Samantha Sweet, Executiva do Lar
Vinte e Dois
Acordo vendo um teto rachado e sujo. Meu olhar vai até uma enorme teia de aranha no canto do cômodo, depois desce pela parede até uma estante velha cheia de livros, fitas, cartas, velhos enfeites de natal e roupas de baixo descartadas.
Como consegui viver nesta bagunça por sete anos?
Como não notei?
Empurro as cobertas, saio da cama e olho ao redor,cansada. O tapete parece sujo sob meus pés e eu me encolho. Precisa de um bom aspirador de pó. Acho que a faxineira parou de vir quando o dinheiro deixou de aparecer.
Há roupas espalhadas e eu procuro até achar um roupão.Visto e vou para a cozinha. Tinha esquecido como aqui era vazio, frio e espartano. Não há nada na geladeira, claro. Mas acho um saquinho de chá de camomila e encho a chaleira; e me empoleiro numa banqueta olhando a parede de tijolos do outro lado.
Já são nove e quinze. Ketterman deve estar no escritório. Já deve estar tomando qualquer que seja a atitude que ele pensou em tomar. Espero para sentir o nervosismo chegando ... mas não chega. Sinto-me estranhamente calma. Agora tudo está fora das minhas mãos; não há nada que eu possa fazer.
Ele me ouviu. Ouviu mesmo, fez perguntas e até me preparou uma xícara de chá. Fiquei lá por mais de uma hora. Não disse o que pensava nem o que ia fazer. Nem disse se acreditava em mim ou não. Mas algo me diz que acreditou.
A chaleira está abrindo fervura quando a campainha da porta toca. Hesito -depois enrolo o roupão no corpo e saio ao corredor. Pelo olho mágico vejo a Sra. Farley me espiando de volta, os braços cheios de pacotes.
Claro. Quem mais?
Abro a porta.
- Olá, Sra. Farley.
- Samantha, achei que era você! - exclama ela. - Depois de tanto tempo! Não fazia idéia... não sabia o que pensar...
- Estive fora. - Sorrio. - Desculpe não ter avisado que ia viajar. Mas eu mesma não sabia.
- Sei. - Os olhos da Sra. Farley dardejam ao redor, olhando meu cabelo louro, meu rosto e o apartamento atrás de mim, como se procurasse pistas.
- Obrigada por pegar minha correspondência. Estendo as mãos. - Posso...
- Ah! Claro. - Ela entrega duas sacolas cheias e uma caixa de papelão, ainda obviamente ávida de curiosidade. – Acho que esses empregos importantes realmente mandam as jovens para fora do país sem aviso prévio...
- Não estive fora do país. - Pouso as caixas. – Obrigada de novo.
- Ah, sem problema! Sei como é quando a gente tem... problemas com a família? - arrisca ela.
- Não tive problemas com a família - digo educadamente.
- Claro que não! - Ela pigarreia. - Bem, de qualquer modo... Você voltou. De... do que quer que esteve fazendo.
- Sra. Farley - tento manter o rosto sério. – Gostaria de saber onde estive?
A Sra. Farley reage horrorizada.
- Santo Deus! Não! Absolutamente não é da minha conta! Realmente, eu nem sonharia em... preciso ir...
- Ela começa a recuar.
- Obrigada de novo! - grito quando ela desaparece no seu apartamento.
Estou fechando a porta quando o telefone toca. Pego-o, subitamente imaginando quantas pessoas devem ter ligado para este número nas últimas semanas. A secretária está atulhada de recados, mas depois de ouvir as três primeiras, todas de mamãe e cada qual mais furiosa que a anterior, desisto.
- Alô?
- Samantha - diz uma voz profissional. – Aqui é John Ketterman.
- Ah. - Mesmo contra a vontade sinto um tremor de nervosismo. - Oi.
- Gostaria de pedir que ficasse disponível hoje. Talvez seja necessário você falar com algumas pessoas.
- Pessoas?
Há uma ligeira pausa, então Ketterman diz:
- Investigadores.
Ah, meu Deus. Ah, meu Deus. Sinto vontade de dar um soco no ar, explodir em lágrimas ou algo assim.
Mas de algum modo mantenho a compostura.
- Então você descobriu alguma coisa?
- No momento não posso dizer nada. – Ketterman parece distante e formal como sempre. - Só preciso saber se você estará disponível.
- Claro. Aonde tenho de ir?
- Gostaríamos que viesse aqui, ao escritório da Carter Spink - diz ele sem qualquer traço de ironia.
Olho o telefone, quase querendo rir. Serão por acaso os mesmos escritórios da Carter Spink de onde fui expulsa ontem? Sinto vontade de dizer: Os mesmos escritórios da Carter Spink de onde fui banida?- Ligo para você - acrescenta Ketterman. – Fique com o celular. Pode demorar algumas horas.
- Certo. Ficarei. - Respiro fundo. - E, por favor, só diga. Não precisa ser específico, mas... minha teoria estava certa?
Há um silêncio cheio de estalos no telefone. Não posso respirar.
- Não em todos os detalhes – diz Ketterman finalmente, e sinto uma dolorosa empolgação de triunfo.
Isso significa que eu estava certa em alguns detalhes.
O telefone emudece. Pouso-o e olho meu reflexo no espelho do corredor. Minhas bochechas estão vermelhas e os olhos brilhantes.
Eu estava certa. E eles sabem.
Vão me oferecer o emprego de volta, percebo subitamente. Vão me oferecer sociedade. Ao pensar nisso sou tomada pela empolgação - e ao mesmo tempo por uma espécie de medo estranho.
Vou atravessar essa ponte quando chegar a hora.
Entro na cozinha totalmente ligada, incapaz de ficar imóvel. Que diabo vou fazer nas próximas horas?
Ponho água quente sobre o saquinho de chá de camomila e olho por alguns instantes, mexendo com uma colher. E então tenho uma idéia.
Só levo vinte minutos para sair e comprar o que preciso. Manteiga, ovos, baunilha, açúcar de cobertura.
Formas de assar. Batedores. Uma balança. Tudo, de fato. Não acredito em como minha cozinha é mal equipada. Como conseguia cozinhar aqui?
Bom, não cozinhava.
Não tenho avental, por isso improviso com uma camisa velha. Não tenho uma tigela e esqueci de comprar, por isso uso a bacia plástica que recebi como parte de um kit de aromaterapia.
Depois de uma hora batendo e assando produzi um bolo. Três camadas de massa fofa de baunilha com recheio de creme de manteiga e cobertura de glacê de limão, decorado com flores de açúcar.
Olho-o por alguns instantes, sentindo um brilho de satisfação. É o meu quinto bolo e a primeira vez que fiz com mais de duas camadas. Tiro a camisa velha, verifico se O celular está no bolso, pego o bolo e saio do apartamento.
Quando a Sra. Farley atende à porta, parece espantada ao me ver.
- Oi! - digo. - Trouxe uma coisinha para a senhora. Para agradecer por ter cuidado da minha correspondência.
- Ah! - Ela olha o bolo, atônita. - Samantha! Deve ter custado caro!
- Não comprei - digo com orgulho. - Eu fiz.
A Sra. Farley fica pasma.
- Você fez?
- É. - Rio de orelha a orelha. - Posso levá-lo para dentro e fazer um pouco de café para a senhora?
A Sra. Farley está aparvalhada demais para responder, por isso passo por ela entrando no apartamento.
Para minha vergonha percebo que nunca estive aqui antes. Em três anos que a conheço, jamais coloquei o pé além da porta. O lugar é imaculado, cheio de mesinhas laterais e antiguidades, com uma tigela de pétalas de rosa sobre a mesinha de centro.
- A senhora vai se sentar - digo. - Eu acho o que precisar na cozinha. -Ainda atordoada, a Sra. Farley afunda numa poltrona fofa.- Por favor-diz ela debilmente.- Não quebre nada.
- Não vou quebrar nada! Quer leite espumante? E noz-moscada?
Dez minutos depois saio da cozinha com dois cafés e o bolo.
- Pronto. - Corto uma fatia para a Sra. Farley. - Veja o que acha.
A Sra. Farley pega o prato e olha-o por alguns instantes.
- Você fez isso - diz finalmente.
- Fiz!
A Sra. Farley leva uma fatia à boca. E pára. Parece cada vez mais nervosa.
- É seguro! - digo e mordo um pedaço da minha fatia. - Está vendo? Eu sei cozinhar! Honestamente!
Com muita cautela a Sra. Farley morde um pedaço minúsculo. Enquanto mastiga, seus olhos encontram os meus, atônitos. - É... delicioso! Tão leve! Você realmente fez isso?
- Bati os ovos separados - explico. - Isso mantém o bolo leve. Posso dar a receita, se a senhora quiser.
Tome um pouco de café. - Entrego-lhe uma xícara. - Usei sua batedeira elétrica para o leite, se não se importa. Funciona bem, se a gente conseguir a temperatura exata.
A Sra. Farley está me olhando como se eu estivesse falando algaravia.
- Samantha - diz ela finalmente. - Onde você esteve nestas últimas semanas?
- Estive... num lugar. - Meu olhar pousa num espanador e uma lata de lustra-móveis numa mesinha lateral. Ela devia estar fazendo a limpeza quando toquei a campainha. - Eu não usaria estes espanadores, se fosse a senhora - acrescento educadamente. - Posso recomendar alguns melhores.
A Sra. Farley pousa a xícara e se inclina na poltrona. Sua testa está franzida e preocupada.
- Samantha, você entrou para alguma religião?
- Não! - Não consigo deixar de rir da cara dela. - Só andei... fazendo algo diferente. Mais café?
Vou à cozinha e preparo mais um pouco de leite espumante. Quando volto à sala, a Sra. Farley está comendo a segunda fatia de bolo.
- Isso é muito bom - diz ela com a voz meio escondida. - Obrigada.
- Bem... a senhora sabe. - Dou de ombros, meio sem jeito. - Obrigada por ter cuidado de mim todo aquele tempo.
A Sra. Farley termina o bolo, pousa o prato e me olha por alguns instantes, a cabeça inclinada como um pássaro.
- Querida - diz ela finalmente. - Não sei onde você esteve nem o que fez. Mas, o que quer que seja, você está transformada.
- Sei que meu cabelo está diferente... - começo, mas a Sra. Farley balança a cabeça.
- Eu via você correndo o tempo todo, chegando em casa tarde da noite, sempre parecendo tão cansada.
Tão perturbada! E pensava que você parecia ... parecia a concha vazia de uma pessoa. Como uma folha seca. Uma palha de milho.
Uma folha seca?, penso indignada. Uma palha de milho?
- Mas agora você floresceu! Parece bem, fisicamente, mais saudável... parece feliz... - Ela pousa a xícara e se inclina de novo. - O que quer que esteve fazendo, querida, você fica maravilhosa com isso.
- Ah. Bem, obrigada. - Dou um sorriso tímido. - Acho que me sinto mesmo diferente. Acho que ando mais relaxada esses dias. - Tomo um gole de café e me recosto na poltrona, pensando nisso. - Desfruto a vida um pouco mais do que antes... Noto as coisas mais do que antes.
- Você não notou que seu telefone está tocando - interrompe afavelmente a Sra. Farley, assentindo para o meu bolso.
- Ah! - digo surpresa e pego o telefone. – Preciso atender. Desculpe.
Abro-o e ouço imediatamente a voz de Ketterman.
- Samantha.
Passo três horas nos escritórios da Carter Spink, falando sucessivamente com um homem da Sociedade dos Advogados, dois dos principais sócios e um cara do Third Union Bank. Pela hora do almoço já me sinto exausta de tanto repetir as mesmas coisas vezes sem conta para os mesmos rostos cuidadosamente inexpressivos. As luzes do escritório estão me deixando com dor de cabeça. Tinha esquecido como a atmosfera aqui era sem ar e seca.
Ainda não deduzi exatamente o que está acontecendo. Advogados são discretos demais. Sei que alguém foi falar com Árnold na casa dele, praticamente só isso. Mas mesmo que ninguém admita, sei que eu estava certa. Fui vingada.
Depois da última entrevista, um prato de sanduíches é trazido à sala onde estou, junto com uma garrafa de água mineral e um bolinho. Fico de pé, me espreguiço e vou à janela. Sinto-me uma prisioneira aqui. Há uma batida na porta e Ketterman entra.
- Ainda não terminei? - pergunto. - Estou aqui há horas.
- Talvez tenhamos de falar com você de novo. Ele indica os sanduíches. -Coma alguma coisa.
Não posso ficar nesta sala nem mais um instante. Preciso esticar as pernas, pelo menos.
- Primeiro vou me retocar um pouco - digo e saio correndo da sala antes que ele possa questionar.
Quando entro no banheiro feminino, todas as mulheres param de falar imediatamente. Desapareço num cubículo e ouço o som de sussurros e murmúrios excitados. Quando saio de novo ninguém deixou o banheiro. Sinto todos os olhares em mim, como refletores de filmagem.
- Então está de volta, Samantha? - pergunta uma advogada chamada Lucy.
- Não exatamente. - Viro-me para a pia, meio sem jeito.
- Você está tão diferente - diz outra garota.
- Seus braços! - diz Lucy enquanto lavo as mãos. - Estão tão morenos. E tonificados. Você esteve num spa?
- É... não. - Dou um sorriso misterioso. – Mas obrigada. Como anda a vida aqui?
- Boa. - Lucy assente algumas vezes. – Muito movimentada. Marquei sessenta e seis horas de trabalho na semana passada. Virei duas noites.
- Eu virei três - diz outra garota. Ela fala casualmente, mas vejo o orgulho em seu rosto. E as sombras cinza-escuras sob seus olhos. Era assim a minha aparência. Toda pálida, exausta e tensa?
- Fantástico! - digo educadamente, enxugando as mãos. - Bem, é melhor voltar. Vejo vocês.
Saio do banheiro e estou retornando à sala de entrevistas, perdida em pensamentos, quando ouço uma voz.
- Ah, meu Deus, Samantha?
- Guy? - Levanto os olhos chocada e o vejo vindo rapidamente pelo corredor na minha direção. Parece em forma e bronzeado, e seu sorriso é mais ofuscante do que nunca.
Não esperava ver Guy. Na verdade, fico meio abalada com isso.
- Olhe você! - Ele segura meus ombros com força e examina meu rosto. -Está fantástica.
- Achei que você estava em Hong Kong.
- Voltei hoje cedo. Acabo de ser informado sobre a situação. Que diabo, Samantha, é incrível. - Ele baixa a voz. - Só você poderia deduzir isso. Arnold, imagine só. Fiquei totalmente chocado. Todo mundo está. Os que sabem - acrescenta ele, baixando a voz ainda mais. _ Obviamente isso ainda não foi divulgado.
- Nem sei qual é a "situação" - respondo com um toque de ressentimento. -Ninguém está me dizendo nada.
- Bom, vão dizer.- Guy enfia a mão no bolso, pega seu BlackBerry e franze a testa para ele. - Você é o sabor do mês, agora. Eu sabia o tempo todo. -Guy levanta os olhos. - Sabia que você nunca cometeu um erro.
Olho-o boquiaberta. Como ele pode dizer isso?
- Não, não sabia - respondo por fim, encontrando as palavras. - Não sabia. Caso se recorde, você disse que eu tinha cometido erros. Disse que eu era "indigna de confiança”.
Sinto a velha mágoa e a humilhação começando a surgir de novo, e desvio o olhar.
- Eu disse que outras pessoas tinham dito que você cometeu erros. - Guy pára de digitar no Black Berry e levanta os olhos, franzindo a testa. -Merda, Samantha. Eu defendi você. Estava do seu lado. Pergunte a qualquer um!
É claro. Por isso não quis que eu ficasse na sua casa.
Mas não falo nada em voz alta. Realmente não quero entrar nisso. É passado.
- Ótimo - digo finalmente. - Tanto faz.
Começamos a andar pelo corredor juntos, Guy ainda concentrado no BlackBerry. Meu Deus, ele é viciado nessa coisa, penso com ligeira irritação.
- Então, para onde foi que você desapareceu? Por fim ele pára de digitar. -O que esteve fazendo esse tempo todo? Não estava realmente trabalhando de garçonete, não é?
- Não. - Não consigo deixar de rir de sua expressão. - Não. Arranjei um emprego.
- Sabia que você ia se virar. - Ele assente, satisfeito. - Quem contratou você?
- Ah ... ninguém que você conheça - digo depois de uma pausa.
- Mas está na mesma área? - Ele guarda o BlackBerry. - Fazendo o mesmo tipo de trabalho?
Tenho uma súbita visão de mim mesma com o uniforme de náilon azul, passando pano no banheiro de Trish.
- Ah ... por acaso, não. - De algum modo mantenho o rosto impávido.
Guy parece surpreso.
- Mas você ainda está no direito bancário, certo? Não diga que mudou completamente? - De súbito ele parece galvanizado. - Não entrou para o direito comercial, não é?
- Ah ... não ... direito comercial, não. É melhor eu ir. - Interrompo-o e abro a porta da sala de entrevistas.
- Vejo você mais tarde.
Como os sanduíches, tomo a água mineral. Durante uma hora e meia ninguém me perturba. Sinto-me um pouco como se estivesse de quarentena devido a alguma doença mortal. Eles poderiam ter me dado algumas revistas, pelo menos. Desenvolvi um tremendo vício por fofocas, depois de ficar rodeada pelo interminável suprimento das revistas Heat e HelIo, de Trish.
Por fim ouço uma batida na porta e Ketterman entra.
- Samantha, gostaríamos de vê-la na sala da diretoria.
Na sala da diretoria? Nossa!
Acompanho Ketterman pelos corredores, cônscia da cutucadas e dos sussurros de todo mundo por quem passamos. Ele abre a gigantesca porta dupla da sala da diretoria e eu entro, vendo mais ou menos metade dos sócios ali, me esperando. Há silêncio enquanto Ketterman fecha a porta. Olho para Guy, que ri de volta, encorajando, mas não diz nada.
Será que devo falar? Será que não percebi as instruções? Ketterman se juntou ao grupo de sócios. Agora se vira para mim.
- Samantha, como você sabe, uma investigação dos... acontecimentos recentes está sendo feita. Os resultados ainda não foram totalmente determinados. - Ele interrompe, parecendo tenso, e vejo alguns dos outros trocando olhares sérios. - No entanto chegamos a uma conclusão. Houve um erro com você.
Olho-o boquiaberta. Ele está admitindo? Conseguir que um advogado admita que cometeu um erro é como conseguir que um astro de cinema admita que fez lipoaspiração.
- Perdão? - digo, só para obrigá-lo a repetir.
- Houve um erro com você. - Ketterman franze a testa, claramente não gostando dessa parte da conversa.
Quase quero rir.
- Eu... cometi um erro? - arrisco, parecendo perplexa.
- Houve um erro contra você! - responde ele rispidamente. - Contra você!
- Ah, cometeram um erro contra mim. Bem, obrigada. - Sorrio com educação. - Agradeço por isso.
Provavelmente vão me oferecer algum tipo de bônus, é o que me passa pela cabeça. Uma cesta de produtos de luxo. Ou mesmo uma viagem.
- E portanto. - Ketterman faz uma pausa. Gostaríamos de lhe oferecer sociedade plena na firma. A ser efetivada imediatamente.
Fico tão chocada que quase me sento no chão. Sociedade plena?
Abro a boca - mas não consigo falar. Sinto-me sem fôlego. Olho ao redor, impotente, como um peixe pendurado no anzol. Sociedade plena é o mais alto pináculo. O cargo mais prestigioso no direito. Nunca, nunca, jamais esperei isso
- Bem-vinda de volta, Samantha - diz Greg Parker.
- Bem-vinda de volta - entoam alguns outros. David Elldridge me dá um sorriso caloroso. Guy levanta os polegares.
- Temos champanha. - Ketterman assente para Guy, que abre a porta dupla. No instante seguinte duas garçonetes do Partners' Dining Room estão entrando com bandejas cheias de taças de champanha. Alguém coloca uma na minha mão.
Isso tudo está indo depressa demais. Preciso dizer alguma coisa.
- É ... com licença? - grito. - Na verdade eu ainda não disse se aceito.
Toda a sala parece se imobilizar, como uma fita de vídeo em pausa.
- Perdão? - Ketterman se vira para mim, o rosto contorcido de incredulidade.
Ah, meu Deus. Não sei se vão aceitar isso muito bem.
- O negócio ... - paro e tomo um gole de champanha para dar coragem, tentando deduzir um modo de dizer delicadamente.
Estive pensando nisso o dia inteiro, sem parar. Ser sócia na Carter Spink é o sonho que tive durante toda a vida adulta. O prêmio brilhante. É tudo que sempre quis.
A não ser... todas as coisas que eu nunca soube que queria. Coisas das quais não fazia idéia até algumas semanas atrás. Como ar puro. Como noites de folga. Fins de semana sem trabalho obrigatório. Fazer planos com amigos. Sentar-me num pub depois do fim do trabalho, tomando cidra, sem nada para fazer, nada para pensar, nada pairando sobre mim.
Mesmo que estejam me oferecendo sociedade plena, isso não muda as coisas. Não me muda. A Sra.
Farley estava certa: eu floresci. Não sou mais uma palha seca.
Por que voltaria a ser uma palha seca?
Pigarreio e olho ao redor.
- É uma tremenda honra receber uma oportunidade tão incrível-digo séria. -E agradeço muito. Verdade.
No entanto... o motivo pelo qual voltei não foi para ter meu trabalho de volta. Foi para limpar meu nome.
Provar que não cometi um erro. - Não consigo evitar um olhar na direção do Guy. - A verdade é que, desde que deixei a Carter Spink eu... bem ... fui em frente. Tenho um emprego. Do qual gosto muito. Portanto não vou aceitar sua oferta.
Há um silêncio perplexo.
- Obrigada - acrescento de novo, educadamente. - E... bem ... obrigada pelo champanha.
- Ela está falando sério? - diz alguém ao fundo. Ketterman e Elldridge estão trocando olhares com a testa franzida.
- Samantha - Ketterman se adianta -, você pode ter encontrado oportunidades em outro lugar. Mas é uma advogada da Carter Spink. Aqui é que você foi treinada, é a este lugar que você pertence.
- Se for uma questão de salário – acrescenta Elldridge -, tenho certeza que podemos igualar o que você recebe atualmente ... - Ele olha para Guy. – Para que firma de advocacia ela foi?
- Onde quer que você esteja, falarei com os sócios principais - diz Ketterman em tom empresarial. –Com o diretor de pessoal... com quem for necessário. Vamos resolver isso. Se você me der o número. - Ele está pegando seu BlackBerry.
Minha boca se retorce. Quero desesperadamente rir.
- Não há um diretor de pessoal-explico. – Nem um sócio principal.
- Não há um sócio principal? - Ketterman parece impaciente. - Como pode não haver um sócio principal?
- Eu não disse que estava trabalhando numa firma de advocacia.
É como se eu tivesse dito que o mundo é plano. Nunca vi tantos rostos bestificados na vida.
- Você... não está trabalhando como advogada? Pergunta Elldridge finalmente. - Então está trabalhando como o quê?
Eu não estava esperando que chegasse a isso. Mas, por outro lado, por que eles não deveriam saber?
- Estou trabalhando como doméstica. - Sorrio.
- "Doméstica"? - Elldridge me espia. - É o novo jargão para solucionadora de problemas? Nunca fico em dia com esses nomes ridículos para cargos.- Você trabalha do lado dos reclamantes? - pergunta Ketterman. – É isso que você quis dizer.
- Não, não é isso que eu quis dizer - explico com paciência. - Eu sou empregada doméstica. Arrumo camas. Preparo refeições. Doméstica.
Durante uns sessenta segundos ninguém se mexe. Meu Deus, gostaria de ter uma máquina fotográfica. A cara deles.
- Você é literalmente... uma empregada doméstica? _ pergunta Oliver Swan, incrédulo.
- É. - Olho meu relógio. - E me sinto realizada, relaxada e feliz. Na verdade, preciso voltar. Obrigada por ter me ouvido - acrescento a Ketterman. – Você foi o único.
- Está recusando nossa oferta? - pergunta Oliver Swan incrédulo.
- Estou recusando sua oferta. - Dou de ombros como se pedisse desculpa. -Sinto muito. Tchau, todo mundo.
Enquanto saio da sala sinto as pernas ligeiramente bambas. E ligeiramente maníaca por dentro. Eu recusei.
Recusei ser uma das sócias principais da Carter Spink.
Que diabo minha mãe vai dizer?
O pensamento me dá vontade de explodir em risos histéricos.
Sinto-me ligada demais para esperar o elevador, por isso vou até a escada, com os saltos dos sapatos ressoando nos frios degraus de pedra.
- Samantha! - A voz de Guy ecoa subitamente acima de mim.
Ah, honestamente. O que ele quer?
- Estou indo! - grito de volta. - Deixe-me em paz!
- Você não pode ir!
Ouço-o acelerando escada abaixo, por isso também acelero. Já disse o que tinha a dizer - o que mais há para falar? Meus sapatos ressoam enquanto desço, segurando o corrimão para me equilibrar. Mas mesmo assim Guy está encurtando a distância.
- Samantha, isso é loucura!
- Não é!
- Não posso deixar você arruinar sua carreira por... por uma picuinha! - grita ele.
Viro indignada, quase caindo escada abaixo.
- Não estou fazendo isso por picuinha!
- Sei que você está com raiva de todos nós! – Guy se junta a mim na escada, ofegando. - Tenho certeza que você se sente realmente bem em recusar, em dizer que está trabalhando como doméstica.
- Eu estou trabalhando como doméstica! - retruco. - E não estou recusando vocês por raiva. Estou recusando porque não quero o cargo.
- Samantha, você queria ser sócia mais do que qualquer coisa no mundo! -Guy segura meu braço. – Sei que queria! Você trabalhou por isso durante todos esses anos. Não pode jogar fora! É valioso demais.
- E se eu não valorizar mais?
- Foram apenas algumas semanas! Não pode ter mudado tudo!
- Tudo mudou. Eu mudei.
Guy balança a cabeça incrédulo.
- Você está falando sério sobre o negócio de empregada doméstica?
- Estou falando realmente sério - respondo rispidamente. - O que há de errado em ser empregada doméstica?
- Ah, pelo amor ... - Ele pára. - Olhe, Samantha, suba. Vamos falar sobre isso. O departamento de Recursos Humanos entrou na conversa. Você perdeu o emprego ... foi maltratada ... não é de espantar que não consiga pensar direito. Eles estão sugerindo um aconselhamento.
- Não preciso de aconselhamento! - Giro e começo a descer de novo. - Só porque não quero ser advogada, o quê, estou maluca?
Chego ao fim da escada e irrompo no saguão com Guy me perseguindo. Hilary Grant, chefe de RP está sentada num sofá de couro com uma mulher de conjunto vermelho que não reconheço, e as duas levantam a cabeça, surpresas.
- Samantha, você não pode fazer isso! - está gritando Guy atrás de mim enquanto emerge no saguão. -
Você é uma das advogadas mais talentosas que eu conheço. Não posso deixar que recuse ser sócia principal para ser uma droga de... empregada doméstica.
- Por que não, se é isso que eu quero fazer? – Paro no mármore e viro-me para encará-lo. - Guy, eu descobri o que é ter uma vida! Descobri como é não trabalhar todo fim de semana. Não sentir pressão o tempo todo. E gosto!
Guy não está escutando uma palavra do que digo. Nem quer entender.
- Você vai ficar aí e dizer que prefere limpar privada a ser sócia na Carter Spink? - Seu rosto está vermelho de ultraje.
- Sim! - respondo desafiante. - Prefiro sim.
- Quem é essa? - pergunta a mulher de conjunto vermelho, com interesse.- Samantha, você está cometendo o maior erro de toda a sua existência! - A voz de Guy me acompanha quando chego à porta de vidro. - Se sair agora...
Não quero ouvir mais. Passo pela porta. Desço a escada. Fui.
Posso ter cometido o maior erro da minha existência. Sentada no trem de volta a Gloucestershire, bebericando vinho para acalmar os nervos, as palavras de Guy ficam ressoando nos meus ouvidos.
Houve um tempo em que só esse pensamento me teria feito dar uma cambalhota. Mas não mais. Quase sinto vontade de rir. Ele não faz idéia.
Se aprendi uma coisa com tudo que me aconteceu, é que não existe essa coisa de maior erro da existência. Não existe essa coisa de arruinar a vida. Por acaso a vida é uma coisa muito resistente.
Quando chego a Lower Ebury vou direto ao pub. Nathaniel está atrás do balcão, usando uma camisa de cambraia que nunca vi antes, falando com Eamon. Por alguns instantes só olho para ele, da porta. As mãos fortes; a inclinação do pescoço; o modo como a testa se franze quando ele assente. Sei imediatamente que ele discorda com o que quer que Eamon esteja dizendo. Mas está esperando, querendo usar de tato ao defender seu ponto de vista.
Talvez eu seja melhor em telepatia do que pensava.
Como se também fosse telepata, Nathaniel levanta os olhos e seu rosto se ergue bruscamente. Ele sorri dando as boas-vindas - mas posso ver a tensão por baixo. Esses últimos dois dias não foram fáceis para ele.
Talvez pensasse que eu não ia voltar.
Um rugido vem do alvo de dardos. Um dos caras se vira e me vê indo para o balcão.
- Samantha! - grita ele. - Finalmente! Precisamos de você no nosso time!- Num segundo! - grito por cima do ombro. _ Oi - digo quando chego perto de Nathaniel. – Bela camisa.
- Oi - responde ele casualmente. - Boa viagem?
- Nada má. - Assinto. Nathaniel levanta a aba do balcão para eu passar, seus olhos examinando meu rosto como se procurasse pistas.
- Então ... acabou?
- É. - Envolvo-o com os braços e aperto com força. - Acabou.
E, nesse momento, realmente acredito que acabou.
VINTE E TRÊS
Nada acontece até a hora do almoço.
Faço o café-da-manhã para Trish e Eddie como sempre. Passo o aspirador e espano como sempre. Então coloco o avental de Iris, pego a tábua de picar e começo a espremer laranjas. Vou fazer musse de chocolate amargo com laranja para o almoço de caridade de amanhã. Vamos servir num leito de fatias de laranja cristalizada, e cada prato será guarnecido com um anjo de folha de prata verdadeira, de um catálogo de decoração de natal.
Isso foi idéia de Trish. Assim como os anjos pendurados no teto.
- Como estamos indo? - Trish entra com os saltos ressoando na cozinha, parecendo agitada. - Já fez as musses?
- Ainda não - respondo espremendo rapidamente uma laranja. - Não se preocupe, Sra. Geiger. Tudo está sob controle.
- Você sabe o que eu passei nos últimos dias? - Ela segura a cabeça. - Mais e mais pessoas aceitando...
tive de mudar a organização dos lugares ...
- Vai dar tudo certo - digo tranqüilizando-a. Tente relaxar.
- É. - Ela expira, segurando a cabeça entre duas unhas pintadas. - Está certa. Vou verificar os sacos de lembranças ...
Não acredito no quanto Trish está gastando nesse almoço. Toda vez que questiono se realmente precisamos cobrir a sala de jantar com seda branca ou dar uma orquídea a cada convidado ela grita que "é por uma boa causa!"
O que me lembra de algo que estive pensando em lhe perguntar já há algum tempo.
- Ah ... Sra. Geiger - digo casualmente. - A senhora vai cobrar entrada dos convidados?
- Ah, não! Acho isso muito cafona, não acha?
- Vai fazer uma rifa?
- Creio que não. - Ela franze o nariz. - As pessoas odeiam rifas.
- Então... bem... como, exatamente, a senhora planeja conseguir dinheiro para a caridade?
Há silêncio na cozinha. Trish se imobilizou, arregalada.
- Nossa! - diz finalmente.
Eu sabia. Ela nem pensou. De algum modo consigo manter uma expressão respeitosa, de empregada doméstica.
- Será que poderíamos pedir doações voluntárias? - sugiro.
- Poderíamos passar uma sacolinha na hora do café com bombom de hortelã?
- É. É. - Trish me espia como se eu fosse um gênio. - Essa é a resposta. - E exala com força. – Isso é realmente muito estressante, Samantha. Não sei como você fica tão calma.
- Ah ... não sei. - Sorrio sentindo uma súbita onda de carinho por ela. Quando cheguei à casa ontem à noite foi como uma volta ao lar. Mesmo que Trish tenha deixado uma montanha de louça na bancada para o meu retorno, e um bilhete dizendo "Samantha, por favor faça polimento em toda a prataria amanhã".
Trish sai da cozinha e começo a bater as claras de ovos para a musse. Então noto um homem vindo pela entrada de veículos. Está usando jeans e uma velha camisa pólo o tem uma máquina fotográfica pendurada no pescoço. Desaparece e eu franzo a testa, confusa. Talvez seja entregador. Meço o açúcar de confeiteiro, com meio ouvido atento à campainha, e começo a misturá-lo às claras, exatamente como lris ensinou.
Então, subitamente, o sujeito está parado do lado de fora da cozinha, espiando pela janela.
Não vou arruinar a mistura por causa de um vendedor de porta em porta. Ele pode esperar alguns instantes. Termino de incorporar o açúcar - depois vou à porta e abro.
- Em que posso ajudar? - pergunto educadamente.
O sujeito me olha em silêncio por alguns segundos, olhando de vez em quando para um tablóide dobrado nas mãos.
- Você é Samantha Sweet? - pergunta enfim.
Olho-o de volta com cautela.
- Por quê?
- Sou da Cheltenham Gazette. - Ele mostra um crachá. - Queria uma entrevista exclusiva com você. "Por que escolhi Cotswolds como meu esconderijo secreto”, esse tipo de coisa.
Olho-o inexpressiva por alguns segundos.
- É... o que você está falando?
- Você não viu? - Ele parece surpreso. – Imagino que seja você, não? O sujeito vira o jornal e, quando vejo, meu estômago se embola, em choque.
É uma foto minha. No jornal. Eu.
É meu retrato oficial da Carter Spink. Estou usando tailleur preto e o cabelo preso. Acima da foto, em letras pretas e grandes, está a manchete: PREFIRO LAVAR BANHEIRO A SER SÓCIA NA CARTER
SPINK.
Que diabo está acontecendo?
Com mãos trêmulas pego o jornal e examino o texto.
Eles são os Senhores do Universo; a inveja de seus pares. A importante firma de advocacia Carter Spink é a mais prestigiosa do país. Mas ontem uma jovem recusou um alto posto como sócia para trabalhar como humilde empregada doméstica.
TER UMA VIDA
Os sócios ficaram com cara de tacho quando a estelar advogada Samantha Sweet, que ganhava 500 libras por hora, rejeitou a oferta deles junto com um substancial salário de seis dígitos. Tendo sido demitida anteriormente, parece que a figurona descobriu um escândalo financeiro na firma. Entretanto, quando lhe ofereceram sociedade plena, Sweet citou a pressão e a falta de tempo livre como motivos para a decisão.
- Eu me acostumei a ter uma vida - disse ela, enquanto os sócios imploravam que ficasse.
Um ex-empregado da Carter Spink, que se recusou a dizer o nome, confirmou as brutais condições de trabalho na firma de advocacia. "Eles esperam que você venda a alma", disse ele. "Tive de me demitir devido ao estresse. Não é de espantar que ela prefira um trabalho braçal."
Uma porta-voz da Carter Spink defendeu as práticas da firma. "Somos uma firma flexível, moderna, com ética de trabalho solidária. Gostaríamos de falar com Samantha sobre seus pontos de vista e certamente não esperamos que os emprega dos 'vendam a alma."
DESAPARECIDA
A porta-voz confirmou que a oferta de cargo para a Srta. Sweet continua aberta e que os sócios da Carter Spink estão ansiosos para falar com ela. No entanto, numa reviravolta bastante extraordinária, esta Cinderela dos tempos modernos não é vista desde que saiu dos escritórios da firma.
ONDE ELA ESTÁ?
Ver comentários na página 34.
Olho aquilo atordoada. Ver comentários? Tem mai s?
Com mãos inseguras vou à página 34.
O PREÇO DO SUCESSO É ALTO DEMAIS?
Uma advogada poderosa, com tudo pela frente, abre mão de um salário de seis dígitos e vira uma simples empregada doméstica. O que essa história diz sobre a sociedade de alta pressão dos dias de hoje? Será que nossas mulheres de carreira estão sendo pressionadas demais? Será que estão se esgotando? Esta história extraordinária anuncia o início de uma nova tendência?
Uma coisa é certa. Apenas Samantha Sweet pode responder.
Olho a página, atordoada de tanta incredulidade. Como... o que... ? Como?
Um flash me interrompe e levanto os olhos, chocada, vendo o sujeito apontando a máquina para mim.
- Pára! - digo com horror, pondo as mãos na frente do rosto.
- Posso tirar uma foto de você segurando uma escova de limpar privada? -Diz ele apontando a lente. No pub deram a dica de que era você. Que barato!-À máquina espoca de novo e eu me encolho.- Não! Você ... você errar. - Empurro o jornal de volta para ele numa confusão de folhas. - Este... este não ser eu. Meu nome ser Martine. Não advogada.
O jornalista me examina cheia de suspeitas e olha de novo a foto. Vejo um clarão de dúvida em seu rosto. De fato estou bastante diferente de como era na época, com o cabelo louro e coisa e tal.
- Isso não é sotaque francês.
Ele tem razão. Os sotaques não são exatamente meu ponto forte.
- Eu ser... meio belga. - Fico com os olhos fixos no chão. - Por favor, sair de casa agorra. Ou eu chamar polícia.
- Ora, querida. Você não é belga!
- Ir emborra! Isso ser invasão! Ser processar!
Empurro-o, bato a porta e viro a chave. Depois puxo a cortina na janela e me encosto na porta, com o coração martelando. Merda. Merda. O que vou fazer?
Certo. O importante é não entrar em pânico. O importante é permanecer racional e ver a situação com equilíbrio.
Por um lado, todo o meu passado foi exposto num tablóide de circulação nacional. Por outro, Trish e Eddie não lêem esse tablóide específico. Nem a Cheltenham Gazette. É uma história idiota num jornal idiota e vai estar morta amanhã. Não há motivo para contar nada. Não preciso sacudir o barco. Vou continuar fazendo minhas musses de chocolate com laranja como se nada tivesse acontecido. É. O caminho é a negação total.
Sentindo-me ligeiramente melhor, pego o chocolate e começo a quebrar pedaços numa tigela de vidro.
- Samantha! Quem era? - Trish enfia a cabeça na porta.- Ninguém. - Levanto a cabeça com um sorriso fixo. - Nada. Vou lhe fazer uma xícara de café e levar no jardim, está bem?
Fique calma. Negação. Tudo vai ficar bem.
Certo. A negação não vai funcionar, porque há mais três jornalistas na entrada de veículos.
São vinte minutos mais tarde. Abandonei as musses de chocolate e estou olhando pela janela do saguão num horror crescente. Dois caras e uma garota apareceram do nada. Todos têm máquinas fotográficas e estão conversando com o cara de camisa pólo, que gesticula na direção da cozinha. Ocasionalmente um deles pára e tira uma foto da casa. A qualquer minuto um vai tocar a campainha.
Não posso deixar isso ir mais longe. Preciso de um novo plano. Preciso de...
Distração. É. Pelo menos posso ganhar algum tempo.
Vou à porta da frente, pegando no caminho um dos enormes chapéus de palha de Trish. Então, com cautela, saio e vou pelo caminho de cascalho até a entrada, onde os quatro jornalistas me cercam.
- Você é Samantha Sweet? - pergunta um deles, enfiando um gravador na minha cara.
- Você se arrepende de ter recusado sociedade? - pergunta outro.
- Meu nome ser Martine - digo mantendo a cabeça baixa. - Vocês vir à casa errada. Eu conhecer Samantha Sweet, e ela morra... lá. - Balanço a mão na direção da outra extremidade do povoado.
Espero a debandada, mas ninguém se mexe.
- Vocês vir ao casa errada! - digo de novo. – Por favor, sair daqui.
- Que sotaque esse deveria ser? - pergunta um carade óculos escuros.- Belga - digo depois de uma pausa.
- Belga? - Ele espia por baixo da aba do chapéu de Trish. - É ela - diz cheio de desprezo. - Ned, ela!
Venha aqui!
- Ela está ali! Ela saiu.
- É ela!
Ouço vozes do outro lado da rua - e, para meu horror absoluto, outro monte de jornalistas aparece de repente, correndo pela rua em direção ao portão, com máquinas fotográficas e gravadores.
De onde vieram?
- Srta. Sweet, Angus Watts, do Daily Express. - O cara de óculos escuros levanta seu microfone. – Tem alguma mensagem para as jovens de hoje?
- Você realmente gosta de limpar privada? – entoa outra pessoa, acionando uma máquina fotográfica na minha cara. - Que marca de limpador você usa?
- Pára com isso! - digo abalada. - Me deixem em paz! - Puxo os portões de ferro até estarem fechados, depois me viro e subo correndo pela entrada de veículos, entro na casa e vou à cozinha.
O que vou fazer?
Capto um vislumbre do meu reflexo na porta da geladeira. O rosto está vermelho e a expressão louca.
Além disso continuo usando o chapéu de palha de Trish.
Tiro-o da cabeça e jogo na mesa, no instante em que Trish entra. Está segurando um livro chamado Seu almoço elegante e uma xícara de café vazia.
- Sabe o que está acontecendo, Samantha? – pergunta ela. - Parece haver uma agitação lá fora na rua.
- É? - pergunto. - Eu ... não tinha notado.
- Parece um protesto. - Ela franze a testa. Espero que ainda não estejam aí amanhã. Esse pessoal que faz protesto é tão egoísta... - Seu olhar pousa na bancada. -Ainda não terminou as musses? Samantha, realmente! O que andou fazendo?
- Ah ... nada! - engulo em seco. - Estou preparando, Sra. Geiger. - Pego a tigela e começo a colocar a mistura de chocolate em taças.
Sinto-me num tipo de realidade paralela. Tudo vai ser revelado. É só questão de tempo. O que faço?
- Você viu esse protesto? - pergunta Trish quando Eddie entra na cozinha. -Diante do nosso portão!
Acho que devíamos mandá-los ir embora.
- Não é um protesto - diz ele abrindo a geladeira e olhando dentro. - São jornalistas.
- Jornalistas? - Trish olha para ele. - O que, diabos, jornalistas estariam fazendo aqui?
- Quem sabe tenhamos uma celebridade como nova vizinha? - sugere Eddie, colocando cerveja num copo.
Imediatamente Trish põe a mão na boca.
- Joanna Lumley! Eu ouvi um boato de que ela estava comprando casa no povoado! Samantha, você ouviu alguma coisa sobre isso?
- Eu ... é... não - murmuro com o rosto queimando.
Preciso dizer alguma coisa. Qual é! Diga alguma coisa. Mas o quê? Por onde começo?
- Samantha, preciso desta blusa passada esta noite. - Melissa entra na cozinha segurando uma blusa estampada sem mangas. - E tenha muito cuidado com a gola, certo? - acrescenta franzindo a testa com mau humor. -Na última que você passou, os vincos não estavam retos.
- Ah. Tudo bem. Desculpe - digo. - Se você puser na lavanderia ...
- E meu quarto precisa de aspirador de pó – acrescenta ela. - Derramei um pouco de pó no chão.
- Não sei se terei tempo... - começo.
- Arranje tempo - responde ela bruscamente e pega uma maçã. - O que está acontecendo lá fora?
- Ninguém sabe - diz Trish empolgada. – Mas achamos que é Joanna Lumley!
De repente a campainha toca.
Meu estômago parece se dobrar ao meio. Por um momento penso em sair correndo pela porta dos fundos.
- Será que são eles? - exclama Trish. - Eddie, vá atender. Samantha, faça um pouco de café. – Ela me olha, impaciente. - Anda!
Estou totalmente paralisada. Preciso falar. Preciso explicar. Mas minha boca não se mexe. Nada quer se mexer.
- Samantha! - Ela me espia. - Você está bem?
Com esforço gigantesco levanto os olhos.
- Ah... Sra. Geiger - Minha voz sai numa rouquidão nervosa. - Há uma coisa... eu deveria...
- Melissa! – A voz de Eddie me interrompe. Ele entra correndo na cozinha com um riso enorme espalhado no rosto. - Melissa, querida! Eles querem falar com você!
- Comigo? - Melissa levanta a cabeça, surpresa. - Como assim, tio Eddie?
É o Daily Mail. Querem entrevistar você!- Eddie se vira para Trish, luzindo de orgulho. - Sabia que Melissa tem um dos melhores cérebros jurídicos do país?
Ah, não. Ah, não.
- O quê? - Trish larga o exemplar do Seu almoço elegante.
- Foi o que disseram! - Eddie assente. – Disseram que pode ser uma surpresa para mim saber que tínhamos uma advogada tão poderosa na nossa casa. Eu falei: Bobagem! - Ele passa o braço em volta de Melissa. - Sempre soubemos que você era uma estrela!
- Sra. Geiger - digo ansiosa. Ninguém me nota.
- Deve ser o prêmio que ganhei na faculdade! Eles devem ter sabido, de algum modo! - Melissa está ofegando. - Ah, meu Deus! O Daily Mail!
- E querem tirar fotos também! - continua Eddie. - Querem uma entrevista exclusiva!
- Preciso colocar um pouco de maquiagem! - Melissa parece totalmente agitada. - Como estou?
- Aqui estamos! - Trish abre sua bolsa. - Aqui, um rímel... e batom...
Preciso parar com isso. Preciso avisar a eles.
- Sr. Geiger... - pigarreio. - Tem certeza... quero dizer, eles disseram o... nome de Melissa?
- Não precisavam! - Ele pisca para mim. – Só há uma advogada nesta casa!
- Faça café, Samantha - ordena Trish incisivamente. - E use as xícaras cor-de-rosa. Depressa! Lave-as.
- O negócio é que... eu tenho ... eu tenho uma coisa para dizer a vocês.- Agora não, Samantha! Lave as xícaras! – Trish empurra as luvas de borracha para mim. - Não sei o que há de errado com você hoje ...
- Mas acho que eles não vieram para ver Melissa - digo desesperada. - Tem algo que eu... que eu deveria ter lhe contado.
Ninguém presta atenção. Estão concentrados em Melissa.
- Como estou? - Melissa ajeita o cabelo, sem graça.
- Linda, querida! - Trish se inclina à frente. Só um pouquinho mais de batom ... faz você ficar realmente glamourosa ...
- Ela está pronta para a entrevista? - Uma voz desconhecida, de mulher, vem da porta da cozinha e todo mundo congela, empolgado.
- Aqui! - Eddie abre a porta e revela uma mulher de cabelo escuro, de meia idade, com terninho, cujos olhos imediatamente avaliam a cozinha.
- Aqui está nossa estrela jurídica! - Eddie indica Melissa com um sorriso de orgulho.
- Olá - Melissa ajeita o cabelo para trás, então dá um passo à frente e estende a mão. - Sou Melissa Hurst.
A mulher olha Melissa inexpressivamente por alguns instantes.
- Ela não - diz a mulher. – Ela. - E aponta para mim.
Num silêncio perplexo todo mundo gira para me encarar. Os olhos de Melissa se estreitaram numa suspeita profundíssima. Posso ver os Geigers trocando olhares.
- Esta é Samantha - diz Trish, perplexa. – A empregada.
- Você é Samantha Sweet, não é? – A mulher pega seu bloco de repórter. -Posso fazer algumas perguntas?
- Você quer entrevistar a empregada? – pergunta Melissa com um riso sarcástico.
A jornalista a ignora.
- Você é Samantha Sweet, não é? - insiste ela.
- Eu... sou - admito finalmente, com o rosto queimando. - Mas não quero dar entrevista. Não tenho nenhum comentário.
- Comentário? - O olhar de Trish dardeja inseguro. - Comentário sobre o quê?
- O que está acontecendo, Samantha querida? Eddie parece ansioso. - Você está com algum tipo de problema?
- Você não contou a eles? - A jornalista do Daily Mail ergue os olhos do bloco de anotações. - Eles não fazem idéia?
- Contou o quê? - pergunta Trish, agitada. - O quê?
- Ela é imigrante ilegal! - diz Melissa em triunfo. - Eu sabia! Sabia que havia alguma coisa ...
- Sua" empregada" é uma importante advogada do centro financeiro de Londres. -A mulher joga um exemplar do tablóide na mesa da cozinha. - E, para trabalhar para vocês, acaba de recusar um posto de sócia, com salário de seis dígitos.
É como se alguém tivesse jogado uma granada na cozinha. Eddie gira visivelmente. Trish cambaleia em seus tamancos altos e segura uma cadeira para se equilibrar. O rosto de Melissa parece um balão estourado.
- Eu queria dizer... - mordo os lábios sem jeito enquanto olho o rosto deles.- Eu já... ia dizer...
Os olhos de Trish se arregalam enquanto lê a manchete. Sua boca está abrindo e fechando, mas não sai nenhum som.- Você é... advogada? - gagueja ela finalmente.
- Houve um equívoco! - As bochechas de Melissa estão num rosa vivo. – Eu sou advogada. Eu é que ganhei um prêmio na faculdade de direito! Ela é faxineira.
- Ela é que ganhou três prêmios na faculdade. - A jornalista vira a cabeça para mim. – E a maior nota no ano de formatura.
- Mas... - O rosto de Melissa está assumindo um roxo profundo. - É impossível - A mais jovem sócia da Carter Spink... - A jornalista consulta suas anotações. - Está certo, Srta. Sweet?
- Não! - digo. - Quero dizer... bem ... mais ou menos. Alguém quer uma xícara de chá? – acrescento desesperada.
Ninguém está interessado em chá. Na verdade, Melissa parece a ponto de vomitar.
- Vocês tinham alguma idéia de que sua empregada doméstica possui QI de 158? - A jornalista está claramente adorando. - Ela é praticamente um gênio.
- Nós sabíamos que ela era inteligente! – diz Eddie na defensiva. - Nós percebemos! Estávamos ajudando no ... - Ele pára, parecendo idiota. - No supletivo de inglês.
- E eu realmente agradeço! - digo depressa. Verdade.
Eddie enxuga a testa com um pano de prato. Trish continua agarrando a cadeira como se fosse despencar a qualquer minuto.
- Não entendo. - Eddie subitamente larga a toalha e se vira para mim. -Como você combinou ser advogada com o trabalho doméstico?
- É! - exclama Trish, voltando à vida. - Exato. Como, afinal, você podia ser advogada do centro financeiro de Londres e ainda ter tempo para estudar com Michel de la Roux de la Blanc?
Ah, meu Deus. Eles ainda não sacaram?
- Não sou realmente empregada doméstica – digo em desespero. - Não sou realmente cozinheira cordon bleu. Michel de la Roux de la Blanc não existe. Não faço idéia de como este negócio realmente se chama. –Pego o batedor de trufas, que está na bancada. - Eu sou... uma fraude.
Não posso olhar para nenhum deles. De repente me sinto terrível.
- Entendo se vocês quiserem que eu vá embora murmuro. - Aceitei o trabalho sob alegações falsas.
- Ir embora? - Trish fica horrorizada. - Não queremos que você vá embora, queremos, Eddie?
- Absolutamente não. - Seu rosto fica ainda mais vermelho. - Você fez um ótimo trabalho, Samantha.
Não tem culpa de ser advogada.
- "Sou uma fraude" - diz a jornalista, anotando cuidadosamente no bloco. -Você se sente culpada quanto a isso, Srta. Sweet?
- Pára! - digo. - Não estou dando entrevista!
- A Sra. Sweet diz que prefere limpar privadas a ser sócia na Carter Spink -diz a jornalista, virando-se para Trish. - Posso ver as privadas em questão?
- Nossas privadas? - Manchas cor-de-rosa aparecem nas bochechas de Trish e ela me olha, incerta. Bem, nós reformamos os banheiros recentemente, são todas Royal Doultn...
- Quantos são? - A jornalista ergue o olhar do bloco.
- Pára com isso! - Seguro meu cabelo. - Olha, eu ... vou fazer uma declaração à imprensa. E em seguida quero que todos deixem a mim e meus patrões em paz.
Saio rapidamente da cozinha, com a mulher do Daily Mail atrás, e abro a porta da frente. A multidão de jornalistas continua ali, atrás do portão. Será minha imaginação ou há mais do que antes?
- É Martine - diz ironicamente o cara de óculos escuros quando me aproximo do portão.
Ignoro-o.
- Senhoras e senhores da imprensa - começo. Agradeceria se me deixassem em paz. Aqui não há matéria a ser feita.
- Você vai continuar como doméstica? - grita um gordo de jeans.
- Sim, vou. - Levanto o queixo. - Fiz uma escolha pessoal, por motivos pessoais, e sou muito feliz aqui.
- E o feminismo? - pergunta uma jovem. – As mulheres lutaram anos para conseguir direitos iguais.
Agora você está dizendo que elas devem voltar para a cozinha?
- Não estou dizendo nada às mulheres! – respondo pasma. - Só estou vivendo minha vida.
- Mas você acha que não há nada errado quanto às mulheres ficarem presas à pia da cozinha? - Uma mulher grisalha me olha irritada.
- Não! - digo cheia de alarme. - Quero dizer, sim! Eu acho ... - Minha resposta é abafada por um tiroteio de perguntas e máquinas espocando.
- A Carter Spink era um buraco do inferno machista?
- Isso é uma armação para barganhar?
- Você acha que as mulheres devem ter carreiras profissionais?
- Gostaríamos de lhe oferecer uma coluna regular sobre dicas domésticas! -diz uma loura de voz aguda, com capa impermeável azul. - Vamos chamar de "Samantha Sabe".
- O quê? - Olho-a boquiaberta. - Não tenho nenhuma dica doméstica!
- Uma receita, então? - Ela ri de orelha a orelha. - Seu prato predileto?
- Poderia posar para nós só de avental? - grita um gordo com uma piscada lasciva.
- Não! - respondo com horror. - Não tenho mais nada a dizer! Sem comentários! Vão embora!
Ignorando os gritos de "Samantha!" viro-me corro de volta com as pernas trêmulas até a casa.
O mundo enlouqueceu.
Irrompo na cozinha e encontro Trish, Eddie e Melissa hipnotizados com o jornal.
- Ah, não - digo com o coração apertando. – Não leiam. Honestamente. É só... um tablóide... idiota...
Os três levantam a cabeça e me olham como se eu fosse algum tipo de alienígena.
- Você cobra ... 500 libras por hora? - Trish parece não controlar a própria voz.
- Eles lhe ofereceram sociedade plena? – Melissa está verde. - E você disse não? Está maluca?
- Não leiam isso! - Tento pegar o jornal. - Sra. Geiger, eu só queria continuar como sempre. Ainda sou sua empregada ...
- Você é um dos maiores talentos jurídicos do país! - Trish bate no jornal histericamente. - Diz aqui!
- Samantha! - Há uma batida na porta e Nathaniel entra na cozinha segurando batatas recém-colhidas. -
Isso basta para o almoço?
Olho-o atordoada, sentindo um aperto no peito. Ele não faz idéia. Não sabe de coisa nenhuma. Ah, meu Deus.
Eu deveria ter contado. Por que não contei? Por que não contei a ele?
- O que você é? - pergunta Trish virando-se para ele feito louca. - Um cientista espacial? Um agente secreto do governo?
- O quê? - Nathaniel me lança um olhar interrogativo mas não consigo sorrir.
- Nathaniel...
Paro, incapaz de continuar. Nathaniel olha de um rosto a outro, com um franzido de incerteza se aprofundando na testa.
- O que está acontecendo? - pergunta enfim.
Nunca fiz uma confusão tão grande quanto na hora de contar a Nathaniel. Gaguejo, hesito, repito-me e ando em círculos.
Nathaniel ouve em silêncio. Está encostado na velha coluna de pedra diante do banco escondido onde me sentei. Seu rosto está de perfil, sombreado ao sol da tarde, e não sei o que ele pensa.
Por fim termino e ele ergue a cabeça lentamente. Se eu esperava um sorriso, não recebo. Nunca o vi tão chocado.
- Você é advogada - diz finalmente.
- Sou - respondo com vergonha.
- Achei que você tinha saído de um relacionamento abusivo. - Ele passa a mão pelo cabelo. – Pensei que por isso não queria falar do passado. E você me deixou acreditar. Quando foi a Londres fiquei preocupado com você. Meu Deus.
- Desculpe. - Encolho-me cheia de culpa. – Sinto muito. Eu só... não queria que você soubesse a verdade.
- Por quê? - retruca ele, e posso ouvir a mágoa em sua voz. - Por quê? Não confiava em mim?
- Não! - digo consternada. - Claro que confio em você! Se eu fosse qualquer outra coisa... - paro. -
Nathaniel, você precisa entender. Quando nós nos conhecemos, como eu poderia contar? Todo mundo sabe que você odeia advogados. Você tem até uma placa no pub: Nada de advogados!
- Aquela placa é uma piada. - Ele faz um gesto de impaciência.
- Não é. Não completamente. - Encaro-o. - Ora, Nathaniel. Se eu lhe dissesse que era uma advogada do centro financeiro quando nos encontramos, você teria me tratado do mesmo jeito?
Nathaniel não responde. Sei que é honesto demais para me dar a resposta fácil. Ele sabe tanto quanto eu que a verdadeira resposta é não.
- Eu sou a mesma pessoa. - Inclino-me adiante e seguro sua mão. - Mesmo que tenha sido advogada...
ainda sou eu!
Por um tempo Nathaniel não diz nada, só olha para o chão. Estou prendendo o fôlego, desesperada de esperança. Então ele ergue a cabeça com um meio sorriso relutante.
- Então, quanto está cobrando por esta conversa?
Solto um sopro de alívio. Ele está bem. Está bem com relação a isso.- Ah, umas mil libras - respondo descuidadamente. - Vou mandar a conta.
- Samantha Sweet, advogada corporativa. – Ele me examina por alguns instantes. - Não. Não consigo ver isso.
- Nem eu! Essa parte da minha vida acabou. Aperto suas mãos com força. -Nathaniel, sinto muito, mesmo. Nunca pretendi que isso acontecesse.
- Eu sei. - Ele aperta minha mão de volta e me sinto relaxar. Uma folha da árvore atrás de mim cai no meu colo e eu pego-a, automaticamente esfregando para liberar o perfume doce.
- Então o que acontece agora? - pergunta Nathaniel.
- Nada. O interesse da mídia vai morrer. Eles vão se entediar. - Inclino-me, pouso a cabeça em seu ombro e sinto seus braços me envolvendo. - Estou feliz no meu emprego. Estou feliz neste povoado. Estou feliz com você. Só quero que tudo permaneça igual.