Samantha Sweet, Executiva do Lar

Sophie Kinsella · Capítulo 10 de 25

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Samantha Sweet, Executiva do Lar

Nove

Vai ficar tudo bem.

Se eu disser isso bastante para mim mesma, deve ser verdade.

Sei que preciso ligar para o Guy. Abri o telefone várias vezes para fazer isso. Mas a cada vez a humilhação me impediu. Mesmo ele sendo meu amigo; mesmo sendo a pessoa mais próxima de mim na companhia. Eu é que fui demitida. Eu é que estou em desgraça. E ele não.

Por fim me empertigo na cadeira e esfrego as bochechas, tentando recuperar o ânimo. Ora. É o Guy. Ele vai querer notícias minhas. Vai querer ajudar. Abro o telefone e ligo para a sua linha direta. Um instante depois escuto passos no piso de madeira do corredor.

Trish.

Fecho o telefone num gesto imperceptível, enfio no bolso e pego um maço de brócolis.

- Como está indo? - pergunta ela. – Fazendo progresso?

Quando entra na cozinha ela parece meio surpresa ao me ver ainda sentada no mesmo local onde me deixou.

- Tudo bem?

- Só estou ... avaliando os ingredientes - improviso. - Sentindo-os.

Nesse momento outra loura aparece à porta, perto de Trish. Está usando óculos com strass na cabeça e me olha com interesse ávido.

- Sou Petula - anuncia. - Como vai?

- Petula acaba de comer um dos seus sanduíches explica Trish. - Achou maravilhoso.

- E ouvi falar do foie gras com cobertura vidrada de abricó! - Petula ergue as sobrancelhas. - Muito impressionante!

- Samantha é capaz de cozinhar qualquer coisa! - alardeia Trish, rósea de orgulho. - Estudou com Michel de Ia Roux de Ia Blanc! O próprio mestre!

- Então como, exatamente, você vai fazer a cobertura do foie gras, Samantha? - pergunta Petula com interesse.

A cozinha fica silenciosa. As duas estão esperadas, boquiabertas.

- Bem. - Pigarreio várias vezes. - Acho que vou usar o... método usual. A palavra "vidrada" obviamente vem da natureza transparente da... é... do acabamento ... complementa o... gras. Foie - emendo. - Du gras.

A ... mistura dos sabores.

Não estou fazendo absolutamente nenhum sentido, mas nem Trish nem Petula parecem ter notado. Na verdade ambas parecem totalmente impressionadas.

- Onde, afinal, você a encontrou? – pergunta Petula a Trish, com o que ela imagina claramente que seja um tom discreto. - Minha empregada é imprestável. Não sabe cozinhar e não entende uma palavra do que eu digo.

- Ela apareceu vinda do nada! - murmura Trish de volta, ainda ruborizada de prazer. - Cordon bleu!

Inglesa! Não pudemos acreditar!

As duas me olham como se eu fosse algum animal raro com chifres brotando da cabeça.

Não suporto mais isso.

- Posso fazer um pouco de chá e levar para as senhoras na estufa? -pergunto desesperada.

- Não, vamos sair para fazer as unhas - diz Trish. – Vejo você mais tarde, Samantha.

Há uma pausa cheia de expectativa. De repente percebo que Trish está esperando minha reverência.

Começo a pinicar inteira, de embaraço. Por que fiz uma reverência. Por que fiz uma reverência?

- Muito bem, Sra. Geiger. - Baixo a cabeça e faço uma mesura sem jeito. Quando espio para cima, os olhos de Petula estão arregalados.

Assim que as duas saem ouço Petula sibilando.

- Ela faz reverência? Ela faz reverência para você?

- É um simples sinal de respeito - ouço Trish respondendo com ar de superioridade. - Mas muito eficaz...

Sabe, Petula, você realmente deveria tentar com sua empregada...

Ah, meu Deus. O que eu comecei?

Espero até que o som de saltos batendo desapareça por completo. Então, indo até a despensa, por segurança, abro o telefone e aperto a tecla para repetir o número do Guy. Depois de três toques ele atende.

- Samantha. - Ele parece contido. - Oi. Você...

- Tudo bem, Guy. - Fecho os olhos com força, brevemente. - Falei com Ketterman. Eu sei.

- Ah, meu Deus, Samantha. - Ela expira com força. - Lamento tanto isso ter acontecido! Lamento tanto ...

Não suporto sua piedade. Se ele falar mais alguma coisa posso cair no berreiro.

- Tudo bem - digo interrompendo-o. - Verdade. Não vamos falar disso. Só vamos ... olhar para a frente.

Tenho de recolocar a vida nos trilhos.

- Meu Deus, você é concentrada! – Há uma nota de admiração em sua voz. – Não deixa que nada a abale, não é?

Tiro o cabelo do rosto. Está seco, maltratado e cheio de pontas duplas.

- Só preciso ... continuar com a vida. De algum modo consigo manter a voz firme. - Preciso voltar a Londres. Mas não posso ir para casa. Ketterman comprou um apartamento no meu prédio. Ele mora lá.

- É, ouvi falar nisso. - Posso ouvir a repugnância na voz de Guy. - Que azar!

- Simplesmente não posso encará-lo, Guy. – Sinto a ameaça de lágrimas outra vez e me obrigo a respirar fundo. - Então ... eu estava pensando. Será que eu poderia ficar na sua casa um tempo? Só uns dias?

Há um silêncio. Eu não estava esperando silêncio.

- Samantha, eu adoraria ajudar - diz Guy final-finalmente. - Mas terei de verificar com Charlotte.

- Claro - concordo meio abalada.

- Só fique na linha um segundo. Vou ligar para ela.

No instante seguinte sou posta em espera. Fico sentada esperando, ouvindo a musiquinha de cravo, tentando não me sentir frustrada. Era pouco razoável esperar que ele concordasse imediatamente. Claro que tem de resolver primeiro com a namorada.

Por fim Guy volta à linha.

- Samantha, não sei se vai ser possível.

Sinto uma pancada de incredulidade.

- Certo. - Tento sorrir; parecer natural; como se isso fosse não grande coisa.- Bem, não faz mal. Não importa.

- Charlote está muito ocupada neste momento... nós estamos fazendo obras nos quartos... de modo que não é um bom momento...

Ele parece hesitante, como se quisesse desligar. E de repente percebo. Não tem a ver com Charlotte. É só uma grande desculpa. Ele não quer ficar perto de mim. É como se minha desgraça fosse contagiosa; como se a carreira dele pudesse ser prejudicada também.

Ontem eu era sua melhor amiga. Ontem, quando estava para virar sócia, ele se pendurava na minha mesa cheio de sorrisos e gracinhas. E hoje não quer saber.

Sei que deveria ficar quieta, manter a dignidade, mas simplesmente não consigo me conter.

- Você não quer ser associado a mim, não é? - digo bruscamente.

- Samantha! - Sua voz está na defensiva. – Não seja ridícula.

- Ainda sou a mesma pessoa. Achava que você era meu amigo, Guy.

- E sou seu amigo! Mas você não pode esperar que eu... eu preciso pensar em Charlotte... nós não temos tanto espaço assim... Olhe, ligue para mim daqui a uns dois dias, talvez possamos nos encontrar para uma bebida...

- Realmente, não se preocupe. - Tento controlar a voz. - Desculpe ter incomodado você.

- Espera! - exclama ele. - Não desligue! O que vai fazer?

- Ah, Guy. - Consigo dar um risinho. – Como se você realmente se importasse.

Desligo o telefone, tonta de incredulidade. Tudo mudou. Ou talvez ele não tenha mudado. Talvez Guy tenha sido sempre assim e eu simplesmente nunca tenha percebido.

Olho a tela minúscula do telefone, respirando fundo, vendo os segundos passar. Imaginando o que farei em seguida. Quando ele subitamente vibra na minha mão, quase pulo fora da pele. Tennyson, está dizendo a tela.

Mamãe.

Sinto um aperto de apreensão por dentro. Acho que ela soube. Creio que eu devia saber que isso viria.

Eu poderia ficar hospedada com ela, ocorre-me. Que estranho.

Nem pensei nisso antes. Abro o telefone e respiro fundo.

- Oi, mãe.

- Samantha. - Sua voz rasga meu ouvido sem perambulo. - Quanto tempo você deixaria passar, exatamente, antes de me falar de sua derrocada? Tenho de saber sobre a desgraça da minha própria filha numa piada pela internet. - Ela pronuncia as palavras com repulsa.

- Uma piada pela internet? - ecôo debilmente. Como assim?

- Você não sabia? Parece que em alguns círculos jurídicos a nova expressão para cinqüenta milhões de libras é "uma Samantha". Acredite, não achei engraçado.

- Mamãe, sinto muito ...

- Pelo menos a história foi contida dentro do meio jurídico. Falei com a Carter Spink e eles garantiram que a coisa não vai mais longe. Você deveria agradecer.

- Eu ... acho que sim.

- Onde você está? - Ela interrompe minhas palavras hesitantes. - Onde você está agora?

Numa despensa rodeada por caixas de cereal.

- Estou ... na casa de uma pessoa. Fora de Londres.

- E quais são seus planos?

- Não sei. – Esfrego o rosto. – Preciso... me concentrar. Encontrar um emprego.

- Um emprego - diz ela cheia de escárnio. – Acha que alguma firma de advocacia importante vai tocar em você agora?

Encolho-me diante de seu tom.

- Eu ... não sei. Mamãe, acabo de saber que fui demitida. Não posso simplesmente ...

- Pode. Felizmente eu agi por você.

Ela agiu por mim?

- O que você...

- Liguei para todo mundo que me deve favores. Não foi fácil. Mas o sócio principal da Fortescues vai recebê-la amanhã às dez horas.

Olho o telefone, incrédula.

- Você marcou uma entrevista de emprego para mim?

- Presumindo que tudo dê certo, você vai entrar num nível adjunto elevado.- Sua voz é ríspida. - Está recebendo esta chance como um favor pessoal a mim. Como pode imaginar, há... reservas. Portanto, se quiser progredir, Samantha, terá de ter bom desempenho. Terá de dar a esse emprego todas as horas do dia.

- Certo. - Fecho os olhos com os pensamentos em redemoinho. Tenho uma entrevista de emprego. Um recomeço. É a solução para o meu pesadelo.

Por que não me sinto mais aliviada? Mais feliz?

- Terá de dar mais do que deu na Carter Spink continua mamãe no meu ouvido. - Nada de vadiagem.

Nada de complacência. Terá de se provar em dobro. Entende?

- Sim - digo automaticamente.

Mais horas. Mais trabalho. Mais noites em claro.

É quase como se os blocos de concreto estivessem sendo postos em cima de mim outra vez. Cada vez mais. Cada vez mais pesados.

- Quero dizer, não - ouço-me dizendo. - Não. Não quero isso. Não quero. Não posso ... é demais ...

As palavras saem da minha boca sozinhas. Eu não estava planejando; nem mesmo as pensei antes. Mas agora estão no ar parecem de algum modo ... verdadeiras.

- Perdão? - A voz de mamãe soa afiada. - Samantha, o que, diabos, você disse?

- Não sei. - Estou fazendo massagem na testa, tentando entender minha própria confusão. - Eu estava pensando ... que poderia dar um tempo, talvez.

- Um tempo acabaria com sua carreira no direito. - sua voz estala, definitiva. - Acabaria com ela.

- Eu poderia fazer outra coisa.

- Você não duraria mais de dois minutos em nenhuma outra coisa! - Ela parece cheia de afronta. -

Samantha, você é uma advogada. Formou-se como advogada.

- Há outras coisas no mundo, além de ser advogada! - grito cheia de irritação.

Há um silêncio maligno.

- Samantha, se você está tendo algum tipo de colapso nervoso ...

- Não! - Minha voz se eleva, perturbada. – Só porque estou questionando minha vida não significa que tenho um colapso! Nunca pedi para você me arranjar outro emprego. Não sei o que quero. Preciso de um tempo para ... pensar.

- Você irá àquela entrevista de emprego, Samantha. - A voz de mamãe parece um chicote. - Estará lá amanhã às dez horas.

- Não!

- Diga onde você está! Vou mandar um carro agora mesmo.

- Não! Me deixe em paz.

Desligo o telefone, saio da despensa e quase selvagemente jogo-o na mesa. Meu rosto está queimando.

Lágrimas se comprimem, quentes, atrás dos olhos. O telefone começa a vibrar com fúria na mesa, mas eu o ignoro. Não vou atender. Não vou falar com ninguém.

Vou tomar uma bebida. E depois vou preparar a porcaria desse jantar.

Jogo um pouco de vinho numa taça e tomo vários goles. Depois vou até a pilha de ingredientes crus que esperam na mesa.

Posso cozinhar. Posso cozinhar esse negócio. Mesmo que tudo o mais na minha vida se arruíne, posso fazer isso. Tenho cérebro, sou capaz de deduzir.

Sem demora rasgo o plástico que cobre o cordeiro. Isso pode ir pro forno. Em algum tipo de bandeja.

Simples. E o grão-de-bico pode ir para lá também. Depois eu o amasso para o hamus.

Abro um armário e tiro um monte de brilhantes bandejas e tabuleiros de assar, escolho um tabuleiro e espalho os grãos-de-bico em cima. Alguns quicam e caem no chão, mas não me importo. Pego uma garrafa de óleo no balcão e derramo um pouco em cima. Já estou me sentindo uma cozinheira.

Enfio o tabuleiro no fomo e ligo no máximo. Depois jogo o cordeiro num prato oval e enfio no fomo também.

Até agora, tudo certo. Só preciso folhear todos os livros de receita de Trish e encontrar instruções para foie gras tostado com cobertura vidrada de abricó.

 

Certo, não havia nenhuma receita de foie gras tostado com cobertura vidrada de abricó. O mais próximo que achei é uma de flã de abricó e framboesa. Talvez eu possa alterá-la.

- Misture manteiga e farinha até ficar quebradiço – leio.

Para começar, isso não faz sentido. Quebradiço? A partir de manteiga e farinha?

Olho a página sem enxergar, com a mente num tumulto. Acabo de estragar o que poderia ser minha única oportunidade de recomeço. Nem entendo por que fiz isso.

Advogada. É isso que sou. O que mais vou fazer? O que aconteceu comigo?

Ah , meu Deus. Por que tem fumaça saindo do forno?

Às sete horas ainda estou cozinhando.

Pelo menos acho que é isso que estou fazendo. Os dois fornos rugem de calor. Panelas borbulham no fogão. A batedeira elétrica zumbe. Queimei a mão direita duas vezes, tirando coisas do forno. Oito livros de receitas estão abertos pela cozinha, um deles encharcado com óleo derramando e outro com clara de ovo. Tenho massa no rosto, suo tremendamente e tento de vez em quando passar a mão sob a água fria.

Estou assim há três horas. E ainda não fiz nada que pudesse ser comido. Até agora descartei um suflê de chocolate desmoronado, duas panelas de cebolas queimadas e uma frigideira com abricós grudados que me deixou enjoada só de olhar.

Não consigo entender o que está errado. Não tive tempo de deduzir o que está errado. Não há âmbito para análise. Toda vez que acontece um desastre eu simplesmente jogo fora e recomeço.

Enquanto isso, os Geigers não fazem idéia. Estão tomando xerez na sala de estar. Acham que tudo vai esplendidamente. Trish tentou entrar na cozinha há cerca de meia hora mas consegui impedir.

Em menos de uma hora ela e Eddie vão estar sentado à mesa esperando uma refeição de gourmet.

Sacudindo os guardanapos com antecipação; servindo-se de água mineral.

Uma espécie de histeria frenética me dominou. Sei que não posso fazer isso. Mas de algum modo também não consigo desistir. Fico pensando que um milagre vai acontecer. Que vou resolver tudo. Que vou conseguir de algum modo ...

Ah, meu Deus, o molho está borbulhando fora da panela.

Fecho a porta do forno, pego uma colher e começo a mexê-lo. Parece uma água marrom, repulsiva e cheia de caroços. Freneticamente começo a procurar nos armários algo para jogar dentro. Farinha. Farinha de milho. Algo do tipo. Isto aqui vai servir. Pego um potinho e sacudo quantidades vigorosas do pó branco, depois enxugo o suor da testa. Certo. E agora?

De repente me lembro das claras de ovos, ainda chacoalhando no liquidificador. Pego o livro de receitas, passando o dedo pela página. Mudei a sobremesa para pavlova depois que, por acaso, encontrei a frase num livro de receitas: "Merengues são fáceis de fazer."

Até agora, tudo bem. E depois? "Colocar a mistura de merengue dura num grande círculo sobre a forma untada com papel.

Olho para a minha tigela. Mistura de merengue dura? A minha está líquida.

Tem de estar certo, digo a mim mesma febrilmente. Tem de estar. Segui as instruções. Talvez esteja mais grossa do que parece. Talvez assim que eu comece a derramar vai fica dura, devido a alguma estranha lei da física culinária.

Lentamente começo a derramá-la no tabuleiro.

Não fica dura. Espalha-se num lago de gosma branca e começa a pingar do tabuleiro no chão, em poças enormes.

Algo me diz que isso não vai fazer um Pavlova de chocolate branco para oito.

Um bocado da mistura cai no meu pé e dou um grito frustrado. Sinto-me à beira das lágrimas. Por que não deu certo? Segui a porcaria da receita e tudo. Uma fúria contida está crescendo por dentro de mim: raiva de mim mesma, de minhas claras de ovo defeituosas de merda, dos livros de culinária, dos cozinheiros, de comida ... E acima de tudo de quem escreveu que os merengues eram “muito fáceis e fazer”.

- Não são! - ouço-me gritando. - Não são mesmo! - Jogo o livro do outro lado da cozinha, onde ele se choca contra a porta.

- Que diabo... - exclama uma voz masculina, cheia de surpresa.

No instante seguinte a porta se abre e Nathaniel esta ali parado, com as pernas parecendo troncos de árvore nos jeans, o cabelo brilhando ao sol do fim de tarde. Há uma mochila em seu ombro; ele parece estar indo para casa.

- Tudo bem?

- Tudo - digo abalada. - Tudo bem. Obrigada. Muito obrigada. - Dispenso-o com a mão, mas ele não se move.

- Ouvi falar que você está preparando um jantar gourmet esta noite - diz ele devagar, olhando a bagunça ao redor.

- É. Isso mesmo. Só estou na ... é... no estágio mais complexo do... ah ... -olho para o fogão e dou um grito involuntário - Merda! O molho!

Não sei o que aconteceu. Bolhas marrons se expandem da minha panela de molho, espalhando-se por todo o fogão e escorrendo pelas laterais até o piso. Parece a história da panela mágica que não pára de fazer mingau.

- Tire isso do fogo, pelo amor de Deus! – exclama Nathaniel. Ele agarra a panela e a coloca longe. – Que diabo tem nisso aí?

- Nada! Só os ingredientes usuais...

Nathaniel notou o potinho na bancada. Pega-o e olha incrédulo.

Fermento? Você coloca fermento no molho? Foi isso que ensinaram na... -ele para e fareja o ar. - Espera aí. Tem alguma coisa queimando?

Olho desamparada enquanto ele abre o forno de baixo, pega uma luva de cozinha com gesto hábil e tira um tabuleiro coberto com o que parecem pequenas balas de espingardas pretas.

Meus grãos-de-bico. Esqueci totalmente deles.

- O que isso deveria ser? - pergunta Nathaniel incrédulo. - Cocô de coelho?- São grãos-de-bico - retruco. Minhas bochechas estão em chamas mas levanto o queixo, tentando recuperar algum tipo de dignidade. - Borrifei com azeite e coloquei no forno para... derreter.

Nathaniel me encara.

- Derreter?

- Amolecer - conserto depressa.

Nathaniel pousa a bandeja e cruza os braços.

- Você sabe alguma coisa de cozinha?

Antes que eu possa responder soa o BANG mais estrondoso no microondas.

- Ah, meu Deus! - grito aterrorizada. -Ah, meu Deus! O que foi isso?

Nathaniel está olhando pela porta de vidro.

- O que, diabos, estava ali? Alguma coisa explodiu.

Minha mente dispara frenética. O que, diabos, coloquei no microondas? Tudo está turvo.

- Os ovos! - lembro de repente. - Eu estava cozinhando os ovos para os canapés.

- No microondas? - protesta ele.

- Para ganhar tempo! - praticamente grito de volta. - Eu estava sendo eficiente.

Nathaniel arranca a tomada do microondas da parede e se vira, com o rosto incrédulo.

- Você não sabe chongas de cozinha! É tudo um blefe! Você não é empregada doméstica. Não sei que diabos está armando, mas ...- Não estou armando nada! - respondo em choque.

- Os Geigers são gente boa. - Ele me encara fixamente. - Não vou deixar que sejam explorados.

De súbito Nathaniel parece realmente agressivo. Ah, meu Deus. O que ele acha? Que sou algum tipo de trambiqueira?

- Olha... por favor. - Esfrego o rosto suado. - Não estou tentando prejudicar ninguém. Certo, não sei cozinhar. Mas vim parar aqui por causa de... um mal entendido.

- Um mal-entendido? - Ele franze a testa cheio de suspeitas.

- É - digo um pouco mais incisivamente do que pretendia. Afundo numa cadeira e massageio a parte inferior das costas, que está doendo. - Eu estava fugindo de... uma coisa. Precisava de um lugar para passar a noite. Os Geigers presumiram que eu era uma empregada doméstica. E na manhã seguinte me senti péssima. Pensei em fazer o serviço durante uma manhã. Mas não estou planejando ficar. E não vou pegar nenhum dinheiro deles, se é isso que você está pensando.

Há silêncio. Por fim levanto a cabeça. Nathaniel está encostado na bancada, os braços enormes cruzados.

A testa franzida e cautelosa se aliviou um pouco. Ele enfia a mão na mochila e pega uma garrafa de cerveja. Oferece e eu balanço a cabeça.

- De quê você estava fugindo?- pergunta ele, abrindo a garrafa.

Sinto um aperto doloroso por dentro. Não posso lhe contar toda a história pavorosa.

- Foi... uma situação. - Baixo a cabeça.

Ele toma um gole de cerveja.

- Um relacionamento ruim?

Por um momento fico em silêncio. Penso em todos os anos que passei na Carter Spink. Todas as horas que lhes dei; tudo que sacrifiquei. Acabado com um telefonema de três minutos.

- É - digo lentamente. - Um relacionamento

- Há quanto tempo você estava nele?

- Sete anos. - Para meu horror, sinto lágrimas escorrendo pelos cantos dos olhos. Não faço idéia de onde elas vieram. - Ah, desculpe. - Engulo em seco. – Foi um dia muito estressante.

Nathaniel rasga um pedaço de toalha de papel do rolo preso à parede ao seu lado e me entrega.

- Se era um relacionamento ruim, você saiu dele - diz com calma. - Não há sentido em permanecer. Não há sentido em olhar para trás.

- Você está certo. - Enxugo os olhos. - É. SÓ preciso decidir o que vou fazer da vida. Não posso ficar aqui. - Estendo a mão para a garrafa de creme de menta que deveria entrar no suflê de chocolate com hortelã, derramo um pouco num conveniente copinho para ovo e tomo um gole.

- Os Geigers são bons patrões - diz Nathaniel com um minúsculo dar de ombros. – Você poderia pegar coisa pior.

- É. - Consigo um meio sorriso. – Infelizmente não sei cozinhar.

Ele pousa a garrafa de cerveja e enxuga a boca. Suas mãos foram lavadas, mas ainda consigo ver traços de terra entranhados ao redor das unhas; nas costuras da pele curtida pelo clima.

- Eu poderia falar com minha mãe. Ela sabe cozinhar. Poderia lhe ensinar o básico.

Olho-o atônita, quase rindo.

- Você acha que eu poderia ficar? Achei que eu era uma trambiqueira. -Balanço a cabeça, encolhendo-me diante do gosto do creme de menta. -Preciso ir embora.

- É uma pena. - Ele dá de ombros. - Seria bom ter por perto alguém que fala inglês. E que faz sanduíches tão fantásticos - acrescenta na maior cara de pau.

Não evito um sorriso de volta.

- Entrega em domicílio.

- Ah. Fiquei imaginando.

Uma leve batida na porta faz os dois olharmos para cima.

- Samantha? - A voz de Trish lá fora é baixa e ansiosa. - Está ouvindo?

- Ah ... estou. - Grito de volta, com a voz meio estrangulada.

- Não se preocupe. Não vou entrar. Não quero atrapalhar nada! Você provavelmente está num estágio muito crucial.

- Mais ou...

Atraio o olhar de Nathaniel e uma súbita onda de histeria me atravessa.

- Eu só queria perguntar - continua Trish – se você vai servir algum tipo de sorvete entre os pratos.

Olho para Nathaniel. Seus ombros estão se sacudindo, num riso silencioso. Não consigo evitar que uma pequena fungadela escape. Aperto a mão sobre a boca desesperadamente, tentando recuperar o controle.

- Samantha?

- Ah ... não - consigo dizer finalmente. – Não haverá nenhum sorvete.

Nathaniel pegou uma das minhas panelas com cebolas queimadas. Faz mímica de pegar uma colherada e comer. Delícia, diz ele sem som. Lágrimas estão escorrendo dos meus olhos. Estou quase asfixiando, tentando ficar quieta.

- Bem! Vejo você depois!

Trish se afasta com os saltos altos fazendo barulho e desmorono num riso desamparado. Nunca ri tanto na vida. Minha costelas doem; estou tossindo; quase sinto que vou vomitar.

Por fim consigo me acalmar de algum modo, enxugo os olhos e assôo o nariz que está escorrendo.

Nathaniel parou de rir também e olha a cozinha detonada ao redor.

- Sério - diz ele -, o que você vai fazer com relação a isso? Eles estão esperando um jantar elegante.

- Eu sei. - Sinto uma nova onda de histeria e luto contra. - Sei que estão. Só terei de... pensar em alguma coisa.

Há silêncio na cozinha. Posso ver Nathaniel olhando com curiosidade as poças brancas de merengue no chão.

- Certo. - Exalo com um ligeiro tremor e empurro o cabelo úmido para trás.- Vou resgatar a situação.

- Você vai resgatar a situação. - Ele parece incrédulo.

- Na verdade, acho que isso pode resolver os problemas de todo mundo. -Levanto-me e começo a jogar pacotes no lixo. - Primeiro tenho de limpar a cozinha um pouco ...

- Vou ajudar. - Nathaniel se levanta. - Isto eu tenho que ver.

 

Juntos esvaziamos potes, panelas e sacolas no lixo. Esfrego todas as superfícies sujas ao mesmo tempo que Nathaniel passa pano no merengue.- Há quanto tempo você trabalha aqui? – pergunto enquanto ele lava o pano na pia.

- Três anos. Eu trabalhava para o pessoal que morava aqui antes dos Geigers, os Ellis. Então Trish e Eddie chegaram, há uns dois anos, e me mantiveram.

Assimilo isso.

- Por que os Ellis se mudaram? É uma casa tão linda!

- Os Geigers fizeram uma oferta que eles não poderiam recusar. - A boca de Nathaniel está se retorcendo com... seria diversão?

- O quê? - pergunto intrigada. - O que aconteceu?

- Bem... - Ele larga o pano. - Foi bem cômico. A casa foi usada como locação para um drama de época da BBC. Duas semanas depois de o programa ir ao ar, Trish e Eddie chegaram à porta balançando um cheque. Tinham visto a casa pela TV, decidiram que a queriam e procuraram até achar.

- Uau. - Eu rio. - Então presumivelmente eles pagaram acima do valor de mercado.

- Deus sabe quanto pagaram. Os Ellis nunca diriam.

- Sabe como os Geigers ganharam todo o dinheiro que tem? – Sei que estou sendo xereta, mas é bom falar da vida de outra pessoa no momento. Esquecer da minha.

- Eles construíram uma empresa de transporte rodoviário a partir do nada e depois venderam. Ganharam uma boa grana. - Ele começa a limpar a última poça de merengue.

- E você? Antes dos Ellis? -Jogo no lixo os abricós grudados, com um tremor.

- Estava trabalhando na Marchant House. É uma casa senhorial perto de Oxford. Antes disso, universidade.

- Universidade? -pergunto comas orelhas em pé. - Não sabia...

Paro, ruborizando. Estava para dizer: "Não sabia que os jardineiros cursavam universidade."

- Fiz ciências naturais. - Nathaniel me olha com uma expressão que me faz pensar que ele sabia exatamente o que eu estava pensando.

Abro a boca para perguntar onde e quando ele cursou a universidade -depois, pensando bem, fecho-a e levanto a tampa da lixeira. Não quero começar a entrar em detalhes, chegando à estrada do "Será que temos algum conhecido em comum?". Neste momento posso muito bem ficar sem lembrar das particularidades da minha vida.

Por fim a cozinha parece um pouco mais normal. Pego o copinho de ovo, tomo o resto do creme de menta e respiro fundo.

- Certo. Hora do show.

- Boa sorte. - Nathaniel ergue as sobrancelhas.

Abro a porta da cozinha e vejo Trish e Eddie esperando no saguão, segurando os copos de xerez.

- Ah, Samantha! Tudo pronto? - O rosto de Trish está todo iluminado de antecipação e sinto uma enorme pontada de culpa pelo que vou fazer.

Mas não consigo ver outro caminho.

Respiro fundo e faço minha melhor cara de "dar má notícia a um cliente".

- Sr. e Sra. Geiger. - olho de um rosto para o outro, certificando-me de que tenho sua atenção. Estou arrasada.

Fecho os olhos e balanço a cabeça.

- Arrasada? - ecoa Trish, nervosa.

- Fiz o melhor que pude. - Abro os olhos. - Mas infelizmente não posso trabalhar com o seu equipamento. O jantar que criei não estava à altura dos padrões profissionais. Não poderia permitir que saísse da cozinha. Claro que reembolsarei todos os seus gastos e entregarei meu pedido de demissão.

Partirei amanhã.

Pronto. Feito. Sem baixas fatais.

Não consigo deixar de olhar para Nathaniel, parado junto à porta da cozinha. Ele balança a cabeça com um sorriso minúsculo e sinaliza com o polegar para cima.

- Partirá? - Trish me encara consternada, com os olhos azuis praticamente saltando das órbitas. – Você não pode partir. É a melhor empregada que já tivemos! Eddie, faça alguma coisa.

- Sra. Geiger, depois do desempenho desta noite, acho que não tenho escolha - digo. - Para ser franca, o jantar estava impossível de ser comido.

- Não foi sua culpa! - reage ela com ênfase louca. Foi nossa culpa! Vamos encomendar imediatamente um novo equipamento.

- Mas ...

- Apenas faça uma lista do que você precisa. Não poupe gastos! E vamos aumentar seu salário! - De repente ela é apanhada por uma nova idéia. -Quanto você quer? Diga o seu preço!

Essa conversa realmente não está acontecendo como eu queria.

- Bem ... nós não chegamos a discutir salário ... - Baixo a cabeça meio sem graça.

- Eddie! - Trish gira para ele com ar selvagem. - Isso é culpa sua! Samantha vai embora porque você não quer pagar o suficiente!- Eu não disse isso... - começo desamparada.

- E ela precisa de novas panelas. Do melhor lugar. - Trish enfia o cotovelo nas costelas de Eddie e murmura: - Diga alguma coisa!

- Ah ... Samantha. - Eddie pigarreia sem jeito. - Ficaríamos muito felizes se você pensasse em permanecer conosco. Adoramos o seu desempenho e, quaisquer que sejam suas expectativas salariais ...

aceitaremos. - Trish o cutuca nas costelas de novo. - Pagaremos mais ainda.

- E plano de saúde - acrescenta Trish.

Os dois estão me olhando com uma espécie de esperança ansiosa.

Olho para Nathaniel, que inclina a cabeça como se dissesse "por que não?".

A sensação mais estranha está me dominando. Três pessoas. Todas dizendo que me querem, no espaço de dez minutos.

Eu poderia ficar. É simples.

Não sei cozinhar, lembra uma vozinha. Não sei jazer limpeza. Não sou empregada doméstica.

Mas poderia aprender. Poderia aprender tudo isso.

O silêncio está crescendo em tensão. Até Nathaniel me olha atentamente, da porta.

- Bem... tudo certo. - Sinto um sorriso me vindo aos lábios. - Certo, se vocês querem ... eu fico.

 

Mais tarde, naquela noite, depois de todos termos jantado comida chinesa para viagem, pego meu celular, ligo para o escritório da minha mãe e espero até ser atendida pela secretária eletrônica.

- Está tudo bem, mamãe - digo. - Não precisa pedir nenhum favor para mim. Tenho um emprego. – e desligo.

É como se um cordão umbilical fosse cortado.

Sinto-me livre.