Samantha Sweet, Executiva do Lar
Um
Você se consideraria estressada?
Não. Não sou estressada.
Sou... ocupada. Muita gente é ocupada. O mundo é assim. Tenho um emprego de alto nível, minha carreira é importante e eu gosto dela.
OK, algumas vezes fico meio tensa. Meio pressionada. Mas sou advogada no centro financeiro de Londres, pelo amor de Deus. O que você esperaria?
Estou apertando tanto a caneta na página que rasguei o papel. Droga. Não faz mal. Vamos à próxima pergunta.
Em média, quantas horas por dia você passa no escritório?
14
12
8
Depende.
Você faz exercícios regularmente?
Nado regularmente
Nado ocasionalmente
Pretendo começar um regime regular de natação. Quando tiver tempo. Ultimamente ando cheia de trabalho; é um pico de atividade.
Você bebe oito copos d’água todo dia?
Sim
De vez em q
Não.
Pouso a caneta e pigarreio. Do outro lado da sala, Maya ergue os olhos enquanto arruma todos os seus potezinhos de cera e esmalte de unha. Maya é minha terapeuta de beleza para o dia. Tem cabelos escuros compridos, presos numa trança com uma madeixa branca entrelaçada, e um minúsculo piercing de prata no nariz.
- Tudo bem com o questionário? – pergunta com sua voz macia.
- Eu disse que estou com um pouco de pressa – respondo com educação. – Todas essas perguntas são absolutamente necessárias?- Gostamos de ter o máximo possível de informações para avaliar suas necessidades de beleza e saúde. –diz ela num tom tranqüilizador mas ainda assim implacável.
Olho meu relógio. Nove e quarenta e cinco.
Não tenho tempo para isso. Realmente não tenho tempo. Mas é meu presente de aniversário e eu prometi à tia Patsy.
Para ser mais exata, é o presente de aniversário do ano passado. Tia Patsy me deu o vale para uma “Experiência Anti-estresse Definitiva” há pouco mais de um ano. Ela é irmã da minha mãe e tem enormes preocupações a respeito de mulheres com carreiras profissionais. Toda vez que a encontro ela segura meus ombros e olha meu rosto com a testa num franzido ansioso. E no cartão que acompanhou o vale ela escreveu: “Arranje um tempinho pra você, Samantha!!!”
E eu pretendia arranjar, realmente. Mas tivemos uns dois períodos movimentados no trabalho e, de algum modo, um ano se passou sem que eu encontrasse um momento livre. Sou advogada na Carter Spink, e no momento as coisas andam bem confusas. É um pico de atividade. Vai melhorar. Só preciso passar pelas próximas duas semanas.
Bem, aí a tia Patsy mandou o cartão de aniversário deste ano – e de repente percebi que o cupom estava a ponto de perder a validade. Portanto aqui estou, no meu vigésimo nono aniversário. Sentada num sofá com roupão de atoalhado branco e uma surreal calçola de papel. Com uma folga de meio dia. No máximo.
Você fuma?
Não.
Você bebe álcool?
Sim.
Come regularmente refeições feitas em casa?
Levanto os olhos, meio na defensiva. O que isso tem a ver? O que torna superiores as comidas feitas em casa?
Tenho uma dieta nutritiva e variada, escrevo por fim.
O que é absolutamente verdadeiro.
De qualquer modo, todo mundo sabe que os chineses vivem mais do que nós – portanto o que seria mais saudável do que comer a comida deles? E pizza vem do Mediterrâneo. Provavelmente é mais saudável do que uma refeição feita em casa.
Você acha que sua vida é equilibrada?
Sim.
N
Sim.
- Acabei – falo e devolvo as páginas a Maya, que começa a ler minhas respostas. Seu dedo está viajando pelo papel a ritmo de lesma. Como se tivéssemos todo o tempo do mundo.
E ela pode muito bem ter. Mas, eu realmente, preciso estar de volta ao escritório à uma.
- Li suas respostas com atenção – Maya me lança um olhar pensativo - e você é obviamente uma mulher bastante estressada.
O quê? De onde ela tirou isso? Coloquei especificamente no formulário que não sou estressada.
- Não sou não. – E dou-lhe um sorriso relaxado, do tipo “veja como não sou estressada”.
Maya não parece convencida.
- Seu trabalho obviamente causa muita pressão.
- Eu rendo mais sob pressão – explico. O que é verdade. Sei disso a meu respeito desde...
Bem, desde que minha mãe disse, quando eu tinha uns oito anos. Você rende mais sob pressão, Samantha. Toda a nossa família rende mais sob pressão. É como se fosse o lema de nossa família, ou algo assim.
Menos meu irmão Peter, claro. Ele teve um colapso nervoso. Mas o resto de nós.
Adoro meu emprego. Adoro a satisfação de descobrir um furo num contrato. Adoro a adrenalina de fechar um acordo. Adoro a empolgação de negociar, discutir e levantar o melhor argumento na sala.
Acho, só ocasionalmente, que me sinto como se alguém estivesse empilhando pesos em cima de mim.
Como enormes blocos de concreto, um em cima do outro, e preciso segurá-los sempre, não importa o quanto eu esteja exausta...
Mas todo mundo provavelmente se sente assim. É normal.
- Sua pele está muito desidratada. – Maya balança a cabeça. Passa a mão hábil pela minha bochecha e pousa os dedos embaixo do queixo, parecendo preocupada. – Seu ritmo cardíaco está muito alto. Isso não é saudável. Está se sentindo particularmente tensa no momento?
- Tenho bastante trabalho atualmente – dou de ombros. – É só um pico de atividade. Estou bem. –Podemos ir em frente com isso?- Bem. – Maya se levanta. Em seguida aperta um botão na parede e uma suave música de flauta de pã preenche o ar. – Só posso dizer que você veio ao lugar certo, Samanha. Nosso objetivo aqui é desestressar, revitalizar e desintoxicar.
- Ótimo – digo, ouvindo só pela metade. Acabei de lembrar que não retornei o contato com David Elldridge sobre aquele contrato de petróleo com a Ucrânia. Pretendia ligar para ele ontem. Merda.
- O objetivo do Centro Árvore Verde é proporcionar um porto seguro de tranqüilidade, longe de suas preocupações cotidianas. – Maya aperta outro botão na parede e a luz diminui até uma penumbra. – Antes de começarmos – diz ela em voz baixa -, você tem alguma pergunta?
- Na verdade, sim. – Inclino-me para a frente.
- Bom! – Ela ri de orelha a orelha. – Está curiosa com os tratamentos de hoje ou é algo mais geral?
- Será que eu poderia mandar um e-mail rápido? – pergunto educadamente.
O sorriso de Maya congela.
- Samantha, Samantha... – Maya balança a cabeça. – Você está aqui para relaxar. Tirar um momento para você. Não para mandar e-mails. Isso é uma obsessão! Um vício! Tão maligno quanto o álcool. Ou a cafeína.
Pelo amor de Deus, não sou obcecada. Quero dizer, isso é ridículo. Checo meus e-mails mais ou menos uma vez a cada... trinta segundos, talvez.
O negócio é que muita coisa pode mudar em 30 segundos.
- E além disso, Samantha – Maya continua. – você está vendo algum computador nesta sala?
- Não – respondo, olhando obedientemente a salinha em penumbra ao redor.
- Por isso pedimos para deixar todos os equipamentos eletrônicos no cofre. Não são permitidos celulares.
Nem computadores pequeninos. – Maya abre os braços. – Isso é um retiro. Uma fuga do mundo.
- Certo – confirmo humildemente.
Bom, provavelmente esta não é a hora de revelar que tenho um BlackBerry* escondido na minha calçola de papel.
- Então vamos começar. – Maya sorri. – Deite-se no divã, sob uma toalha. E, por favor, tire o relógio.
- Eu preciso do relógio!
- É outro vício. – Ela estala a língua, reprovando. – Você não precisa saber as horas enquanto estiver aqui.
Ela se vira discretamente e, com relutância, tiro o relógio. Então, meio sem jeito, me arranjo no divã, tentando não esmagar meu precioso BlackBerry.
Vi a regra sobre não trazer equipamento eletrônico. E realmente abri mão do meu gravador. Mas três horas sem um BlackBerry? Puxa, e se acontecer alguma coisa no escritório? E se houver uma emergência?
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*Espécie de computador de mão que une bem o telefone e a internet, permitindo ao usuário enviar e receber e-mails.
( N. do T.)
E nem faz sentido em termos lógicos. Se realmente quisessem que as pessoas relaxassem deixariam que elas ficassem com os BlackBerries e os celulares; não iriam confiscá-los.
De qualquer modo, ela não o verá embaixo da toalha.- Vou começar com uma massagem relaxante nos pés – diz Maya, e sinto-a passando algum tipo de loção nos meus pés. – Tente esvaziar a mente.
Olho com obediência para o teto. Esvaziar a mente. Minha mente está vazia como... vidro transparente.
O que vou fazer com relação ao Elldridge? Deveria ter entrado em contanto. Ele deve estar esperando uma resposta. E se ele disser aos outros sócios que fui relaxada? E se isso afetar as chances de me tornar sócia?
Sinto uma trava de alarma. Esta não é a hora de deixar alguma coisa ao acaso.
- Tente se livrar de todos os pensamentos... – entoa Maya. – Sinta a liberação da tensão...
Talvez eu pudesse mandar um e-mail bem rápido para ele. Por baixo da toalha.
Disfarçadamente baixo a mão e sinto o canto duro do meu BlackBerry. Gradualmente, tiro-o da calçola de papel. Maya continua massageando meus pés, totalmente sem notar.
- Seu corpo está ficando pesado... sua mente deve estar se esvaziando...
Puxo o BlackBerry para o peito até que consigo ver a tela por baixo da toalha. Graças a Deus a sala está tão escura. Tentando manter os movimentos no mínimo, começo furtivamente a digitar um e-mail com uma das mãos.
- Relaaaxe... – está dizendo Maya em tom tranqüilizador. – Imagine que está andando numa praia...
- Ahã... – murmuro.
David, estou digitando. Ref contrato petróleo ZFN. Li emendas. Acho que nossa resposta deveria ser - O que você está fazendo? – pergunta Maya, subitamente alerta.
- Nada! – digo enfiando rapidamente o BlackBerry de volta sob a toalha. – Só... é... relaxando.
Maya rodeia o divã e olha o volume na toalha, onde estou segurando o BlackBerry.
- Está escondendo alguma coisa? – pergunta incréSama.
- Não!
De baixo da toalha, o BlackBerry emite um pequeno bip. Droga.
- Acho que foi um carro – digo, tentando parecer casual. – Lá fora na rua.
Os olhos de Maya se estreitam.
- Samantha – diz ela num tom vagaroso e agourento. – Você está com um equipamento eletrônico aí embaixo?
Tenho a sensação de que, se eu não confessar, ela vai arrancar minha toalha de qualquer modo.
- Eu só estava mandando um e-mail – respondo finalmente e, desenxabida, mostro o BlackBerry.
- Vocês, viciados em trabalho! – Ela tira-o da minha mão, exasperada. – Os e-mails podem esperar.
Tudo pode esperar. Você simplesmente não sabe como se relaxa!
- Não sou viciada em trabalho! – retruco cheia de indignação. – Sou advogada! É diferente!
- Você está na fase da negação. – Ela balança a cabeça.
- Não estou! Olha, nós temos uns negócios importantes na firma. Não posso simplesmente me desligar!
Especialmente agora. Estou... bem, a ponto de ser admitida como sócia. Enquanto digo as palavras em vol alta sinto a pontada familiar de nervosismo. Sócia de uma das maiores firmas de advocacia do país. A única coisa que sempre quis na vida.
- Qualquer um pode tirar umas duas horas de folga – interrompe Maya. Em seguida põe a mão em meus ombros. – Samantha, você está incrivelmente nervosa. Seus ombros estão rígidos, o coração disparado...
parece à beira de um ataque.
- Estou bem.
- Está uma pilha de nervos!
- Não estou!
- Você precisa se decidir a reduzir o ritmo, Samantha. – Ela me olha séria. – Só você pode decidir a mudança de sua vida. Vai fazer isso?
- É... bem...
Paro com um ruído de surpresa, quando de dentro da calçola de papel vem um tremor.
Meu celular. Enfiei-o ali, junto com o BlackBerry, e coloquei no “vibrar” para não fazer barulho.
- O que é isso? – Maya está olhando boquiaberta para minha toalha tremelicante. – O que, diabos, é essa... tremedeira?
Não posso admitir que é um telefone. Não depois do BlackBerry.
- É... – pigarreio. – É meu... brinquedinho do amor.
- Seu o quê? – Maya parece perplexa.
O telefone treme de novo dentro da minha calça. Preciso atender. Pode ser do escritório.
- Ah... sabe, eu estou chegando a um momento meio íntimo agora. – Dou um olhar significativo para Maya. – Será que você poderia, é... sair da sala?
A suspeita salta nos olhos de Maya.
- Espere um momento! – Ela espia de novo. - Há um telefone aí embaixo? Você contrabandeou um celular também?
Ah, meu Deus. Ela parece furiosa.
- Olhe – digo, tentando pedir desculpa. – Sei que vocês tem suas regras e coisa e tal, e respeito isso, mas o negócio é que eu preciso do meu celular. – Enfio a mão sob a toalha para pegar o telefone.
- Deixe isso! – o grito de Maya me pega de surpresa. – Samantha – diz ela, fazendo um esforço óbvio para manter a calma. - Se você ouviu ao menos uma palavra do que eu disse, vai desligar o telefone agora mesmo.
O telefone vibra de novo na minha mão. Olho o identificador de chamadas e sinto um aperto no estômago.
- É do escritório.
- Eles podem deixar recado. Podem esperar.
- Mas...
- Este é o seu tempo particular. – Ela se inclina à frente e aperta minhas mãos, séria. – O seu tempo particular.
Meu Deus, ela realmente não entende, não é? Quase quero rir.
- Sou advogada da Carter Spink – explico. – Não tenho tempo particular. – Abro o telefone e uma voz masculina e raivosa vem pela linha.
- Samantha, onde, diabos, você está?
Sinto uma trava por dentro. É Ketterman. O chefe do nosso departamento. Ele deve ter um primeiro nome, acho, mas ninguém o chama de nada além de Ketterman. Tem cabelo preto, óculos de aço e olhos cinza parecendo verrumas, e quando entrei para a Carter Spink tinha pesadelos com ele.
- O acordo com os Fallons está de pé outra vez. Volte para cá agora mesmo. Reunião às dez e meia.
De pé outra vez?
- Estarei aí assim que puder. – Fecho o telefone e dou um olhar pesaroso a Maya. – Desculpe.
Não sou viciada no meu relógio.
Mas obviamente dependo dele. Você também dependeria, se seu tempo fosse medido em segmentos de seis minutos. Cada seis minutos de minha vida profissional deve ser faturado com um cliente. Tudo vai para uma planilha computadorizada, em nacos identificados.
11h a 11h06 Esbocei contrato para o Projeto A.
11h06 a 11h12 Emendei a documentação para o Cliente B.
11h12 a 11h18 Consultei sobre ponto do Acordo C
Quando entrei para a Carter Spink isso me deixou ligeiramente pirada, a idéia de que precisava escrever em quê estava trabalhando a cada minuto do dia. Costumava pensar: e se eu não fizer nada por seis minutos? O que deveria escrever?
11h a 11h06 Olhei sem objetivo pela janela
11h06 a 11h12 Fantasiei que esbarrava no George Clooney na rua 11h12 a 11h18 Tentei tocar o nariz com a língua
Mas a verdade é que a gente se acostuma. A gente se acostuma a medir a vida em pedacinhos. E se acostuma a trabalhar. O tempo todo.
Se você for advogada na Carter Spink, não fica sentada à toa. Não olha pela janela nem fantasia. Não quando cada seis minutos do seu tempo vale tanto. Coloque do seguinte modo: se eu deixar que seis minutos passem tiquetaqueando sem fazer nada, desperdicei 50 libras da firma. Doze minutos, 100 libras.
Dezoito minutos, 150 libras.
Como digo, os advogados da Carter Spink não ficam sentados à toa.