíssima beligerância na voz. Só para passar a mensagem: não vou desistir logo.

Vejo o cálculo surgindo na cabeça da mulher: se me dispensar eu poderia fazer uma cena, ela tem coisas mais importantes em que pensar, e que mal faria uma garçonete a mais...?

– Certo – diz finalmente com um ruído de irritação. – Mas você terá de trocar a roupa. Qual é o seu nome, mesmo?

- Trish Geiger

- Isso mesmo. – Ela anota. – Bem, é melhor você subir, Trish.

 

Ah, meu Deus. Estou dentro. Obviamente eu era feita para uma vida de crimes o tempo todo! Na próxima vez vou aumentar a aposta um pouco. Quebrar a banca num cassino de Las Vegas ou algo assim.

Sinto-me quase empolgada enquanto subo pelo elevador de serviço com Jan, tendo um crachá de plástico escrito TRISH GEIGER preso à lapela. Agora só preciso manter a cabeça baixa, dar um tempo e, quando for a hora certa, ir ao décimo primeiro andar. E posso fazer isso encontrando um painel de teto solto, subindo por ele e me arrastando pelo sistema de ventilação.

Ou posso ir de elevador.

Saímos na cozinha anexa às salas de funções executivas e olho ao redor, surpresa. Não fazia idéia de que existia tudo isso aqui. É como ir aos bastidores de um teatro. Cozinheiros trabalham em seus postos, e os garçons se reúnem com distintos uniformes de listras verdes e brancas.

- As roupas estão ali. - Jan aponta para um enorme cesto de vime cheio de uniformes dobrados. – Você terá de se trocar.

- Certo. - Reviro o cesto procurando uma roupa do meu tamanho e levo ao banheiro feminino para me trocar. Retoco o batom magenta e puxo mais o cabelo sobre o rosto, depois olho o relógio.

Agora são cinco e quarenta. A festa é às seis. Mais ou menos às seis e dez o décimo primeiro andar deve estar vazio. Arnold é um sócio muito popular; ninguém vai perder seu discurso de despedida, se puder.

Além disso, nas festas da Carter Spink os discursos sempre são feitos no início, de modo que as pessoas possam voltar ao trabalho, se precisarem.

E enquanto todo mundo estiver escutando vou descer ao escritório do Arnold. Deve dar certo. Tem de dar certo. Olhando meu reflexo bizarro sinto uma decisão séria crescendo por dentro. Arnold não vai sair com todo mundo achando que ele é um velho ursinho de pelúcia alegre e inofensivo. Não vai se livrar dessa.

Às dez para as seis nos reunimos todos em uma das cozinhas e recebemos os pedidos. Canapés quentes ...

canapés frios ... mal escuto. Não pretendo trabalhar realmente como garçonete. Depois das orientações de Jan, sigo o rebanho de garçons para fora da cozinha. Recebo uma bandeja de taças de champanha, que pouso assim que posso.

Volto para a cozinha, pego uma garrafa de champanha aberta e um guardanapo. Depois, assim que tenho certeza que ninguém está olhando, escapo para O banheiro feminino.

Certo. Esta é a parte difícil. Tranco-me num cubículo e espero durante quinze minutos em silêncio absoluto. Não mexo em nada, não espirro nem rio quando ouço uma garota ensaiar seu discurso de rompimento com alguém chamado Mike. São os quinze minutos mais longos da minha vida.

Por fim abro cautelosamente a porta, saio e olho ao redor da dobra no corredor. De onde estou posso ver as portas do salão de funções. Uma multidão já se reuniu e consigo ouvir risos e muitas conversas em voz alta. Garçons e garçonetes circulam e pessoas ainda vêm pelo corredor num fluxo constante. Reconheço as garotas do RP... uns dois estagiários .. Oliver Swan, um sócio importante ... todos entram na festa pegando uma taça.

O corredor está limpo. Anda.

Com pernas trêmulas passo direto pela entrada da sala de funções, em direção aos elevadores e à porta do poço da escada. Em trinta segundos passei em segurança pela porta e estou descendo o mais silenciosamente possível. Ninguém jamais usa a escada na Carter Spink, mas mesmo assim ...

Chego ao décimo primeiro andar e olho pelo painel de vidro da porta. Não vejo ninguém. Mas isso não significa que não haja alguém. Pode haver toda uma turba fora da minha linha de visão.

Bom, é um risco que preciso correr. Respiro fundo algumas vezes, tentando entrar no clima. Ninguém jamais vai me reconhecer com a roupa verde e branca de garçonete. E até tenho uma história se alguém me questionar: Estou neste andar para pôr uma garrafa de champanha na sala do Sr. Saville, como surpresa.

Vamos lá. Não posso perder mais tempo.

Lentamente abro a porta, saio ao corredor acarpetado de azul e solto o ar, aliviada. Todo mundo deve ter subido para a festa. Ouço alguém ao telefone a alguns metros de distância - mas quando vou andando nervosa para a sala de Arnold vejo que todas as estações de trabalho ao redor estão vazias. Todos os meus sentidos estão em alerta vermelho. Nunca me senti mais incomodada na vida.

O crucial é usar o tempo com eficiência. Vou começar com o computador e partir daí. Ou talvez devesse começar com o arquivo. Dar uma olhada rápida enquanto o computador estiver esquentando. Ou vou revistar as gavetas da mesa dele. Seu BlackBerry pode estar lá. Não tinha pensado nisso.

Para ser honesta, não pensei muito bem no negócio de revistar o escritório. Metade de mim jamais esperava entrar no prédio, quanto mais ter acesso à sala de Arnold. Mas não tenho certeza do que estou procurando. Correspondências, talvez. Ou números. Um disco onde esteja escrito "Informações Incriminadoras" seria bom...

Paro abruptamente. Ouço vozes atrás de mim, saindo dos elevadores. Merda. Preciso entrar na sala do Arnold antes de ser vista.

Acelero o passo, em pânico. Chego à sala de Arnold, empurro a porta, entro, fecho e me abaixo sob o painel de vidro. Ouço as vozes ficando mais próximas. David Elldridge, Keith Thompson e alguém que não reconheço. Passam pela porta e eu não mexo um músculo. Depois se afastam à distância. Graças a Deus.

Solto a respiração, levanto-me lentamente e espio pelo painel de vidro. Não vejo ninguém. Estou em segurança. Só então me viro e examino a sala.

Está vazia.

Foi limpa.

Dou alguns passos, perplexa. A mesa está vazia. As prateleiras estão vazias. Há leves quadrados nas paredes, nos locais de onde as fotos foram tiradas. Não há nada nesta sala a não ser um pedaço de fita adesiva no chão e alguns alfinetes ainda no quadro de avisos.

Não acredito. Depois de todo esse esforço. Depois de chegar tão longe. Não há porcaria nenhuma para procurar?

Deve haver caixas, penso numa inspiração súbita. É.Tudo foi posto em caixas para ser transportado, e elas devem estar empilhadas do lado de fora ... saio rapidamente e olho ao redor, feito louca. Mas não vejo caixas. Nem caixotes. Nada. Encaremos os fatos: cheguei tarde demais. Tarde demais, droga. Sinto vontade de socar alguém, frustrada.

Ofegando, volto à sala e olho ao redor de novo. Posso revistá-la assim mesmo. Só para garantir.

Vou à mesa e começo metodicamente a verificar cada gaveta, escancarando-as, olhando dentro e até mesmo tateando em busca de papéis esquecidos. Viro o cesto de lixo e sacudo. Passo a mão atrás do quadro de avisos. Mas não há nada. Nem no arquivo ... nem nos armários embutidos.

- Perdão?

Congelo, com a mão ainda no armário de Arnold. Merda. Merda.

- Sim? -Viro, puxando o cabelo para cima do rosto e olhando firmemente para baixo.

- O que, diabos, você está fazendo aqui?

É um estagiário, Bill... qual é o sobrenome? Costumava trabalhar ocasionalmente para mim.

Fique calma. Ele não me reconheceu.

- Estava entregando uma garrafa de champanha, senhor - murmuro em minha melhor voz de travesti, assentindo para a garrafa que deixei no chão. – Surpresa para o cavalheiro. Eu só estava me perguntando onde deveria colocar.

- Bem, não num armário - diz Bill com escárnio. - Eu deixaria na mesa. E você não deveria estar aqui.

- Eu já ia voltar. Senhor. - Baixo a cabeça e saio de fininho. Diabo. Essa foi por pouco.

Vou à escada e subo correndo, esbaforida. Está na hora de sair do prédio, antes que mais alguém me veja. De qualquer modo, agora não vou descobrir mais nada. Deus sabe o que farei com relação ao Arnold, mas pensarei nisso mais tarde. Neste momento a prioridade é sair.

 

A festa continua no pique total quando me esgueiro da porta da escada e vou rapidamente para o banheiro feminino onde deixei minhas roupas. Não vou me incomodar em trocá-las. Posso mandar a roupa de garçonete pelo corredor...

- Trish? - A voz de Jan acerla a minha nuca. - É você?

Merda. Relutante, me viro para encará-la. A mulher parece furiosa. - Onde, diabos, você esteve?

- Ah... servindo?

- Não estava não. Não vi você lá dentro nenhuma vez! - diz ela rispidamente. – Você não trabalha para mim de novo, isso garanto. Agora pegue isso e vá trabalhar.

Ela enfia um prato de minúsculos éclairs nos meus braços e me empurra bruscamente para a porta da festa.

Sinto um choque de pânico.

Não. Não posso entrar lá. De jeito nenhum.

- Sem dúvida! Só preciso ... pegar uns guardanapos... - Tento recuar mas ela me agarra.

- Não precisa não! Você quis esse trabalho! Agora trabalhe!

Ela me empurra com força e entro cambaleando no salão apinhado. Sinto-me como um gladiador sendo empurrado para a arena. Jan está parada junto à porta, de braços cruzados. Não há como sair. Terei de fazer isso. Pego a bandeja com mais força, baixo a cabeça - e avanço lentamente pelo salão apinhado.

Não consigo andar naturalmente. Minhas pernas parecem tábuas. Os pêlos da nuca estão eriçados; sinto o sangue pulsando nos ouvidos. Passo por ternos caros, não ousando olhar para cima; não ousando parar, para não atrair atenção. Não acredito que isso esteja acontecendo. Estou vestida de uniforme verde e branco, servindo bombinhas aos meus ex-colegas.

E o bizarro é que ninguém parece notar.

Várias mãos pegaram éclairs na bandeja, sem sequer me olhar. Todo mundo está ocupado demais rindo e falando. O barulho é tremendo.

Não vejo Arnold em lugar nenhum. Mas ele tem de estar aí, em algum lugar. Meu estômago se aperta com tensão dolorosa ao pensar nisso. Estou desesperada para olhá-lo; levantar a cabeça e procurá-lo. Mas não posso correr o risco. Em vez disso continuo andando pelo salão. Há rostos familiares em toda parte.

Trechos de conversas fazem minhas orelhas se eriçarem.

- Onde está Ketterman? - pergunta alguém quando passo.

- Passando o dia em Dublin - responde Oliver Swan, e eu respiro aliviada. Se Ketterman estivesse aqui tenho certeza que seus olhos de laser me veriam imediatamente.

- Éclairs. Fabuloso!

Umas oito mãos mergulham na bandeja ao mesmo tempo e eu paro. É um grupo de estagiários. Partindo para cima da comida, como sempre fazem os estagiários nas festas.

- Aah. Vou querer outro.

- Eu também.

Estou começando a ficar nervosa. Quanto mais tempo permaneço aqui parada sem me mexer, mais exposta me sinto. Mas não posso sair. As mãos deles mergulham pegando mais.

- Sabe se tem mais daquelas tortinhas de morango? - pergunta um cara de óculos sem aro.

- Ah ... não sei - murmuro olhando para baixo.

Merda. Agora ele está me olhando com mais atenção. Está se curvando para olhar direito. E não posso puxar o cabelo sobre o rosto porque as duas mãos estão segurando a bandeja.

- Essa é... Samantha Sweet? - Ele está abestalhado. - É você?

- Samantha Sweet? - Uma das garotas largas seu éclair. Outra fica boquiaberta e põe a mão na boca.

- Ah... sim - sussurro finalmente, com o rosto fervendo. - Sou eu. Mas, por favor, não contem a ninguém.

Quero permanecer discreta.

- Então é isso que você está fazendo agora? - O cara de óculos sem aro parece bestificado. - Você é garçonete?

Todos os estagiários me olham como se eu fosse o Fantasma do Futuro dos Advogados Fracassados.

- Não é tão ruim - tento dar um sorriso animado. - A gente ganha canapés grátis!

- Então você comete um erro... e é isso? – engole em seco a garota que largou seu éclair. - Sua carreira de advogada se arruína para sempre?

- É... praticamente - assinto. – Éclair?

Mas ninguém parece ter mais fome. Na verdade todos parecem profundamente incomodados.

- Acho que vou... voltar à minha mesa – gagueja o cara de óculos sem aro. – Só verificar se não há nada importante...

- Eu também - diz a garota, largando sua taça.

- Samantha Sweet está aqui! - Ouço subitamente outro estagiário sussurrar a um grupo de advogados iniciantes. - Olhem! Ela virou garçonete!

- Não! - Ofego. - Não conte a mais ninguém...

Tarde demais. Vejo todas as pessoas do grupo se virando para mim com idênticas expressões de horror embaraçado.

Por um instante fico tão mortificada que quero me enrolar ali mesmo. Essas são as pessoas com quem eu trabalhava. E agora estou vestida com roupa de listra servindo-as.

Mas então, lentamente, uma sensação de desafio se endurece dentro de mim.

Fodam-se, pego-me pensando. Por que eu não deveria trabalhar como garçonete?

- Oi - digo sacudindo os cabelos. - Querem uma sobremesa?

Mais e mais pessoas se viram para me olhar boquiabertas. Ouço os sussurros viajando pelo salão. Os outros garçons estão todos juntos, olhando-me. Cabeças giram em toda parte, como limalha de ferro num campo magnético. Não há sequer um rosto amigável.

- Jesus Cristo! - ouço alguém murmurar. – Olhem para ela.- Ela deveria estar aqui? - exclama alguém.

- Não - digo tentando parecer composta. – Você está certa. Não deveria.

Faço menção de sair, mas agora a confusão está ao meu redor. Não consigo encontrar uma saída. E então meu estômago se encolhe. Através de uma abertura na multidão vejo um cabelo lanoso e familiar.

Bochechas vermelhas familiares. Um sorriso jovial e conhecido.

Arnold Saville.

Nossos olhares se encontram através do salão, e ainda que ele continue sorrindo, há em seu olhar uma dureza que nunca vi antes. Uma raiva especial, apenas para mim.

Sinto-me enjoada olhando de volta. Quase com medo. Não de sua raiva -mas de sua duplicidade. Ele enganou todo mundo. Para todo mundo neste salão, Arnold Saville está no mesmo nível do Papai Noel. Um caminho se abriu na multidão e ele vem para mim, segurando uma taça de champanha.

- Samantha - diz em tom agradável. - Isso é apropriado?

- Você me baniu do prédio - ouço-me atirando de volta. - Não tive muita escolha.

Ah, meu Deus. Resposta errada. Cortante demais.

Preciso me controlar, caso contrário vou perder esta conversa. Já estou em desvantagem suficiente, parada aqui vestida de garçonete, sendo olhada por todo o salão como se fosse algo que o cachorro arrastou. Preciso ficar calma, firme e inspirada.

Mas ver Arnold em carne e osso depois de todo esse tempo me desequilibrou. Por mais que tente ficar calma, não posso. Meu rosto está queimando, meu peito arfa dolorosamente. Todas as emoções e os traumas das últimas semanas subitamente irrompem dentro de mim num jorro de ódio.

- Você fez com que eu fosse demitida. - As palavras explodem antes que eu possa impedir. – Você mentiu.

- Samantha, sei que deve ser um tempo muito difícil para você. - Arnold tem o ar de um professor diante de um aluno mal-comportado. - Mas, realmente ... - Ele se vira para um homem que não conheço e revira os olhos. - Ex-empregada - diz baixinho. Mentalmente instável.

O quê? O quê?

- Não sou mentalmente instável - grito horrorizada. - Simplesmente quero saber a resposta a uma perguntinha. É muito simples. Quando, exatamente, você pôs o memorando na minha mesa?

Arnold dá um riso incrédulo.

- Samantha, estou me aposentando. Esta é realmente a hora? Será que alguém poderia se livrar dela? -

acrescenta num aparte.

- Por isso você não queria que eu voltasse ao escritório, não é? - Minha voz treme de indignação. Porque eu poderia começar a fazer perguntas complicadas. Porque eu poderia deduzir.

Um pequeno frisson percorre o salão. Mas não de um jeito positivo. Ouço pessoas murmurando: "pelo amor de Deus" e "como ela entrou aqui?" Se quiser manter alguma credibilidade ou dignidade devo parar de falar agora. Mas não consigo.

- Eu não cometi aquele erro, não foi? - Vou na direção dele. - Você me usou. Você destruiu minha carreira,viu minha vida inteira desmoronar...

- Realmente - diz Arnold, virando-se. - Isso já nem é mais uma piada.

- Só responda à pergunta! - grito para as costas dele. - Quando você pôs o memorando na minha mesa, Arnold? Porque não acredito que ele estava ali antes do fim do prazo.

- Claro que estava. - Arnold se vira brevemente, entediado e me descartando. - Eu entrei no seu escritório em 28 de maio.

28 de maio?

De onde veio 28 de maio? Por que isso parece errado?

- Não acredito - digo numa raiva impotente. - Simplesmente não acredito. Acho que você armou para mim. Acho ...

- Samantha? -Alguém segura meu ombro e eu viro, vendo Ernest, o segurança. Seu rosto familiar; nodoso, está franzido sem jeito. - Terei de pedir que você se retire...

Sinto um choque de humilhação. Eles estão me expulsando de verdade? Depois de praticamente ter morado aqui por sete anos da minha vida? Sinto os últimos fiapos de compostura desaparecendo. Quentes lágrimas de fúria pressionam em meus olhos.

- Só saia, Samantha - diz Oliver Swan cheio de pena. - Não se envergonhe ainda mais.

Encaro-o por alguns segundos, depois transfiro meu olhar para cada um dos sócios, sucessivamente.

- Eu era uma boa advogada - digo com a voz trêmula. - Fazia um bom trabalho. Todos vocês sabem. Mas vocês simplesmente me apagaram, como se eu nunca tivesse existido. - Engulo o calombo na garganta. -

Bem, vocês é que perderam.

A sala fica totalmente silenciosa quando pouso a bandeja de éclairs numa mesa e saio. No momento em que passo pela porta ouço uma conversa animada começando atrás de mim.

Desço o elevador com Ernest em silêncio total. Se eu dissesse alguma coisa poderia irromper em lágrimas. Não a credito que ferrei meu plano a tal ponto. Fracassei em encontrar alguma coisa nova. Fui reconhecida. Perdi a moral na frente de todo mundo. Sou mais motivo de piada do que antes.

Quando saio do prédio verifico o celular. Há uma mensagem de texto de Nat, perguntando como foram as coisas. Leio várias vezes, mas não consigo me obrigar a responder. Nem consigo me obrigar a voltar à casa dos Geigers. Mesmo que eu provavelmente ainda pudesse pegar um trem, não posso encará-los esta noite.

 

No piloto automático vou para a estação e pego um metrô. Vejo meu rosto refletido na janela, pálido e inexpressivo. O tempo todo minha mente está zumbindo. 28 de maio. 28 de maio.

Só descubro a resposta quando estou chegando ao meu prédio. 28 de maio. Exposição de Flores de Chelsea. Claro. Ficamos em Chelsea o dia inteiro em 28 de maio: Arnold, Ketterman, Guy e eu, fazendo algum social corporativo. Arnold veio direto de Paris e depois foi levado para casa. Ele nem esteve no escritório.

Ele mentiu. Claro que sim. Sinto uma raiva cansada subindo por dentro. Mas não há nada que possa fazer. Ninguém vai acreditar em mim. Vou passar o resto da vida com todo mundo acreditando que o erro foi meu.

Saio no meu andar, já procurando a chave, esperando sem esperanças que a Sra. Farley não ouça, já planejando um longo banho quente. E então, quando estou quase diante da porta, paro. Fico imóvel por alguns segundos, pensando com força.

Lentamente giro e volto ao elevador. Há mais uma chance. Não tenho nada a perder.

Subo dois andares e saio do elevador. O andar é quase idêntico ao meu: o mesmo carpete, o mesmo papel de parede, as mesmas lâmpadas. Apenas números diferentes nas portas dos apartamentos. 31 e 32.

Não lembro qual é, por isso vou ao 31. Tem um capacho mais macio. Afundo no chão, pouso minha bolsa, me encosto na porta e começo a esperar.

Quando Ketterman sai do elevador estou exaurida. Fiquei sentada ali durante três horas inteiras, sem nada para comer ou beber. Sinto-me abatida e exausta. Mas ao vê-lo fico de pé, segurando a parede quando sinto um jorro de fadiga.

Por um momento Ketterman parece chocado. Depois retoma sua expressão pétrea usual.

- Samantha. O que está fazendo aqui?

Ali parada, imagino se ele soube que fui ao escritório. Deve ter sabido. Deve ter ouvido toda a história medonha. Não que vá ligar para isso.

- O que está fazendo aqui? - repete ele. Está segurando uma enorme pasta de metal numa das mãos e seu rosto parece sombreado sob as luzes artificiais.

Dou um passo adiante.

- Sei que sou a última pessoa que você quer ver. Esfrego a testa dolorida. -Acredite, eu também não gostaria de estar aqui. Dentre todas as pessoas no mundo a quem eu poderia pedir ajuda ... você seria a última. Você é a última.

Paro um momento. Ketterman nem se abala.

- Portanto o fato de que estou aqui, procurando você... deveria provar... – olho desesperada. – Estou falando sério. Tenho algo a dizer e você precisa ouvir. Precisa.

Há um longo silêncio entre nós. Posso ouvir um carro freando na rua lá fora e alguém gargalhando. O

rosto de Ketterman continua rígido. Não sei o que está pensando. Então, por fim, enfia a mão no bolso para pegar uma chave. Passa por mim, destranca a porta do apartamento 32 - e finalmente se vira.

- Entre.